Oníricas (5) - Boris Vian, O Arranca Corações

Salvador Dali, Rêve causé par le vol d'une abeille autour d'une pomme-grenade une seconde avant l'éveil (1944), óleo sobre tela, 51x41 cm, Lugano-Castagnola, Colecção Thyssen-Bornemisza.
Citröen nada disse e partiu em direcção do armazém, seguido pelos irmãos, Jaimemorto esperou uns instantes, de sobrolho franzido. Hesitou, até que voltou à casa de jantar. Virada de barriga para baixo, Clementina continuava em cima da mesa, naquele seu gesticular obsceno. O psiquiatra aspirou o ar da sala. Depois, a muito custo, afastou-se, e foi para o quarto. Estendeu-se em cima da cama e treinou-se sem convicção, a ronronar. Apesar de tudo, tinha de confessar-se incapaz de fazer a coisa como devia ser. Mas, na realidade, o gato preto que psicanalisara saberia ronronar? E logo se pôs a pensar no assunto que lhe interessava, em Clementina.
Boris Vian, O Arranca Corações, (Editorial Estampa, 1970), p.69.

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