31.12.05

Quotidiano em português (?)

Esta manhã no talho, uma cliente interroga o talhante:

- Tem "mortandela" sem azeitonas? Se tiver quero 200 gr de "mortandela".

Entretanto, outra cliente pede:

- Dê-me dois "franganinhos"!

Dia 31 de Dezembro há 107 anos

le 31 décembre [1898]

Le dernier jour de l'année. Que sera-t-elle, cette année nouvelle? (...)
Tout le monde s'est détendu, nous avons fait la veillée du Nouvel An en famille, avec bonne humeur et tranquillement. Adieu, vieille année qui m'as apporté tant de chagrin, mais aussi pas mal de joies. Un message pour ceux qui me les ont données...


Sophie Tolstoï, op.cit. p. 500.

Para todos, um Ano com macro alegrias e desgostos microscópicos

30.12.05

Variações sobre um tema

Cézanne

Ainda Ravel

A propósito de um dissoluto comentário e link:

"Mas voltemos a Ravel. Quando chegou a idade dos primeiros amores e dos primeiros versos, tinha-o ainda a meu lado, na atmosfera sonhadora e sensual do Concerto em sol, ou na trágica expressão do Concerto para a mão esquerda, para o qual eu inventava, na maior boa fé, já nem me lembro que fantásticas e heróicas patranhas, que impingia aos amigos. Tudo se casava às mil maravilhas, numa contraditória experiência íntima em que entrava a música de Ravel, a poesia e os ensinamentos de Afonso Duarte, com quem depois comecei a conviver (...)"

João José Cochofel, op.cit. p. 10.

Mais Cézanne, mais Rilke


Le Grand Pin, 1892-96 (150 Kb); óleo sobre tela, 33 1/2 x 36 1/4 in; Museu de Arte, S.Paulo, Brasil

Feuillage
1895-1900 (150 Kb); aguarela e lápis sobre papel, 44.8 x 56.8 cm (17 5/8 x 22 3/8 in); The Museum of Modern Art, New York

(...)C'est le tournant qui constitue cette oeuvre que j'ai reconnu, parce que je venais de l'atteindre dans mon travail ou qu'à tout le moins j'en approchais, préparé sans doute depuis longtemps à cet événement unique dont tant d'autres sont dépendants. C'est pourquoi, si tenté que je sois naturellement d'écrire sur Cézanne, il me faut n'envisager ce project qu'avec prudence.

op. cit, p.91.

Rilke escreveu sobre Cézanne:


Le lac d'Annecy (Lake Annecy)
1896 (190 Kb); óleo sobre tela, 64.2 x 79.1 cm (25 1/4 x 31 1/8 in); Venturi 762; Courtauld Institute Galleries, London

Paris VIe, 29 rue Casette,
Le 9 octobre 1907

... Aujourd'hui, je voulais te parler un peu de Cézanne. Pour ce qui est du travail, il prétendait avoir mené une vie de bohème jusqu'à quarente ans. Alors seulement, la rencontre de Pissarro lui aurait donné le goût du travail. Mais si fort, désormais, qu'il n'a plus fait que travailler durand les trentes années suivantes. Sans joie d'ailleurs, dans une rage perpétuelle, en guerre avec chacune de ces oeuvres dont aucune lui semblait atteindre ce qu'il tenait pour rigoureusement indispensable. (...)Ce qui emporte la conviction, la transformation en chose, l'exaltation de la realité rendue indestrutible à travers l'expérience que le peintre a de l'object, voilà où il situait la fin de son plus intime travail; (...)


Rilke, Lettres sur Cézanne, (Paris Seuil, 1995),pp. 57-58

Nota-se, nesta análise, a transferência dos pressupostos de Rilke sobre a finalidade da sua poesia para a arte de Cézanne.

29.12.05

Programme:

Retour au monde flottant

Harunobu Susuki


SUR L'AIR DE "MULAN HUA"


Anche de cuivre qui vibre
dans le creux du bambou

Main de jade caressant
la lente mélodie

Là où se croisent les regards
les ondes d'automne inondent l'espace


Nuage-pluie crève soudain
les murs brodés

Rencontre furtive
désirs accordés

Le festin passé
le vide à nouveau s'installent

Âmes fondues dans le rêve
indéfiniment se cherchent


Li Yü

Ensimesmamento

Magie
III

J'ai peine à croire que ce soit naturel et connu de tous. Je suis parfois si profondément engagé en moi-même en une boule unique et dense que, assis sur une chaise, à pas deux mèttres de la lampe posée sur ma table de travail, c'est à grand-peine et après un long temps que, les yeux cependant grands ouverts, j'arrive à lancer jusqu'à elle un regard.
Une émotion étrange me saisit à ce témoinage du cercle qui m'isole.
Il me semble qu'un obus ou la foudre même n'arriverait pas à m'attendre tant que j'ai de matelas de toutes parts appliqués sur moi.
Plus simplement, ce serait bien que la racine de l'angoisse est pour quelque temps enfouie.
J'ai dans ces moments l'immobilité d'un caveau.


Henri Michaux, "Entre Centre et Absence", in Plume Précédé de Lointain Intérieur, (Paris, Gallimard, 1963), p.11.

28.12.05

Entre o sonho e a realidade

Esta madrugada a cama acordou com convulsões. Um sonho hiper-realista? Afinal era um sismo.

Mais tarde, pensei: se fosse um terramoto a sério, com objectos a cair, qual teria sido a minha reacção? Manteria a mesma displicência? Na verdade, uma pessoa está habituada a caminhar sobre um solo estável e espera que os objectos se mantenham sossegados no seu lugar.

Destaque

Recomenda-se a leitura do nº 1 -
"Loucura e Desrazão" - da revista Conceito. Uma Revista de Filosofia e Ciências do Homem.

68 Anos Depois



Maurice Ravel (07/03/1895 - 28/12/1937).


"Imagina-se mal o calvário que ele suportou quando o seu espírito ainda lúcido percebia o desacordo entre os seus gestos e o cérebro. Não mais podia escrever, e nós demo-nos conta disso quando, depois de um concerto, um estudante lhe passou a sua caneta para que assinasse um programa. O seu olhar desvairado ia de nós para o lápis estendido... como um punhal!"

Hélène Jourdan-Morhange, "Saudades de Maurice Ravel", Arte Musical,1, (3), (1958), p.8.


"E um dia, a notícia terrível. Morrera Ravel. Não sei como o soube, mas sei que esse dia foi um dia de negrume, um dos meus primeiros dias de negrume (...)"

João José Cochofel, "Recordação de Ravel", Arte Musical,1, (3), (1958), p.9.

Lettres de ma Cuisine nº 8 - Bûche au café



Ma Chère Marie,

E, por último uma sobremesa:

Bûche au café


Comece por bater 4 claras em castelo, quando estiverem firmes juntar 1 chávena de chá de açúcar, continuar a bater. Diminua a velocidade da batedeira e adicione, gradualmente, as gemas, com cuidado. Junte raspa de limão ou essência de baunilha (pouquíssima!!!) e uma chávena de farinha. Leve ao forno em tabuleiro untado com manteiga e polvilhado com farinha.

Desenforme e recheie com doce de alperce ou de framboesa e enrole. Acerte as pontas e com essas partes do bolo faça os nós do tronco.

Cobertura:

Bata 1,5 dl de natas com um pouco de sumo de limão, acrescente açúcar a gosto. Continue a bater até ficarem bem espessas. Reserve um pouco deste chantilly.. Acrescente chocolate em pó dissolvido em licor de café e misture delicadamente. Forre a torta e com um garfo imite os veios da madeira. Use o chantilly para imitar neve e decore com folhas de azevinho, de hera, ou outros motivos ao gosto do artista, elaboradas com massapão, pastilhagem, fruta cristalizada, ou mesmo a folhagem naural.

Un Prétendu Gourmand Cosmopolite

27.12.05

Lettres de ma cuisine nº 7 - Velouté de morue

Coza 1,5 kg de bacalhau, durante cerca de 10 minutos, em 2 l de água temperada com 1 ramo salsa, outro de tomilho fresco, 2 dentes de alho descascados, uma folha de louro. Escoe e reserve o peixe.
Entretanto, submeta 600 gr de batatas, descascadas e cortadas em cubos, ao mesmo processo.
Aproveite o tempo da cozedura das batatas para retirar as peles e as espinhas às postas do bacalhau, que deverão ser transformadas em lascas. Separe 600 gr das ditas cujas lascas. Reduza as batatas, e o restante bacalhau a puré
Bata 1,5 dl de natas com sumo de limão, até ficarem bem firmes e incorpore-as com cuidado no puré. Rectifique os temperos e conserve quente.
Disponha as lascas de bacalhau no réchaud, ou distribua-as pelos pratos individuais, e cubra com o aveludado, tempere com um fio de azeite e pimenta moída no momento. Decore com cebolinho fresco picado.

Notas:

O bacalhau foi adquirido em Stavanger, para grande desgosto da tradutrice, pois prefere o arenque, e detesta tudo quanto seja natural da, ou produzido na Noruega.

Se sobrar para o dia seguinte, fica muito bem polvilhado com queijo ralado e gratinado no forno.

A receita do Fricassée grego foi copiada do Savarin :)
Un Prétendu Gourmand Cosmopolite

Lettres de ma Cuisine nº 6 - Rôti de porc blasé aux pommes

Ma Chère Maria

Voilà les recettes traduites.

Enfin je commence!

Começo pelo porco, cuja designação é mesmo “blasé”, não foi gralha.

Rôti de porc blasé

Comprar um lombo de suíno quando na verdade se pretendia cozinhar uma suculenta perna de borrego.
No caso do porco não figurar no elenco das carnes preferidas temperá-lo, com bastante antecedência, com uma pasta preparada com alhos picados, paprika, gengibre fresco picado, vinagre balsâmico, azeite, sumo de laranja, pimenta, 1 colher de sopa de polpa de tomate. Barrar a carne com a mistura, dispor raminhos de manjerona fresca sobre o lombo, tapar e deixar repousar em local fresco até à noite seguinte. Nessa altura, assar em forno quente. Não deixar secar o molho, para isso elaborar uma mistela com vinho, paprika, sumo de citrinos e pimenta, para ir colocando sobre a carne e no tabuleiro. Quando já estiver dourado, cobrir com folha de alumínio até ficar bem cozido. No final retire a folha para dourar um pouco mais.

Acompanhar com:

Maçãs Assadas

Fazer uma cavidade nas maçãs, cortar um pouco das bases, acomodá-las num tabuleiro untado com manteiga, pôr uma noz da mesma gordura em cada uma das cavidades e uma colher de café de açúcar mascavado. Juntar vinho e sumo de limão no fundo do tabuleiro e assar.

E Puré de castanhas:

Lave 1,5 kg de castanhas, faça incisões na parte mais polpuda das ditas, ferva água salgada e mergulhe aí as castanhas durante 5 minutos,depois é descascá-las e levá-las a cozer numa caçarola com 75 cl de leite em lume brando 45 minutos, reduzi-las a puré, incorporar 50 gr de manteiga e 1dl de natas natas, até obter um puré homogéneo, junte leite para ficar com a consistência desejada. Por fim tempere com noz moscada e pimenta moída na altura.

Nota: Terá o trabalho minimizado se usar castanhas, já descascadas, congeladas.
Un Préntendu Gourmand Cosmopolite

Lettres de ma Cuisine nº 5 - Noël pas à la Carte

Uppsala, le 24 décembre

Ma Chère Maria

En fait je m'en fou complètement de l'IKEA et de tous les menus de Noël suédois. J'ai composé mois-même mon menu de Noël. Le voici, le voilà:

Velouté de morue
Fricassée de boeuf aux petits oignons et au vin rouge (moshari stifatho)
Purée de marrons
Rôti de porc blasé aux pommes
Bûche au café

Alors, je vous donnerais toutes ces recettes lorsque ma tradutrice suédoise finira leur traduction.

Meilleurs Souhaits de Joyeux Noël et Bonne et Heureuse Année!

Un Prétendu Gourmand Cosmopolite

Descobertas Felizes

Este ano, foi com muito agrado e prazer que encontrei três ilhas paradisíacas no universo virtual: o dissolutismo absoluto de Ópera e Demais Interesses, , o mundo fascinante de Legendas & Etcaetera e o saber admirável de desNorte.

26.12.05

O Dia Seguinte

O que se faz? Primeiro há que digerir as iguarias da festa, a seguir comem-se os doces que sobraram, enquanto se lê, com displicência, o diário de Sofia Tolstoi - mais conhecida como a esposa do famoso escritor russo - comprado num alfarrabista de rua, no Chiado, a 26 de Novembro deste ano. Aguarda-se uma Lettre de ma Cuisine. À varanda, escuta-se a chuva à luz dos incontáveis tons de cinzento do céu. Vive-se em pleno spleen natalício.

26 décembre [1897]

Ce matin, nous avons pris congé de Tania et Sacha qui partent pour Nikolsköé. Sérioja est déjà parti hier soir. Ils se sont dépêchés d'emballer leurs caisses. J'ai envoyé des cadeaux pour l'arbre de Noël de mes petits-enfants, des cadeaux et et des fruits pour Dora, une caisse d'argenterie et une pelisse pour Macha. Tout cela confié à Tania, à qui j'ai remis pour le voyage un courbillon avex des fruits et un repas. Nous sommes restés à deux, L.N.(*) et moi ´'est calme et bon. Il va beaucoup mieux: ce matin 36,9, ce soir 37,5. Il m'a demandé du potage et une pomme au four; il est plus alerte et plus gai.
J'ai passé toute la journée au piano. En dépit de ma mauvaise exécution, cet entretien sans paroles avec tantôt Beethoven, tantôt Mendelssohn, tantôt Rubinstein, etc., me procure un plaisir immense. J'ai été interrompue, d'abord par Mitia Olsoufiev, avec qui j'ai causé franchement, simplement et amicalment, puis par ma raisonnable, vive et belle cousine, Olga Sévertzev, et par Mme Mouromtzev, intelligente, douée et pleine de tempérament. Elle a beaucoup de défauts, mais elle me diverti toujours. J'ai reçu quatre invitations, pour moi et les enfants: chez Mme Mouromtzev,`où il y aura Me Koni et des musiciens. Elle m'a dit qu'elle invitait S.T.Mais je sais qu'il "fait retraite" à l'ermitage de Gethsémané pour travailler.

Anna Lévitzki est venu dans la soirée; ensuite j'ai développé et abîmé le groupe que j'avais photographié hier dans le jardin. Demain concert symphonique, je m'en réjouis.



Sophie Tolstoï, Journal Intime, 1862-1900, (Paris, Albin Michel, 1980), p.385
(*)Léon Tolstoi

20.12.05

Um Símbolo de Felicidade





Viscum Album L.



Para todos os meus leitores, os meus votos de uma temporada natalícia plena de boa disposição.

17.12.05

Epílogo

A sintonia entre XX e XY atingira um tal grau de intensidade que os levou a deixar de estabelecer qualquer tipo de contacto material: adiaram os encontros sine die, os telemóveis sofriam avarias súbitas, o destino dos e-mails era declarado "bad host". Nada disto é importante, nem tão pouco perturbador, um e o outro são duas representações do mesmo.

Erik Satie


Ler e ver mais aqui

Le musicien est peut-être le plus modeste des animaux, mais il en est le plus fier. C'est lui qui inventa l'art sublime d'abîmer la poésie.


Pauvres musiciens! Tout n'est pas rose, pour eux, sur cette Terre - véritable Vallée de Larmes, malgré sa rotondité rotatoire.


Un vrai musicien doit être soumis à son Art; ... il doit se placer au-dessus des misères humaines; ... il doit puiser son courage en lui-même, ... rien qu'en lui-même.

Satie, Écrits.

Lettres de ma Cuisine nº 4

Ma Chère Maria,

... Cliquez ici ! ... Voilà ... beaucoup de recettes suédoises. Pardonnez-mois car je ne veux pas les traduire, je suis trop pareceux ...

Un Prétendu Gourmand Cosmopolite

16.12.05

Chronos e Tempus

Segundo o físico Erwin Schrödinger mais do que um objecto de conceptualização, o tempo é um fenómeno sobre o qual se medita. Para experimentar o intemporal, bastaria uma circunstância que, sem suspender o tempo, nos levasse a aderir ao presente, fazendo-o fulgurar, levando a sua densidade ao absoluto, uma situação que nos conduzisse ao centro imóvel do tempo.

15.12.05

Lettres de ma Cuisine nº 3

Ma Chère Maria,

Antes de lhe enviar as prometidas receitas da gélida Escandinávia, quero falar um pouco sobre um dos meus ídolos. Refiro-me a Apicius, mais precisamente ao Marcus Gavius. Este ilustre gourmand, grande gastrónomo romano, foi citado por sumidades como, Tácito, Plínio, e Séneca. Autor do livro mais antigo, de que há exemplares e sob vários títulos: Ars Magirica, Apicius Culinaris, De Re Coquinarie. Apicius timha por hábito e paixão organizar sumptuosos banquetes, traço de personalidade que o levou ao descalabro financeiro, ou dito de outro modo à delapidação da sua fortuna. Suicidou-se por envenenamento no dia em que ofereceu o seu derradeiro banquete, "colação" subsidiada com o dinheiro que lhe restava. Imolou-se à Arte da Mesa que já não podia manter em todo o seu esplendor.
Foi o fundador da Escola Patrícia de Cozinha em Roma, onde os cozinheiros, escravos muito bem pagos, ensinavam o seu saber às damas romanas.
Un Prétendu Gourmand Cosmopolite

14.12.05

Frio

O frio desperta o sadomasoquismo latente, uma mistura de emoções opostas. Quer isto dizer que a luz do frio ofusca todas as outras, apesar do gelo no sangue.

Há quem mude de vida, e quem mude de letras.

13.12.05

Lettres de ma Cuisine nº 2


Mais

Aqui



Ma Chère Maria,

Vai fazer nove anos, passei a quadra festiva em Uppsala, vai daí lembrei-me de sugerir uma ceia tradicional sueca. Por isso, dentro de dois dias irei enviar-lhe um exemplo de smörgasbord, uma hipótese de bufette natalício, útil, principalmente, para quem for fazer compras no IKEA, pois pode aproveitar e abastecer-se na charcutaria sueca. Não imagina a choruda comissão que receberemos, à conta deste post.

Un Prétendu Gourmand Cosmopolite

11.12.05

Lettres de ma Cuisine nº 1 - Lussekatter


Ma Chère Maria,

As minhas sugestões para o Natal serão todas elas de inspiração nórdica. E, começarei por preparar os festejos do dia de Santa Luzia.
A 13 de Dezembro celebra-se o dia de Santa Luzia, com especial entusiasmo, na Noruega e na Suécia. Um dos elementos fundamentais da celebração são os bolinhos de açafrão designados por lussekatt, os gatos de Luzia. As formas destes bolos são variadas, mas são sempre baseadas nas arcaicas formas de pães moldadas nas tradições cristãs sueca e norueguesa.


Aqui deixo uma versão dos bolos de Santa Luzia, pois há várias, embora muito semelhantes.

Para os preparar há que arranjar os seguintes ingredientes:

300 ml leite
1 g açafrão
2 colheres de chá de cardamomo moído(facultativo)
50 g fermento de padeiro fresco (a encomendar, com antecedência, na padaria)
150 g açúcar
125 g manteiga
700 g farinha
2 ovos
sal, corintos


Aqueça a manteiga e junte o leite e o açafrão, até a mistura ficar a 37º C. A temperatura correcta é muito importante!
Junte a mistura ao fermento, adicione os restantes ingredientes (excepto um dos ovos e os corintos) que devem estar à temperatura de 21-23ºC. Misture bem e amasse até obter uma massa homógenea e macia.
Tape a massa com um pano e deixe levedar durante 30 minutos.
Amasse, divida a massa em 25-30 pedaços e forme, com cada um dos bocados, um bolo redondo Deixe os bolos repousar alguns minutos, cobertos com o pano.
Forme com cada bolo uma tira de 15-20 cm de comprimento, e dê-lhe a forma de S ou duplo S. Os bordos das tiras devem juntar-se. Decore com os corintos.
Cubra os "gatos da Luzia" com um pano,e deixe levedar 40 minutos.
Bata o ovo com uma pitada de sal e pincele os bolos com a mistura.
Asse durante 5-10 minutos no forno a 250º C até adquirirem uma bonita cor amarelo dourado.


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Outras receitas:

1.

Ingredients :


3dl de lait
50 gr de levure de boulanger
800 gr de farine
200 gr de beurre
250 gr de sucre en poudre
1 pincée de sel
2 gr de safran en poudre battu
2 oeufs

Faire fondre le beurre dans un casserole puis ajouter le lait et laiser refroidir.
On aura d'autre part délayé la levure et le safran dans un fond de lait. Incorporer au lait tiédi, puis ajouter les éléments suivants : le sucre, le sel, la levure, la moitié de la farine, les oeufs, et enfin le reste de la farine.
Travailler la pâte directement sur la plan de travail pour lui donner de la consistance, puis laisser reposer dans un endroit tiède. Quand la pâte a doublé de volume, la rompre.
Former des bandes de pâte que l'on roule suivant la forme de brioche désirée.
Dorer à l'oeuf battu, rajouter des raisins secs, ou amandes et faire cuire à 225 degrés pendant 6-8 mn.


2.

Ingredients

Pour 40 petits, 4 longs à tresser ou 2 ronds

Pâte :
150 gr de beurre
1/2 l de lait
1 gr de safran (dosettes)
50 gr de levure fraîche (chez le boulanger)
½ cuillère de sel
180 gr de sucre
900 gr de farine
100 gr raisins secs

Descriptif


Faire fondre le beurre dans une casserole. Verser le lait dedans jusqu’à obtenir un liquide d’environ 37°C (température du corps, « fingervarm »)
Mélanger dans un bol le safran avec un peu de lait pour diluer, ensuite le reste du lait.
Emietter la levure, et diluer dans du lait.
Mélanger le sel, le sucre et presque toute la farine avec le liquide, jusqu’à obtenir une pâte qui « lâche » le récipient, rajouter au besoin un peu de farine en travaillant.
Faire lever au chaud pendant 30 minutes.
Travailler jusqu’à ce que la pâte soit bien souple.

Petites brioches :
Partager en 40 morceaux (rouler en bougies) et former en S

Grosse ronde :
Former la grosse boule en collant plein de petites boules ensemble (pour pouvoir prendre une part sans couper)

Longues :

Faire des rectangles, mettre la garniture, et rouler pour fermer (gâteau roulé). Couper des entailles.

Mettre sur la plaque sur du papier de cuisson, et laisser encore lever 30 min sous du plastique alimentaire. Passer de l’œuf battu avec un pinceau.

Cuissons :
Petits : 225/250°C pendant 8 à 10 minutes au milieu du four.
Longs et ronds : 200/225°C pendant environ 20 min en bas du four.
Laisser refroidir sur une grille sous un torchon.
BON APPETIT !

Nos conseils : Pour glacer : 1 œuf (au pinceau) du « gros » sucre (perle-sukker) ou des amandes effilés.

Garniture (à fourrer) pour les pains longs tressés :
1 œuf battu, mélange de sucre et poudre d’amandes jusqu’à une consistance de purée.


Par Un Prétendu Gourmand Cosmopolite

Ripple



I feel like a ripple that chases the routs of the wind.*



I feel like a ripple that chases the routs of the wind.**



I feel like a ripple that chases the routs of the wind.***




I feel like a ripple that chases the routs of the wind. ****

10.12.05

Listening

You ask my thoughts
through the long night?

(...)

Izumi Shikibu

Um excerto da Arte Musical 1, III Série, (1958)

Ravel no Porto

"Audição de composições de Maurice Ravel para a qual foram contratados este insigne compositor francês e os notáveis artistas Madeleine Grey (cantora) e Claude Levy (violinista)." Eis o que se podia ler na capa do programa do recital desse Sábado, 24 de Novembro de 1928, organizado pelo Orpheon Portuense. Esta passagem entre nós do grande compositor, como já Ravel era considerado, foi motivo de forte emoção para todos os que aspiravam acompanhar o movimento da música contemporânea; por certo maior que a sentida hoje quando podemos ver Honegger, Hindemith, Stravinsky, ou Germaine Tailleferre.
Contratado para Portugal por Luís Costa, que nessa altura dirigia o Orpheon, Ravel apresentou, no Porto, uma série de obras ainda desconhecidas do nosso público e hoje justamente célebres. Assim ouviu-se pela primeira vez o Prelúdio e o Minuete do "Tombeau de Couperin", na interpretação de Ravel; uma série de canções que incluía uma ária de "L'Heure Espagnole" e outra de "L'Enfant et les sortilèges, cantadas por Madeleine Grey acompanhada pelo autor (...).


Op. cit. p. 11

Achados

Num alfarrabista, em Coimbra encontrei o número 1, da III série da revista Arte Musical, publicado em Março de 1958. A revista fora fundada por Luís de Freitas Branco em 1931, foi editada até 1948, tendo a sua publicação sido suspensa. Foi reeditada em 1958, sob a direcção de João de Freitas Branco,já depois do falecimento de Luís de Freitas Branco. A seguir ao editorial, dez páginas da revista são dedicadas a Ravel.
Outra feliz descoberta foi uma separata do Vol.IV (1945)da revista A Criança Portuguesa, com o artigo de Maria Irene Leite da Costa, "Complexos Infantis". Maria Irene Leite da Costa foi professora do Instituto e formou-se em Psicologia e Pedagogia no Instituto das Ciências da Educação da universidade de Genève. No seu artigo descreve alguns casos clínicos, recorrendo a noções básicas da psicanálise, para explicar a etiologia das perturbações das crianças observadas, nomeadamente ao complexo de Édipo e ao complexo de castração. No entanto, a interpretação psicanalítica da autora fundamenta-se, apenas, na obra de Baudouin, L'Âme Infantine et la Psychanalyse, Neuchatel, 1931, seguindo a classificação utilizada por este autor. Aliás é a única obra que cita.
Foi interessante descobrir este texto, porque em Portugal, até 1950, e de acordo com Pedro Luzes,no livro Cem Anos de Psicanálise (1), há textos de índole psicanalítica, mas não Psicanálise propriamente dita. Na referida colectânea de textos psicanalíticos portugueses, Pedro Luzes seleccionou para o ano de 1945 o excerto "Os Fundamentos da Psicanálise" do livro Psicanálise de Seabra-Dinis, publicado pelas Edições Cosmos.

(1)Pedro Luzes, Cem Anos de Psicanálise, (Lisboa, ISPA Edições, 2002)

9.12.05

Lettres de ma Cuisine nº 0

Ma chère Maria,

J'ai à répondre à votre charmante e-mail. Je passerai donc rapidement sur les remerciements que je vous dois pour les souhaits de bonne santé que vous me faites et sur l'érudition que vous voulez bien me prêter, pour arriver au point qui me touche le plus, c'est-à-dire la cuisine. Je vous veux parler de la question culinaire.
Je suis devenu cuisiner par necessité, tout simplement parce que chez mes amis l'ont mange médiocrement, mal, où on ne mange pas du tout.
J'ai remarqué dans votre e-mail que celui de mes mérites dont vous paraissez le moins convaincu est mon talent pour la cuisine. Ce doute a changé en irritation tout cet agréable chatouillement qu'avait produit sur mon système nerveux vos autres éloges. Et bien, je dois écrire dans la langue portugaise.
Não julgue - apesar da grande admiração que lhe inspira, Savarin - que essa ilustre figura descobriu mais e melhores pitéus do que eu, quero deixar isto bem claro. Mas vamos ao que interessa.
Ontem, sentado na minha cozinha, a beber um capuccino, a meditar sobre a sua mensagem, recordei-me do agradável almoço com a Helena, na cafetaria da Fundação Calouste Gulbenkian, quando ela me fez a proposta de colaborar no seu Digitalis.Calouste Gulbenkian, tal como Charles Aznavour nasceram na Arménia.
E, já agora, em troca do poema que me enviou, lembro esta estrofe dos Lusíadas:
13

Gregos, Traces, Arménios, Georgianos,
Bradando-vos estão que o povo bruto
Lhe obriga os caros filhos aos profanos
Preceptos do Alcorão (duro tributo!)
Em castigar os feitos inumanos
Vos gloriai de peito forte e astuto,
E não queirais louvores arrogantes
De serdes contra os vossos muito possantes.


Camões, Lusíadas, Canto VII

Não podia adivinhar Camões, que um arménio viria a subsidiar a cultura em Portugal.
Se a Maria estiver de acordo, começo a minha coluna com uma receita de borrego de inspiração arménia, em que reuni duas versões do estufado de borrego à maneira arménia.

TASS KEBAB

COM ARROZ PILAF COM PISTÁCIO

1KG DE PERNA DE BORREGO CORTADA AOS CUBOS DE UNS 3 CM DE LADO
1 TOMATE PELADO OU DUAS COLHERES DE SOPA DE POLPA DE TOMATE
2 COLHERES DE SOPA DE ÓLEO DE MILHO OU DE AZEITE
1 COLHER DE SOPA DE MANTEIGA
1 COLHER DE CHÁ DE PIMENTA BRANCA
1 COPO PEQUENO DE VINHO BRANCO SECO
1/2 L DE CALDO DE CARNE
1 FOLHA DE LOURO
1/2 COLHER DE CHÁ DE TOMILHO
1 COLHER DE CHÁ DE COMINHOS MOÍDOS
1/3 DE COLHER DE CHÁ DE CANELA MOÍDA
1/3 DE COLHER DE CHÁ DE NOZ MOSCADA MOÍDA
2 DENTE DE ALHO PICADO
2 CEBOLAS MÉDIAS CORTADAS ÀS RODELAS FINAS
SAL
1 COLHER DE SOPA DE FARINHA DE TRIGO.

Tempere a carne e deixe marinar, num local fresco, durante duas a três horas. Aqueça a gordura e salteie a carne. Após ter dourado a carne, proceda do mesmo modo com as cebolas, aloure-as, em lume brando, durante cinco minutos. Polvilhe com a farinha de trigo e deixe em lume brando por mais três minutos. Acresente o tomate E CONSERVE MAIS UM OU DOIS MINUTOS NO LUME, MEXENDO DE VEZ EM QUANDO. FORA DO LUME JUNTAR O VINHO E O CALDO DE CARNE, AOS POUCOS, CUIDADOSAMENTE, PARA NÃO FORMAR GRUMOS.Quando estiver homogéneo LEVE AO LUME ATÉ LEVANTAR FERVURA. Adicione os pedaços de carne. Tape e cozinhe em lume brando durante uma hora. Mexa de vez em quando, e se, necessário acrescente mais caldo de carne.

UM PILAF

2 CHÁVENAS DE ARROZ
2 COLERES DE SOPA DE ÓLEO
1 CEBOLA PEQUENA PICADA
4 CHÁVENAS DE CALDO DE GALINHA
SAL
PIMENTA
172 CHÁVENA DE CORINTOS OU TÂMARAS PICADAS
5 COLHERES DE SOPA DE PISTÁCIOS DESCASCADOS E PICADOS

Lave o arroz e escorra-o bem.
Aqueça o óleo e doure a cebola. Junte o arroz, refogue-o e acrescente o caldo de galinha. Tempere com sal e pimenta. Tape e cozinhe em lume brando até secar o caldo. Junte as passas lavadas e escorridas e os pistácios.Misture com dois garfos, cuidadosamente.

Un Prétendu Gourmand Cosmopolite

8.12.05

Passado, Presente e Futuro

Há longos anos, alguém me dizia de modo depreciativo, que eu vivia apenas no presente, como se não tivesse passado e sem pensar no futuro. Na verdade, o passado só me interessa na medida em que condiciona - de algum modo - o presente, quanto ao futuro, como diria un Prétendu Gourmand Cosmopolite, a rigor, a rigor o futuro é a morte.

7.12.05

Lettres de ma Cuisine nº - 1

À semelhança de muitos autores de blogs/blogues, por esse mundo fora, Savarin decretou a sua total indisponibilidade para continuar as suas Confidências e Desabafos. A pretexto de múltiplas e morosas ocupações despediu-se do Blogger. A rigor, a rigor, o adeus de Savarin tem por causa uma estonteante islandesa, em férias nas Maldivas, que o converteu a uma dieta de batidos e de sumos. Por este motivo, deixou a Maria sem cozinheiro e o Digitalis sem articulista de gastronomia. Entretanto, ma chère Helena lembrou-se de apresentar, este devoto amigo, à Maria para desempenhar as funções do anterior gourmet. Aceitei a incumbência com a condição de manter o anonimato e de a minha verdadeira identidade permanecer oculta no mais rigoroso dos sigilos. Selado o acordo, ponderei na designação a dar às minhas crónicas. Ao olhar para uma estante, reparo num título de Alexandres Dumas, Lettres sur la Cuisine à un Prétendu Gourmand Napolitain, logo me assomou à mente uma associação com as Lettres de mon Moulin, de Alphonse Daudet. Assim, iluminado decidi cruzar as duas referências et voilà: "Lettres de ma Cuisine", par un prétendu gourmand cosmopolite E aqui me encontro, na posse da senha, pronto para peorar sobre cozinha, pois para isso fui convocado. Prometo que vou ofuscar o Savarin com saborosas postas.

Sempre vosso,

Un Prétendu Gourmand Cosmopolite

6.12.05

Brevemente ...

"Lettres de Ma Cuisine", par un Prétendu Gourmand Cosmopolite.

5.12.05

Savarin Retira-se para Parte Incerta

Ao som de Estampes, Savarin despede-se e passa o testemunho a um novo amante das artes da gulodice, de quem se dará notícia quando o cronista de serviço despertar da letargia.

1.12.05

Acer rubrum



Aqui.

Associações

De madrugada, na camioneta a caminho de Coimbra, observo o céu a clarear, penso em doces conventuais:
Adoro toucinho com céu. Abomino toucinho só.

21.11.05

Confidências e Desabafos de Savarin (126)

Um Bêbedo Bolo Brasileiro para o Natal. A confeccionar com dez dias de antecedência. Adoro estes bolos que se fazem esperar.

Bolo de São Simão (Pequena cidade do oeste do estado de S.Paulo)

Ingredientes

2 chávena de chá de corintos e sultanas
1/4 de chávena de chá de cerejas em Marasquino cortadas ao meio
1 chávena de chá de whisky
2 chávenas de nozes picadas
3 chávenas e 1/2 de farinha
1 1/2 colher de chá de fermento em pó
1 colher de chá de noz-moscada
1 e 1/2 chávena de chá de manteiga amolecida à temperatura ambiente
1 colher de chá de essência de baunilha
2 chávenas de chá de açúcar
7 ovos à temperatura ambiente
pão ralado q.b.
1 guardanapo de algodão ou linho

Preparação

Colocar as passas de uva de molho na chávena de whisky durante 2 horas.
Peneirar a farinha para uma tigela com o fermento e a noz-moscada.
Bater a manteiga, a baunilha, e o açúcar até formar um creme esbranquiçado. Sempre batendo adicionar os ovos inteiros, um a um. Adicionar, gradualmente a farinha, sem parar de mexer. Escorrer as passas e as cerejas. Polvilhá-las com farinha. Misturar as frutas com a massa.
Vazar a massa numa forma alta, de buraco com 23 cm de diâmetro, untada com manteiga e polvilhada com pão ralado. Assar em forno pré-aquecido, moderado, durante cerca de 1 hora e trinta minutos. Desenformar e humedecer o guardanapo com whisky reservado. Embrulhar o bolo tendo o cuidado de preencher o centro com as pontas do guardanapo. Cobrir com folha de alumínio e deixar no frigorífico durante dez dias antes de servir.


Adaptado da revista Cozinha de Ouro, Ano 2, nº 14, 1998, p.45.

Também fica muito saboroso se uma das chávenas de passas de uva for substituída por casca de laranja cristalizada picada. Para quem, como eu, aprecia a casca de laranja cristalizada sabe ainda melhor.

Impressões Dispersas sobre um Colóquio (4)

No debate após a apresentação da sua conferência, "A Revolução Einsteiniana da Relatividade", Paulo Crawford afirmou - a propósito da eventualidade de viagens no tempo - que a possibilidade de viagens ao futuro levantava menos problemas teóricos e técnicos do que as viagens ao passado. No caso das viagens ao passado terá que se verificar a existência dos taquiões. Quanto às viagens ao futuro, se considerarmos o célebre exemplo dos gémeos de Einstein, deduzimos que o gémeo que viajaria pelo espaço, à velocidade da luz quando retornasse seria mais novo do que aquele que teria permanecido na terra, daí podemos concluir que conheceria um futuro ao qual não acederia de outro modo.

20.11.05

Popper estava errado

Popper insists that Freud's theories cannot be falsified and therefore are not scientific, whereas Eysenck claims that Freudian theories can be falsified and therefore are scientific. Grünbaum takes Eysenck's argument one step further to claim that Freud's theories are scientific but have been proven wrong and are simply bad science. I believe that psychoanalysis is a scientific theory due to the fact that it is falsifiable and has, in fact, been proven false. Other methods of treatment, such as cognitive and behavioral therapy, have been proven effective in many instances, and this illustrates that psychoanalysis is not the only option for the treatment of neuroses and mental illnesses.

Although I agree that the criticisms mentioned by the author are noteworthy, I believe that the many criticisms of Freud's evidence and technique must not be overlooked in the evaluation of his theory. First, many critics of Freud's evidence contend that Freud's theory lacks empirical data and relies too much on therapeutic achievements, whereas others maintain that even Freud's clinical data are flawed and inaccurate. Second, Freud's use of free association and dream interpretation in treatment have been heavily criticized by many reviewers. In my opinion, these two criticisms are very important.
(...)
After all, Freud and his theories have been criticized on almost every level, yet I think the controversiality of his theory is perhaps its greatest strength. As a direct result of Freud's theory, additional psychological theories and hypotheses have been developed that otherwise may have been missed. This, in my opinion, is by far the greatest achievement of Freud and his theory.



Um artigo sobre a crítica de Popper a Freud:

Don C. Grant, Edwin Harari, "Psychoanalysis, science and the seductive theory of Karl Popper"


Objective: To present a critique of the ideas of Karl Popper, the philosopher of science, whose depiction of psychoanalysis as a pseudoscience is often used to justify attacks on psychoanalysis.

Method: Published sources are used to provide a brief intellectual biography of Popper, a summary of his concept of science and a summary of criticisms of Popper's view of science. His depiction of psychoanalysis and Freud's reply are presented. Clinical, experimental and neurobiological research which refutes Popper's view is summarized.

Results: There is a vast scholarly published work critical of Popper's falsifiability criterion of science. Less recognized is Popper's misunderstanding and misrepresentation of psychoanalysis; his argument against it is logically flawed and empirically false. Even if Popper's theory of science is accepted, there is considerable clinical, experimental and neurobiological research in psychoanalysis which meets Popper's criterion of science.

Conclusion: Attacks on psychoanalysis based on Popper's theory of science are ill-founded and reflect inadequate scholarship.
Australian and New Zealand Journal of Psychiatry 2005; 39:446–452

MICHEL FOUCAULT: Lei, Segurança e Disciplina

19.11.05

Impressões Dispersas sobre um Colóquio (3)

Numa das pausas para café, José Câmara Leme defendeu que o facto de eu viver na provìncia me proporcionaria o tempo necessário para reflectir com maior profundidade, enquanto quem vive em Lisboa poderia aceder a um maior número de acontecimentos, mas tudo teria um efeito mais epidérmico.

Textos sobre Walter Benjamin

Este não é o texto, nem do autor, da comunicação que ouvi, mas trata-se de uma abordagem muito interessante de Alvaro Bianchi. E, já agora, Modernidade e alegoria em Walter Benjamin, de Maria João Cantinho.

Confidências e Desabafos de Savarin (125)

Moshari Stifatho - Estufado de Vaca com Cebolinhas e Vinho Tinto

Neste Domingo de chuva e vendaval apetece saborear esta aromática carne estufada, de origem grega. De preferência, enquanto se escuta o "Zehetmair Quartett" a tocar "Streichquartette" Nr. 1 e 3 de Robert Schumann - ECM 2003

Ingredientes



1 kg de vaca cortada em cubos
8 cl de azeite
3 dentes de alho picados
1 colher de chá de cominhos moídos
5 cm de pau de canela
1 copo de vinho tinto (17 cl)
3 cl de vinagre de vinho tinto
700 gr de cebolinhas
1 raminho de alecrim
2 folhas de louro partidas
2 colheres de café de polpa de tomate
700gr de cebolinhas descascadas, mas inteiras
1 colher de sopa de açúcar mascavado
sal e pimentapreta moída q.b.

Preparação

Aquecer o azeite numa frigideira grande de fundo espesso, e saltear os cubos de carne. Incorporar os alhos e os cominhos. Juntar o pau de canela. Deixar cozinhar durante alguns segundos, adicionar, gradualmente, o vinagre e o vinho tinto. Aguardar que o líquido ferva e evapore ( 3-4 minutos).
Juntar o alecrim, o louro e a polpa de tomate diluída num litro de água quente. Misturar bem, temperar com sal e pimenta, tapar e deixar estufar em lume baixo, durante 1 hora e 30 minutos.
Acrescentar as cebolinhas e mexer a frigideira para as repartir equitativamente. Polvilhar com açúcar mascavado e cozer em lume brando 30 minutos. Não mexer para evitar desfazer as cebolas, mas sacudir a frigideira com suavidade para as envolver no molho.
Retirar a canela e o alecrim. Servir com arroz, puré de batata ou batatas salteadas.

Impressões Dispersas sobre um Colóquio (2)

A primeira parte da conferência do Professor Hanns-Werner Heister abrangeu as inovações e revoluções musicais antes e depois de 1905 atonalidade e proto-serialismo: a escola de Schönberg, Cowell, Skrjabin; o prncípio futurista da "montage": Charles Ives, Stravinsky; a micro-tonalidade, eentre outras correntes e compositores. Focou também as polémicas entre universalismo/relativismo versus eurocentrismo, na música e nas outras artes, mencionando os ismos da época: Fauvismo, Expressionismo, Cubismo, Construtivismo, Futurismo.

Numa segunda parte, centrou-se nas relações isomórficas entre a Música e a Revolução Técnica e Científica. Neste sentido, referiu-se à repercussão das inovações emergentes nas áreas da aeronáutica, ao automóvel, aos media: fonógrafo, gramofone, ao cinema, vide "Ich fühle Luft von anderem Planeten", Schönberg op.10.
Também aludiu à concepção de Schönberg do compositor como um "sismógrafo do Inconsciente". Destacou ainda a alteração da cosmovisão decorrente do surgimento das geometrias não-euclidianas, da física quântiica e relativista, e a sua ligação com as novas teorias musicais.
Por último, dissertou acerca do problema da noção de Progresso na História, em particular na História da Música.

Uma comunicação que apreciei, particularmente, foi a proferida por José Luís Câmara Leme sobre o conceito de Experiência em Walter Benjamin.

(Continua)

18.11.05

Impressões Dispersas sobre um Colóquio

Quinta e Sexta-feira estive no colóquio internacional: Revoluções Científicas, Artísticas e Políticas no Início do Século XX. O colóquio foi organizado pela Universidade Nova e decorreu na Fundação Calouste Gulbenkian. Também participei com uma comunicação sobre a querela de 1920-1935 entre a escola vienense e a escola britânica de Psicanálise.Tive o imenso gosto de conhecer Karin Heister-Grech, vienense e psicanalista de formação freudiana. Estabelecemos de imediato um diálogo animado e amistoso à volta da psicanálise. Entre outros assuntos conversámos - a propósito do transfert - sobre a dissidência entre Freud e Jung e de Sabina Spielrein. Karin falou-me na ironia de Freud nos textos originais, que dado serem escritos no dialecto vienense, ela procura traduzir a subtileza do humor de Freud, para os seus colegas alemães, pois no momento está a viver em Hamburgo. Infelizmente, não apresentou comunicação, porque veio apenas acompanhar o marido Hanns-Werner Heister, professor na Hoshschule für Musik und Theater de Hamburgo, que deu uma excelente conferência intitulada "Around 1905: Substances, Structures, and Relations between the Musical and Scientific Revolution", após a qual se seguiu uma viva troca de ideias. Foram levantadas questões sobre a recepção adversa da música contemporânea,por grande parte do público, das relações entre música e matemática, da tendência na cultura ocidental para sobrevaloriza a ciência em relação à arte, entre outras.

(Continua)

16.11.05

Recados

O Savarin manda dizer que em breve retomará as suas confidências e desabafos.

Amarelas, as folhas de freixo.
Amarelas, as faias.
Amarela, a névoa matinal.

Amarela, a lua, do alto do castelo.
Amarelas, as laranjas.
Dizem-me da luz, novos segredos.

14.11.05

A Origem da Arte Segundo Melanie Klein

As teses de Klein sobre a interiorização precoce da primeira relação da criança com a mãe inauguraram uma nova abordagem na crítica de arte, em função das profundas alterações nas perspectivas psicanalíticas sobre a criatividade e a arte, cuja origem Freud atribuia à sublimação da pulsão individual, enquanto Klein concebe a arte como o reflexo de um desejo de reparar as relações com os outros, e em primeiro lugar com a mãe. Na conferência intitulada " Infantile anxiety-situations reflected in art, creative impulse", dada na Sociedade de Psicanálise Britânica, em Maio de 1929, para ilustrar a sua tese recorreu à análise da ópera de Ravel, L'Enfant et les Sortilèges e à obra da pintora Ruth Kjär.
A ópera de Ravel inicia-se com a cena de um rapaz exasperado por ter que cumprir os seus deveres. Preferia ir passear para o parque, puxar a cauda ao gato e agarrar-se a toda a gente, em particular à sua mãe. Quando entra a mãe pergunta-lhe se já terminou as suas tarefas, e ele responde-lhe mostrando-lhe a língua, provocador. A mãe logo aplica a punição: "Comerás pão seco e chá sem açúcar". Confrontado com esta frustração da sua oralidade, como diz Klein, o pequeno expande a sua cólera. Agride os animais domésticos, atira objectos ...Como a criança edipiana procura agredir o corpo da mãe e o pénis do pai que aí se encontra. Entretanto, os objectos que ele agride animam-se. Segue-se um grande alarido. O rapaz refugia-se no parque, que está repleto de coisas aterradoras, de animais que lhe batem e mordem. Segundo Klein, estes seres personificariam a imagem da mãe que o ataca tal como ele queria atacá-la. Um esquilo cai no solo perto dele. O rapaz recolhe-o e cuida da sua pata ferida. Subitamente, o seu mundo torna-se mais amigável, os animais que antes o aterrorizavam, depois do seu gesto gentil, olham-no com melhores olhos e ele pode, por fim, reencontrar a mãe.
Fundamentando-se na narração da vida e da obra da artista Ruth Kjär, Melanie fornece a seguir uma ilustração de um desenvolvimento similar na rapariga, da agressão à ternura reparadora. Bela, independente e rica Ruth passava por períodos de depressão, no decurso dos quais experimentava um vazio interior insuportável, análogo ao vazio deixado na sua parede por um quadro que o seu cunhado levara. Isto desolava-a mais do que tudo, até ao dia em que decidiu preencher esse espaço por um quadro da sua autoria.

"This [the selling of a familiar picture] left an empty space on the wall, which in some inexplicable way seemed to coincide with the empty space within her."
Melanie Klein interpreta este espaço vazio como: "a feeling that there was something lacking in her body." Este vazio no corpo derivaria da ansiedade da rapariga da retribuição devido às suas fantasias sádicas sobre a destruição do corpo da mãe: "the little girl herself of the contents of the body (especially of children)" and of her own body being "destroyed or mutilated. [...] When the little girl who fears the mother's assault upon her body cannot see her mother, this intensifies the anxiety. The presence of the real, loving mother diminishes the dread of the terrifying mother, whose introjected image is in the child's mind."

Melanie Klein, Infantile Anxiety-Situations Reflected in A work of Art and in the Creative Impulse, in, Contributions to Psycho-Analysis 1921-1945, Hogarth Press 1948, p. 234

7.11.05

Num largo ao passar de cada dia


Gustav Klimt (1862-1918),O Bosque de Bétulas(1903), óleo sobre tela, 110x110 cm.


A tamareira eleva-se acima de todas as outras árvores, num apelo ao exotismo.
Os galhos mais finos das faias inclinam-se sobre o vermelho dos bancos perfilados junto ao gradeamento verde. Deixam tombar pequenas folhas secas, feitas renda pelos insectos que as perfuraram, enquanto o sol, com as que ainda pousam nos ramos, tece uma teia de luz em direcção à torre de Menagem.

Folhas e Frutos

Nos bagos de romã as cores da vinha virgem ao cair da folha.
Na casca e na polpa dos dióspiros as tonalidades das bétulas no Outono.

6.11.05

Joan Rivière


Joan Rivière
(1883-1962)

Psicanalista britânica, foi analisada primeiro por Ernest Jones e depois por Freud - de quem era tradutora. Tornou-se amiga, e seguidora das teses de Melanie Klein. Em 1927, publicou Symposium on Child Analysis.O seu artigo "Womaliness as a Masquerade" (1929) é o seu trabalho mais conhecido e debatido, nomeadamente por Lacan, que o comentou e o adaptou às suas próprias teses sobre o comportmento feminino. Foi co-autora da obra Dévelopments in Psycho-Analysis, publicada em 1952.


Bibliografia


Melanie Klein; Paula Heimann; Susan Isaacs; Joan Rivière, Développements de la Psychanalyse, (Paris, PUF, 2001).
Joan Rivière, "Womaliness as a Masquerade", in, Russell Grigg; Dominique Hecq; Craig Smith (eds.) Female Sexuality, The Early Psychoanalytic Controversies, (New York, Other Press, 1999).

Impressões

No azul destes dias, de novo o frio: arrefece os pés, arrepia a nuca.
Retornam os poentes em vermelho e ouro pálido sobre o azul gelado.
Voltou, de súbito, como este regresso a mim e ao cerne das coisas.
Retomo o estoicismo da adolescência, agora liberto da angústia, temperado com o saber do tempo.
Aprendo com o corpo o ritmo das estações e o timbre dos meus dias.

3.11.05

Impressões

No meu mundo de brumas, citrinos e folhas caídas, passam apressados bailarinos, rumores de água, livros abertos, estrias de luz. Isto me basta.

Para Narciso, Eco, o Outro, é uma forma de alienação: o ópio do ego.

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Um post para louvar a eficácia da Libreria Paidos S.C.A. - Central del Libro Psicologico.

1.11.05

Impressões de Segunda-feira ao Crepúsculo ? enquanto inventava uns quantos silogismos categóricos.

Agora, quando me sento no claustro, a penumbra já encobriu parte dos arcos e das colunas. Da semi-obscuridade sobressai o amarelo dos citrinos, os das árvores e os da instalação. Os frutos parecem suspensos no ar, pois o lusco-fusco oculta as lâminas onde estão dispostos, e os fios de nylon que as prendem. Assim, vemos um rosário de laranjas oscilando no centro do claustro: a surpresa de um número de ilusionismo

30.10.05

Bibliografia - Christiana Morgan (2)

Claire Douglas, Translate this Darkness, (New York, Simon & Schuster, 1993).
W.Pauli; C.G. Jung, Correspondance 1932-1948, (Paris Albin Michel, 2000).

Nota: Apesar de não estar de acordo com a tese principal da biografia de Claire Douglas, saliento o grande valor da obra, enquanto recolha de documentos muito rigorosa, e sobretudo o facto de retirar do anonimato o contributo fundamental de Morgan para o estudo da personalidade.

Impressões Dispersas

Há --------------------- oito dias, a névoa velava a cidade e roubou o castelo. Hoje foi destronada pela força da chuva e da trovoada.
Segunda e Quarta, pouco depois do crepúsculo, o céu pintou-se de um azul da Prússia, alegre como uma criança feliz.
os frutos das laranjeiras amadurecem com lentidão, no claustro enquanto leio. Há laranjas sobre as placas de vidro da instalação balouçando com o vento.
Quinta, Sexta e Sábado a dança -------- encheu os meus sentidos: Especial/Nada de João Garcia; Icebox Fly, de Sónia Batista e Setup de Rui Horta.
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Christiana Morgan (2)

Christiana Morgan (Boston 1897 - Virgínia-Islands 1967)

Antes de apontar as razões que me fizeram ficar decepcionada com a obra de Claire Douglas, sobre Christiana Morgan, seguem-se alguns dados biográficos da co-autora do TAT.


Christiana Drummond Councilman Morgan, foi a segunda filha de três irmãs, de pai médico, professor na Harvard Medical School. Em criança, preferia o pai à mãe, uma vez que havia grandes afinidades de comportamento e interesses entre os dois.

De 1908-1914, frequentou a escola Miss Winsor para raparigas.
Em 1917 ficou noiva de William Morgan, com quem casou em 1919.

Corria o ano da Graça de 1920 quando deu à luz o seu único filho Thomas, pelo qual não nutriu particular afecto.
O casamento foi bastante tumultuoso. Para além das dificuldades e incompatibilidades entre ambos, Christiana teve vários amantes.

Entretanto, foram viver para Nova Iorque, onde Christiana fez cursos sobre Arte. Também foi nesta cidade que o casal conheceu Henry e Josephine Murray. Christiana e Henry sentiram-se muito atraídos um pelo outro, desenvolvendo uma amizade de grande cumplicidade intelectual e sentimental, ambos admiravam Jung e a obra de Herman Melville.

Entre 1926-27 viajou para a Suíça com o objectivo de ser analisada por Jung em Zürich.

Segundo as fontes, Morgan pintava as suas "visões" induzidas por transe, ou auto-hipnose. Jung fez um seminário a partir do material fornecido por Christiana.
Jung estaria convencido que Christiana ocultaria a sua espiritualidade feminina sob a sua racionalidade masculina. Foi na década de 30, que Jung realizou o seminário sobre os desenhos e textos de Morgan, os quais utilizou como provas para fundamentar a sua teoris dos arquétipos do inconsciente colectivo. Aliás, Jung serviu-se de modo semelhante das descrições de sonhos e visões do físico Wolfgang Pauli.
Também, teria sido Jung que a aconselhou a iniciar uum relacionamento amoroso com Murray - tal como influenciara Murray, a fazer o mesmo - a fim de observar o inconsciente. Nesse sentido, sugeriu-lhe que se tornasse a musa - femme inspiratrice, a imagem da anima de Murray.
Ao invés de criar filhos ela , criaria um homem, servi-lo-ia, e por seu intermédio serviria a Humanidade. Segundo Claire Douglas, Jung projectou neles a sua própria ligação com Toni Wolf, a qual analisou o marido de Christiana, e lhe recomendou que aceitasse o relacionamento entre a mullher e Henry, procedendo de forma idêntica à adoptada por Jung. Na verdade, Christiana e Henry tornaram-se colaboradores e amantes, durante cerca de 40 anos, até à morte dela. Embora, tanto um como o outro, mantivessem ligações paralelas e não se tenham divorciado dos respectivos cônjuges.
Em 1934, o marido morreu.
1938, co-criou o Thematic Apperception Test (TAT), o qual foi, primeiramente, designado por Morgan-Murray Thematic Apperception Test. Mais tarde, passou por novo baptismo e passou a ser o Murray e "staff of the Harvard Psychological clinic Thematic Apperception Test.
Entretanto, Christiana sofreu graves problemas de saúde. Devido à sua elevada pressão arterial foi submetida a uma intervenção cirúrgica de alto risco - uma simpaticectomia.
No intuito de manter viva a ligação entre ambos, Morgan e Murray desenvolveram um relacionamento de tipo sado-masoquista.
Morgan tinha graves crises de alcoolismo, cuja causa seria a sua frustração sentimental e profissional, as suas depressões e estado de saúde. Os efeitos da embriaguez provocavam o desagrado de Henry Murray.
Em 1965, Murray, já viúvo,interessou-se,e iniciou um relacionamento, uma vez mais, e com maior profundidade com uma mulher bastante mais jovem, com quem viria a casar, após a morte de Morgan.
1967, Morgan e Murray viajaram até às Virgin Islands, numa tentativa de viver momentos de reconciliação, que se revelou desastrosa, porque Christiana ao perceber que o amante não se sentia atraído por ela, voltou a beber e acabaria por suicidar-se por afogamento, aos 69 anos de idade.

*********

De acordo com Claire Douglas, Christiana dourou o seu papel de amante ao criar uma mitologia privada com ídolos e deuses criados e esculpidos por ela. Segundo Douglas "was one more triangle that primarily served the interests of a man," contribuindo para o seu alcoolismo e suicídio. Douglas retrata-a como uma mulher independente que se rebelou contra a sua mãe, uma "Boston Brahmin mother", teve amizades apaixonadas com Lewis Mumford e Alfred North Whitehead, mas que se teria traído a si mesma ao sacrificar a sua própria criatividade em função de Henry Murray.
Penso que há questões cruciais a colocar, face à perspectiva de Christiana vítima de Jung e Murray, defendida por Douglas na biografia de Morgan: sendo Christiana uma mulher dotada de uma personalidade independente e forte, que sempre ousou actuar de modo diferente, nomeadamente no que concerne aos papéis convencionais de esposa e de mãe, porque se teria submetido, sem crítica, aos conselhos de Jung? Porque não abandonou Murray, e não escreveu de forma autónoma? Ela não precisava da permissão de Jung para escrever e criar, até porque o psicólogo se encontrava a muitas milhas de distância. Apesar de Jung e Murray terem contribuído para a sua "anulação", parece-me que Morgan optou por este caminho, porque era essa a sua vontade, porque cedeu à tentação de Pigmalião, bem assim como à presunção de julgar que a sua história de amor com Murray seria especial, e que o seu investimento nela, bem assim como a sua análise - projecto que Morgan não chegou a concretizar - traria importantes revelações sobre o relacionamento amoroso e sexual em geral.

29.10.05

Confidências e Desabafos de Savarin (124)

Passo meses sem beber, "but sometimes I feel in the mood for alcohol". Nesses momentos, cedo sem complexos ao prazer de saborear umas doses generosas de bebidas espirituosas. Aliás, só me entrego aos efeitos dos vapores etílicos quando me sinto "in the mood for drunkennesse", pois se não estiver para aí voltado, apenas um golo de cerveja ou de vinho me provoca uma insuportável náusea, ainda mais profunda do que a do Jean-Paul. Já experimentei infringir este mandamento com resultados desastrosos. Confesso que hoje não bebi, mas aprecio, em especial as boas aguardentes, sobretudo nestes dias feitos de águas mil, nuvens densas e névoas de sortilégio. Um ponche é a bebida ideal para fruir em dias de tempestade. Ontem, ao fim do dia, apeteceu-me reler algumas passagens de A Psicanálise do Fogo de Bachelard, e nem de propósito, abri o livro no capítulo VI, onde se pode ler - todo o capítulo é de ler e chorar por mais:

Uma das contradições fenomenológicas mais evidentes foi-nos fornecida pela descoberta do ácool, triunfo da actividade taumatúriga do pensamento humano. A aguardente é a água do fogo. É uma água que queima a língua e se inflama com a mais pequena faúlha. (...)
O álcool é pois objecto de uma valorização substancial evidente. Ele manifesta também o seu efeito em pequenas quantidades: ultrapassa em concentração os caldos mais deliciosos. Segue a regra dos desejos de posse realista: concentrar uma grande força num pequeno volume. Visto que a aguardente arde diante dos olhos extasiados, visto que aquece todo o ser até à boca do estômago, isso vem provar o sentido convergente das experiências íntimas e subjectivas. Esta dupla fenomenologia prepara certos complexos que o conhecimento objectivo terá que desfazer para recuperar a liberdade da experiência. (...)

Nas grandes festas de Inverno, na minha infância, era costume fazer-se um ponche. O meu pai despejava num prato fundo aguardente da nossa vinha. No centro colocava pedaços de açúcar partido, os torrões maiores que havia no açucareiro. Quando o fósforo tocava numa ponta do açúcar, as chamas azuladas corriam com um ligeiro ruído por sobre o álcool espalhado. A minha mãe apagava o candeeeiro de suspensão. Era a hora do mistério e da festa um tanto ou quanto grave. Os rostos familiares, de súbito irreconhecíveis na sua lividez, cercavam a mesa redonda. Por momentos, o açúcar chiava antes do desabar da pirâmide, algumas franjas amarelas estalavam nos bordos das longas chamas pálidas. Quando as labaredas vacilavam o meu pai remexia o ponche com uma colher de ferro. A colher ficava envolta em labaredas como se fosse um instrumento do Diabo. Nessa altura "teorizava-se": se se apagasse tarde de mais o ponche ficaria demasiado doce; se se apagasse cedo de mais, isso equivalia a "concentrar" menos o fogo e por conseguinte a enfraquecer o efeio benéfico contra a gripe. Havia quem falasse de um ponche que tinha ardido até à última gota. Outros relatavam um incêndio [não na padaria, ...] em casa do destilador durante o qual os barris de rum rebentavam como se contivessem pólvora, explosão esta, de resto, à qual ninguém assistira. À viva força, pretendia-se descobrir um sentido objectivo e geral para este fenómeno estranho ... Por fim, deitavam-me o ponche no copo; quente e pegajoso, na verdade essencial. Por isso eu compreendo Vigenère quando este, de uma maneira um pouco afectada, fala do ponche como "de uma pequena experiência, divertida e rara." (...)Após tal espectáculo, as confirmações do paladar deixam recordações imperecíveis. Entre os olhos extasiados e o estômago consolado estabelece-se uma correspondência baudelairiana tanto mais sólida quanto mais materializada. (...)
Sem a experiência pessoal desse álcool quente e açucarado, da sua chama numa meia-noite alegre, compreende-se mal o valor roântico do ponche, falta-nos um processo de diagnóstico para estudar certas poesias fantasmagóricas.

Seguidamente, Bachelard disserta acerca da obra de Hoffmann, em seu entender atravessada por uma poesia da chama, e marcada pelo complexo do ponche, que se poderia designar, com propriedade, como complexo de Hoffmann.
Gaston Bachelard, A Psicanálise do Fogo, (Lisboa, Litoral, 1989), pp.91-93.

26.10.05

Ilusões num Dia de Vendaval

Nos dias de vento à solta, a inquietude evola-se, passeia pelas praças, voa com as folhas, em mim fica toda a euforia da calma.

22.10.05

Narciso e Orfeu


Salvador Dali (1904-1989), Metamorfoses de Narciso (1937).Óleo sobre tela
20 x 30, Tate Gallery, Londres


The Orphic-Narcissistic images are those of the Great Refusal: refusal to accept separation from the libidinous object (or subject). The refusal aims at liberation
at the reunion of what has become separated. Orpheus is the archetype of the poet as liberator and creator; he establishes a higher order in the world--an order without repression. In his person, art, freedom, and culture are eternally combined. He is the poet of redemption, (…) the god who brings peace and salvation by pacifying man and nature, not through force but through song (...)

The Orphic Eros transforms being: he masters cruelty and death through liberation. his language is song, and his work is play. Narcissus' life is that of beauty, and his existence is contemplation. These images refer to the aesthetic dimension as the one in which their reality principle must be sought and validated.

Herbert Marcuse, Eros and Civilization: A Philosophical Inquiry into Freud, (New York, Vintage, 1955), pp. 154, 155, 156.

Impressões Ultra-românticas

A chuva de Outono, à temperatura dos trópicos, gerou uma Primavera extemporânea nos vasos do terraço.

O arvoredo do castelo, há poucos dias lucilando em estrias de luz, refugia-se,agora naS cinzaS da sombra. É caso para subir ao castelo, e ali mesmo, na Torre da Má Hora, de preferência sob chuva, entre relâmpagos e trovões declamar ao sabor do vento que a unidade constituída pelo aglomerado de células que agora sou, amanhã se vai desfazer, e cada uma das células, por seu turno se irá dispersar na multiplicidade de uma unidade (?)maior.

O Riso

Uma página inteira sobre o riso, para a Brígida, de onde copiei esta citação:

«Le caractère commun du comique ou du risible, dans les cas les plus différents, c'est en effet l'irruption soudaine d'une spontanéité, d'une fantaisie, d'une liberté dans la trame des événements et des pensées. Le comique, à tous les degrés et sous ses formes les plus diverses, est donc l'oeuvre d'une liberté. C'est proprement la liberté supposée de la nature ou celle de l'esprit, intervenant en quelque sorte en dépit de la règle, bien plus, comme se jouant, se moquant de la règle, et comme pour faire, si l'on peut ainsi parler, une niche à la raison. Cette brusque intervention, qui dérange le convenu, qui bouscule l'ordre et introduit un pur jeu là où le sérieux se croyait sûr de durer, voilà, si je ne me trompe, où trouver la source profonde du rire.» (A. Penjon, Le rire et la liberté, Revue philosophique, 1893, t. II)

21.10.05

Christiana Morgan


Desenho a tinta de Christiana Morgan para o cartão C do TAT a partir de uma gravura de Pruett Carter publicada no número de Setembro de 1931 de Woman's Home Companion para ilustrar uma história de Margaret Deland

A leitura da biografia de Christiana Morgan, da autoria de Claire Douglas, foi uma experiêcia decepcionante, estava à espera de outro perfil feminino, e "aparece-me" alguém que se anulou por motivos sentimentais. Logo mais explicitarei melhor as causas do meu desapontamento.

19.10.05

A Atitude da Maria Rita é Démodé

Ao contrário da Maria Rita, e para nosso incomensurável gáudio, o escriba voltou.

18.10.05

Assim falava Nietzsche ...

"Não tomar a sério os seus inimigos e as suas desgraças, é o sinal característico das naturezas fortes que se acham na plenitude do seu desenvolvimento e que possuem uma superabundância de força plástica regeneradora e curativa que sabe esquecer. (Um bom exemplo nos tempos modernos é Mirabeau, e que não podia perdoar, simplesmente porque esquecia). Um tal homem, com uma só sacudidela, desembaraça-se da bílis que nos outros faz moradia; só ele pode amar os inimigos, se é que tal amor é possível na Terra."

Nietzsche, A Genealogia da Moral, (Lisboa, Guimarães Editores, 1992), p. 31.

"78) Quem se despreza a si próprio, mesmo assim não deixa de se respeitar como desprezador."

"173) Não se odeia enquanto se despreza, mas só quando se preza algo como igual ou superior."

Para Além do Bem e do Mal, (Lisboa, Guimarães Editores, 1982), pp. 78-88.

17.10.05

Mais um conto de Kafka: Burocracia e Tédio Atormentam o Deus dos Mares


Templo de Poseidon 440 a.C. - Cabo de Sounion

Poseidon

Poseidon sat at his desk, doing figures. The administration of all the waters gave him endless work. He could have had assistants, as many as he wanted — and he did have very many — but since he took his job very seriously, he would in the end go over all the figures and calculations himself, and thus his assistants were of little help to him. It cannot be said that he enjoyed his work; he did it only because it had been assigned to him; in fact, he had already filed many petitions for — as he put it — more cheerful work, but every time the offer of something different was made to him it would turn out that nothing suited him quite as well as his present position. And anyhow it was quite difficult to find something different for him. After all, it was impossible to assign him to a particular sea; aside from the fact that even then the work with figures would not become less but only pettier, the great Poseidon could in any case occupy only an executive position. And when a job away from the water was offered to him he would get sick at the very prospect, his divine breathing would become troubled and his brazen chest began to tremble. Besides, his complaints were not really taken seriously; when one of the mighty is vexatious the appearance of an effort must be made to placate him, even when the case is most hopeless. In actuality a shift of posts was unthinkable for Poseidon — he had been appointed God of the Sea in the beginning, and that he had to remain.
What irritated him most — and it was this that was chiefly responsible for his dissatisfaction with his job — was to hear of the conceptions formed about him: how he was always riding about through the tides with his trident. When all the while he sat here in the depths of the world-ocean, doing figures uninterruptedly, with now and then a trip to Jupiter as the only break in the monotony — a trip, moreover, from which he usually returned in a rage. Thus he had hardly seen the sea — had seen it but fleetingly in the course of hurried ascents to Olympus, and he had never actually traveled around it. He was in the habit of saying that what he was waiting for was the fall of the world; then, probably, a quiet moment would be granted in which, just before the end and having checked the last row of figures, he would be able to make a quick little tour.
Poseidon became bored with the sea. He let fall his trident. Silently he sat on the rocky coast and a gull, dazed by his presence, described wavering circles around his head.


Poseidon

(tradução de Torrieri Guimarães)


Poseidon estava sentado à sua mesa de trabalho e fazia contas. A administração de todas contas. A administração de todas as águas dava-lhe um trabalho infinito. Poderia dispor de quantas forças auxiliares quisera, e com efeito, tinhas muitas, mas como tomava seu emprego muito a sério, verificava novamente todas as contas, e assim as forças auxiliares lhe serviam de pouco. Não se pode dizer que o trabalho lhe era agradável e na verdade o realizava unicamente porque lhe tinha sido impôsto; tinha-se ocupado, sim, com frequência, em trabalhos mais alegres, como ele dizia, mas cada vez que se lhe faziam diferentes propostas, revelava-se sempre que, contudo, nada lhes agradava tanto como seu atual emprego. Além do mais era muito difícil encontrar uma outra tarefa para ele. Era impossível designar-lhe um determinado mar; prescindindo de que aqui o trabalho de cálculo não era menor em quantidade, porém em qualidade, o Grande Poseidon não podia ser designado para outro cargo que não comportasse poder. E se se lhe oferecia um emprego fora da água, esta única idéia lhe provocava mal-estar, alterava-se seu divino alento e seu férreo torso oscilava. Além do mais, suas queixas não eram tomadas a sério; quando um poderoso tortura, é preciso ajustar-se a ele aparentemente, mesmo na situação mais desprovida de perspectivas. Ninguém pensava verdadeiramente em separar a Poseidon de seu cargo, já que desde as origens tinha sido destinado a ser deus dos mares e aquilo não podia ser modificado.


O que mais o irritava - e isto era o que mais o indispunha com o cargo - era inteirar-se de que como representavam com o tridente, guiando como um cocheiro, através dos mares. Entretanto, estava sentado aqui, nas profundidades do mar do mundo e fazia contas ininterruptamente; de vez em quando uma viagem da qual além do mais, quase sempre regressava furioso. Daí que mal havia visto os mares, isso acontecia apenas em suas fugitivas ascenções ao Olimpo, e não os teria percorrido jamais verdadeiramente. Gostava de dizer que com isso esperava o fim do mundo, que então teria certamente ainda um momento de calma, durante o qual, justo antes do fim, depois de rever a última conta, poderia fazer ainda um rápido giro.

Impressões

Ontem, pelas 17.45, subi ao castelo para levar a minha filha à sua primeira aula de dança contemporânea, no Convento da Saudação. Sob uma chuva morna, trepámos o Quebra-costas com os nossos guarda-chuvas made in China, em tons de amarelo. Durante o tempo de aula dela, sentei-me no claustro quadrado, cujas cores se fundiam no cinzento matizado de lilás e amarelo do horizonte, tão baixo, a ler o epílogo do livro, de Claire Douglas, com o pomposo título: Translate This Darkness, The Life of Christiana Morgan, The Veiled Woman in Jung's Circle, por entre espiadelas às laranjeiras e à instalação de dez prateleiras de vidro suspensas por fios de nylon, que atravessam o centro do claustro, em fila indiana.
Finda a aula, lusco-fusco, corremos em grande euforia, pelas escadas e ruas íngremes até ao Largo dos Paços do Conselho.

Noite à Varanda:

Depois de velar a lua, a névoa preencheu todos os espaços vazios do Largo, em louvor de Aristóteles.


Nos últimos dias, fora tomada de assalto pela pergunta: A minha vida pertence-me? Não por razões místicas ou tão pouco metafísicas, mas em função dos pequenos turbilhões do quotidiano, das rotinas, das obrigações, das reuniões para isto e para aquilo, na incontabilidade dos mesquinhos afazeres. Um almoço em Portalegre, no Sábado, Domingo, o final do dia de ontem afastaram, em parte, a questão candente acima enunciada.

11.10.05

Agradecimento

Fiquei sem palavras perante a caracterização tão simpática do Digitalis, veiculada no blogue Legendas & Etcaetera. Não conhecia Legendas, mas gostei do que vi e li. Sem querer cometer plágio, retribuo a apreciação.

Um Jovem Poeta de S.Tomé

Há pouco chegou o correio. E com a conta da água tive a grata surpresa de receber mais um livro da UNEAS. Lembrei-me da Brígida e da sua dedicação imensa a S.Tomé. Por isso, lhe dedico este poema:

Lá vai ele

Na sua senda
Buscando a vida da sua vida
Desta que nunca foi vivida ...

Lá vai ele
Atrás do sol na cerrada noite.


Adilson Pinto, Lágrimas Sem Fim, (S. Tomé e Príncipe, UNEAS, 2005)

10.10.05

Atenas e Jerusalém: Notas Dispersas

Leon Chestov é um daqueles autores que escreveu sobre temas que não me interessam, particularmente - filosofia da religião - defende muitas teses com as quais não me identifico, mas gosto muito de ler as suas obras. Aprecio o seu estilo provocador, bem assim como as interpelações que os seus textos suscitam.
Em Atenas e Jerusalém Chestov aborda a relação entre Fé e Razão, Filosofia e Revelação da Fé de uma forma original. Contrapõe-se à posição daqueles que partem do princípio que a filosofia grega e o pensamento cristão seriam duas manifestações sucessivas da acção de um mesmo espírito divino entre os homens. De acordo com esses pensadores ambas as tradições derivariam de uma mesma fonte transcendente. O que equivale a dizer, segundo Chestov que os adeptos deste tipo de explicação cristianizam secretamente a natureza do paganismo antigo vendo nele uma prefiguração providencial do mistério cristão.
Chestov opõe Atenas e Jerusalém. Em seu entender toda a filosofia é uma obediência aos princípios, às estruturas lógicas, ela constitui-se com base nesses princípios e deles não pretende sair. Nem o próprio Deus escapa ao constrangimento da Necessidade. Deus, o dos filósofos, só lhe foi concedida a liberdade uma vez: no momento da criação. É o parere de Séneca, todos os filósofos obedecem e curvam-se perante a Necessidade, sentem-se constrangidos. Com Platão e Plotino teria ocorrido alguma anomalia, pois divergiram, na medida em que toda a filosofia platónica é uma preparação para a morte, "é um treino de morrer" e Plotino insatisfeito, procurou superar a filosofia através da via mística. Aristóteles, o discípulo dissidente, escandalizou-se perante determinadas doutrinas de Platão. A importância atribuída por Platão às narrativas mitológicas, a superação da razão discursiva, e principalmente a lógica polivalente de Platão desagradavam-lhe particularmente. O Estagirita tal como "o Parménides algemado" não podia fugir à ananke. Em toda a Idade Média a filosofia escolástica leria a Bíblia , modelada pelo pensamento helénico. Por conseguinte, a interpretação da Revelação seguiria os pressupostos aristotélicos e estóicos. Consequentemente, toda a teologia escolástica assentaria na procura da ordem do ser e na obediência ao princípio da não-contradição.
Ora, afirma Chestov, Deus, a Fé são criação contínua. A Fé "move montanhas", não no sentido propriamente material, pois transcende-o. E, ao invés, do que preconizou Hegel*, o milagre não é "violação do espírito", o milagre é "encarnação da Fé", "é criação".
O autor russo defende que não é possível encerrar Deus num quadro lógio enquanto génese ou princípio da cadeia do Ser. Para Chestov, o homem é mais do que um simples elo do Ser. Há que valorizar o humano. A Fé é intrinsecamente humana. Há que dar o salto para além da ordem do real. A busca da ordem do ser seria a anulação do humano uma vez que implicaria a fusão do homem no todo. Ter Fé seria escapar à ordem do Ser. Ter Fé equivaleria ao Jubere.
Chestov afirma também que o homem não se reduz ao "animal teorético", ele transcende a actividade cognoscitiva.
Os judeus subiam as escadas simbolizantes dos caminhos que de todos os pontos da Palestina se dirigiam para Jerusalém. A escada das ascensões físicas daria lugar a uma ascensão interior que aproximaria de Deus. Na sua ascensão, para onde haveria de levantar os olhos senão para o termo em direcção ao quel tendia e queria subir? Com efeito a terra sobe ao céu . Segundo Chestov, o homem subirá ao céu se meditar em Deus que dispôs no seu coração os meios para subir. Subir no coração é a aproximação a Deus. Quem Dele se desliga, mais do que descer cai, nos braços da Necessidade.

Concordo com Chestov quando declara que há uma separação abissal entre os que vivem a Fé e aqueles, como eu, a quem a Fé não terá tocado.

No entanto, ao contrário de Chestov, defendo a existência de estruturas antroplógicas idênticas, quanto à experiência religiosa, independentemente, dos diferentes modos como se expressam, ou seja das diferentes crenças.

* Hegel que nas suas obras de juventude, também, opõe o espírito grego ao judaísmo, embora favorecendo o primeiro.

Um texto [interpelativo] de Chestov:

Ces barbares qui nous menacent aujourd'hui

Ce qui se produit dans le monde contemporain ne manque pas de rappeler à l'observateur attentif la période des invasions barbares. Il y a toutefois une différence de taille. Les barbares qui mirent fin à la civilisation romaine vinrent de l'extérieur; or les barbares qui menacent la civilisation de l'Europe moderne viennent de l'intérieur. Il serait cependant faux de croire - comme beaucoup le font - que cette nouvelle “invasion barbare” risque vraiment d'anéantir notre civilisation. […]

Le cataclysme le plus vaste ne pourrait engloutir la civilisation, si nous incluons dans ce terme les innombrables conquêtes de l'homme dans les différents domaines de la science et de la technique.

De plus, les “barbares” dont nous parlons ne sont pas le moins du monde tentés de faire obstacle au développement naturel des sciences positives et de la technique. Ils comprennent parfaitement que science et technique ne sont pas seulement utiles mais indispensables. L'Allemagne a expulsé Einstein et bien d'autres savants célèbres mais cela n'empêche pas les Allemands de continuer à exploiter de toutes les manières possibles les progrès scientifiques, sans se soucier de leur origine. En Russie soviétique, un homme tel que Pavlov est toléré bien qu'il ne cache guère sa désapprobation du régime.[…]

Il n'y a donc pas de raison de se faire du souci pour l'avenir de la science et de la technique. Les barbares modernes, comme ceux d'autrefois, auront à cœur de préserver et même de perfectionner tout ce qui peut contribuer au triomphe de la force brute.

Mais, s'interroge le lecteur, si la force brute se constitue gardien du progrès scientifique et technique, quel bénéfice l'humanité en retirera-t-elle? […]

Qu'est-ce qui détermine les lois d'airain [de l'économie moderne]? La réponse me semble évidente. Nous sommes perpétuellement confrontés au Tartare, voué corps et âme à la poursuite du seul idéal valable à ses yeux: le triomphe de la force brute, de la force physique, de la force matérielle. C'est pourquoi il se prosterne devant les “lois d'airain de l'économie”, puisque sa propre nature est adaptée à ces lois. Il croit que ce qui fait de la vérité la Vérité n'est autre que son désir de contraindre et son pouvoir d'exercer cette contrainte.

Suivons cette ligne de pensée. On considère généralement “le Tartare” comme un Asiatique. La phrase “Grattez un Russe et vous trouverez un Tartare” laisse entendre que la croyance populaire accole aux Russes l'épithète infamante de barbares asiatiques. Il existe toutefois un autre adage occidental d'une toute autre signification: “Ex Oriente lux”. La lumière est venue de l'Est, c'est-à-dire de l'Asie vers l'Europe. L'Europe n'a fourni à l'humanité ni prophètes ni apôtres tandis que l'Asie a été le berceau de toutes les religions et tous les grands prophètes ont vu le jour à l'Est. Les historiens ont de bonnes raisons de s'interroger sur l'influence considérable de l'Orient, qui embrasse jusqu'aux philosophes de la Grèce classique. Les œuvres de Plotin, le dernier des grands penseurs grecs, lancent un fervent appel aux plus éclairés de ses contemporains, les implorant de modifier la situation spirituelle de l'Europe; cette situation était le résultat inévitable des conditions de développement du monde occidental. Bien que Plotin n'eût pas fait usage de la phrase “Ex Oriente lux”, son regard était résolument tourné vers l'Asie, source de lumière spirituelle. […]

L'apparition de Plotin et de son œuvre coïncide étrangement avec un des phénomènes les plus mystérieux et les plus inexplicables de l'histoire européenne. Le monde gréco-romain, cette puissance dont la structure étatique était d'une étendue sans précédent dans l'histoire et qui avait soumis à son joug tant de peuplades d'origines diverses, allait maintenant s'incliner devant la vérité d'un petit peuple parmi les tribus assujetties de l'Empire romain, faible et universellement méprisé. L'Europe, puissante et civilisée, renonça à sa puissance, à la civilisation qu'elle avait fondée et maintenue par la force pour placer sa foi dans une vérité apparemment peu sûre, défaillante, inerte, et même illusoire: la vérité révélée par les Saintes Ecritures. D'innombrables tentatives ont été faites pour expliquer cette page de l'histoire. Qu'est-ce qui poussa la Rome toute-puissante à fléchir le genou devant l'insignifiante province de Judée, comment se fait-il que la glorieuse Athènes s'abaissa devant Jérusalem? Aucune des explications avancées n'explique quoi que ce soit, au point qu'on se demande parfois s'il existe une explication valable. Je ne tenterai pas ici de résoudre cette éternelle énigme, étant donné que l'exigence même d'une explication implique la possibilité de découvrir une force visible, tangible et mesurable, alors que par définition cette force n'existe pas dans le cas présent et ne peut, par conséquent, être découverte. […]

Aujourd'hui, le Tartare qui se cache sous notre couche européenne manifeste des signes de réanimation. Ce qui lui semble le plus dangereux, ce qu'il hait le plus, ce ne sont ni la science ni la technique, mais ce qui a été révélé à l'homme à travers les Ecritures, ce qui lui a été légué par la religion: la compréhension et l'amour de la liberté, celle des autres pas moins que la sienne propre. […]

Nous devons sauver la liberté.
Léon Chestov

The Aryan Path, août 1934

Traduction de Gilla Eisenberg

Selma Lagerlöf: Mais Objectos de Devoção

Lendas religiosas
e um conto.
No texto O Imperador de Portugal o pai, personagem principal da narrativa, também sente um amor desmedido/doentio pela filha, que o leva a imaginá-la imperatriz.

9.10.05

Existenciais: A Fadiga

O tema da fadiga é recorrente em Kafka, trata-se, aliás, de uma coordenada crucial, elucidativa da situação vivencial do ser humano. A fadiga exaure as forças dos seres, vencendo a sua vontade. No Processo, Joseph K. no auge da sua luta contra o absurdo, ao tentar localizar, materializar e caracterizar a terrível acusação de que é vítima, acaba por atingir a saturação, e em determinado momento desiste de compreender o que lhe explicam, demasiado cansado para prever todas as consequências da sua história.
Na narrativa A Toca, o ser que de um modo febril e obstinado constroi um labirinto para sua protecção, às vezes no desespero do seu cansaço físico quer abandonar tudo.
O cansaço tudo sujeita à erosão, como se pode concluir da leitura do desfecho da última lenda de Prometeu:

Prometheus

There are four legends concerning Prometheus:

According to the first he was clamped to a rock in the Caucasus for betraying the secrets of the gods to men, and the gods sent eagles to feed on his liver, which was perpetually renewed.

According to the second Prometheus, goaded by the pain of the tearing beaks, pressed himself deeper and deeper into the rock until he became one with it.

According to the third his treachery was forgotten in the course of thousands of years, forgotten by the gods, the eagles, forgotten by himself.

According to the fourth everyone grew weary of the meaningless affair. The gods grew weary, the eagles grew weary, the wound closed wearily.

There remained the inexplicable mass of rock. The legend tried to explain the inexplicable. As it came out of a substratum of truth it had in turn to end in the inexplicable.
Kafka

Translated by Willa and Edwin Muir Copyright © 1971, Schocken Books.
Franz Kafka




Lendas


De Prometeu contam-se quatro lendas:


Pela primeira – por ter ele traído os Deuses junto aos homens, foi ele posto a ferros numa penedia do Cáucaso e lá os Deuses mandavam águias a fazer de pasto o seu fígado sempre renovado.


Pela segunda – atormentado pelos bicos que o laceravam, Prometeu foi encolhendo-se cada vez mais de encontro ao rochedo até formar com ele uma coisa única.


Pela terceira – a traição de Prometeu esqueceu-se nos séculos: os Deuses esqueceram, as águias, ele próprio...


Pela quarta – cansaram-se, todos, daquele processo sem fundamento: cansaram-se os Deuses, cansaram-se as águias, cansada fechou-se a ferida.


Ficou o inexplicável monte de pedra. A lenda busca explicar o inexplicável: como surgiu de um fundo de verdade, tinha de acabar todavia sem explicação.


(Tradução de Torrieri Guimarães)


Bibliografia:

Kafka, O Processo, (Lisboa, Publicações Europa-América, 1976).
Kafka, "A Toca", in A Grande Muralha da China, (Lisboa, Publicações Europa-América, 1976), p.47.

Lírios


Korin, Iris Flowers.

8.10.05

Murasaki Shikibu


Cópia tardia datável do século XIX, de dois fascículos de Genji Monogatari.

Murasaki Shikibu (c. 976-c. 1031) foi a autora do primeiro romance japonês: Genji Monogatari. Mais informação sobre a obra aqui.
Página com o Diário.
da escritora.

Um artigo: Geneviève Daridan,"Les Dames de l'An Mille à Kyoto", in H, (Paris, Le Cercle Historia, 1966), pp.126-253.

7.10.05

Selma Lagerlöf : três livros, três traduções em português

Carl Larsson, Selma Lagerlof (1908).

1. Os Sete Pecados Mortais e Outros Contos, (Lisboa, Sociedade Editora Arthur Brandão e Cª, 1931)

2. A Lenda de Gösta Berling, (Lisboa, Edição Minerva, 1945)

3. O Imperador de Portugal, (Lisboa, Ulisseia, 1988)

6.10.05

Devoção

Da dádiva dizer: doar-te, Duarte.

O Professor Sofisma

Carrilho é um Cálicles que nunca chegará a Górgias.

Selma Lagerlöf, A Saga de Gösta Berling

Gosto muito da escrita de Selma Lagerlöf, dos Contos - já publiquei, aqui, um post sobre A Lenda da Rosa do Natal - do romance, O Imperador de Portugal e sobretudo da obra A Saga de Gösta Berling.
Ontem, lembrei-me de procurar documentos sobre a autora. Fiquei a saber que em Janeiro do corrente ano a Saga foi adaptada ao teatro por Pierre Sarzacq e e no ano de 1924 realizou-se uma adaptação cinematográfica da referida obra, Greta Garbo fazia parte do elenco:
GÖSTA BERLINGS SAGA (T.l.: La leggenda di Gösta Berling - T.i.: I cavalieri di Ekebù / Svezia, 1924)

R.: Mauritz Stiller. S.: dall'omonimo romanzo di Selma Lagerlöff. Sc.: Mauritz Stiller, Ragnar Hyltén-Cavallius. F.: Julius Jaenzon. Scgf.: Vilhelm Bryde. Cost.: Ingrid Gunter. Didascalie: Alva Lundin. In.: Lars Hanson (Gösta Berling), Ellen Hartman-Cederström (Märta Dohna), Torsten Hammarén (Henrik Dohna), Greta Garbo (Elisabeth Dohna), Mona Märtensson (Ebba Dohna), Gerda Lundqvist (Margaretha Samzelius, la “Comandante”), Hilda Forslund (sua madre), Otto Elg-Lundberg (comandante Samzelius), Jenny Hasselqvist (Marianne Sinclaire), Sixten Malmerfelt (Melchior Sinclaire), Karin Swanström (Gustafva Sinclaire), Sven Scholander (sovrintendente Sintram), Svend Kornbeck (capitano Christian Berg), Oscar Bergström (mastro Julius), Hugo Rönnblad (colonnello Beerencreutz), Knut Lambert (Ensign Rutgen von Orneclou). P.: A-B Svensk Filmindustri., Stoccolma. Prima proiezione: 10 marzo 1924 (parte 1), 17 marzo 1924 (parte 2). L.prima parte: 1906 m., L. seconda parte: 1854 m., D. complessiva.: 164' a 22 f/s. Didascalie svedesi / Swedish intertitles

Da: Svenska Filminstitutet

Accompagnamento musicale di Alain Baents (pianoforte) / Musical accompaniment by Alain Baents (piano)


“Che Garbo sia già un'attrice, in Gösta Berling Saga, non è sicuro. Più ancora: che i ruoli europei interpretati da questa ragazza svedese, per Stiller prima e per Pabst poi, in due film che nessuna storia del cinema dimentica, che questi ruoli abbiano qualcosa a che fare con ciò che poi nella storia delle immagini è stata Garbo, pure non è affatto sicuro. In Gösta Berling è fantastica quando è immobile, nei vestiti bianco impero, tra gli arredi gustaviani, oppure stagliata contro qualche orizzonte di neve e di fuoco (centro drammatico e figurativo del film è una lunghissima scena d'incendio, e Garbo corre su una slitta verso le fiamme per ritrovare il suo amore ancora segreto, il funebre dongiovanni Gösta Berling); e nei momenti migliori Stiller osserva quel viso ancora infantile come un paesaggio nevoso, come altro materiale lirico che d'improvviso si offre al suo obiettivo. Gösta Berling Saga, che adatta e prosciuga il grande romanzo di Selma Lagerlöff, è un film complesso, sovraccarico, chiamato a sostenere un peso narrativo grave, teso nella ricerca di un equilibrio che permetta di dipanare le storie di molti personaggi, i fantasmi del passato, la colpa e la redenzione, le questioni morali, l'innocenza sacrificata e poi l'innocenza trionfante, “lo scatenarsi delle passioni che si mescola con frenesia al crepitio delle fiamme”, come dice Jean Béranger che non esita a considerarlo un capolavoro. Garbo attraversa tutto quanto lasciandosi appena intravvedere, talora tendendo avanti le braccia, un poco come se avesse osservato qualche diva italiana in disarmo (di origine italiana è peraltro la sua Elisabeth Dohna), scivolando senza batter ciglio fuori da un matrimonio improbabile, e conquistandosi il lieto fine senza aver troppo sofferto”. (Paola Cristalli, Cinegrafie, n. 10, 1997)


“It is not yet evident that Garbo was already an actress in Gösta Berling Saga, and the more so in the European roles played by this Swedish girl for Stiller first and Pabst later in two films that the history of cinema would never forget. In Gösta Berling she is as fantastic as she is still, in her white Empire-style dresses, among Gustavian décor, or else when she is silhouetted against a snowy and fiery horizon (the dramatic and figurative focus of the film is a very long scene where Garbo speeds with her sleigh towards the flames to meet her secret love, the funereal dongiovanni Gösta Berling). In his best moments Stiller observed that face as a snowy landscape, another lyric element suddenly offering itself to his camera. Gösta Berling Saga, the exhaustive adaptation of Selma Lagerlof's great novel, is a complex, overloaded film, called upon to bear the weight of severe narration, aiming at reaching a balance between the unraveling of the stories of many characters, the ghosts of the past, crime, punishment and redemption, moral issues, sacrificed and at last triumphing innocence, “the raging of passion which frantically intermingles with the crackle of fire”, as Jean Bérenger said proclaiming it as a masterpiece. Garbo moves through all this allowing herself to be just barely perceived, sometimes slightly projecting her arms forward as if she had watched an already-forgotten Italian actress, slipping way without batting an eye from an improbable marriage, and winning a happy ending for herself without having suffered too much”. (Paola Cristalli, Cinegrafie, n. 10, 1997)