30.12.03



Ano Novo, Vida Nova




Depois de um serão a ruminar, purifiquei o meu espírito, preparando-me para entrar no Novo Ano com a alma branca.
Esta será a última entrada de 2003. Por isso, desejo aos visitantes deste blog um Bom Ano de 2004, recheado de agradáveis surpresas e que exceda as vossas melhores expectativas.



Até para o ano!

29.12.03


Uma raridade do mundo vegetal, nauseabunda, e em vias de extinção

Talvez por ser fim de ano, ou por qualquer outro motivo mais rebuscado, lembrei-me de referir este estranho ser:

Rafflesia arnoldii
Rafflesia, " a rainha dos parasitas"

Género de plantas das florestas da Malásia e da Indonésia, da família das raflésias, de que é o tipo. São acaules e afiladas, com flores gigantescas, dióicas e apétalas. Vivem como parasitas, sobre os troncos e raízes de várias plantas do género cisso. Têm cálice de 5 lobos carnosos que exalam, normalmente, um cheiro a carne em putrefacção.

28.12.03

Confidências e Desabafos de Savarin (14)
Uma sobremesa pétillante para o réveillon:

Fata Morgana (Receita do Hotel Intercontinental de Zurique)

Ingredientes:

1 garrafa de champagne
1 kg de gelado de baunilha ligeiramente amolecido
2 claras
4 colheres de chá de açúcar
1 limão

Preparação

Misturar a raspa e o sumo de limão com o gelado de baunilha. Bater as claras em castelo com o açúcar e incorporá-las, com cuidado, ao gelado. Guardar no congelador até ao dia seguinte. Colocar o champagne em taças até 3/4 da capacidade, e pôr em cada uma delas uma bola de sorvete. Servir imediatamente. Dá à volta de 8 doses.




A UM NOVO ANO PÉTILLANT DE JOIE

Duas Vias para a Compreensão da Hermenêutica : Heidegger e Paul Ricoeur

III - A Destruição da Metafísica
(7)

O discurso verdadeiro, a "ciência" aqui no sentido de Filosofia, que completa e realiza, a Metafísica, introduziria a transparência integral e permitiria conhecer o que existe tal como deve ser conhecido - seria o sistema das transformações necessárias que afectariam o próprio discurso quando ele se constitui como discurso escrito que exporia o domínio do homem que fala e que escreve, domínio esse que se estenderia não só às teorias (ideologias) que professa, mas também às práticas, aos comportamentos empíricos que adopta. A "Ciência", que é ciência da diferença e da contradição procuraria fazê-las desaparecer, situando-as nos lugares que lhes compete, as diferenças e contradições empíricas.
(Hegel, segundo teses contrárias às de Heidegger, ultrapassou a oposição entre forma e conteúdo, racional e real e descobriu um novo movimento de pensamento o qual mergulharia no Real abandonado e encontraria nele raízes. Um pensamento que teria procurado "restabelecer" o real com todas as suas características visionando-o como se fosse mais do que o mero conteúdo da razão.
O Real retomado no seu movimento e na sua vida, mas reflectido, informado, tornado claro e consciente. Hegel teria retomado o movimento natural do pensamento no pesquisar, no apreender das contradições).
As teses em presença, revelam-se incompletas, superficiais, como aparências momentâneas de verdade. Torna-se elucidativo transcrever urna breve passagem da "Grande Lógica" de Hegel:
"Damos o nome de Dialéctica ao movimento mais elevado da Razão, no qual estas aparências distintas, passam de urna para a outra e se ultrapassam".
"O verdadeiro é o Todo" (in Fenomenologia do Espírito I, 18), mas o todo com as suas articulações, isto é com os momentos diferentes em que se institui corno totalidade. É neste sentido que o absoluto (ou o verdadeiro) é "sujeito". Não há de um lado o sujeito do conhecimento e do outro a substância. O verdadeiro (ou o absoluto) é o sujeito do seu próprio desenvolvimento. No Termo do seu percurso reencontrar-se-ia.
A consciência - que é o ser "para si" - ao encontrar o "em si" que é imprescindível para a sua afirmação, tomaria configurações diversas até ao momento em que descobriria a não diferença do "em si" e do "para si"; isto é o "Espírito".
Heidegger, contra tudo quanto se disse, afirmou que a Dialéctica não se deixaria explicar logicamente a partir da negociação e da posição próprias ao representar. Hegel, não teria concebido a experiência dialecticamente: ele pensaria a dialéctica a partir da essência da Experiência.

27.12.03

Confidências e desabafos de Savarin (13)


O prometido é devido, por isso, eis a receita da:


Tarte de Salmão Fumado
Tarte de salmão fumado

Ingredientes:


1 embalagem de massa folhada congelada ( de preferência já preparada para tartes)
1 embalagem de salmão fumado
4 ovos
200ml de natas
pimenta
noz moscada

Preparação:


Forrar a tarteira com a massa. Entretanto, bater os ovos, juntar-lhes as natas e temperar a gosto com pimenta e noz moscada.
Cortar o salmão em tiras e depositá-lo sobre a massa folhada. Despejar a mistura de ovos e natas sobre o salmão. Levar ao forno previamente aquecido a 200º até dourar.

25.12.03

Confidências e Desabafos de Savarin (11)

Crónica do Natal

No dia 23 desloquei-me com a minha filha até Évora, onde encontrei, por acaso, a minha amiga Jesuína. Um inesperado e verdadeiro presente de Natal. Depois de algumas voltas almocei em casa dela. Os filhos estão lindos e adoráveis.
Ambas açorianas, uma da Terceira, outra de S.Miguel, revivemos a tradição açoriana da mijinha do menino Jesus... Passo a explicar, nos Açores manda a tradição preparar licores, de leite e de tangerina, para oferecer na vêspera de Natal a quem vai de casa em casa e pergunta:"O Menino Jesus mija?" Os licores servem-se na companhia dos doces natalícios próprios de cada ilha.
A Jesuína é daquelas amigas que nos faz transbordar o ego. Se a nossa disposição e amor próprio se encontram em baixo, logo, sobem até aos píncaros dos Himalaias.
Depois deste feliz episódio parti para Lisboa onde me esperava a Ivone, outra amiga incondicional, com quem não estava há dois anos. Mas, parece sempre que nos despedimos no dia anterior.
Recebeu-nos na sua casa cheia de luz e presenteou-nos com uma deliciosa refeição onde se destacava uma saborosa tarte de salmão, cuja receita registarei, aqui, mais logo.
Conhecer outras espécies do género digitalis:

Digitalis grandiflora


Presentes dos deuses: Joseph Turner e o amanhecer

Joseph Turner, Sunrise beteween to Headlands

24.12.03

Espírito de Natal

Natal é reencontrar amigos que nos apreciam incondicionalmente.

22.12.03

Claude Monet, Nympheas le Matin
Já a aurora de róseos dedos e fresco sopro entra pela janela. Ao modo de Homero apetece celebrar o enigma diário do amanhecer, lembrar o dia
esplendoroso de ontem e viver cada dia como se fosse um milagre.

20.12.03


Sambucus Nigra L.

O SABUGUEIRO (IV)

Então as suas bagas enchem-se, as umbelas cheias curvam-se, dobradas ao
peso do seu leite negro.

Caem do alto, muito juntas, no tanque verde das suas folhas, e dispersas
escorrem ainda pelo bordo em densas gotas.

De pés vermelhos descarnados pendem sobre o tanque seguinte ou saltam
sobre a folhagem para o vazio.

Como em nenhum jogo de água, derrama-se em centenas de cascatas,
e transpõe o bordo verde sem que um último tanque o recolha.

Assim transcende o desenho das fontes romanas, transpõe o muro em ruínas,
transbordante.

Fica a desmesura do seu movimento, fixa-se a si próprio numa imagem, por
alguns dias de fim de Verão, até que as suas bagas caiam uma a uma e as um-
belas escuras se iluminem.

Por fim tinge de gotas negras as pedras a seus pés.

Michael Donhauser, Das Coisas, (Quetzal Editores, 2000), p.14.


Sambucus Nigra L.

O Papel das Mulheres na História da Psicanálise (2)

Margaret Schonberger Mahler (1897-1985)

A investigação de Margaret Mahler foi fundamental para o trabalho de Heinz Koht, Otto Kernberg e outros pioneiros da psicologia do ego. A sua pesquisa centrou-se no estudo dos três primeiros anos de vida da criança. O seu trabalho baseou-se em larga medida na observação naturalista o que lhe permitiu esboçar algumas conclusões acerca da relação entre o inevitável desenvolvimento físico e o concomitante desenvolvimento psicológico das crianças durante os três primeiros anos de vida. Margaret apercebeu-se desde muito cedo que o nascimento biológico não coincidiria com o nascimento psicológico. Ao nascer a criança não se percepciona como um ser distinto do seu meio ambiente. Para que o indivíduo seja bem sucedido na superação das importantes fases e subfases deste período vai passar por uma grande variedade de estádios psicológicos. Muitas das experiências precoces são necessárias para o desenvolvimento saudável das estruturas do ego e do superego. Os conflitos não resolvidos ao longo dos três primeiros anos de vida tiveram especial interesse para os investigadores da psicologia do ego devido à sua relevância na formação de graves desordens de carácter, especificamente ao nível do desenvolvimento de personalides borderline e narcísicas.

Bibliografia

Mahler, Margaret, The Psychological Birth of the Human Infant: Symbiosis and Individuation,, (New York, Basic Books, 1975).
Mahler, Margaret, Selected Papers of Margaret Mahler, (London, Jason Aronson, 1982).
Kaplan, HI; Sadock, BJ., Compreesive Textbook of Psychiatry, (Baltimore, Williams & Wilkins, 1995).

A propósito do post de Paulo Pereira de Sexta-feira, Dezembro 19, 2003, no Blogo Social Português intitulado "O Ambientalista optimista" pensei que devia referir o trabalho desenvolvido pelo ecologista americano Eugene P. Odum.


"A compreensão da sucessão ecológica providencia uma base para a solução do conflito entre o homem e a natureza." Eugene P. Odum (1969)

Eugene P. Odum talvez tenha rivalizado apenas com Robert MacArthur na obtenção do título do ecologista mais influente das últimas décadas. A maior influência de Odum foi veiculada através da obra Fundamentos da Ecologia ( 1953 ), no entanto, a sua sua acção englobou a formação de um quadro de estudantes e a elaboração de importantes contributos conceptuais e metodológicos. A emergência da ciência do ecossistema como subdisciplina mais destacada da Ecologia na segunda metade do século XX, pode ser atribuída, em larga medida à enérgica liderança de Odum. (James Brown, 1991 )

Muitas das teses de Odum sobre o ecossistema estão coligidas no artigo "A Estratégia de Desenvolvimento do Ecossistema", publicado em 1969, no jornal Science. Poucos artigos, em Ecologia foram tão influentes e controversos quanto este; até porque na época em que foi escrito a Ecologia americana estava dividida em duas competitivas escolas, a do ecossistema, dirigida por Odum, e a ecologia evolucionária, liderada por MacArthur. O artigo de Odum constituiu uma tentativa para ligar as duas subdisciplinas. Todavia, não foi uma tentativa nem de síntese nem de integração, bem sucedida na altura, porque reforçou o preconceito segundo o qual os teóricos do ecossistema tinham uma deficiente compreensão acerca da evolução; sendo até ridicularizada, pelos ecologistas evolucionários e considerada ingénua porque parecia requerer a existência de um processo análogo ao da selecção natural, operando ao nível do ecossistema.
Afirma, neste sentido, Worster: Odum libertou-se das suas dificuldades taxonómicas para descrever a vida dos ecossistemas, defendeu que uma "estratégia de desenvolvimento" era uma espécie de plano de jogo que proporcina tanto à natureza na sua totalidade como aos seus componentes individuais, uma direcção global, de conjunto. A palavra "estratégia", sugeriu, que os ecossistemas seriam seres conscientes que poderiam desejar objectivos para si próprios e lutar para os obter, mas Odum não queria na verdade, chegar a essa conclusão; ele apenas queria dizer que os ecossistemas são entidades auto-organizadas como os organismos. A sua estratégia, seria "alcançar uma grande e diversificada estrutura orgânica tanto quanto possível e dentro dos limites levantados pelas entradas de energia disponivel e das condições fisicas prevalecentes da existência". (...) Por outras palavras, o princípio unificador da natureza é que os organismos aprendem a trabalhar juntos para gerir o mundo fisico à sua volta com a máxima eficiência e beneficio mútuo. (D. Worster, 1995,366-367).

Só nos últimos tempos é que os contributos de Odum foram objecto de reapreciação e revalorização, por parte de alguns ecologistas evolucionários e biológos sugerindo que algumas comunidades ecológicas poderiam conter os tipos de estratégias evolucionárias visionadas por Odum , enquanto que outros reavaliaram oconceito de superorganismo de Clemens (James Brown, 1991 ).
Em "A Estratégia de Desenvolvimento do Ecossistema", Odum utilizou o fenómeno da sucessão ecológica para especular sobre os princípios gerais que governam a estrutura e a dinâmica dos ecossistemas. Aí tentou estabelecer, por um lado, as relações entre os processos do fluxo de energia e os ciclos de nutrição; e, por outro lado, os fenómenos do crescimento da população, a organização da comunidade e a adaptação.
Ele começou por criticar a deficiente utilização do conceito de sucessão ecológica e propôs uma reformulação do mesmo. Procurou elaborar uma perspectiva unificadora e globalizante da ecologia, através da apresentação do modelo tabular, preconizou e desenvolveu o recurso à experimentação laboratorial, à matematização e à simulação através da aplicação de modelos informáticos . Estabeleceu analogias entre as estratégias de desenvolvimento dos ecossistemas e a evolução das sociedades humanas, argumentou que a ecologia deveria incluir os seres humanos e as suas actividades como partes integrantes dos ecossistemas, eles não podem existir fora da natureza e os conflitos aparentes entre os homens e a natureza terão que ser solucionados ou ambas as partes sofrerão.

Também procedeu à análise das hipóteses de solução já conhecidas, para a crise ecológica contemporânea, tais como a estabilidade de pulso e a agricultura de detritos, alertou para a sua insuficiência e descreveu um modelo original de solução, o modelo de compartimento defendendo, deste modo a importância do desenvolvimento da teoria do ecossistema para a ecologia humana.

Odum usou um grande número de exemplos para ilustrar a "relevância do desenvolvimento da teoria do ecossistema para a ecologia humana". O ecologista, profeticamente, preocupou-se com os perigos resultantes da manipulação para a sua estabilidade, e perspicazmente previu os problemas que resultariam das enchentes anuais dos Everglades (também referidos por Clements ( 1936, p. 73 ). Apontou os benefícios económicos e ambientais decorrentes de uma redução da dependência da agricultura dos pesticidas e fertilizantes químicos. E, de modo mais ambíguo, preconizou uma forma de utilização da terra através da distribuição por zonas que limitasse a natureza e a distribuição das actividades humanas na paisagem no sentido de levar a população humana e a economia a um equilíbrio com os sistemas de suporte da vida da terra. Muitos dos problemas debatidos por Odum, neste artigo, são mais relevantes agora do que quando ele o publicou. ( James Brown, 1991 ). Dada a actualidade do seu conteúdo aconselha-se a leitura das teses nele desenvolvidas, até porque o artigo está traduzido em português, ver, Odum, E.P. , Fundamentos de Ecologia, ( Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1997).

A perspectiva de Odum sobre a natureza enquanto um conjunto de séries de ecossistemas, em equilíbrio, perfeitos ou incipientes, conduziu-o a lutar pela preservação da paisagem, defendendo a sua integridade intrínseca tanto quanto isso for possível. Eugene procurou , ainda articular as concepções mecanicistas e organicistas da Terra, através da metáfora da nave espacial. No entanto, e dentro do mesmo espírito, incorporou a metáfora de Gaia nos seus artigos mais recentes (D.Worster, 1995 ) denotando uma enorme flexibilidade, humildade intelectuais e revelando uma profunda coerência com os seus objectivos ambientalistas.

Curiosidades: Clements e Odum são duas referências fundamentais para a compreensão da constituição da ecologia enquanto ciência, o primero como precursor, o segundo como representante da maturidade desta ciência. Odum formou-se na Universidade de IIlinois, logo na escola ecológica desenvolvida por Cowles, Clements, Cooper, Shelford entre outros. Eugene Odum alterou a metodologia e a terminologia utilizadas por Clemens substituiu o conceito de climax pela noção de ecossistema maduro, descritosegundo um modelo tabular de sucessão ecológica e a metáfora do superorganismo pela da nave espacial. As teorias da sucessão ecológica levantam a questão sobre se o seu próprio objecto de estudo é um fenómeno real ou se não passará de uma metáfora.
A mudança nas características destas comunidades é descrita em termos de estratégia ( Odum, 1969 ), um ecossistema pode ter uma estratégia para manter ou recuperar a estabilidade se perturbada.
O irmão de Eugene também é ecologista e ambos trabalharam em conjunto.


Bibliografia

Clements, Frederic, E. , "Excerpt ftom Plant Sucession: An Analysis of the Development of Vegetatíon", (1916), in Frank B.Golley, 00. , Ecolgical Sucession, Benchmark Papers in Ecology/5, ( Stroudsburg/Pennsylvanía: Dowden, Hutchinson & Ross, Inc. , 1977) p. 185-186.

Clements, Frederic, e. , " Nature and Structure of the Climax", ( 1936 ), in A Leslie Real & James Brown, eds. , Foundations of Ecology, Classic Papers with Commentaries, ( Chicago, 1991) pp. 157-176.

Clafton, W.M. e Wells, B. W. , "The Old Field Prisere: An Ecologícal Study", ( 1934), in Frank, Golley, ed. , Ecological Succession, Benchmark Papers in Ecology/5, ( Stroudsburg/Pennsilvanía: Dowden, Hutchinson & Ross, Inc. , 1977), p. 55-76.

Cowles, H.C. , "The Ecological Relations of the Vegetation on the Sand Dunes of Lake Michigan ", (1889), in ALeslie Real & James Brown eds. , Foundations of Ecology, Classic Paperswith Commentaries, (Chicago, 1991 ).
Drury, W.H. e Ian, c.T. Nisbet, " Succession", ( 1973 ),

Gleason, "The Individualistíc Concept of the Plant Association", ( 1962 ) , in Frank, Golley, ed. , Ecological Succession, Benchmark Papers in Ecology/5, ( Stroudsburg/Pennsylvanía: Dowden, Hutchinson & Ross, Inc. , 1977), p. 187-206.

Keever, C. , "Causes of Successíon on Old Fields ofthe Piemont, North Carolina", ( 1950 ), in Frank Golley, ed. , Ecological Succession, Benchmark Papers in Ecology/5, ( Stroudsburg/Pennsylvanía: Dowden, Hutchinson & Ross, Inc. , 1977), p. 146-165.

MacArthur, "Fluctuations of Animal Populations and a Measure of Communíty Stability", in Frank Golley, ed., Ecological Succession/5 Benchmark Papers in Ecology,( Stroudsburg/Pennsylvanía, Dowden, Hutchinson & Ross, Inc., 1977), p. 342-363.

Marks, P.L. e Bormann, F.H. , "Revegetation Following Forest Cutting: Mechanísms for Retum to Steady-State Nutrient Cycling", ( 1972 ), in, Frank Golley, ed., ,Ecological Succession, Benchmark Papers in Ecology/5, Stroudsburg/Pennsylvanía: Dowden, Hutchinson & Ross, Inc., 1977), p. 174-177.

Odum, E.P. , Fundamentos de Ecologia, ( Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1997).

Odum, E.P. e Smallay, Altred, "Comparison of Population Energy Flow of a Herbivorovs and a Deposit- Feeding Invertebrate in a Salt Marsh Ecosystem", ( 1959 ), in Richard Wiegert, G. , ed. , Ecological Energetics, Benchmark Papers in Ecology/4, ( Stroudsburg/Pennsylvania: Dowden, Hutchinson & Ross, Inc. , 1976), p. 372-377.

Odum, E.P., "Production and Turnover in Old Field Succession", ( 1960 ), in Frank Golley, ed. , Ecological Succession, Benchmark Papers in Ecology/5, ( Stroudsburg/Pennsylvania: Dowden, Hutchinson & Ross, Inc. , 1977), p. 102-106.

Odum, E.P. , "The Strategy ofEcosystem Development", ( 1969 ), in ALeslie Real & James Brown, eds. , Foundations of Ecology, Classic Papers wjth Commentaries, ( Chicago, 1991 ), p. 596 - 603.

Oosting, H.J. e Humphreys, M.E., "Buried Viable Seeds in a Successional Series of Old Field and Forest Soils", ( 1940 ), in Frank Golley, ed., Ecological Succession, Benchmark Papers in Ecology/5, ( Stroudsburg/Pennsylvania: Dowden, Hutchinson & Ross, Inc., 1977), p.125-145.

Shelford, Victor, "Ecological Succession. lI. Pond Fishes ", ( 1911 ), in, Frank Golley, ed., Ecological Succession, Benchmark Papers in Ecology/5, ( StroudsburgIPennsylvania: Dowden, Hutchinson & Ross, Inc., 1977 ), p. 77-101.

Tansley, AG. ," The Use and Abuse ofVegetational Concepts and Terms", ( 1935 ), in ALeslie Real & James Brown, eds. , Foundations of Ecology, Classic Papers with Commentaries, (Chicago: 1991 ), p. 318-341.

Whittaker, R.H. , "A Consideration ofClimax Theory: The Clímax as a Population and Patern", ( 1953 ), in Frank Golley, ed. , Ecological Succession, Benchmark Papers in Ecology/5, (Stroudsburg/Pennsylvania: Dowden, Hutchinson & Ross, Inc. , 1977), p. 240-269.

Worster, D. , "Healing the Planet", in Nature's Economy, A History of Ecological Ideas, ( Cambrige, 1995), p. 342-387.



19.12.03

O Papel das Mulheres na História da Psicanálise

Ao ler os compêndios de psicologia indigno-me, sempre, com o facto dos contributos das muitas mulheres, que trabalharam nas áreas da psicologia, psiquiatria e psicanálise raramente serem referidos. Por este, e outros motivos, vou iniciar uma série de breves referências biográficas e bibliográficas sobre algumas das mulheres que desempenharam um papel importante na difusão da psicanálise, da psiquiatria e da psicologia. Começarei por Clara Mabel Thompson (1893-1958).
Clara Thompson iniciou a sua carreira como psicanalista clássica, leccionando e treinando outros analistas no conservador New York Psychoanalytic Institute. Ao longo da sua formação profissional Clara teve, repetidamente, que fazer frente às autoridades científicas dominantes. Começou por aderir ao contributo de Freud, posteriormente, apoiou Ferenzi quando este perdeu o favor de Freud e Jones. Imbuída do mesmo espírito, opôs-se ao New York Psychoanalytic Institute em defesa de Karen Horney. Desempenhou um papel de liderança na constituição de um grupo independente de psicanálise, tendo sido a primeira presidente do Washington-Baltimore Psychoanalitic Institute, primeira vice-presidente da American Association for the Avancement of Psychoanalysis, a primeira directora executiva do William Alanson White Institute e administradora da Academy of Psychoanalysis. Em suma foi uma professora e analista dedicada, hábil supervisora e eloquente conferencista.
Clara Thompson ao longo da sua carreira, publicou inúmeros artigos e livros, nomeadamente, sobre psicologia feminina.

Bibliografia:

Thompson, Clara M.,Psychoanalysis: Evolution and development, (New York,
Hermitage House, 1950).
Thompson, Clara M. (1953). Towards a psychology of women. Pastoral Psychology, 4 (34), 29-38.
Thompson, Clara M. (1957). The different schools of psychoanalysis. American Journal of Nursing, 57, 1304-1307.
Thompson, Clara, Mabel, An Outline of Psychoanalysis, (Randon House, 1955).
Green, Maurice, R. (ed.), Interpersonal Psychoanalysis, The Selected Papers of Clara M.Thompson, (New York, Basic Books, 1964).
Thompson, Clara, Mabel; Green, Maurice, R., On Woman, (New American Library Trade, 1986).
Lembranças súbitas
Quando cheguei a casa, lembrei-me que hoje ao acordar, ainda de madrugada, de súbito me recordara das canções de Oswaldo Montenegro, cantor brasileiro, que escutei vezes sem conta e com muito agrado durante o Verão de 1982.
Transcrevo, abaixo, algumas das letras das minhas canções preferidas do álbum, Oswaldo Montenegro, retiradas da página oficial do artista.

Por Brilho (Oswaldo Montenegro)

Onde vá
Onde quer que vá
Leva o coração feliz
Toca a flauta da alegria
Como doce menestrel

Onde vá,
Onde quer que eu vá
Vou estar de olho atento
A tua menor tristeza
Por no teu sorriso o mel
Onde vá
Vá para ser estrela
As coisas se transformam
E isso não é bom nem mal
e onde quer que eu esteja
O nosso amor tem brilho
vou ver o teu sinal

Fado Doido (Oswaldo Montenegro)

Era loucura
Como é louco tudo o que eu fiz
Agora, seu eu sou feliz
Ai! Agora quem me diz?
Era loucura
E agora quem me diz
Se um dia eu vou
Se agora um dia eu fui feliz
Ai! E agora quem me diz
Oh! Linda passará na madrugada
É como se eu não percebesse nada
Liga não, é coisa de cantor
É como a chuva doida na floresta
É como a festa vir depois da festa
É como o gozo vir depois do amor
Ai! E agora quem me diz?


Bandolins (Oswaldo Montenegro)

Como fosse um par que nessa valsa triste se desenvolvesse
ao som dos bandolins e como não
E por que não dizer
que o mundo respirava mais se ela apertava assim seu colo
e como se não fosse um tempo
em que já fosse impróprio se dançar assim
ela teimou e enfrentou o mundo se rodopiando ao som dos bandolins

Como fosse um lar seu corpo a valsa triste
iluminava e a noite caminhava assim
e como um par o vento e a madrugada iluminavam a fada do meu botequim
valsando como valsa uma criança que entra na roda a noite tá no fim,
e ela valsando só na madrugada
se julgando amada ao som dos bandolins


Agonia (Mongol)

Se fosse resolver
iria te dizer
foi minha agonia
Se eu tentasse entender
por mais que eu me esforçasse
eu não conseguiria
E aqui no coração
eu sei que vou morrer
Um pouco a cada dia
E sem que se perceba
A gente se encontra
Pra uma outra folia
Eu vou pensar que é festa
Vou dançar, cantar
é minha garantia
E vou contagiar diversos corações
com minha euforia
E a amargura e o tempo
vão deixar meu corpo,
minha alma vazia
E sem que se perceba a gente se encontra
pra uma outra folia


18.12.03

Confidências e Desababos de Savarin (11)

Uma Ementa de Natal

Menu adaptado do nº 231 do Jornal de Cozinha da Revista Cláudia, de 1980
As originais sugestões de Willy Blattner: iguarias em que se harmonizam sabores com rara maestria.

O cozinheiro suíço-alemão Willy Blattner começou a sua aprendizagem no restaurante Salmen e Gewerbeschule em Aarau, perto de Zurique. na Suíça. Depois de formado, trabalhou no Palace Hotel, em Lucerna e Saint-Moritz, como chef de commis. Passou pelo hotel Saint Margaret. na ilha de Guernesey. e, de 1972 a 1974, pelo hotel Sheraton, na ilha da Madeira. Em 1976, Willy deixou o Hotel Tollman Toers, em Joanesburgo, África do Sul, e entrou para a cadeia Hilton International. quando foi para o São Paulo Hilton Hotel. para um período de estágio. Em Novembro de 1977, recebeu o título invejável de chefe de cozinha do Brasilton São Paulo Hotel.




. PERU COM MOLHO DE VINHO E TANGERINAS AO GRAND MARNIER

1peru de 4 a 5kg
sal e pimenta branca
sumo de 2 limões
5 ramos de salsa
1 cebola cortada ao meio
1 chávena de óleo
3 ramos de alecrim
60 g de toucinho defumado em fatias

Molho

12 colher (sopa) de manteiga
1/4 de chávena de açúcar
1/2 chávena de vinho branco
2 chávenas de água
1/2 chávena de sumo
de tangerina
sumo de 1 limão
3/4 de chávena de Grand
Marnier .
l/2 chávena de mel de abelha

Gomos de tangerina

4 tangerinas, 1 chávena de água, 1/2 de chávena de Grand Marnier, 1/2 chávena de açúcar

Tempere o peru com sal e pimenta a gosto e o sumo dos limões, por fora e por dentro. Coloque os ramos de salsa e a cebola dentro do peru. Coloque o peru numa assadeira, de peito para baixo e despeje o óleo por cima. Disponha o alecrim por cima do peru e asse no forno em temperatura moderada (180 a 200º), Depois de 1 hora, vire o peru e coloque as fatias de toucinho defumado por cima do peito. Pincele com o líquido da assadeira.
. Depois de assado, retire e corte. Coloque numa bandeja e mantenha quente. Retire o líquido da assadeira e leve ao lume. Junte a manteiga e o açúcar e deixe cozinhar por uns 5 minutos. Acrescente o vinho branco, a água, o sumo de tangerina, o sumo de limão e deixe ferver por uns 10 minutos. Em seguida, junte o Grand Marnier, o mel, e deixe ferver lentamente por 10 a 5 minutos. Tempere com sal e pimenta branca a gosto. Para engrossar o molho, se necessário, acrescente 3 colheres de farinha de trigo desfeita num pouco de manteiga derretida e mexa bem. Passe o molho por uma peneira ou pano e despeje em cima do peru. Decore com os gomos de tangerinas. Para fazer os gomos, descasque as tangerinas e separe os gomos. Numa panela, coloque a água, o Grand Marnier e o açúcar. Leve ao lume até levantar fervura e junte os gomos de tangerina. Ferva por 3 a 4 minutos. Retire do lume e deixe no molho por 3 a 4 horas. Sirva o peru com repolho-roxo e arroz branco ou batatas duchesse. Dá 8 doses.

COQUETEL DE ABACATE E CAMARÕES

3 abacates médios maduros
sumo de um limão
6 folhas de alface
36 camarões-rosa, cozidos e descascados
6 rodelas de ovos cozidos,
3 azeitonas pretas,
6 ramos de agrião
1 limão cortado em fatias;
1 tomate, cortado em fatias,
1 1/4 chávena de molho Golf (veja receita a seguir)

Corte os abacates ao meio no sentido do comprimento. Retire o caroço, descasque e respingue com o sumo de limão. Forre um prato ou bandeja com as folhas de alface e coloque por cima os abacates. Disponha os camarões, as rodelas de ovos e as azeitonas sobre os abacates e decore em volta com agrião, fatias de limão e de tomates. Molhe com um pouco do molho Golf e sirva o restante em separado.

MOLHO GOLF
1 xícara de maionese
2 colheres (de sopa)
de ketchup 1 colher (sopa) de mostarda

Misture todos os ingredientes. Este prato pode ser servido num bufett ou como entrada. Rende 6 porções.

PERNIL DE PORCO COM AMEIXAS

300g de ameixas secas, 2 chávenas de vinho branco, 1 pernil de porco de 2 a 2 1/2 kg, sal e pimenta a gosto, alecrim a gosto, sumo de 1 limão, 1 chávena de óleo, 2 chávenas de água, 1 chávena de natas, 1 chávena de água, 2 colheres (de sopa) de farinha de trigo, 1 colher (de sopa) de manteiga derretida 1/2 chávena de geleia de morango,


Coloque as ameixas no vinho branco e deixe-as de molho de um dia para o outro. Retire de 15 a 20 ameixas do vinho e reserve. Cozinhe rapidamente as ameixas restantes no vinho branco e tire os caroços. Reserve o vinho. Tempere o pernil com sal, pimenta, alecrim e sumo de limão. Faça 15 a 20 cortes no pernil e enfie uma ameixa (das reservadas) em cada um. Coloque o pernil numa assadeira e despeje o óleo por cima. Leve ao forno em temperatura moderada (180 a 200°). Depois de assado, retire o pernil e coloque-o numa bandeja. Ponha a assadeira ao lume, junte o vinho reservado e a água e deixe ferver, em lume brando, por 10 minutos, raspando o fundo da assadeira de vez em quando. Adicione as natas e tempere a gosto. Misture a chávena de água com a farinha de trigo e a manteiga derretida. Faça uma pasta e junte pouco a pouco ao molho, mexendo até engrossar. Acrescente a geleia de morango. Passe o molho por uma peneira, junte as ameixas cozidas. Leve ao lume e deixe levantar fervura. Despeje o molho em cima da carne e, sirva. Para acompanhar, arroz branco ou batatas sauté e salada mista. Dá 8 porções.

TRONCO DE NATAL

5 ovos separados
1/2 chávena de açúcar
1/3 de chávena de farinha de trigo
1/4 de chávena a de Maizena
3 colheres (de sopa)
de chocolate em pó

Creme de manteiga
1 chávena de manteiga à
temperatura ambiente
1 1/4 chávena de açúcar de
confeiteiro
6 gotas de essência
de baunilha
100 g de chocolate meio
amargo,
2 ovos
Para enfeitar
figos e rodelas de abacaxi
cristalizados (opcional)

.Bata as gemas com 1/4 de chávena de açúcar até obter uma mistura cremosa. Junte a farinha, a .Maizena e o chocolate. Bata as claras em neve com o restante do açúcar. Junte as claras em neve à mistura de chocolate e mexa cuidadosamente. Forre uma assadeira de 39 x 26 cm com papel-manteiga. Unte o papel e espalhe a massa por cima. Leve ao forno em temperatura moderada (170º) e asse. Deixe esfriar. Espalhe um pouco de creme de manteiga por cima e enrole. Corte as pontas e faça dois ramos. Cubra com o restante do creme de manteiga e, com um garfo, faça: riscos para parecer um tronco de árvore. Leve à geladeira até a hora de servir. Então, se desejar, enfeite com figos e rodelas de abacaxi cristalizados. Para fazer o creme de manteiga, bata a manteiga amolecida com o açúcar de confeiteiro e a baunilha. Junte o chocolate derretido e os ovos e bata até ficar cremoso.

SURPRESA DE CEREJAS

250 g de ricota passado por peneira 11/2 litro de natasfrescas 1/2 chávena de açúcar 5 gotas de essência de baunilha, 3 colheres (de sopa) de rum 200 g de abacaxi ou ananás fresco, cortado em cubinhos cerejas em calda ou ao marasquino

Misture o ricota com 6 colheres (de sopa) de creme de leite até obter uma massa macia. Junte 4 colheres (de sopa) de açúcar, a baunilha, o rum e o abacaxi. Bata as restante natas em ponto de chantilly e junte o restante do açúcar, mexendo bem. Acrescente a metade do chantilly à mistura da ricota. Divida a massa em duas partes e encha 6 taças de champanhe com uma parte da massa. Coloque cerejas em cima. Cubra com a outra metade da massa e leve à geladeira. Decore com o restante do chantilly e uma cereja.

TORTA DE CENOURA ARGOVIENNE

1 chávena de açúcar, 7 gemas de ovo, 250.g de castanhas de caju, moídas 1 colher (de chá) de canela em pó casca ralado de um limão 2 colheres (de sopa) de aguardente, 1/3 chávena de pão ralado, 1/2 chávena de farinha de trigo, 1/2 colher (de chá) de fermento em pó 200 g de cenoura ralado, 5 claras de ovo 1/2 chávena de açúcar.

COBERTURA: 1 3/4 chávena de açúcar de confeiteiro 5 colheres (de sopa) de brandy 3 colheres (de sopa) de suco de limão 4 castanhas de caju inteiras confeitos coloridos

Bata bem o açúcar e as gemas. Junte a castanha de caju, a canela, a casca de limão, a aguardente, o pão ralado ou a, a farinha de trigo e o fermento em pó. Acrescente a cenoura. Bata bem as claras com o açúcar. Unte uma forma de bolo com manteiga e polvilhe com pão ralado. Espalhe a massa na forma e leve ao forno em temperatura moderada (180 a 200º), por uns 35 minutos. Depois de assada, desenforme imediatamente e deixe esfriar. Para fazer o glacê, misture todos os ingredientes. Espalhe apenas sobre o bolo, deixando os lados descobertos. Enfeite com os cajus, formando uma flor, e com os confeitos coloridos.



Favas num prato, Florença, Galeria Palatina, 24,5x34,5
Giovanna Garzoni, Favas num prato
Instantes

Registo aqui uma conversa agradável com uma pessoa amiga com quem não falava faz tempo.


Casada com a arte
Giovanna Garzoni (1600-1670) pintora e ilustradora italiana. Na época, a "grande arte da pintura a óleo sobre tela" não era uma especialidade onde uma mulher pudesse fazer carreira. Assim, Giovanna teve que se restringir ao trabalho de ilustradora científica, à caligrafia e ao retrato em miniatura, áreas consideradas socialmente aceitáveis e dignas para uma mulher. Domínios onde revelou o seu talento excepcional e obteve grande sucesso. Foi, aliás, uma das poucas mulheres pintoras que teve êxito em Itália. Trabalhou em França e Inglaterra antes de o fazer na corte dos Médicis em Florença.

Bibliografia:
Silvia Meloni Trkulja; Elena Fumagalli, Natures Mortes, Giovanna Garzoni, Bibliothèque de l'Image, Paris, 2000).

17.12.03

Duas Vias para a Compreensão da Hermenêutica: Heidegger e Paul Ricoeur
III- A Destruição da Metafísica (6)

A retomada, a reposição do "eu sou", não relevaria apenas uma fenomenologia no sentido de uma descrição intuitiva, mas resultaria de uma interpretação,
precisamente porque o "eu sou" teria sido esquecido, ele deverá ser reconquistado por uma interpretação que o desoculte. O "eu sou" tornou-se tema de uma hermenêutica. A reposição do Cogito, seria possível mediante um movimento regressivo partindo do fenómeno do ser-no-mundo e retornando à questão do "quem" deste ser-no-mundo. O "eu" permanece uma característica essencial do "ser-aí" e por isso deveria ser interpretada existencialmente. Antes da apresentação do ensaio heideggariano acerca do conceito de experiência em Hegel, segue-se uma breve síntese de alguns aspectos da Fenomenologia do Espírito.

O objecto da Fenomenologia do Espírito seria apresentar a "experiência" da consciência no acto de fazer-se "Espírito" e analisar as figuras sucessivas que ela assumiria no decorrer da sua ascensão. No primeiro estádio, a consciência é o saber do imediato ou do existente, e certeza sensível, ou seja "isto e a minha percepção disto".
É nessa certeza que se detem o realismo ingénuo, é nela que ele baseia a sua crença, é ela que a lei invoca quando apela para a inelutável brutalidade dos factos. Mas o que se passa exactamente na sua apreensão imediata e sensivel daquilo que se lhe dá?

Num primeiro momento, sente-se como a plenitude em que se expande a totalidade do Real se confunde com aquilo que se apreende, percepciona. Todavia, por pouco que se queira exprimir esta infinita riqueza aparente, tem de se limitar a uma verificação: há isto que há, há o "eu" que sabe que isto é : "A coisa.. .é " , para o saber sensivel é o essencial, este puro ser ou esta simples imediatidade constitui a verdade da coisa. A certeza enquanto relação é uma pura relação imediata. O singular conhece um puro este, conhece o que é singular: "O singular que conhece vai buscar todo o seu ser aquilo que conhece: Ele só ê na medida em que faz a experiência do seu objecto". Por conseguinte, "o objecto é", ele é a verdade e a essência, é indiferente ao facto de ser ou não ser, permanece mesmo que nao seja conhecido, mas o saber não existe se o objecto não existe. "A certeza sensível é em si mesma universal, como a verdade do seu objecto".

O "aqui e agora" torna-se não-essencial, a sua verdade reside na intencionalidade que o constitui como tal, no eu que o visa. Com efeito: "A desaparição do aqui e agora singulares, visados por mim, é evitada porque sou eu que os retenho. O agora é dia porque eu o vejo, o aqui é uma arvore pela mesma razão. No entanto, tanto nesta relação como na anterior, a certeza sensível faz em si mesma, a experiência da mesma dialéctica. Eu, um este, vejo a árvore e afirmo-a agora aqui, contudo um outro eu vê a casa e afirma que o aqui não é uma árvore mas uma casa. As duas verdades têm a mesma autenticidade, precisamente a imediatidade do ver, a segurança dos dois eus no seu conhecimento, todavia uma desaparece na outra.
"Mas, o que não desaparece nesta experiência é o que eu enquanto universal, cujo ver não é nem a visão da árvore, nem a visão desta casa, mas o ver simples mediatizado pela negação desta "casa..." que permanece simples e indiferente para com tudo o que está em jogo, a casa, a árvore, etc. O "eu é apenas universal...".

Uma Fenomenologia do Espírito" apresenta-se, assim, como uma descrição dos caminhos múltipIos e ordenados que a consciência percorre quando tenta dramaticamente, reconhecer-se como "Espírito", isto é, quando aceita viver como consciência os momentos da sua constituição. Como tal esta Fenomenologia é, simultaneamente, a introdução e a primeira parte do sistema.








15.12.03

A Lenda da Rosa do Natal

Eis o epílogo de um belo conto de Natal:

Helleborus niger
"Mas, a floresta de Goinga nunca mais celebrou o nascimento do Salvador e de toda a sua magnificência ficou apenas a planta que o Abade João tinha colhido. Puseram-lhe o nome de rosa do Natal, e todos os anos no fim de Dezembro, ela surge da terra com as suas hastes verdes e flores brancas, como se nunca pudesse esquecer que noutros tempos crescera e florira no maravilhoso jardim da floresta."
Selma Lagerlöf, A Lenda da Rosa do Natal

12.12.03


Confidências e Desabafos de Savarin

Música à Sobremesa


As duas receitas que se seguem são uma criação de Auguste Escoffier (1846-1935). A primeira constituiu uma forma de homenagem a uma heroína de Offenbach. A segunda foi elaborada em honra de Nellie Melba, cantora lírica australiana, em 1892/1893, aquando da sua passagem por Londres e estadia no Savoy.

Peras Belle-HélènePeras Belle-Hélène

1,25 dI de água
Meio pau de canela
1 colher de sumo de limão 2 peras grandes
100 g de chocolate amargo extrafino
2 dI de natas espessas
1 colher de brandy
500 g de gelado de baunilha
12 violetas cristalizadas


Por pessoa, aproximadamente 2600 kJ/620 kcal. 7 g de proteínas 53 g de gorduras. 66 g
de hidratos de carbono

Tempo de preparação: 40 minutos

Deixe ferver ligeiramente a água com o açúcar, a canela e o sumo de limão numa caçarola tapada. Lave as peras, seque-as, descasque-as, corte-as ao meio e retire-lhes o troço central. Escalfe as metades de pêra, tapadas em lume brando, consoante o tamanho e nível de maturação, durante 8 a 12 minutos, deixando-as depois arrefecer no líquido, Corte o chocolate em pedaços pequenos e deixe-o derreter com as natas, mexendo sempre, em lume brando. Retire o molho de chocolate do lume e adicione-lhe o brandy. Coloque em cada taça de sobremesa meia pêra com a concavidade virada para cima. Distribua 4 bolas grandes de gelado sobre as mesmas. Deite o molho de chocolate quente sobre as peras. Decore as taças com as violetas cristalizadas.


Pêche MelbaPêche Melba

400 g de framboesas ou groselhas
2 colheres de icing sugar
70 gr de açúcar
1 colher de sumo de limão
4 colheres de Cassis (licor de groselhas pretas)
4 pêssegos maduros de polpa rija
1 vagem de baunilha
500 g de gelado de baunilha

Por pessoa, aproximadamente
1510 kJ/360 kcal. 6 g de proteínas 13 g de gorduras. 48 g
de hidratos de carbono

Tempo de preparação: 20 minutos

Lave as framboesas, deixe-as escorrer, passe-as por um passador e misture-as com o açúcar, o sumo de limão e o Cassis. Escalde os pêssegos rapidamente e pele-os. Numa cassarola prepare um xarope fazendo ferver 1l de água com as 70 gr de açúcar e a vagem de baunilha fendida. Mergulhar os pêssegos no xarope durante dez minutos. Retire-os com uma escumadeira, corte-os ao meio e descaroce-os. Coloque 2 metades de pêssego, com a concavidade virada para cima, em cada prato de se mesa. Forme 8 bolas de gelado distribua-as pelas concavides dos pêssegos. Cubra o gelado e os pêssegos com o molho de framboesas.
Pode decorar a sobremesa, se desejar, com rosetas de natas, framboesas inteiras e lascas de amêndoa torrada.














4.12.03




Sinto-me tão feliz! A esta hora não me encontro, como vem sendo hábito nas últimas tardes de Quinta-feira, a observar aulas do docente doente e o fim de tarde está frio mas deslumbrante! A Vida é bela!

1.12.03


Casada com um génio (2)

Sonya ficou noiva aos dezassete anos, sentia-se muito apaixonada, mas sentiu a sua paixão como uma verdadeira ingénua, ignorante acerca de determinados aspectos da vida. A noiva de Tolstoy foi educada numa atmosfera familiar alegre e calorosa, num meio sofisticado. O seu primeiro contacto com as realidades físicas do amor foi inesperado e brutal. Tolstoy acreditando na necessidade de uma lealdade completa para com a sua noiva, mostrou-lhe o seu Diário íntimo onde discorria sobre as suas aspirações e relatava as suas aventuras de celibatário, que qualificava de "deboches" porque sentia tremendos remorsos. Acusava-se de uma "terrível luxúria que se tornara uma verdadeira doença" declarando em simultâneo que não acreditava no amor romântico. Pensava que a sua mulher não devia desconhecer o pior de si mesmo e entregou as confissões da sua luxúria a uma jovem ingénua, que ficou profundamente magoada e chorou durante toda a noite. Era um mau começo; pouco tempo após o casamento, ela escrevia: "Todas as manifestações físicas me causam tal repugnância!... É terrível. horrorosamente triste!"
Além disso a virulência das manifestações sexuais do marido juntamente com as recordações do seu Diário e com o facto de ele se afastar dela durante os períodos de gravidez, dava-lhe motivo para pensar que o marido só sentia por ela uma atracção física e não um sentimento de genuíno amor. Antes do nascimento do primeiro filho escreveu: "Não posso dar-lhe nenhuma alegria enquanto estou grávida. Que tristeza pensar que uma mulher só sabe nesse estado se o marido a ama ou não." Afirmou ainda: "Sonho muitas vezes em ter uma intimidade espiritual com Leão e não só essa nojenta intimidade corporal." Não será de admirar que uma gravidez ocorrida naquelas condições fosse vivida sob uma perspectiva negativa, pois estava intrinsecamente ligada às relações físicas odiadas bem assim como ao estado em que, não passaria de "um espantalho para o marido". A gravidez tornar-se-ia, assim, sinónimo de solidão afectiva; seria essa a razão por que confessou: "Este estado é-me insuportável física e moralmente." "Estes nove meses foram os mais terríveis da minha vida. Quanto ao décimo mais vale não falar dele." Apesar de tudo, tem ainda força para amar o filho: "É o filho de Leon, eis porque o amo." Tratar-se-ia do o meio que lhe restaria para encontrar a união espiritual com o marido com que sonharia.
Sonya Tolstoy deu à luz treze filhos e teve três abortos. O marido considerava que uma mulher que tinha relações sexuais sem ficar grávida não passava de uma prostituta. Se no início da sua vida em comum Tolstoy considerava o casamento um estado sagrado, acabou por o representar como uma "prostituição doméstica". Para ele, a família identificava-se com a carne. Na obra Sonata a Kreutzer Tolstoy negou a santidade do casamento. Sonya terá deduzido que o marido sempre teria concebido o amor físico como degradante e se sentiria esmagado pelos remorsos depois de o ter consumado. Sentir-se-ia indissoluvelmente associada à ideia de pecado. Essa ideia, juntamente com as suas repulsas e os riscos decorrentes dos contínuos estados de gravidez, tomava-lhe difícil a obrigação de corresponder aos desejos fogosos de que continuaria a ser objecto. Não via a mínima recompensa para a sua submissão. Na referida obra Tolstoy descreveu o amor como a sexualidade reduzida a si mesma, sem afeição, sem união espiritual. Sonya revoltou-se e a sua décima segunda gravidez foi vivida como a pior das desgraças. Fez tudo o que pôde imaginar para provocar empiricamente um aborto. Tomava banhos tão quentes que corria o risco de desmaiar, conservava indefinidamente os pés em água quase a ferver; ou então a velha ama via-a trepar para cima de uma cómoda alta e saltar para o chão, repetindo obstinadamente esse exercício. Tolstoy abandonou a casa, deixanda-a sozinha na altura do parto. Ela escreveu mais tarde: "Durante toda a minha gravidez nunca deixou de ser desagradável comigo. Provavelmente era o meu aspecto que o indispunha." Assim. o seu papel e a sua função de mãe não eram reconhecidos como tal, não passariam de uma autorização para realizar o acto sexual.
Tolstoy estava obcecado pela ideia de que devia viver na pobreza e abandonar todos os seus bens; tal atitude desencadeou um grave conflito com a mulher, que considerava esse desejo como uma recusa em assumir as suas responsabilidades de pai de família, fazendo recair as consequências das suas decisões apenas sobre ela; por isso escrevia: "Não sabia como me adaptar às suas novas ideias. Com todos aqueles filhos não podia seguir como um cata-vento todas as reviravoltas espirituais do meu marido... Se como o meu esposo desejava tivesse dado toda a nossa fortuna - gostava de saber a quem? -, teria ficado na miséria com os filhos. Seria obrigada a trabalhar para toda a família, a cozinhar, a passajar. a lavar, a privar os filhos de educação. Quanto a Leão, por vocação e por gosto não teria feito mais nada senão escrever."

Bibliografia

Asquith, Cynthia, Married to Tolstoy, (New York, Houghton Mifflin, 1961).
Edwards, Anne. Sonya, The Life of Countess Tolstoy, (New York, Carroll & Graf Publishers, 1983).
Tolstoy's War with Love, by David Laskin, http://www.pbs.org/wgbh/masterpiece/anna/ei_war.html
The Woman Question, http://www.pbs.org/wgbh/masterpiece/anna/ei_woman.html
Tolstoy, Sonata a Kreutzer, http://www.ccel.org/t/tolstoy/kreutzer/kreutzer.txt
http://www.varchive.org/tpp/kreutzer.htm
Sonja TolstoyCasada com um génio: Sofia/Sonya/SonjaTolstoy (1844-1919)

"I gave birth to thirteen children on a hard-backed leather chair whilst my husband was writing his manifestos on celibacy."
"September 12, 1867. I am nothing but a miserable, crushed worm, whom no one wants, whom no one loves, a useless creature with morning sickness, and a big belly, two rotten teeth, and a bad temper, a battered sense of dignity, and a love which nobody wants and which nearly drives me insane."

December 1890. I copied Lyova's diaries up to the point where he says: "There is no love; there is only the physical need for intercourse, and the rational need for a life companion." If I had known this was his view twenty- nine years ago, I would never have married him."

Countess Sonya Tolstoy, Diary 1862-91


30.11.03

Rubus chamaemorus, cloudberries, ouro de Bogs


Cowberry ou lingonberry,Vaccinium vitis-idaea

Vaccinium vitis-idaea

Confidências e desabafos de Savarin

Sabores da Escandinávia: À descoberta de novidades gastronómicas encontrei estas receitas norueguesas:

Creme de Cloudberry: Bater uma chávena de açúcar com 1/2 l de natas. Misturar cuidadosamente, uma chávena de cloudberries frescas. Decorar com doce de cloudberry.

Troll cream (versão de Line Gisnäs): Preparar como o creme anterior, mas decorar com compota de cowberry ou lingonberry,Vaccinium vitis-idaea.
Outras versões, mais genuínas, aqui




29.11.03

Confidências e Desabafos de Savarin

A Química na Cozinha
Reacções funestas na combinação de ingredientes

Bolo de ananás Quem pretenda fazer uma delicada génoise recheada e coberta com chantilly e ananás fresco, deverá submeter o ananás já cortado em cubos ou em rodelas a uma fervura prévia, numa calda de água e açúcar, e só depois juntar o dito ao chantilly. Caso contrário o doce devirá amargo.
O ananás fresco também pode impedir a gelatina de solidificar, pois contém uma enzima, a bromelaína. Esta enzima destroi qualquer estrutura molecular de proteínas que lhe aparecer pela frente, funcionando como uma espécie de tesoura que corta as ligações entre alguns dos aminoácidos impedindo a formação de uma rede tridimensional. Logo, a preparação de qualquer deliciosa sobremesa com gelatina, ananás fresco e natas requer um estágio do ananás ao lume.
Esta advertência não se aplica ao ananás enlatado.
Apontamentos do dia de ontem

Numa esquina do muro da Gulbenkian uma vinha virgem vermelha contrasta com o calcário do muro e a hera sempre verde.
A caminho da Praça de Espanha aprecio lírios roxos, num canteiro descuidado.
Na Praça de Espanha aguardo o autocarro para a F.C.T., um momento de irrealidade na terra de ninguém. Observo o Teatro Aberto e a feia mesquita mesmo em frente da paragem. Umas quantas árvores raquíticas, muitos autocarros parados e em andamento, estudantes e outros mortais que já tiveram melhores dias, e muito, muito alcatrão esburacado.
No autocarro já sobre a ponte gosto de espreitar para baixo, ver os terraços dos prédios, as manchas de vegetação o rio e tudo o mais que se avista da ponte, com mais nitidez e amplitude, quando se viaja de autocarro e não de carro.
Na Faculdade devolvo livros na biblioteca, requisito outro Approaching Hysteria, Disease and its Interpretations, de Mark S. Micale.
Encontro uma amiga com quem já não estava desde o começo de Julho, efusivas manifestações de afecto e vamos até à secretaria buscar um outro livro, deixado para empréstimo pela minha orientadora, Sexual Chemistry, A History of the Contaceptive Pill, de Lara Marks. Segue-se um almoço agradável com muita conversa. Volto a passar a ponte rumo à Praça de Espanha. Sigo a pé até à Duque de Ávila, paro numa casa que vende cafés, chás e chocolates para fazer uma provisão de néctares, chá verde, chá da China com pétalas de rosa, com aroma de baunilha, com jasmim... e não resisto a comprar uma caneca de chá com uma digitalis purpurea.
Passo ainda por uma livraria e volto à estação rodoviária cheia de gente perfilada nas bilheteiras. Compro o bilhete para as 16.30 com destino a Montemo-o-Novo. Triste ideia, porque o expresso em questão é dos que fazem escala no Centro-sul, ou seja não segue pela Vasco da Gama, logo apanho com filas imensas e lentas de carros para entrar na ponte mais velha e já depois de Setúbal um acidente e mais filas. Uma viagem cuja duração é de uma hora e um quarto acaba por prolongar-se por mais de duas horas.
Mas, durante o trajecto todos os passageiros são brindados com o espectáculo das fitas de um casal de bêbados, ela chora, geme, grita, balbucia, implora pelo ar condicionado, manda calar os outros passageiros. Por seu turno, ele cantarola, para mal dos ouvidos de todos. Entre múltiplos disparates exclama alto: "eu quando dou, só dou uma," "se eu tivesse dez anos." Dirigindo-se à dama questiona: "que botas são essas ?", "belos collants, que pernas, tantos ossos tíbias e perónios, tantas artérias, Tininha, como se podem ver tantas artérias? A tua tensão é de setenta pulsações por minuto, como pode ser, uma pessoa como tu cheia de álcool?" Um grupo de estudantes interpela-os, senhoras riem, cavalheiros abanam a cabeça. Entretanto, o motorista admoesta-os, clamando que não se encontra sózinho e há que respeitar os outros passageiros. O péssimo cantor ameaça-o dizendo que o deixaria num estado que nem o doutor o poderia operar. Entre breves momentos de silêncio o homem profere uma pérola de vã sabedoria popular: "anda um homem a lutar pela vida e num minuto nem o doutor o pode operar."
O perfil do castelo de Montemor surge, salto do autocarro e quase corro para casa.

25.11.03

Aconitum napellus
Ontem evoquei a contemplação de um azevinho mágico, em Covadonga. Agora recordo a primeira vez que vi - no mesmo local perto dos lagos, no meio de uma manada de vacas cobertas de excrementos - acónitos, da variedade aconitum napellus, verdadeiros acónitos, em seiva, corolas, folhas e caules, e não simulacros em ilustrações ou fotografias.
Os momentos de descoberta e fruição de determinadas espécies do reino vegetal despertam-me estranhas emoções, como se houvesse um liame entre uma parte do que eu sou e o ser de tais plantas. E devo salientar que não tenho por hábito manter conversas com as plantas que cultivo em casa.
Lembro-me, ainda, que durante este passeio de Verão fui brindada com muitas e felizes surpresas no campo da observação botânica. (Próximos do azevinho folhas e flores já secas de helleborus niger, a célebre rosa do Natal do conto "A Lenda da Rosa do Natal" de Selma Lagerlöf.

helleborus niger
Junto à esplanada do Hostal solanum dulcamara, doce-amarga em flor ...)
solanum dulcamara
Aqui mesmo, perto de casa, nos campos de Montemor-o-Novo o arum maculatum, jarro dos campos,
e o estramónio, datura stramonium, são muito comuns e, numa herdade em São Cristovão encontrei aristolochia clematitisruta graveolens e ruta graveolens, arruda,
e tantos outros exemplares de remédios/venenos naturais.

23.11.03


Ao passear por um bosque observo a massa verde ondulante, isolo e destaco uma árvore, um azevinho, fruo a beleza da sua configuração, distingo as suas diferentes cores e tonalidades, aprecio a forma de cada uma das suas folhas, dos seus rebentos. Este estado de atenção, este admirar a árvore como um ente totalmente novo e único, esta libertação dos habituais esquemas mentais de que a árvore tem um tronco castanho e folhagem verde, enche-me de serena felicidade.

22.11.03

Perspectivas sobre a essência e finalidade da arte

"Quanto mais forte e intensa é a minha vontade de agarrar as coisas indizíveis da vida, tanto mais profunda e penosamente arde em mim a comoção perante a nossa existência, mais se fecha a minha boca, mais enregela a minha vontade de me atirar a esse horrendo e palpitante monstro de vitalidade e capturá-lo, esmagá-lo, estrangulá-lo em linhas e superfícies cristalinas e agudas. Esperemos que, libertos de uma irreflectida imitação da natureza visível, de uma arte enfraquecida e degenerada em vazia decoração, e de uma mística barroca, falsa e sentimental, se alcance por fim a objectividade transcendente que promana de um profundo amor pela natureza e pelo homem. (...)
Na minha opinião tudo o que é essencial na arte, desde Ur, na Caldeia, desde Tel Halaf e Creta, brotou da mais profunda emoçãoperante o mistério da nossa existência"Max Beckmann
A arte terá, assim, uma dimensão metafísica na medida em que expressará uma profunda relação com a realidade original.

20.11.03

Aporias sobre a cultura (3)

"A cultura consiste em certas actividades biológicas, nem mais nem menos biológicas que a digestão ou a locomoção. A actividade cultural é uma actividade característica da vida humana na medida em que certas actividades imanentes ao organismo o transcendem"
Ortega y Gasset, "Cultura tema de nuestro tiempo", Rev.de Ocidente, Madrid, (1956).

19.11.03


Aporias sobre a Cultura

*Segundo Rickert a natureza define-se como o conjunto do nascido por si, oriundo de si e entregue ao seu próprio crescimento , enquanto que a cultura seria o que é produzido pelo homem agindo de acordo com objectivos valorados.

*Na verdade, é problemático distinguir natureza e cultura. Talvez seja lícito afirmar que todas as transmutações operadas pelo homem são produto de uma sua tendência natural, ao invés de se distinguir entre aquilo que tem um modo de ser que lhe é próprio e se conhece tal como naturalmente é, e aquilo cujo modo de ser foi determinado por um propósito humano.

*Trata-se de saber se a cultura é uma segunda natureza,se tem o mesmo estatuto da natureza ou se expressa uma realidade independente mais profunda reveladora da essência do humano enquanto manifestação da humanidade do homem.
De acordo com Heidegger a cultura não deverá ser concebida como um apêndice da natureza, como uma roupagem que se lhe acrescentaria uma vez que não há uma natureza humana decalcada do modelo metafísico de uma substância permanente sobre a qual se enxertariam os acidentes da cultura. A cultura é uma necessidade da natureza, ela projectaria a experiência exclusiva do homem, da gratuidade dos seres, seria a expressão de uma reacção contra toda a visão niveladora.

*Fidelino Figueiredo, na obra Menoridade da Inteligênciaafirmou que a cultura é o conjunto de ideais condutores, o sistema de juízos e valores, de opções, de preferências que orientam uma época. A todos os momentos de renovação na história corresponderia uma integração ou síntese das ciências dispersas, das lições da experiência e das interpretações da filosofia. A cultura originar-se-ia a partir destas fontes, mas teria também um papel orientador e criador. A cultura é caracterizada, pelo referido autor, como uma forma de ordenamento com função sistematizadora e integradora dos momentos criativos. De acordo com o mesmo autor a ausência de cultura provocaria a dispersão, a vassilação sem bússola, e o anonimato penumbroso e vegetativo.






















18.11.03

Idade e Percepção do Tempo




"Quando se é novo pensa-se que o tempo vai resolver os problemas,
e depois a partir dos quarenta percebe-se que o tempo é que é o problema."
António Lobo Antunes, Entrevista ao Diário de Notícias de ontem, 18/11/2003

À descoberta de Monique Wolbert

16.11.03

SilêncioConselhos de Joseph Antoine Toussain, Abade de Dinouart (1716-1786)

"O primeiro grau de sabedoria é saber calar; o segundo, saber falar pouco e moderar-se no discurso; o terceiro é saber falar muito, sem falar mal e sem falar demasiado. (...)
5. Só no silêncio o homem se contém: fora dele, parece expandir-se, por assim dizer, para fora de si, e dissipar-se pelo discurso, de modo que é menos de si do que dos outros.
7. Quando se tem uma coisa importante a dizer há que prestar uma atenção especial: devemos dizê-la para nós próprios e, após esta precaução, dizê-la outra vez para que não tenhamos que nos arrepender quando já não formos senhores de reter o que declarámos."

Abade Dinouart, A Arte de Calar, (Lisboa, Editorial Teorema, 2000), pp.13 e 16.

14.11.03

Confidências e Desabafos de Savarin

Sachertort

Um dos meus bolos de chocolate preferidos é a Sachertort, uma especialidade austríaca. Há muitas versões, mas elegi a receita que se segue:

Ingredientes:

Massa: 150 gr de manteiga; 165 gr de açúcar, 200 gr de chocolate derretido em banho-Maria, 150 de farinha, 8 ovos, 50gr de amêndoa ralada; 1 pitada de essência de baunilha.

Recheio e cobertura: geleia de damasco, 200gr de chocolate.

Preparação:

Bater a manteiga com metade do açúcar até ficar com consistência cremosa. Acrescentar o chocolate derretido e uma pitada de essência de baunilha. Juntar as gemas uma a uma, misturando bem e reservar. Entretanto, bater as claras em castelo, adicionar-lhes o açúcar, bater novamente. Acrescentar a farinha misturada com a amêndoa ralada e mexer com cuidado. Juntar o creme de chocolate, manteiga e gemas ao preparado das claras com a farinha. Levar ao forno em forma untada com manteiga e polvilhada com farinha. Desenformar sobre uma rede metálica para bolos.
Quando frio cortar ao meio, rechear e barrar com geleia de damasco. Derreter o chocolate em banho-Maria. Cobrir o bolo com o chocolate assim preparado. Decorar a gosto, retirar o bolo da rede e colocar no prato de serviço.
Nota. Deve utilizar-se uma boa marca de chocolate para culinária.

Curiosidade:
A Sachertort é uma das paixões das papilas gustativas do cineasta italiano Nanni Moretti.

13.11.03

António Dacosta, Episódio com Cão


António Dacosta, Episódio com Cão

Associação imediata: "Investigações de um Cão," de Kafka


A Minha Biblioteca Existencial (2)

Kafka, O Processo, Ponta Delgada em 1979 Quando terminei a leitura de rajada do Processo de Kafka, senti-me sufocada e tive um impulso para sair de casa, descongestionar, andar a pé, inspirar ar fresco. Estava mesmo perturbada, até porque fui estabelecendo paralelismos entre o absurdo confrangedor da situação vivida pelo protagonista e as minhas perspectivas, de então, sobre a sociedade e a família. Devo dizer, que antes mais do que agora tudo me parecia absurdo e seguia uma filosofia existencialista.

A Metamorfose, Lembro-me de numa oral de Teoria da História o professor Borges de Macedo me ter questionado sobre as minhas leituras, referi Kafka inclusive a
A Metamorfose e confrontámos interpretações.
A Grande Muralha da China Li em 1979/80. Gostei muito das Investigações de um Cão. Integrei-as numa selecção de textos para o 10º ano em 1991 sobre os valores estéticos, que dei a ler aos alunos da noite.
Eugene Ionesco, O Solitário Ponta Delgada 1980 http://www.kirjasto.sci.fi/ionesco.htm Fedor Dostoievski ou Fjodor Dostojevskij
Noites Brancas http://www.ebooksbrasil.com/eLibris/noitesbrancas.html Ponta Delgada 1980. Uma história comovente de um sonhador, que encontra o amor e o perde para o anterior namorado da sua bem amada, que entretanto regressa.... No entanto, apesar da sua mágoa o sonhador conclui: "(…) e bendita sejas tu própria pelo minuto de felicidade e de alegria que proporcionaste a um coração solitário e grato."
Meu Deus! Um minuto inteiro de felicidade! Afinal não basta isso para encher a vida inteira de um homem?..." Recomendado pelo L.D.M.F. num dia em que estava de camisa preta e calças de ganga, que lhe ficavam particularmente bem. Quando me perguntou o que tinha achado do livro, respondi-lhe que era uma história parva. Ele olhou-me incrédulo, perante tamanha heresia e falta de sensibilidade da minha parte. Eu ri-me e disse parva em latim significa pequena, estava a ironizar …
Boris Vian, O Outono em Pequim Lisboa 1980
Dostoievski, Obras Completas, Clássicos Arcádia, III vol., Feira do Livro de Lisboa, 1980
O Arranca Corações, Lisboa 1981, Lido, em grande parte, nas aulas de Direito na Universidade Católica de Lisboa. Hilariante!
Alberto Morávia, O Autómato, Uma série de short stories fora de série
Albert Camus, O Estrangeiro, Ponta Delgada Verão de 1981
Virgínia Woolf, Um Quarto que Seja Seu, Lisboa, 1981

Anatole France, A Revolta dos Anjos, Coimbra, 1984 Uma divertida comédia que saboreei na serra da Lousã na casa da minha avó materna.
Céline, Viagem ao Fim da Noite, Coimbra 1984
Marguerite Yourcenar, Memórias de Adriano, Coimbra 1984
Como a Água que Corre, Coimbra 1984
A Obra ao Negro Ponta Delgada em 1985, findo o curso de Filosofia, de férias antes de começar a minha jornada como professora do ensino secundário e a minha autonomia financeira.
Selma Lagerlöf , A Lenda de Gösta Berling Uma história fantástica, poética povoada de mitos http://www.kirjasto.sci.fi/lagerlof.htm
Os Sete Pecados Mortais, desta colectânea de contos destaco A Rosa do Natal
Andrè Maurois, Climas e Rosas de Setembro, dois livros simpáticos para ler nas férias
Morris West, O Mundo é Feito de Vidro. Figueira da Foz. Uma perspectiva romanceada sobre as relações de Jung, o célebre discípulo dissidente de Freud, com as suas pacientes e não só.
Jean Cocteau, Desatino, um verdadeiro desatino
Thomasi di Lampedusa, O Leopardo, 1986. Amirável
Stefan Zweig, Amok, 1986. Impressionante descrição do estar fora de si
Carlo Coccioli, O Jogo, 1986. O sentido da vida, o que é isso?
Simone de Beauvoir, A Mulher Destruída, 1988. Infelizmente, o retrato de muitas vidas de mulheres.
José Saramago, Memorial do Convento Figueira da Foz 1986/1987 o primeiro livro que li do Saramago. Foram momentos mágicos. Não gostei dos outros livros dele (O Ano da Morte de Ricardo Reis, Todos os Nomes…), em contraposição nenhum me deu tanto prazer ler. Pareciam repetições da mesma fórmula, com menos brilho e menor intensidade.
Thomas Mann, O Fausto Outono de 1987. A este livro estão associadas imagens dos castanheiros dourados pela luz do Outono. Senti imensos arrepios quando Mefistófeles aparecia. http://www.kirjasto.sci.fi/tmann.htm
As Cabeças Trocadas uma adaptação de uma narrativa mítica indiana
O Cisne Negro
Os Melhores Contos (Morte em Veneza, A Pequena Lizzy, O Sangue dos Walsung, O Diletante) Quando li Morte em Veneza até senti a maresia.
Durante algum tempo interessei-me pela literatura do fantástico. Lia autores como
Hoffmann, O Violino Misterioso
E Edgar Alan Poe, Histórias Completas, Feira do livro de Lisboa 1985
Karen Blixen, Sete Contos Góticos Évora em 1987. Contos para reler
Yukio Mishima, O Templo da Aurora, Figueira da Foz, 1988
1988 - Agosto 1988 - Quando a minha filha mais velha nasceu li todas as aventuras de Scherlock Holmes, pois tive que permanecer uma semana no hospital, porque ela foi prematura e, por essa altura eu andava com a obsessão dos policiais.
Umberto Eco, O Pêndulo de Foucault Mafra em 1988 Uma crítica certeira a certos movimentos ligados ao esoterismo, que rendeu uma crítica negativa na revista esotérica brasileira Planeta
Isabel Allende, A Casa dos Espíritos, Évora, Quinta dos Meninos Órfãos, 1989, um clássico do realismo maravilhoso sul americano…
Michel Déon, Escrevo-lhe de Itália Évora 1989. Lido na Quinta dos Meninos Órfãos onde havia um belo laranjal. Gostava de passear por ali e sentir o aroma das mil flores. Estava tão obsecada com as flores de laranjeira que acabei por fazer geleia de flores de laranjeiraTambém havia uma bela ameixeira. Aí também dei jantares memoráveis. Reli-o há pouco tempo

Lawrence Durrel, Um Sorriso nos Olhos da Alma, Évora, 1990 Um dos meus livros preferidos.

Patrick Süskind, O Perfume, Ericeira Páscoa de 1991. Li-o em paralelo com M.B. N. C., enquanto um o lia de dia o outro lia-o à noite. Um livro que é uma experiência admirável , uma viagem ao mundo dos cheiros e dos seus efeitos.
Herman Hesse, Narciso e Goldmundo. Belíssimo! Os comentários dos leitores franceses que encontrei nesta página são assaz elucidativos: http://www.chez.com/guidelecture/narcisse.html
Hermann Hesse, Demian, Emprestou-me L.F.S.S.N. num tempo em que nos ríamos muito. Évora 1993
Úrsula K. Le Guin, Os Despojados, Um dos poucos livros de ficção científica que li, aconselhado por L.F. S. d. S.N. O tema da utopia tratado de uma forma original e exemplar

Ray Bradbury, A Morte é um Acto Solitário Évora, em Janeiro de 1994. Li-o depois da morte da minha mãe.
O Visconde Cortado ao Meio Reguengos de Monsaraz, em 1994. Muito interessante, prende a atenção, irónico, bem humorado e bem escrito
Paul Auster, Leviathan, Montemor-o-Novo. O primeiro livro que li deste autor e, talvez o melhor, em meu entender.
Paul Auster, O Palácio da Lua Montemor-o-Novo, o 2º na minha tabela de favoritos das obras de Auster
Selma Lagerlöf, O Imperador de Portugal, Montemor-o-Novo. De uma beleza e tristeza infinitas.
Max Gallo, O Olhar das Mulheres, Montemor-o-Novo, 2000. Os homens não conhecem as mulheres. http://www.xoeditions.com/biographiegallo.htm
C.K. Stead, A Morte do Corpo eu e L.F.S.S.N. rimo-nos bastante à conta deste livro.

1999- 2000 Luís Ene, A Justa Medida. Recomendo vivamente as reflexões filosóficas contidas no livro.

Camillo Boito, Senso, O Caderno Secreto da Condessa Lívia, Montemor-o-Novo, 2001. Uma história maliciosa e muito bem escrita.
António Tabucchi, Os Últimos três Dias de Fernando Pessoa . Montemor-o-Novo, Oferecido por L.F.S.S.N. Uma bela surpresa.
James Elroy, A Dália Negra, Um livro muito, muito negro, arrepiante

Abel Botelho, O Barão de Lavos. Um livro integrado no "movimento naturalista português," sobre o que o autor designou por patologia social .
Paul Auster, O Caderno Vermelho 2002. Também um dos meus preferidos deste autor
Doze Histórias de Mulheres, 2002 (Oferecido por G.G. no dia 26-07-2002)
Michael Cunningham, Uma Casa no Fim do Mundo 2003. Há muito tempo que não lia um livro que me agradasse tanto.
Paul Auster, O Livro das Ilusões 2003. Emprestado por L.F.S.S.N. Li-o de rajada mas provocou-me um estado de estranheza, até tive pesadelos durante a noite, não sei explicar porquê.
Voltaire, Memórias 2002 Escritas com o estilo irónico e ligeiro deste filósofo. Descobrem-se os fracos do célebre Frederico rei da Prússia e déspota iluminado.
Arturo Pérez-Reverte, O Mestre Esgrimista, Natal de 2002, oferecido por L.F.S.S.N.























12.11.03



Duas vias para a compreensão do pensamento hermenêutico: Heidegger e Paul Ricoeur

III - A Destruição da Metafísica (5)

A questão surgiu elaborada em "L'Époque des conceptions du Monde". Aí Heidegger, adverte-nos que"Cogito" não seria um enunciado inocente; ele pertenceria à idade da Metafísica para o qual a verdade seria a verdade dos entes, o que enquanto tal constituiria o esquecimento do ser como ser. Em que sentido o Cogito pertenceria à idade da Metafísica? O solo filosófico sobre o qual surgiu o Cogito teria sido o da Ciência, e, mais geralmente, um modo de compreensão, segundo o qual a pesquisa disporia do ente, por meio de uma representação explicativa. O primeiro pressuposto seria o de que nós colocaríamos o problema da ciência em termos de pesquisa, a qual implicaria a objectivação do ente que "dispõe" os entes perante nós. O homem calculador poderia estar seguro, do ente. Seria neste ponto quando coincidiriam o problema da certeza e o da representação, que o momento do código emergeria. Na Metafísica de Descartes, o ente teria sido definido pela primeira vez como objectividade de uma representação e a verdade como certeza da representação. Com a objectividade sobreviria a subjectividade, na medida em que o ser certo do objecto seria a contrapartida da posição de um sujeito. Fundir-se-iam a posição do sujeito e a proposição da representação. O tempo de Descartes teria sido a época em que se conceberia o mundo como um "quadro".
É preciso compreender que não se trataria ainda do sujeito no sentido do "eu", mas no sentido de "substratum"; seria aquilo que congregaria todas as coisas para formar uma base, um "alicerce", o substracto. Este "subjectum" não seria ainda o homem e ainda menos o "eu"; o que aconteceria com Descartes seria que o homem se torna o primeiro e real "subjectum", o primeiro e real fundamento. Forjando-se assim, uma espécie de identificação entre as duas noções de "subjectum" como fundamento e de "subjectum" como "eu".
O sujeito tornar-se-ia o centro para o qual o ente seria remetido; todavia, esta situação não já não seria possível pois o mundo ter-se-ia tornado um "quadro" colocado perante nós. Neste ponto da análise, Ricoeur citou Heidegger: "Lá nesse lugar, nesse tempo, onde o mundo se torna quadro, imagem, a totalidade do ente e compreendida e fixada como aquilo sobre o qual o homem pode orientar-se como aquilo que ele quer consequentemente conduzir e ter perante si aspirando a detê-lo, num sentido definido, numa representação". O carácter de representação que se ligaria ao ente constituiria o correlato da emergência do homem como sujeito.
O ente teria sido então conduzido, e levado à presença do homem como aquilo que seria objectivo e do qual ele poderia dispor. O Cogito, não seria uma verdade intemporal, pertencendo a uma época que fez do mundo um quadro. Os gregos não concebiam um Cogito: para eles o homem não olhava para o mundo, mas sim o homem é que seria olhado, observado pelo mundo, através do Ente. A relação sujeito-objecto interpretada como quadro, como imagem, cortaria e dissimularia a pertença do Da-sein ao Ser-Dissimulando igualmente, o processo da verdade como desvelamento, desocultação desta implicação ontológica. Todavia esta crítica não destroi, segundo Ricoeur, todas as relações possíveis da analítica do Da-sein com a tradição do Cogito. Afinal, concluiu Ricoeur, esta destruição do "Cogito" conjuntamente com a desconstrução da época em ele emergiu, tornar-se-ia a condição de uma justa repetição da questão do "Ego".
O "Da-sein" autêntico, nasceria da resposta ao ser; respondendo-lhe, ele preservaria a sua força de ser por meio da força da "palavra". Tal constituiria a última repetição do "sum", do "eu sou", para além da destruição da História da Metafísica, e para além da desconstrução do Cogito concebido como um simples principio epistemológico.
A destruição do Cogito, como ser que se coloca por si-mesmo, como sujeito absoluto seria o inverso, de uma hermenêutica do "eu sou", enquanto este seria constituído pela sua relação ao ser.
O Da-sein compreender-se-ia sempre ele-mesmo, em termos de existência, ou seja a partir da sua possibilidade de ser ele-mesmo ou não (Questão da autenticidade e da inautenticidade). Heidegger preferiu o termo "existencialidade", todavia esta não seria mais do que o conjunto de estruturas de um ser que apenas existiria segundo o modo da retomada ou o da omissão, do esquecimento das suas possibilidades. A grande diferença relativamente ao Cogito cartesiano seria de que a prioridade ôntica não implicaria nenhuma imediatidade.

11.11.03

Daqui contemplo a lua branca

Carl Axel Magnus Linnemand, Viscum Album

Carl Axel Magnus Linnemand, Viscum Album

Agora que vamos entrar numa fase do ano fundamentalmente ritualista e simbólica, vamos esquecer as críticas à sociedade de consumo, aos esteriótipos do Natal e reflectir sobre as dimensões positivas dos ritos que se repetem, ciclicamente.
Programado e repetitivo o ritual comporta determinações prévias: ao celebrarmos o rito sabemos, antecipadamente, o que irá acontecer, porque já o fizemos e voltaremos a fazê-lo. Assim, o rito opõe-se à pura espontaneidade, ao happening, por definição não programado e não repetitivo. Todavia, requer uma certa criatividade, pois a criatividade é condição da actualização e da adequação do rito ao presente.
Retomando o Nata, as listas de prendas, as ementas festivas, as decorações brilhantes, as canções... dão-nos a ilusão perfeita de um agir social simbólico e programado. Os ritos recapitulam e unificam as fragmentações psicológicas intrínsecas à diversidade das nossas condições existenciais - família, trabalho, amigos, lazer, actividade política e social. Os rituais podem gerar uma reunificação interior. O eu profundo não é redutível às nossas acções ou história individual, o eu profundo revela-se através do ritual e os ritos constituem uma tentativa de expressar o mais essencial que a rotina quotidiana oculta ou ofusca.

9.11.03

Punica granatum L.
Punica granatum L.

Hoje, mais um dia tempestuoso de Outono, comi a beleza ímpar de uns bagos de romã cor de rubi.

Punica granatum L.

30.10.03








Karl Spitzweg (1808-1885) Pequeno Regato na Floresta Negra (1885), 84x68

Karl Spitzweg (1808-1885) Pequeno Regato na Floresta Negra (1885), 84x68




A noite foi muito ventosa, acordei com o bater de uma porta. Lembrei-me das palavras de Heidegger sobre o seu refúgio de meditação na Floresta Negra:

"Quando na profunda noite de Inverno uma violenta tempestade de neve solta as suas rajadas à volta da Cabana, cobrindo e dissimulando tudo, este é o grande momento da filosofia. É então que o seu questionamento deve tornar-se simples e essencial. A elaboração de cada pensamento outra coisa não pode ser senão uma tarefa dura e cortante. O esforço requerido para dar um cunho às palavras é algo semelhante à resistência dos abetos à tempestade."
Heidegger

28.10.03

Da Cultura

A cultura tornou-se um produto ideológico dependente da conjuntura económica e política, o que condiciona a sua espontaneidade; as diferentes manifestações culturais encontram-se subordinadas a um critério de utilidade e eficácia, mesmo os valores intelectuais e éticos são cultivados de acordo com esse critério. As diferentes dimensões da cultura, desde as formas anti-racionalistas passando pelos domínios da técnica mostram que a cultura deixou de ser o lugar de expressão do ser. Trata-se de uma forma de culturalismo em que se confude o homem como autor de cultura com a sua obra, a sua condição cultural com a sua essência. O culturalismo apresenta-se como um sucedâneo da crise da metafísica, tendo implícitos todos os vícios a ela atribuídos: carácter abstracto, ideal, alienante...