História da Filosofia Moderna

A Gnosiologia de Hobbes (Westport ,1588- Hardwick, 1679)
e as Objecções a Descartes (2)


"Conhecer" segundo Hobbes aparece como uma constatação necessária coerente, é o culminar de um processo que creditaria a experiência sensível. Poderá dizer-se que para Hobbes é o próprio acto de conhecer que permite o acesso ao sistema mecânico das massas em movimento, que é o mundo. Se a sensação é movimento, o "conhecer" dar-nos-ia o ingresso na realidade. Mediante o "conhecer" integrarmo-nos-iamos no movimento do mundo., pois o "conhecer" seria a condição de toda a possibilidade de experiência. Hobbes não recorreu a Deus para estabelecer a veracidade do mundo e das coisas exteriores à res cogitans. Contrariamente, Descartes afirmou: Eu excedo os limites do meu entendimento se afirmo a existência das coisas fora de mim." Esta frase reenvia-nos para o problema da fundamentação da existência de Deus. A argumentação dos dois filósofos é divergente uma vez que as suas motivações temáticas são opostas.
Enquanto Hobbes declarou Deus inconcebível do ponto de vista racional. Em seu entender, não possuimos em nós a ideia de Deus, até porque a ideia seria uma imagem da representação sensível, concomitantemente não existiram ideias inatas. A razão operaria com imagens simbólicas, coordenando-as. No entanto Hobbes admitiu o valor da prova que remte toda a criatura a uma causa primeira, representada por Deus, criador dos seres. Deus seria arche, primeiro princípio, génese. Perspectiva que se encontra bem demarcada nas 5ª, 10ª e 11ª objecções às Meditações Metafísicas. Seria partindo da existência das coisas exteiores, da sua realidade concreta que se constataria a necessidade de uma causa primeira, de um ser eterno, de um motor original.
A fundamentação da existência de Deus em Descartes processa-se no sentido inverso, pois ela seria interna ao próprio sujeito - prova de cariz ontológico. As provas de acordo com Descartes emergem da coisa pensante, a ideia de Deus seria intrínseca ao sujeito. Afirmou, Descartes, neste sentido:

"A realidade de qualquer das nossas ideias requer uma causa em que esteja contida não apenas objectivamente mas formal e eminentemente: temos a ideia de Deus e a realidade objectiva da sua ideia, não está contida em nós, nem formal, nem eminentemente, nem pode estar contida noutro que o próprio Deus. Por conseguinte, a ideia de Deus, que está em nós, requer Deus como causa, consequentemente Deus existe."

A ideia de Deus estaria infusa no sujeito e a existência deDeus seria a garantia da existência do mundo. Ver 3ª Meditação e 4ª parte do Discurso do Método.
A dúvida, o desejo, a insatisfação, a constatação da minha imperfeição constituiriam a marca de Deus em mim, decorrentes da ideia de infinito e de perfeição à qual aspiro e se identificaria com o próprio Deus.

A ideia de infinto presente neste ser finito que sou eu, provaria a existência que me é exterior, de Deus infinito que me criou e conserva. Descartes não recorreu ao mundo, à existência das coisas exteiores e imperfeitas, para comprovar a existência de Deus, ele estava convicto que provou a existência de Deus antes de examinar a realidade do Mundo criado por Ele.
Em síntese, e antes de passarmos à análise das objecções de Hobbes às Meditações de Descartes, diremos que os dois filósofos se assemelham a duas linhas paralelas, duas vias de acesso ao real , correndo lado a lado,abordando as mesmas problemáticas, mas nunca se encontrando.

(Em construção...)

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