6.11.04

Rapsódia emocional - três formas de abordar as emoções

1.

. Sétimo: as emoções são algo que nos acontece, mais do que coisas que desejamos que nos aconteçam. Embora as pessoas criem, a toda a hora, situações para modular as suas emoções - ir ao cinema e a parques de diversões, tomar uma refeição deliciosa, consumir álcool e outras drogas recreativas - nestas situações, os factos exte­riores estão simplesmente dispostos de modo a que os estímulos que automaticamente provocam emoções estejam presentes. Nós temos pouco controlo sobre as nossas reacções emocionais. Quem quer que tenha tentado falsear uma emoção, ou que tenha sido recipiente de uma emoção falseada, conhece demasiado bem a futilidade da tentativa. Quando o controlo consciente das emoções é fraco, as emoções podem inundar a consciência. Isto deve-se ao facto de as ligações do cérebro, neste momento da nossa história evolutiva, serem tais que as comunicações dos sistemas emocionais aos sistemas cognitivos são mais fortes do que as comunicações dos sistemas cognitivos aos sistemas emocionais.
. Finalmente, uma vez que as emoções tenham lugar, elas tornam-se poderosos motivadores de comportamentos futuros. Elas traçam o percurso da acção momento a momento, bem como exercem influência nas realizações a longo prazo. Mas as nossas emoções também podem causar distúrbios. Quando o medo se torna ansie­dade, o desejo abre caminho à ambição, ou o tédio se transforma em raiva, a raiva em ódio, a amizade em inveja, o amor em obsessão, ou o prazer em vício, as nossas emoções começam a funcionar contra nós. A saúde mental é mantida através da higiene emocional, e os problemas mentais, em grande medida, reflectem uma ruptura de ordem emocional. As emoções tanto podem ter consequências úteis como patológicas.


Joseph le Doux, O Cérebro Emocional, (Lisboa, Pergaminho, 2000), p.21

2.

SE TU VIESSES VER-ME …


Se tu viesses ver-me hoje à tardinha,
A essa hora dos mágicos cansaços,
Quando a noite de manso se avizinha,
E me prendesses toda nos teus braços. . .

Quando me lembra: esse sabor que tinha
A tua boca . . . o eco dos teus passos. . .
O teu riso de fonte …os teus abraços. . .
Os teus beijos. . . a tua mão na minha. . .

Florbela Espanca

­3.

Há duas afirmações do amor. Primeiro, e logo que o apaixonado encontra o outro, há uma afirmação imediata (psicologicamente: des­lumbramento, entusiasmo, exaltação, projec­ção louca de um futuro pleno: sou devorado pelo desejo, a impulsão de ser feliz): digo que sim a tudo (cegando-me). Segue-se um longo túnel: o meu primeiro sim está ator­mentado por dúvidas, o valor do amor está permanentemente ameaçado de depreciação: é o momento da paixão triste, a ascensão do ressentimento e da oblação.

Roland Barthes, Fragmentos de um Discurso Amoroso, (Lisboa, )

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