5.11.04

Antero de Quental, tópicos sobre a obra Tendências da Filosofia na Segunda Metade de Século XIX - Continuação
Quadro comparativo entre as tendências do pensamento antigo e as do pensamento moderno, de acordo com Antero de Quental:

Pensamento Antigo

Abstracção

Formalismo dialéctico

Metafísica enquanto derivação da lógica.

A realidade como emanação do ser em si absoluto e só verdadeiramente existente.
O princípio de energia e propriedade dos seres era-lhes exterior e neles infundido.

Radical distinção entre matéria e forma.
O movimento das coisas era atribuído ao fatalismo.

Recorrência a um grande círculo dos mesmos tipos físicos e inalteráveis desde a eternidade.

Necessidade dos factos.
Decreto superior imposto aos seres determinando-lhes a natureza.
Via a realidade fraccionada num certo número de categorias, géneros ou espécies substâncias incomunicáveis e redutíveis entre si.

Universo é concebido como uma estrutura que obedece a um plano pré-concebido
(imobilismo).

Unidade fora do universo. Princípios transcendentes.

Pensamento Moderno

Realismo

Relação das ideias com o mundo objectivo

A lógica tende a ser dominada e determinada pela metafísica.

A realidade é fieri incessante dum ser em si só potencialmente existente e que só realizando-se atinge a plenitude (noção de desenvolvimento).

Matéria e forma são indissolúveis, fundam-se na natureza autónoma dos seres, cujo o princípio de energia lhes é própria e constitui a sua essência. (Força e imanência)

A fórmula desse movimento é criação permanente transformando-se e renovando-se incessantemente. (Desenvolvimento)

Essa necessidade como a expressão da natureza dos seres, com a sua lei a forma adequada da sua actividade espontânea. (Lei e imanência)

Quebra as prisões lógicas, vê na realidade o acto único da primeira substância omnínoda integrando todos os momento na unidade, cujas as diferentes potências manifestam, influenciando-se mutuamente.

Universo é perspectivado como um ser vivo cuja a forma de actividade apenas obedece às tendências do seu próprio desenvolvimento.

Encontra a unidade imanente na sua própria diversidade.
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Na sua tentativa de síntese Antero destaca sobretudo os filósofos que desenvolveram as noções acima referidas. Assim, salientou em cada um dos seus sistemas as concepções, em seu entender, mais importantes.

Descartes o teorizador do "cogito ergo sum" ao defender a unidade do ser pensante estabeleceria por analogia a do universo pensado. Ao reduzir a matéria à extensão Descartes acabaria por identificar ser e saber e reconstituir o universo de acordo com as leis do espírito. (9)

Espinoza considerou o pensamento e a extensão (10) como meros atributos de uma única substância. Esta substância sem limites de tempo nem de espaço, seria o Deus imanente no Universo Infinito nele se desdobrando e realizando, segundo as determinações de uma substância que seria a essência das coisas. Esta substância desdobrar-se-ia em duas séries de fenómenos ou modos paralelos - os da extensão e os do pensamento - sempre em perfeita correspondência. (11)

Leibniz procedeu a uma crítica de cariz intelectualista. Segundo o referido filósofo, o pensamento e a extensão não passariam de de abstracções. O universo seria constituído por mónadas. As mónadas são forças e elas constituem a realidade universal. São todas da mesma natureza, diferenciando-as apenas o grau em que nelas se manifestam a percepção e a apetência. Desta diferença resultaria no Universo, um plano de extensão, segundo a terminologia cartesiana, em que tudo se subordinaria ao mecanismo das leis físicas e o plano superior, o do pensamento, em que os fenómenos são de natureza espiritual. Ao passar da ordem ideal à ordem real, a Razão encontrar-se-ia a si mesma. No microcosmos que ele é o homem surpreenderia o macrocosmos de que faz parte. (12)

No entender de Antero todos estes filósofos teriam em comum a ideia de força imanente não transitiva. Encontrariam na consciência a experiência que manifesta tal força. Todos estabeleceriam uma perfeita correspondência entre a natureza e o espírito; as leis do pensamento e as leis dos fenómenos. Todos eles dominavam a física e a matemática do seu tempo mas para todos o mecanismo representaria apenas uma parte da verdade uma vez que tudo radicaria num fundamento espiritual.
Neste sentido,"Kant ao construir o criticismo, solucionou o problema da origem do conhecimento. Distinguiu a realidade fenoménica (13) do noumenon (14) ou seja que é inacessível ao conhecimento." Antero fez uma interpretação peculiar do noumenon ao afirmar que este é o próprio espírito. (15) Segundo Antero a crítica de Kant veio confirmar e ampliar as noções fundamentais do espírito moderno, levando-as às últimas consequências. Schelling e Regel partiram do idealismo kantiano. Renovaram o naturalismo e o panteísmo do período anterior enquadrando-os nos moldes da Critica da Razão Pura. (16)

Hegel defendeu que a evolução não se reduz apenas ao processo mecânico e obscuro da realidade, perspectivando-a como o próprio processo dialéctico do Ser e da Razão. O pensador alemão identificou ser e saber. (17)

Antero terá herdado, simultaneamente, a concepção mecanicista e o legado espiritualista da época moderna.
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(9) Antero de Quental, op.cit., pp.50-51.
(10) Que constituíam para Descartes os dois termos irredutíveis da realidade, a alma e o corpo.
(11) Antero de Quental, op.cit., pp.51-52.
(12) Antero de Quental, op.cit., pp.51-52.
(13) O fenómeno é, para Kant , a realidade conhecida pelo sujeito, uma manifestação do objecto, aquilo que podemos apreender dentro dos moldes ou categorias a que a nossa constituição psicológica os conforma.
(14) O noumenon é a coisa em si, o objecto em si mesmo. Existe mas é incognoscível.
(15) Antero de Quental, op.cit., pp.53-56.
(16) Kant,Critica da Razão Pura, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 1989.
(17) Antero de Quental, op.cit., pp.55-56.

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