Da Pintura, segundo Cézanne, ou da tentativa de prender e racionalizar a Natureza, ou, à maneira de Nietzsche, da Vontade de Poder na Arte, ou ainda de reter a evanescência da percepção:


Cézanne diz-nos em certo passo das suas conversas com Gasquet: "Tudo quanto vemos ... desconjunta-se, desaparece. A natureza é sempre a mesma, mas nada perdura dela, daquilo que nela é visível... Que está por detrás? Nada, talvez. Talvez tudo. Tudo, compreende você?... Da direita, da esquerda, daqui, de acolá, de toda a parte, jarro, sons, cores, gradações da natureza, que prendo, relaciono... Formam linhas, tornam-se objectos, rochas, árvores, sem eu dar por isso. Adquirem peso, possuem um valor-cor. Quando este peso, estes valores correspondem no meu quadro, na minha sensibilidade, aos planos e às manchas que estão diante dos nossos olhos, então bem, então o meu quadro faz sentido... A paisagem espelha-sse em mim, torna-se humana, torna-se possível. Concedo-lhe objectividade, traduzo-a, prendo-a na minha tela... O quadro, a paisagem, ambos estão fora de mim: uma, porém, caótica, transitória, confusa, sem existência lógica, alheia totalmente à razão; o outro duradoiro, acessível ao sentimento, ordenado segundo categorias, participando no «modo», no drama das ideias."

In Ernesto Grassi, Arte e Mito, (Lisboa, Livros do Brasil, s/d)

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