12.3.11

Almond Blossoms (2)




No Delicacies




Nothing pleases me anymore.


Should I


dress up a metaphor


with an almond blossom?


crucify syntax


on a light effect?


Who would rack their brains


over such superfluous things--


I have learned an understanding

with the words

that exist

(for the lowest class)


hunger


         disgrace


                   tears
and






                 darkness.


With the uncleansed sob,

with despair

(and one day despair will drive me to despair)

in the face of all this misery

the number of sick, the cost of living,

I will manage.



I don't neglect writing,

I neglect myself.

 The others

Lord knows

can use words to get by.

I am not my assistant.


Should I

take thought captive, march it

to an illuminated sentence cell?

feed eye and ear

with the choicest word morsels?

research the libido of a vowel,

calculate the collector's value of our consonants?


With this head crushed by hail,

with writer's cramp in this hand,

under the pressure of three hundred nights,

must I

tear the paper,

wipe away the instigated word-operas,

thereby destroying: I you and he she it


we you?


(Should really. The others should.)


My part, let it be lost.

Ingeborg Bachmann, translated by Margitt Lehbert


Sem acepipes




Já nada me agrada.



Deverei eu


enfeitar uma metáfora


com uma flor de amendoeira?


Crucificar a sintaxe


sobre um efeito de luz?


Quem é que vai quebrar a cabeça


com coisas tão fúteis?


Aprendi a entender as coisas


com as palavras


que existem


(para a classe mais baixa)




Fome


         Vergonha


                      Lágrimas


e 


                                 Trevas.




Com o soluço impuro,


com o desespero


(e eu desespero ainda com o desespero)


por tanta miséria


pelo estado do doente, pelo custo da vida,


sobreviverei.




Não descuido a escrita


mas a mim.


Os outros sabem


sabe Deus


o que fazer com as palavras.


Eu não sou o meu médico assistente.





Deverei eu


prender um pensamento,


conduzi-lo à cela iluminada de uma frase?


Alimentar o olhar, o ouvido


com nacos de palavras de primeira qualidade?


Estudar a libido de uma vogal?


Investigar a cotação erótica das nossas consoantes?




Terei eu,


com a cabeça desfeita pelo granizo,


com a cãibra da escrita nesta mão,


sob o peso de trezentas noites,


de rasgar o papel,


varrer as tramas de operas de palavras,


destruindo assim: eu tu e ele ela isso




nós vós?




(Devo. Devem os outros.)


A minha parte - que desapareça!

Tradução de Judite Berkemeyer e de João Barrento, Ingeborg Bachmann, O tempo aprazado, (Lisboa,Assírio & Alvim, 1992).

Keine Delikatessen


Nichts mehr gefällt mir.




Soll ich


eine Metapher ausstaffieren


mit einer Mandelblüte?


die Syntax kreuzigen


auf einen Lichteffekt?


Wer wird sich den Schädel zerbrechen


über so überflüssige Dinge -




Ich habe ein Einsehen gelernt


mit den Worten,


die da sind


(für die unterste Klasse)




Hunger


          Schande


Tränen




und


              Finsternis.


 

Mit dem ungereinigten Schluchzen,


mit der Verzweiflung


(und ich verzweifle noch vor Verzweiflung)


über das viele Elend,


den Krankenstand, die Lebenskosten,


werde ich auskommen.


Ich vernachlässige nicht die Schrift,


sondern mich.


Die anderen wissen sich


weißgott


mit den Worten zu helfen.


Ich bin nicht mein Assistent.




Soll ich


einen Gedanken gefangennehmen,


abführen in eine erleuchtete Satzzelle?


Aug und Ohr verköstigen


mit Worthappen erster Güte?


erforschen die Libido eines Vokals,


ermitteln die Liebhaberwerte unserer Konsonanten?




Muß ich


mit dem verhagelten Kopf,


mit diesem Schreibkrampf in dieser Hand,


unter dreihundertnächtigem Druck


einreißen das Papier,


wegfegen die angezettelten Wortopern,


vernichtend so: ich du und er sie es


wir ihr?

(Soll doch. Sollen die andern.)

Mein Teil, es soll verloren gehen.

 

Ingeborg Bachmann (1963)

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