31.1.13

Jardins palacianos








“Conhecer alguém aqui e ali que pensa e sente como nós, e que embora distante, está perto em espírito, eis o que faz da Terra um jardim habitado.” Goethe

17.1.13

Salvem-se as gaivotas ...







[…]

A cidade a esta hora está a ruir por dentro

mas está tudo bem é óptimo isto tudo

eu sigo embatucado pela margem do

Tejo
sou eu agora quem aposta nas gaivotas contra a nafta

vejo passar um petroleiro grego – o Parténon – será?

por ali fico duas ou três horas a olhar as águas



o

Tejo é hoje uma maldita avenida e há cada vez menos árvores
o

Tejo é um esgoto
 










o


Tejo é um esgoto




oh por favor salvemos ao menos as gaivotas

por favor salvemos

ao menos

as gaivotas

[…]
 
Joaquim Pessoa

"Poluição", in  Os Dias da Serpente,  (Lisboa, Moraes)
 


 
 Poluição

A cidade não é o nosso orgulho os aviões não são pombas
                                                                               [brancas
estou  doente
na minha frente os automóveis brilham uma mulher volta
                                                                          para mim o rosto
tem os óculos no alto da cabeça como Gago Coutinho após
                                                                               a  Travessia
e eu olho para o chão e depois para o céu:
entre o vómito matinal de um bêbedo e Deus
já quase nada existe
Deus está debaixo dos tectos enrolado em mansos cobertores
não há saída nenhuma para ele pois
que se deixe estar: este caminho esta cidade são
de facto trabalho para o Homem
Deus limitou-se a apostar no Homem
Dois generais nunca discutem por causa de uma rosa
ensinou-me meu pai  há muito tempo
quando podava a vinha e eu ia enchendo
os bolsos com tangerinas para dar ao Careca
que escolhia sempre a linha quando íamos descalços
jogar  o  futebol
A cidade a esta hora está a ruir por dentro
mas está tudo bem é óptimo isto tudo
eu sigo embatucado pela margem do Tejo
sou eu agora quem aposta nas gaivotas contra a nafta
vejo passar um petroleiro grego − o Parthénon − será?
por ali fico duas ou três horas a olhar as águas
o Tejo é hoje uma maldita avenida e há cada vez menos árvores
o Tejo  é um  esgoto
o Tejo  é um  esgoto
oh  por favor  salvemos
ao menos
as gaivotas

Nas livrarias vendem-se pastéis de nata e Roland Barthes
é moda não se admirem: duzentos mil exemplares
de pastéis de nata
contra quinhentos livros do António Ramos Rosa
e as pessoas entram e escolhem
invariavelmente
os pastéis  de  nata e
lambem-se gulosas satisfazem
a sua opção crítica cumprimentam e engordam o livreiro
generosamente

Hoje ainda há Obélix e  Kafka
Hoje ainda há Hamburgers e Travolta
Hoje ainda há Chiclets
Hoje ainda há
Hoje
Volto de novo ao Tejo às suas margens descalço como
                                                                                             Leanor
os meus sapatos ainda lá estão só a verdura não existe
e agora mais confortável do que nunca com estes sapatos
                                                                                              sujos
cheios da nossa civilização até aos atilhos
caminho devagar para o ventre da cidade fumando um cigarro
                                                                                                       sem filtro
e pontapeio com um misto de impotência e de desprezo
os caixotes de lixo
os pneus dos automóveis estacionados
sabendo que vou morrer
inevitavelmente
Ó mar da minha angústia diz-me: a felicidade é uma árvore?
 
Joaquim Pessoa




"Poluição", in Os Dias da Serpente, (Lisboa, Moraes)

15.1.13




I stood by the shore at the death of day,

As the sun sank flaming red;

And the face of the waters that spread away

Was as gray as the face of the dead.


And I heard the cry of the wanton sea

And the moan of the wailing wind;

For love’s sweet pain in his heart had he,

But the gray old sea had sinned.



The wind was young and the sea was old,

But their cries went up together;

The wind was warm and the sea was cold,

For age makes wintry weather.


So they cried aloud and they wept amain,

Till the sky grew dark to hear it;

And out of its folds crept the misty rain,

In its shroud, like a troubled spirit.


[...]

Paul Laurence Dunbar