31.12.05

Quotidiano em português (?)

Esta manhã no talho, uma cliente interroga o talhante:

- Tem "mortandela" sem azeitonas? Se tiver quero 200 gr de "mortandela".

Entretanto, outra cliente pede:

- Dê-me dois "franganinhos"!

Dia 31 de Dezembro há 107 anos

le 31 décembre [1898]

Le dernier jour de l'année. Que sera-t-elle, cette année nouvelle? (...)
Tout le monde s'est détendu, nous avons fait la veillée du Nouvel An en famille, avec bonne humeur et tranquillement. Adieu, vieille année qui m'as apporté tant de chagrin, mais aussi pas mal de joies. Un message pour ceux qui me les ont données...


Sophie Tolstoï, op.cit. p. 500.

Para todos, um Ano com macro alegrias e desgostos microscópicos

30.12.05

Variações sobre um tema

Cézanne

Ainda Ravel

A propósito de um dissoluto comentário e link:

"Mas voltemos a Ravel. Quando chegou a idade dos primeiros amores e dos primeiros versos, tinha-o ainda a meu lado, na atmosfera sonhadora e sensual do Concerto em sol, ou na trágica expressão do Concerto para a mão esquerda, para o qual eu inventava, na maior boa fé, já nem me lembro que fantásticas e heróicas patranhas, que impingia aos amigos. Tudo se casava às mil maravilhas, numa contraditória experiência íntima em que entrava a música de Ravel, a poesia e os ensinamentos de Afonso Duarte, com quem depois comecei a conviver (...)"

João José Cochofel, op.cit. p. 10.

Mais Cézanne, mais Rilke


Le Grand Pin, 1892-96 (150 Kb); óleo sobre tela, 33 1/2 x 36 1/4 in; Museu de Arte, S.Paulo, Brasil

Feuillage
1895-1900 (150 Kb); aguarela e lápis sobre papel, 44.8 x 56.8 cm (17 5/8 x 22 3/8 in); The Museum of Modern Art, New York

(...)C'est le tournant qui constitue cette oeuvre que j'ai reconnu, parce que je venais de l'atteindre dans mon travail ou qu'à tout le moins j'en approchais, préparé sans doute depuis longtemps à cet événement unique dont tant d'autres sont dépendants. C'est pourquoi, si tenté que je sois naturellement d'écrire sur Cézanne, il me faut n'envisager ce project qu'avec prudence.

op. cit, p.91.

Rilke escreveu sobre Cézanne:


Le lac d'Annecy (Lake Annecy)
1896 (190 Kb); óleo sobre tela, 64.2 x 79.1 cm (25 1/4 x 31 1/8 in); Venturi 762; Courtauld Institute Galleries, London

Paris VIe, 29 rue Casette,
Le 9 octobre 1907

... Aujourd'hui, je voulais te parler un peu de Cézanne. Pour ce qui est du travail, il prétendait avoir mené une vie de bohème jusqu'à quarente ans. Alors seulement, la rencontre de Pissarro lui aurait donné le goût du travail. Mais si fort, désormais, qu'il n'a plus fait que travailler durand les trentes années suivantes. Sans joie d'ailleurs, dans une rage perpétuelle, en guerre avec chacune de ces oeuvres dont aucune lui semblait atteindre ce qu'il tenait pour rigoureusement indispensable. (...)Ce qui emporte la conviction, la transformation en chose, l'exaltation de la realité rendue indestrutible à travers l'expérience que le peintre a de l'object, voilà où il situait la fin de son plus intime travail; (...)


Rilke, Lettres sur Cézanne, (Paris Seuil, 1995),pp. 57-58

Nota-se, nesta análise, a transferência dos pressupostos de Rilke sobre a finalidade da sua poesia para a arte de Cézanne.

29.12.05

Programme:

Retour au monde flottant

Harunobu Susuki


SUR L'AIR DE "MULAN HUA"


Anche de cuivre qui vibre
dans le creux du bambou

Main de jade caressant
la lente mélodie

Là où se croisent les regards
les ondes d'automne inondent l'espace


Nuage-pluie crève soudain
les murs brodés

Rencontre furtive
désirs accordés

Le festin passé
le vide à nouveau s'installent

Âmes fondues dans le rêve
indéfiniment se cherchent


Li Yü

Ensimesmamento

Magie
III

J'ai peine à croire que ce soit naturel et connu de tous. Je suis parfois si profondément engagé en moi-même en une boule unique et dense que, assis sur une chaise, à pas deux mèttres de la lampe posée sur ma table de travail, c'est à grand-peine et après un long temps que, les yeux cependant grands ouverts, j'arrive à lancer jusqu'à elle un regard.
Une émotion étrange me saisit à ce témoinage du cercle qui m'isole.
Il me semble qu'un obus ou la foudre même n'arriverait pas à m'attendre tant que j'ai de matelas de toutes parts appliqués sur moi.
Plus simplement, ce serait bien que la racine de l'angoisse est pour quelque temps enfouie.
J'ai dans ces moments l'immobilité d'un caveau.


Henri Michaux, "Entre Centre et Absence", in Plume Précédé de Lointain Intérieur, (Paris, Gallimard, 1963), p.11.

28.12.05

Entre o sonho e a realidade

Esta madrugada a cama acordou com convulsões. Um sonho hiper-realista? Afinal era um sismo.

Mais tarde, pensei: se fosse um terramoto a sério, com objectos a cair, qual teria sido a minha reacção? Manteria a mesma displicência? Na verdade, uma pessoa está habituada a caminhar sobre um solo estável e espera que os objectos se mantenham sossegados no seu lugar.

Destaque

Recomenda-se a leitura do nº 1 -
"Loucura e Desrazão" - da revista Conceito. Uma Revista de Filosofia e Ciências do Homem.

68 Anos Depois



Maurice Ravel (07/03/1895 - 28/12/1937).


"Imagina-se mal o calvário que ele suportou quando o seu espírito ainda lúcido percebia o desacordo entre os seus gestos e o cérebro. Não mais podia escrever, e nós demo-nos conta disso quando, depois de um concerto, um estudante lhe passou a sua caneta para que assinasse um programa. O seu olhar desvairado ia de nós para o lápis estendido... como um punhal!"

Hélène Jourdan-Morhange, "Saudades de Maurice Ravel", Arte Musical,1, (3), (1958), p.8.


"E um dia, a notícia terrível. Morrera Ravel. Não sei como o soube, mas sei que esse dia foi um dia de negrume, um dos meus primeiros dias de negrume (...)"

João José Cochofel, "Recordação de Ravel", Arte Musical,1, (3), (1958), p.9.

Lettres de ma Cuisine nº 8 - Bûche au café



Ma Chère Marie,

E, por último uma sobremesa:

Bûche au café


Comece por bater 4 claras em castelo, quando estiverem firmes juntar 1 chávena de chá de açúcar, continuar a bater. Diminua a velocidade da batedeira e adicione, gradualmente, as gemas, com cuidado. Junte raspa de limão ou essência de baunilha (pouquíssima!!!) e uma chávena de farinha. Leve ao forno em tabuleiro untado com manteiga e polvilhado com farinha.

Desenforme e recheie com doce de alperce ou de framboesa e enrole. Acerte as pontas e com essas partes do bolo faça os nós do tronco.

Cobertura:

Bata 1,5 dl de natas com um pouco de sumo de limão, acrescente açúcar a gosto. Continue a bater até ficarem bem espessas. Reserve um pouco deste chantilly.. Acrescente chocolate em pó dissolvido em licor de café e misture delicadamente. Forre a torta e com um garfo imite os veios da madeira. Use o chantilly para imitar neve e decore com folhas de azevinho, de hera, ou outros motivos ao gosto do artista, elaboradas com massapão, pastilhagem, fruta cristalizada, ou mesmo a folhagem naural.

Un Prétendu Gourmand Cosmopolite

27.12.05

Lettres de ma cuisine nº 7 - Velouté de morue

Coza 1,5 kg de bacalhau, durante cerca de 10 minutos, em 2 l de água temperada com 1 ramo salsa, outro de tomilho fresco, 2 dentes de alho descascados, uma folha de louro. Escoe e reserve o peixe.
Entretanto, submeta 600 gr de batatas, descascadas e cortadas em cubos, ao mesmo processo.
Aproveite o tempo da cozedura das batatas para retirar as peles e as espinhas às postas do bacalhau, que deverão ser transformadas em lascas. Separe 600 gr das ditas cujas lascas. Reduza as batatas, e o restante bacalhau a puré
Bata 1,5 dl de natas com sumo de limão, até ficarem bem firmes e incorpore-as com cuidado no puré. Rectifique os temperos e conserve quente.
Disponha as lascas de bacalhau no réchaud, ou distribua-as pelos pratos individuais, e cubra com o aveludado, tempere com um fio de azeite e pimenta moída no momento. Decore com cebolinho fresco picado.

Notas:

O bacalhau foi adquirido em Stavanger, para grande desgosto da tradutrice, pois prefere o arenque, e detesta tudo quanto seja natural da, ou produzido na Noruega.

Se sobrar para o dia seguinte, fica muito bem polvilhado com queijo ralado e gratinado no forno.

A receita do Fricassée grego foi copiada do Savarin :)
Un Prétendu Gourmand Cosmopolite

Lettres de ma Cuisine nº 6 - Rôti de porc blasé aux pommes

Ma Chère Maria

Voilà les recettes traduites.

Enfin je commence!

Começo pelo porco, cuja designação é mesmo “blasé”, não foi gralha.

Rôti de porc blasé

Comprar um lombo de suíno quando na verdade se pretendia cozinhar uma suculenta perna de borrego.
No caso do porco não figurar no elenco das carnes preferidas temperá-lo, com bastante antecedência, com uma pasta preparada com alhos picados, paprika, gengibre fresco picado, vinagre balsâmico, azeite, sumo de laranja, pimenta, 1 colher de sopa de polpa de tomate. Barrar a carne com a mistura, dispor raminhos de manjerona fresca sobre o lombo, tapar e deixar repousar em local fresco até à noite seguinte. Nessa altura, assar em forno quente. Não deixar secar o molho, para isso elaborar uma mistela com vinho, paprika, sumo de citrinos e pimenta, para ir colocando sobre a carne e no tabuleiro. Quando já estiver dourado, cobrir com folha de alumínio até ficar bem cozido. No final retire a folha para dourar um pouco mais.

Acompanhar com:

Maçãs Assadas

Fazer uma cavidade nas maçãs, cortar um pouco das bases, acomodá-las num tabuleiro untado com manteiga, pôr uma noz da mesma gordura em cada uma das cavidades e uma colher de café de açúcar mascavado. Juntar vinho e sumo de limão no fundo do tabuleiro e assar.

E Puré de castanhas:

Lave 1,5 kg de castanhas, faça incisões na parte mais polpuda das ditas, ferva água salgada e mergulhe aí as castanhas durante 5 minutos,depois é descascá-las e levá-las a cozer numa caçarola com 75 cl de leite em lume brando 45 minutos, reduzi-las a puré, incorporar 50 gr de manteiga e 1dl de natas natas, até obter um puré homogéneo, junte leite para ficar com a consistência desejada. Por fim tempere com noz moscada e pimenta moída na altura.

Nota: Terá o trabalho minimizado se usar castanhas, já descascadas, congeladas.
Un Préntendu Gourmand Cosmopolite

Lettres de ma Cuisine nº 5 - Noël pas à la Carte

Uppsala, le 24 décembre

Ma Chère Maria

En fait je m'en fou complètement de l'IKEA et de tous les menus de Noël suédois. J'ai composé mois-même mon menu de Noël. Le voici, le voilà:

Velouté de morue
Fricassée de boeuf aux petits oignons et au vin rouge (moshari stifatho)
Purée de marrons
Rôti de porc blasé aux pommes
Bûche au café

Alors, je vous donnerais toutes ces recettes lorsque ma tradutrice suédoise finira leur traduction.

Meilleurs Souhaits de Joyeux Noël et Bonne et Heureuse Année!

Un Prétendu Gourmand Cosmopolite

Descobertas Felizes

Este ano, foi com muito agrado e prazer que encontrei três ilhas paradisíacas no universo virtual: o dissolutismo absoluto de Ópera e Demais Interesses, , o mundo fascinante de Legendas & Etcaetera e o saber admirável de desNorte.

26.12.05

O Dia Seguinte

O que se faz? Primeiro há que digerir as iguarias da festa, a seguir comem-se os doces que sobraram, enquanto se lê, com displicência, o diário de Sofia Tolstoi - mais conhecida como a esposa do famoso escritor russo - comprado num alfarrabista de rua, no Chiado, a 26 de Novembro deste ano. Aguarda-se uma Lettre de ma Cuisine. À varanda, escuta-se a chuva à luz dos incontáveis tons de cinzento do céu. Vive-se em pleno spleen natalício.

26 décembre [1897]

Ce matin, nous avons pris congé de Tania et Sacha qui partent pour Nikolsköé. Sérioja est déjà parti hier soir. Ils se sont dépêchés d'emballer leurs caisses. J'ai envoyé des cadeaux pour l'arbre de Noël de mes petits-enfants, des cadeaux et et des fruits pour Dora, une caisse d'argenterie et une pelisse pour Macha. Tout cela confié à Tania, à qui j'ai remis pour le voyage un courbillon avex des fruits et un repas. Nous sommes restés à deux, L.N.(*) et moi ´'est calme et bon. Il va beaucoup mieux: ce matin 36,9, ce soir 37,5. Il m'a demandé du potage et une pomme au four; il est plus alerte et plus gai.
J'ai passé toute la journée au piano. En dépit de ma mauvaise exécution, cet entretien sans paroles avec tantôt Beethoven, tantôt Mendelssohn, tantôt Rubinstein, etc., me procure un plaisir immense. J'ai été interrompue, d'abord par Mitia Olsoufiev, avec qui j'ai causé franchement, simplement et amicalment, puis par ma raisonnable, vive et belle cousine, Olga Sévertzev, et par Mme Mouromtzev, intelligente, douée et pleine de tempérament. Elle a beaucoup de défauts, mais elle me diverti toujours. J'ai reçu quatre invitations, pour moi et les enfants: chez Mme Mouromtzev,`où il y aura Me Koni et des musiciens. Elle m'a dit qu'elle invitait S.T.Mais je sais qu'il "fait retraite" à l'ermitage de Gethsémané pour travailler.

Anna Lévitzki est venu dans la soirée; ensuite j'ai développé et abîmé le groupe que j'avais photographié hier dans le jardin. Demain concert symphonique, je m'en réjouis.



Sophie Tolstoï, Journal Intime, 1862-1900, (Paris, Albin Michel, 1980), p.385
(*)Léon Tolstoi

20.12.05

Um Símbolo de Felicidade





Viscum Album L.



Para todos os meus leitores, os meus votos de uma temporada natalícia plena de boa disposição.

17.12.05

Epílogo

A sintonia entre XX e XY atingira um tal grau de intensidade que os levou a deixar de estabelecer qualquer tipo de contacto material: adiaram os encontros sine die, os telemóveis sofriam avarias súbitas, o destino dos e-mails era declarado "bad host". Nada disto é importante, nem tão pouco perturbador, um e o outro são duas representações do mesmo.

Erik Satie


Ler e ver mais aqui

Le musicien est peut-être le plus modeste des animaux, mais il en est le plus fier. C'est lui qui inventa l'art sublime d'abîmer la poésie.


Pauvres musiciens! Tout n'est pas rose, pour eux, sur cette Terre - véritable Vallée de Larmes, malgré sa rotondité rotatoire.


Un vrai musicien doit être soumis à son Art; ... il doit se placer au-dessus des misères humaines; ... il doit puiser son courage en lui-même, ... rien qu'en lui-même.

Satie, Écrits.

Lettres de ma Cuisine nº 4

Ma Chère Maria,

... Cliquez ici ! ... Voilà ... beaucoup de recettes suédoises. Pardonnez-mois car je ne veux pas les traduire, je suis trop pareceux ...

Un Prétendu Gourmand Cosmopolite

16.12.05

Chronos e Tempus

Segundo o físico Erwin Schrödinger mais do que um objecto de conceptualização, o tempo é um fenómeno sobre o qual se medita. Para experimentar o intemporal, bastaria uma circunstância que, sem suspender o tempo, nos levasse a aderir ao presente, fazendo-o fulgurar, levando a sua densidade ao absoluto, uma situação que nos conduzisse ao centro imóvel do tempo.

15.12.05

Lettres de ma Cuisine nº 3

Ma Chère Maria,

Antes de lhe enviar as prometidas receitas da gélida Escandinávia, quero falar um pouco sobre um dos meus ídolos. Refiro-me a Apicius, mais precisamente ao Marcus Gavius. Este ilustre gourmand, grande gastrónomo romano, foi citado por sumidades como, Tácito, Plínio, e Séneca. Autor do livro mais antigo, de que há exemplares e sob vários títulos: Ars Magirica, Apicius Culinaris, De Re Coquinarie. Apicius timha por hábito e paixão organizar sumptuosos banquetes, traço de personalidade que o levou ao descalabro financeiro, ou dito de outro modo à delapidação da sua fortuna. Suicidou-se por envenenamento no dia em que ofereceu o seu derradeiro banquete, "colação" subsidiada com o dinheiro que lhe restava. Imolou-se à Arte da Mesa que já não podia manter em todo o seu esplendor.
Foi o fundador da Escola Patrícia de Cozinha em Roma, onde os cozinheiros, escravos muito bem pagos, ensinavam o seu saber às damas romanas.
Un Prétendu Gourmand Cosmopolite

14.12.05

Frio

O frio desperta o sadomasoquismo latente, uma mistura de emoções opostas. Quer isto dizer que a luz do frio ofusca todas as outras, apesar do gelo no sangue.

Há quem mude de vida, e quem mude de letras.

13.12.05

Lettres de ma Cuisine nº 2


Mais

Aqui



Ma Chère Maria,

Vai fazer nove anos, passei a quadra festiva em Uppsala, vai daí lembrei-me de sugerir uma ceia tradicional sueca. Por isso, dentro de dois dias irei enviar-lhe um exemplo de smörgasbord, uma hipótese de bufette natalício, útil, principalmente, para quem for fazer compras no IKEA, pois pode aproveitar e abastecer-se na charcutaria sueca. Não imagina a choruda comissão que receberemos, à conta deste post.

Un Prétendu Gourmand Cosmopolite

11.12.05

Lettres de ma Cuisine nº 1 - Lussekatter


Ma Chère Maria,

As minhas sugestões para o Natal serão todas elas de inspiração nórdica. E, começarei por preparar os festejos do dia de Santa Luzia.
A 13 de Dezembro celebra-se o dia de Santa Luzia, com especial entusiasmo, na Noruega e na Suécia. Um dos elementos fundamentais da celebração são os bolinhos de açafrão designados por lussekatt, os gatos de Luzia. As formas destes bolos são variadas, mas são sempre baseadas nas arcaicas formas de pães moldadas nas tradições cristãs sueca e norueguesa.


Aqui deixo uma versão dos bolos de Santa Luzia, pois há várias, embora muito semelhantes.

Para os preparar há que arranjar os seguintes ingredientes:

300 ml leite
1 g açafrão
2 colheres de chá de cardamomo moído(facultativo)
50 g fermento de padeiro fresco (a encomendar, com antecedência, na padaria)
150 g açúcar
125 g manteiga
700 g farinha
2 ovos
sal, corintos


Aqueça a manteiga e junte o leite e o açafrão, até a mistura ficar a 37º C. A temperatura correcta é muito importante!
Junte a mistura ao fermento, adicione os restantes ingredientes (excepto um dos ovos e os corintos) que devem estar à temperatura de 21-23ºC. Misture bem e amasse até obter uma massa homógenea e macia.
Tape a massa com um pano e deixe levedar durante 30 minutos.
Amasse, divida a massa em 25-30 pedaços e forme, com cada um dos bocados, um bolo redondo Deixe os bolos repousar alguns minutos, cobertos com o pano.
Forme com cada bolo uma tira de 15-20 cm de comprimento, e dê-lhe a forma de S ou duplo S. Os bordos das tiras devem juntar-se. Decore com os corintos.
Cubra os "gatos da Luzia" com um pano,e deixe levedar 40 minutos.
Bata o ovo com uma pitada de sal e pincele os bolos com a mistura.
Asse durante 5-10 minutos no forno a 250º C até adquirirem uma bonita cor amarelo dourado.


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Outras receitas:

1.

Ingredients :


3dl de lait
50 gr de levure de boulanger
800 gr de farine
200 gr de beurre
250 gr de sucre en poudre
1 pincée de sel
2 gr de safran en poudre battu
2 oeufs

Faire fondre le beurre dans un casserole puis ajouter le lait et laiser refroidir.
On aura d'autre part délayé la levure et le safran dans un fond de lait. Incorporer au lait tiédi, puis ajouter les éléments suivants : le sucre, le sel, la levure, la moitié de la farine, les oeufs, et enfin le reste de la farine.
Travailler la pâte directement sur la plan de travail pour lui donner de la consistance, puis laisser reposer dans un endroit tiède. Quand la pâte a doublé de volume, la rompre.
Former des bandes de pâte que l'on roule suivant la forme de brioche désirée.
Dorer à l'oeuf battu, rajouter des raisins secs, ou amandes et faire cuire à 225 degrés pendant 6-8 mn.


2.

Ingredients

Pour 40 petits, 4 longs à tresser ou 2 ronds

Pâte :
150 gr de beurre
1/2 l de lait
1 gr de safran (dosettes)
50 gr de levure fraîche (chez le boulanger)
½ cuillère de sel
180 gr de sucre
900 gr de farine
100 gr raisins secs

Descriptif


Faire fondre le beurre dans une casserole. Verser le lait dedans jusqu’à obtenir un liquide d’environ 37°C (température du corps, « fingervarm »)
Mélanger dans un bol le safran avec un peu de lait pour diluer, ensuite le reste du lait.
Emietter la levure, et diluer dans du lait.
Mélanger le sel, le sucre et presque toute la farine avec le liquide, jusqu’à obtenir une pâte qui « lâche » le récipient, rajouter au besoin un peu de farine en travaillant.
Faire lever au chaud pendant 30 minutes.
Travailler jusqu’à ce que la pâte soit bien souple.

Petites brioches :
Partager en 40 morceaux (rouler en bougies) et former en S

Grosse ronde :
Former la grosse boule en collant plein de petites boules ensemble (pour pouvoir prendre une part sans couper)

Longues :

Faire des rectangles, mettre la garniture, et rouler pour fermer (gâteau roulé). Couper des entailles.

Mettre sur la plaque sur du papier de cuisson, et laisser encore lever 30 min sous du plastique alimentaire. Passer de l’œuf battu avec un pinceau.

Cuissons :
Petits : 225/250°C pendant 8 à 10 minutes au milieu du four.
Longs et ronds : 200/225°C pendant environ 20 min en bas du four.
Laisser refroidir sur une grille sous un torchon.
BON APPETIT !

Nos conseils : Pour glacer : 1 œuf (au pinceau) du « gros » sucre (perle-sukker) ou des amandes effilés.

Garniture (à fourrer) pour les pains longs tressés :
1 œuf battu, mélange de sucre et poudre d’amandes jusqu’à une consistance de purée.


Par Un Prétendu Gourmand Cosmopolite

Ripple



I feel like a ripple that chases the routs of the wind.*



I feel like a ripple that chases the routs of the wind.**



I feel like a ripple that chases the routs of the wind.***




I feel like a ripple that chases the routs of the wind. ****

10.12.05

Listening

You ask my thoughts
through the long night?

(...)

Izumi Shikibu

Um excerto da Arte Musical 1, III Série, (1958)

Ravel no Porto

"Audição de composições de Maurice Ravel para a qual foram contratados este insigne compositor francês e os notáveis artistas Madeleine Grey (cantora) e Claude Levy (violinista)." Eis o que se podia ler na capa do programa do recital desse Sábado, 24 de Novembro de 1928, organizado pelo Orpheon Portuense. Esta passagem entre nós do grande compositor, como já Ravel era considerado, foi motivo de forte emoção para todos os que aspiravam acompanhar o movimento da música contemporânea; por certo maior que a sentida hoje quando podemos ver Honegger, Hindemith, Stravinsky, ou Germaine Tailleferre.
Contratado para Portugal por Luís Costa, que nessa altura dirigia o Orpheon, Ravel apresentou, no Porto, uma série de obras ainda desconhecidas do nosso público e hoje justamente célebres. Assim ouviu-se pela primeira vez o Prelúdio e o Minuete do "Tombeau de Couperin", na interpretação de Ravel; uma série de canções que incluía uma ária de "L'Heure Espagnole" e outra de "L'Enfant et les sortilèges, cantadas por Madeleine Grey acompanhada pelo autor (...).


Op. cit. p. 11

Achados

Num alfarrabista, em Coimbra encontrei o número 1, da III série da revista Arte Musical, publicado em Março de 1958. A revista fora fundada por Luís de Freitas Branco em 1931, foi editada até 1948, tendo a sua publicação sido suspensa. Foi reeditada em 1958, sob a direcção de João de Freitas Branco,já depois do falecimento de Luís de Freitas Branco. A seguir ao editorial, dez páginas da revista são dedicadas a Ravel.
Outra feliz descoberta foi uma separata do Vol.IV (1945)da revista A Criança Portuguesa, com o artigo de Maria Irene Leite da Costa, "Complexos Infantis". Maria Irene Leite da Costa foi professora do Instituto e formou-se em Psicologia e Pedagogia no Instituto das Ciências da Educação da universidade de Genève. No seu artigo descreve alguns casos clínicos, recorrendo a noções básicas da psicanálise, para explicar a etiologia das perturbações das crianças observadas, nomeadamente ao complexo de Édipo e ao complexo de castração. No entanto, a interpretação psicanalítica da autora fundamenta-se, apenas, na obra de Baudouin, L'Âme Infantine et la Psychanalyse, Neuchatel, 1931, seguindo a classificação utilizada por este autor. Aliás é a única obra que cita.
Foi interessante descobrir este texto, porque em Portugal, até 1950, e de acordo com Pedro Luzes,no livro Cem Anos de Psicanálise (1), há textos de índole psicanalítica, mas não Psicanálise propriamente dita. Na referida colectânea de textos psicanalíticos portugueses, Pedro Luzes seleccionou para o ano de 1945 o excerto "Os Fundamentos da Psicanálise" do livro Psicanálise de Seabra-Dinis, publicado pelas Edições Cosmos.

(1)Pedro Luzes, Cem Anos de Psicanálise, (Lisboa, ISPA Edições, 2002)

9.12.05

Lettres de ma Cuisine nº 0

Ma chère Maria,

J'ai à répondre à votre charmante e-mail. Je passerai donc rapidement sur les remerciements que je vous dois pour les souhaits de bonne santé que vous me faites et sur l'érudition que vous voulez bien me prêter, pour arriver au point qui me touche le plus, c'est-à-dire la cuisine. Je vous veux parler de la question culinaire.
Je suis devenu cuisiner par necessité, tout simplement parce que chez mes amis l'ont mange médiocrement, mal, où on ne mange pas du tout.
J'ai remarqué dans votre e-mail que celui de mes mérites dont vous paraissez le moins convaincu est mon talent pour la cuisine. Ce doute a changé en irritation tout cet agréable chatouillement qu'avait produit sur mon système nerveux vos autres éloges. Et bien, je dois écrire dans la langue portugaise.
Não julgue - apesar da grande admiração que lhe inspira, Savarin - que essa ilustre figura descobriu mais e melhores pitéus do que eu, quero deixar isto bem claro. Mas vamos ao que interessa.
Ontem, sentado na minha cozinha, a beber um capuccino, a meditar sobre a sua mensagem, recordei-me do agradável almoço com a Helena, na cafetaria da Fundação Calouste Gulbenkian, quando ela me fez a proposta de colaborar no seu Digitalis.Calouste Gulbenkian, tal como Charles Aznavour nasceram na Arménia.
E, já agora, em troca do poema que me enviou, lembro esta estrofe dos Lusíadas:
13

Gregos, Traces, Arménios, Georgianos,
Bradando-vos estão que o povo bruto
Lhe obriga os caros filhos aos profanos
Preceptos do Alcorão (duro tributo!)
Em castigar os feitos inumanos
Vos gloriai de peito forte e astuto,
E não queirais louvores arrogantes
De serdes contra os vossos muito possantes.


Camões, Lusíadas, Canto VII

Não podia adivinhar Camões, que um arménio viria a subsidiar a cultura em Portugal.
Se a Maria estiver de acordo, começo a minha coluna com uma receita de borrego de inspiração arménia, em que reuni duas versões do estufado de borrego à maneira arménia.

TASS KEBAB

COM ARROZ PILAF COM PISTÁCIO

1KG DE PERNA DE BORREGO CORTADA AOS CUBOS DE UNS 3 CM DE LADO
1 TOMATE PELADO OU DUAS COLHERES DE SOPA DE POLPA DE TOMATE
2 COLHERES DE SOPA DE ÓLEO DE MILHO OU DE AZEITE
1 COLHER DE SOPA DE MANTEIGA
1 COLHER DE CHÁ DE PIMENTA BRANCA
1 COPO PEQUENO DE VINHO BRANCO SECO
1/2 L DE CALDO DE CARNE
1 FOLHA DE LOURO
1/2 COLHER DE CHÁ DE TOMILHO
1 COLHER DE CHÁ DE COMINHOS MOÍDOS
1/3 DE COLHER DE CHÁ DE CANELA MOÍDA
1/3 DE COLHER DE CHÁ DE NOZ MOSCADA MOÍDA
2 DENTE DE ALHO PICADO
2 CEBOLAS MÉDIAS CORTADAS ÀS RODELAS FINAS
SAL
1 COLHER DE SOPA DE FARINHA DE TRIGO.

Tempere a carne e deixe marinar, num local fresco, durante duas a três horas. Aqueça a gordura e salteie a carne. Após ter dourado a carne, proceda do mesmo modo com as cebolas, aloure-as, em lume brando, durante cinco minutos. Polvilhe com a farinha de trigo e deixe em lume brando por mais três minutos. Acresente o tomate E CONSERVE MAIS UM OU DOIS MINUTOS NO LUME, MEXENDO DE VEZ EM QUANDO. FORA DO LUME JUNTAR O VINHO E O CALDO DE CARNE, AOS POUCOS, CUIDADOSAMENTE, PARA NÃO FORMAR GRUMOS.Quando estiver homogéneo LEVE AO LUME ATÉ LEVANTAR FERVURA. Adicione os pedaços de carne. Tape e cozinhe em lume brando durante uma hora. Mexa de vez em quando, e se, necessário acrescente mais caldo de carne.

UM PILAF

2 CHÁVENAS DE ARROZ
2 COLERES DE SOPA DE ÓLEO
1 CEBOLA PEQUENA PICADA
4 CHÁVENAS DE CALDO DE GALINHA
SAL
PIMENTA
172 CHÁVENA DE CORINTOS OU TÂMARAS PICADAS
5 COLHERES DE SOPA DE PISTÁCIOS DESCASCADOS E PICADOS

Lave o arroz e escorra-o bem.
Aqueça o óleo e doure a cebola. Junte o arroz, refogue-o e acrescente o caldo de galinha. Tempere com sal e pimenta. Tape e cozinhe em lume brando até secar o caldo. Junte as passas lavadas e escorridas e os pistácios.Misture com dois garfos, cuidadosamente.

Un Prétendu Gourmand Cosmopolite

8.12.05

Passado, Presente e Futuro

Há longos anos, alguém me dizia de modo depreciativo, que eu vivia apenas no presente, como se não tivesse passado e sem pensar no futuro. Na verdade, o passado só me interessa na medida em que condiciona - de algum modo - o presente, quanto ao futuro, como diria un Prétendu Gourmand Cosmopolite, a rigor, a rigor o futuro é a morte.

7.12.05

Lettres de ma Cuisine nº - 1

À semelhança de muitos autores de blogs/blogues, por esse mundo fora, Savarin decretou a sua total indisponibilidade para continuar as suas Confidências e Desabafos. A pretexto de múltiplas e morosas ocupações despediu-se do Blogger. A rigor, a rigor, o adeus de Savarin tem por causa uma estonteante islandesa, em férias nas Maldivas, que o converteu a uma dieta de batidos e de sumos. Por este motivo, deixou a Maria sem cozinheiro e o Digitalis sem articulista de gastronomia. Entretanto, ma chère Helena lembrou-se de apresentar, este devoto amigo, à Maria para desempenhar as funções do anterior gourmet. Aceitei a incumbência com a condição de manter o anonimato e de a minha verdadeira identidade permanecer oculta no mais rigoroso dos sigilos. Selado o acordo, ponderei na designação a dar às minhas crónicas. Ao olhar para uma estante, reparo num título de Alexandres Dumas, Lettres sur la Cuisine à un Prétendu Gourmand Napolitain, logo me assomou à mente uma associação com as Lettres de mon Moulin, de Alphonse Daudet. Assim, iluminado decidi cruzar as duas referências et voilà: "Lettres de ma Cuisine", par un prétendu gourmand cosmopolite E aqui me encontro, na posse da senha, pronto para peorar sobre cozinha, pois para isso fui convocado. Prometo que vou ofuscar o Savarin com saborosas postas.

Sempre vosso,

Un Prétendu Gourmand Cosmopolite

6.12.05

Brevemente ...

"Lettres de Ma Cuisine", par un Prétendu Gourmand Cosmopolite.

5.12.05

Savarin Retira-se para Parte Incerta

Ao som de Estampes, Savarin despede-se e passa o testemunho a um novo amante das artes da gulodice, de quem se dará notícia quando o cronista de serviço despertar da letargia.

1.12.05

Acer rubrum



Aqui.

Associações

De madrugada, na camioneta a caminho de Coimbra, observo o céu a clarear, penso em doces conventuais:
Adoro toucinho com céu. Abomino toucinho só.