21.11.05

Confidências e Desabafos de Savarin (126)

Um Bêbedo Bolo Brasileiro para o Natal. A confeccionar com dez dias de antecedência. Adoro estes bolos que se fazem esperar.

Bolo de São Simão (Pequena cidade do oeste do estado de S.Paulo)

Ingredientes

2 chávena de chá de corintos e sultanas
1/4 de chávena de chá de cerejas em Marasquino cortadas ao meio
1 chávena de chá de whisky
2 chávenas de nozes picadas
3 chávenas e 1/2 de farinha
1 1/2 colher de chá de fermento em pó
1 colher de chá de noz-moscada
1 e 1/2 chávena de chá de manteiga amolecida à temperatura ambiente
1 colher de chá de essência de baunilha
2 chávenas de chá de açúcar
7 ovos à temperatura ambiente
pão ralado q.b.
1 guardanapo de algodão ou linho

Preparação

Colocar as passas de uva de molho na chávena de whisky durante 2 horas.
Peneirar a farinha para uma tigela com o fermento e a noz-moscada.
Bater a manteiga, a baunilha, e o açúcar até formar um creme esbranquiçado. Sempre batendo adicionar os ovos inteiros, um a um. Adicionar, gradualmente a farinha, sem parar de mexer. Escorrer as passas e as cerejas. Polvilhá-las com farinha. Misturar as frutas com a massa.
Vazar a massa numa forma alta, de buraco com 23 cm de diâmetro, untada com manteiga e polvilhada com pão ralado. Assar em forno pré-aquecido, moderado, durante cerca de 1 hora e trinta minutos. Desenformar e humedecer o guardanapo com whisky reservado. Embrulhar o bolo tendo o cuidado de preencher o centro com as pontas do guardanapo. Cobrir com folha de alumínio e deixar no frigorífico durante dez dias antes de servir.


Adaptado da revista Cozinha de Ouro, Ano 2, nº 14, 1998, p.45.

Também fica muito saboroso se uma das chávenas de passas de uva for substituída por casca de laranja cristalizada picada. Para quem, como eu, aprecia a casca de laranja cristalizada sabe ainda melhor.

Impressões Dispersas sobre um Colóquio (4)

No debate após a apresentação da sua conferência, "A Revolução Einsteiniana da Relatividade", Paulo Crawford afirmou - a propósito da eventualidade de viagens no tempo - que a possibilidade de viagens ao futuro levantava menos problemas teóricos e técnicos do que as viagens ao passado. No caso das viagens ao passado terá que se verificar a existência dos taquiões. Quanto às viagens ao futuro, se considerarmos o célebre exemplo dos gémeos de Einstein, deduzimos que o gémeo que viajaria pelo espaço, à velocidade da luz quando retornasse seria mais novo do que aquele que teria permanecido na terra, daí podemos concluir que conheceria um futuro ao qual não acederia de outro modo.

20.11.05

Popper estava errado

Popper insists that Freud's theories cannot be falsified and therefore are not scientific, whereas Eysenck claims that Freudian theories can be falsified and therefore are scientific. Grünbaum takes Eysenck's argument one step further to claim that Freud's theories are scientific but have been proven wrong and are simply bad science. I believe that psychoanalysis is a scientific theory due to the fact that it is falsifiable and has, in fact, been proven false. Other methods of treatment, such as cognitive and behavioral therapy, have been proven effective in many instances, and this illustrates that psychoanalysis is not the only option for the treatment of neuroses and mental illnesses.

Although I agree that the criticisms mentioned by the author are noteworthy, I believe that the many criticisms of Freud's evidence and technique must not be overlooked in the evaluation of his theory. First, many critics of Freud's evidence contend that Freud's theory lacks empirical data and relies too much on therapeutic achievements, whereas others maintain that even Freud's clinical data are flawed and inaccurate. Second, Freud's use of free association and dream interpretation in treatment have been heavily criticized by many reviewers. In my opinion, these two criticisms are very important.
(...)
After all, Freud and his theories have been criticized on almost every level, yet I think the controversiality of his theory is perhaps its greatest strength. As a direct result of Freud's theory, additional psychological theories and hypotheses have been developed that otherwise may have been missed. This, in my opinion, is by far the greatest achievement of Freud and his theory.



Um artigo sobre a crítica de Popper a Freud:

Don C. Grant, Edwin Harari, "Psychoanalysis, science and the seductive theory of Karl Popper"


Objective: To present a critique of the ideas of Karl Popper, the philosopher of science, whose depiction of psychoanalysis as a pseudoscience is often used to justify attacks on psychoanalysis.

Method: Published sources are used to provide a brief intellectual biography of Popper, a summary of his concept of science and a summary of criticisms of Popper's view of science. His depiction of psychoanalysis and Freud's reply are presented. Clinical, experimental and neurobiological research which refutes Popper's view is summarized.

Results: There is a vast scholarly published work critical of Popper's falsifiability criterion of science. Less recognized is Popper's misunderstanding and misrepresentation of psychoanalysis; his argument against it is logically flawed and empirically false. Even if Popper's theory of science is accepted, there is considerable clinical, experimental and neurobiological research in psychoanalysis which meets Popper's criterion of science.

Conclusion: Attacks on psychoanalysis based on Popper's theory of science are ill-founded and reflect inadequate scholarship.
Australian and New Zealand Journal of Psychiatry 2005; 39:446–452

MICHEL FOUCAULT: Lei, Segurança e Disciplina

19.11.05

Impressões Dispersas sobre um Colóquio (3)

Numa das pausas para café, José Câmara Leme defendeu que o facto de eu viver na provìncia me proporcionaria o tempo necessário para reflectir com maior profundidade, enquanto quem vive em Lisboa poderia aceder a um maior número de acontecimentos, mas tudo teria um efeito mais epidérmico.

Textos sobre Walter Benjamin

Este não é o texto, nem do autor, da comunicação que ouvi, mas trata-se de uma abordagem muito interessante de Alvaro Bianchi. E, já agora, Modernidade e alegoria em Walter Benjamin, de Maria João Cantinho.

Confidências e Desabafos de Savarin (125)

Moshari Stifatho - Estufado de Vaca com Cebolinhas e Vinho Tinto

Neste Domingo de chuva e vendaval apetece saborear esta aromática carne estufada, de origem grega. De preferência, enquanto se escuta o "Zehetmair Quartett" a tocar "Streichquartette" Nr. 1 e 3 de Robert Schumann - ECM 2003

Ingredientes



1 kg de vaca cortada em cubos
8 cl de azeite
3 dentes de alho picados
1 colher de chá de cominhos moídos
5 cm de pau de canela
1 copo de vinho tinto (17 cl)
3 cl de vinagre de vinho tinto
700 gr de cebolinhas
1 raminho de alecrim
2 folhas de louro partidas
2 colheres de café de polpa de tomate
700gr de cebolinhas descascadas, mas inteiras
1 colher de sopa de açúcar mascavado
sal e pimentapreta moída q.b.

Preparação

Aquecer o azeite numa frigideira grande de fundo espesso, e saltear os cubos de carne. Incorporar os alhos e os cominhos. Juntar o pau de canela. Deixar cozinhar durante alguns segundos, adicionar, gradualmente, o vinagre e o vinho tinto. Aguardar que o líquido ferva e evapore ( 3-4 minutos).
Juntar o alecrim, o louro e a polpa de tomate diluída num litro de água quente. Misturar bem, temperar com sal e pimenta, tapar e deixar estufar em lume baixo, durante 1 hora e 30 minutos.
Acrescentar as cebolinhas e mexer a frigideira para as repartir equitativamente. Polvilhar com açúcar mascavado e cozer em lume brando 30 minutos. Não mexer para evitar desfazer as cebolas, mas sacudir a frigideira com suavidade para as envolver no molho.
Retirar a canela e o alecrim. Servir com arroz, puré de batata ou batatas salteadas.

Impressões Dispersas sobre um Colóquio (2)

A primeira parte da conferência do Professor Hanns-Werner Heister abrangeu as inovações e revoluções musicais antes e depois de 1905 atonalidade e proto-serialismo: a escola de Schönberg, Cowell, Skrjabin; o prncípio futurista da "montage": Charles Ives, Stravinsky; a micro-tonalidade, eentre outras correntes e compositores. Focou também as polémicas entre universalismo/relativismo versus eurocentrismo, na música e nas outras artes, mencionando os ismos da época: Fauvismo, Expressionismo, Cubismo, Construtivismo, Futurismo.

Numa segunda parte, centrou-se nas relações isomórficas entre a Música e a Revolução Técnica e Científica. Neste sentido, referiu-se à repercussão das inovações emergentes nas áreas da aeronáutica, ao automóvel, aos media: fonógrafo, gramofone, ao cinema, vide "Ich fühle Luft von anderem Planeten", Schönberg op.10.
Também aludiu à concepção de Schönberg do compositor como um "sismógrafo do Inconsciente". Destacou ainda a alteração da cosmovisão decorrente do surgimento das geometrias não-euclidianas, da física quântiica e relativista, e a sua ligação com as novas teorias musicais.
Por último, dissertou acerca do problema da noção de Progresso na História, em particular na História da Música.

Uma comunicação que apreciei, particularmente, foi a proferida por José Luís Câmara Leme sobre o conceito de Experiência em Walter Benjamin.

(Continua)

18.11.05

Impressões Dispersas sobre um Colóquio

Quinta e Sexta-feira estive no colóquio internacional: Revoluções Científicas, Artísticas e Políticas no Início do Século XX. O colóquio foi organizado pela Universidade Nova e decorreu na Fundação Calouste Gulbenkian. Também participei com uma comunicação sobre a querela de 1920-1935 entre a escola vienense e a escola britânica de Psicanálise.Tive o imenso gosto de conhecer Karin Heister-Grech, vienense e psicanalista de formação freudiana. Estabelecemos de imediato um diálogo animado e amistoso à volta da psicanálise. Entre outros assuntos conversámos - a propósito do transfert - sobre a dissidência entre Freud e Jung e de Sabina Spielrein. Karin falou-me na ironia de Freud nos textos originais, que dado serem escritos no dialecto vienense, ela procura traduzir a subtileza do humor de Freud, para os seus colegas alemães, pois no momento está a viver em Hamburgo. Infelizmente, não apresentou comunicação, porque veio apenas acompanhar o marido Hanns-Werner Heister, professor na Hoshschule für Musik und Theater de Hamburgo, que deu uma excelente conferência intitulada "Around 1905: Substances, Structures, and Relations between the Musical and Scientific Revolution", após a qual se seguiu uma viva troca de ideias. Foram levantadas questões sobre a recepção adversa da música contemporânea,por grande parte do público, das relações entre música e matemática, da tendência na cultura ocidental para sobrevaloriza a ciência em relação à arte, entre outras.

(Continua)

16.11.05

Recados

O Savarin manda dizer que em breve retomará as suas confidências e desabafos.

Amarelas, as folhas de freixo.
Amarelas, as faias.
Amarela, a névoa matinal.

Amarela, a lua, do alto do castelo.
Amarelas, as laranjas.
Dizem-me da luz, novos segredos.

14.11.05

A Origem da Arte Segundo Melanie Klein

As teses de Klein sobre a interiorização precoce da primeira relação da criança com a mãe inauguraram uma nova abordagem na crítica de arte, em função das profundas alterações nas perspectivas psicanalíticas sobre a criatividade e a arte, cuja origem Freud atribuia à sublimação da pulsão individual, enquanto Klein concebe a arte como o reflexo de um desejo de reparar as relações com os outros, e em primeiro lugar com a mãe. Na conferência intitulada " Infantile anxiety-situations reflected in art, creative impulse", dada na Sociedade de Psicanálise Britânica, em Maio de 1929, para ilustrar a sua tese recorreu à análise da ópera de Ravel, L'Enfant et les Sortilèges e à obra da pintora Ruth Kjär.
A ópera de Ravel inicia-se com a cena de um rapaz exasperado por ter que cumprir os seus deveres. Preferia ir passear para o parque, puxar a cauda ao gato e agarrar-se a toda a gente, em particular à sua mãe. Quando entra a mãe pergunta-lhe se já terminou as suas tarefas, e ele responde-lhe mostrando-lhe a língua, provocador. A mãe logo aplica a punição: "Comerás pão seco e chá sem açúcar". Confrontado com esta frustração da sua oralidade, como diz Klein, o pequeno expande a sua cólera. Agride os animais domésticos, atira objectos ...Como a criança edipiana procura agredir o corpo da mãe e o pénis do pai que aí se encontra. Entretanto, os objectos que ele agride animam-se. Segue-se um grande alarido. O rapaz refugia-se no parque, que está repleto de coisas aterradoras, de animais que lhe batem e mordem. Segundo Klein, estes seres personificariam a imagem da mãe que o ataca tal como ele queria atacá-la. Um esquilo cai no solo perto dele. O rapaz recolhe-o e cuida da sua pata ferida. Subitamente, o seu mundo torna-se mais amigável, os animais que antes o aterrorizavam, depois do seu gesto gentil, olham-no com melhores olhos e ele pode, por fim, reencontrar a mãe.
Fundamentando-se na narração da vida e da obra da artista Ruth Kjär, Melanie fornece a seguir uma ilustração de um desenvolvimento similar na rapariga, da agressão à ternura reparadora. Bela, independente e rica Ruth passava por períodos de depressão, no decurso dos quais experimentava um vazio interior insuportável, análogo ao vazio deixado na sua parede por um quadro que o seu cunhado levara. Isto desolava-a mais do que tudo, até ao dia em que decidiu preencher esse espaço por um quadro da sua autoria.

"This [the selling of a familiar picture] left an empty space on the wall, which in some inexplicable way seemed to coincide with the empty space within her."
Melanie Klein interpreta este espaço vazio como: "a feeling that there was something lacking in her body." Este vazio no corpo derivaria da ansiedade da rapariga da retribuição devido às suas fantasias sádicas sobre a destruição do corpo da mãe: "the little girl herself of the contents of the body (especially of children)" and of her own body being "destroyed or mutilated. [...] When the little girl who fears the mother's assault upon her body cannot see her mother, this intensifies the anxiety. The presence of the real, loving mother diminishes the dread of the terrifying mother, whose introjected image is in the child's mind."

Melanie Klein, Infantile Anxiety-Situations Reflected in A work of Art and in the Creative Impulse, in, Contributions to Psycho-Analysis 1921-1945, Hogarth Press 1948, p. 234

7.11.05

Num largo ao passar de cada dia


Gustav Klimt (1862-1918),O Bosque de Bétulas(1903), óleo sobre tela, 110x110 cm.


A tamareira eleva-se acima de todas as outras árvores, num apelo ao exotismo.
Os galhos mais finos das faias inclinam-se sobre o vermelho dos bancos perfilados junto ao gradeamento verde. Deixam tombar pequenas folhas secas, feitas renda pelos insectos que as perfuraram, enquanto o sol, com as que ainda pousam nos ramos, tece uma teia de luz em direcção à torre de Menagem.

Folhas e Frutos

Nos bagos de romã as cores da vinha virgem ao cair da folha.
Na casca e na polpa dos dióspiros as tonalidades das bétulas no Outono.

6.11.05

Joan Rivière


Joan Rivière
(1883-1962)

Psicanalista britânica, foi analisada primeiro por Ernest Jones e depois por Freud - de quem era tradutora. Tornou-se amiga, e seguidora das teses de Melanie Klein. Em 1927, publicou Symposium on Child Analysis.O seu artigo "Womaliness as a Masquerade" (1929) é o seu trabalho mais conhecido e debatido, nomeadamente por Lacan, que o comentou e o adaptou às suas próprias teses sobre o comportmento feminino. Foi co-autora da obra Dévelopments in Psycho-Analysis, publicada em 1952.


Bibliografia


Melanie Klein; Paula Heimann; Susan Isaacs; Joan Rivière, Développements de la Psychanalyse, (Paris, PUF, 2001).
Joan Rivière, "Womaliness as a Masquerade", in, Russell Grigg; Dominique Hecq; Craig Smith (eds.) Female Sexuality, The Early Psychoanalytic Controversies, (New York, Other Press, 1999).

Impressões

No azul destes dias, de novo o frio: arrefece os pés, arrepia a nuca.
Retornam os poentes em vermelho e ouro pálido sobre o azul gelado.
Voltou, de súbito, como este regresso a mim e ao cerne das coisas.
Retomo o estoicismo da adolescência, agora liberto da angústia, temperado com o saber do tempo.
Aprendo com o corpo o ritmo das estações e o timbre dos meus dias.

3.11.05

Impressões

No meu mundo de brumas, citrinos e folhas caídas, passam apressados bailarinos, rumores de água, livros abertos, estrias de luz. Isto me basta.

Para Narciso, Eco, o Outro, é uma forma de alienação: o ópio do ego.

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Um post para louvar a eficácia da Libreria Paidos S.C.A. - Central del Libro Psicologico.

1.11.05

Impressões de Segunda-feira ao Crepúsculo ? enquanto inventava uns quantos silogismos categóricos.

Agora, quando me sento no claustro, a penumbra já encobriu parte dos arcos e das colunas. Da semi-obscuridade sobressai o amarelo dos citrinos, os das árvores e os da instalação. Os frutos parecem suspensos no ar, pois o lusco-fusco oculta as lâminas onde estão dispostos, e os fios de nylon que as prendem. Assim, vemos um rosário de laranjas oscilando no centro do claustro: a surpresa de um número de ilusionismo