30.10.05

Bibliografia - Christiana Morgan (2)

Claire Douglas, Translate this Darkness, (New York, Simon & Schuster, 1993).
W.Pauli; C.G. Jung, Correspondance 1932-1948, (Paris Albin Michel, 2000).

Nota: Apesar de não estar de acordo com a tese principal da biografia de Claire Douglas, saliento o grande valor da obra, enquanto recolha de documentos muito rigorosa, e sobretudo o facto de retirar do anonimato o contributo fundamental de Morgan para o estudo da personalidade.

Impressões Dispersas

Há --------------------- oito dias, a névoa velava a cidade e roubou o castelo. Hoje foi destronada pela força da chuva e da trovoada.
Segunda e Quarta, pouco depois do crepúsculo, o céu pintou-se de um azul da Prússia, alegre como uma criança feliz.
os frutos das laranjeiras amadurecem com lentidão, no claustro enquanto leio. Há laranjas sobre as placas de vidro da instalação balouçando com o vento.
Quinta, Sexta e Sábado a dança -------- encheu os meus sentidos: Especial/Nada de João Garcia; Icebox Fly, de Sónia Batista e Setup de Rui Horta.
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Christiana Morgan (2)

Christiana Morgan (Boston 1897 - Virgínia-Islands 1967)

Antes de apontar as razões que me fizeram ficar decepcionada com a obra de Claire Douglas, sobre Christiana Morgan, seguem-se alguns dados biográficos da co-autora do TAT.


Christiana Drummond Councilman Morgan, foi a segunda filha de três irmãs, de pai médico, professor na Harvard Medical School. Em criança, preferia o pai à mãe, uma vez que havia grandes afinidades de comportamento e interesses entre os dois.

De 1908-1914, frequentou a escola Miss Winsor para raparigas.
Em 1917 ficou noiva de William Morgan, com quem casou em 1919.

Corria o ano da Graça de 1920 quando deu à luz o seu único filho Thomas, pelo qual não nutriu particular afecto.
O casamento foi bastante tumultuoso. Para além das dificuldades e incompatibilidades entre ambos, Christiana teve vários amantes.

Entretanto, foram viver para Nova Iorque, onde Christiana fez cursos sobre Arte. Também foi nesta cidade que o casal conheceu Henry e Josephine Murray. Christiana e Henry sentiram-se muito atraídos um pelo outro, desenvolvendo uma amizade de grande cumplicidade intelectual e sentimental, ambos admiravam Jung e a obra de Herman Melville.

Entre 1926-27 viajou para a Suíça com o objectivo de ser analisada por Jung em Zürich.

Segundo as fontes, Morgan pintava as suas "visões" induzidas por transe, ou auto-hipnose. Jung fez um seminário a partir do material fornecido por Christiana.
Jung estaria convencido que Christiana ocultaria a sua espiritualidade feminina sob a sua racionalidade masculina. Foi na década de 30, que Jung realizou o seminário sobre os desenhos e textos de Morgan, os quais utilizou como provas para fundamentar a sua teoris dos arquétipos do inconsciente colectivo. Aliás, Jung serviu-se de modo semelhante das descrições de sonhos e visões do físico Wolfgang Pauli.
Também, teria sido Jung que a aconselhou a iniciar uum relacionamento amoroso com Murray - tal como influenciara Murray, a fazer o mesmo - a fim de observar o inconsciente. Nesse sentido, sugeriu-lhe que se tornasse a musa - femme inspiratrice, a imagem da anima de Murray.
Ao invés de criar filhos ela , criaria um homem, servi-lo-ia, e por seu intermédio serviria a Humanidade. Segundo Claire Douglas, Jung projectou neles a sua própria ligação com Toni Wolf, a qual analisou o marido de Christiana, e lhe recomendou que aceitasse o relacionamento entre a mullher e Henry, procedendo de forma idêntica à adoptada por Jung. Na verdade, Christiana e Henry tornaram-se colaboradores e amantes, durante cerca de 40 anos, até à morte dela. Embora, tanto um como o outro, mantivessem ligações paralelas e não se tenham divorciado dos respectivos cônjuges.
Em 1934, o marido morreu.
1938, co-criou o Thematic Apperception Test (TAT), o qual foi, primeiramente, designado por Morgan-Murray Thematic Apperception Test. Mais tarde, passou por novo baptismo e passou a ser o Murray e "staff of the Harvard Psychological clinic Thematic Apperception Test.
Entretanto, Christiana sofreu graves problemas de saúde. Devido à sua elevada pressão arterial foi submetida a uma intervenção cirúrgica de alto risco - uma simpaticectomia.
No intuito de manter viva a ligação entre ambos, Morgan e Murray desenvolveram um relacionamento de tipo sado-masoquista.
Morgan tinha graves crises de alcoolismo, cuja causa seria a sua frustração sentimental e profissional, as suas depressões e estado de saúde. Os efeitos da embriaguez provocavam o desagrado de Henry Murray.
Em 1965, Murray, já viúvo,interessou-se,e iniciou um relacionamento, uma vez mais, e com maior profundidade com uma mulher bastante mais jovem, com quem viria a casar, após a morte de Morgan.
1967, Morgan e Murray viajaram até às Virgin Islands, numa tentativa de viver momentos de reconciliação, que se revelou desastrosa, porque Christiana ao perceber que o amante não se sentia atraído por ela, voltou a beber e acabaria por suicidar-se por afogamento, aos 69 anos de idade.

*********

De acordo com Claire Douglas, Christiana dourou o seu papel de amante ao criar uma mitologia privada com ídolos e deuses criados e esculpidos por ela. Segundo Douglas "was one more triangle that primarily served the interests of a man," contribuindo para o seu alcoolismo e suicídio. Douglas retrata-a como uma mulher independente que se rebelou contra a sua mãe, uma "Boston Brahmin mother", teve amizades apaixonadas com Lewis Mumford e Alfred North Whitehead, mas que se teria traído a si mesma ao sacrificar a sua própria criatividade em função de Henry Murray.
Penso que há questões cruciais a colocar, face à perspectiva de Christiana vítima de Jung e Murray, defendida por Douglas na biografia de Morgan: sendo Christiana uma mulher dotada de uma personalidade independente e forte, que sempre ousou actuar de modo diferente, nomeadamente no que concerne aos papéis convencionais de esposa e de mãe, porque se teria submetido, sem crítica, aos conselhos de Jung? Porque não abandonou Murray, e não escreveu de forma autónoma? Ela não precisava da permissão de Jung para escrever e criar, até porque o psicólogo se encontrava a muitas milhas de distância. Apesar de Jung e Murray terem contribuído para a sua "anulação", parece-me que Morgan optou por este caminho, porque era essa a sua vontade, porque cedeu à tentação de Pigmalião, bem assim como à presunção de julgar que a sua história de amor com Murray seria especial, e que o seu investimento nela, bem assim como a sua análise - projecto que Morgan não chegou a concretizar - traria importantes revelações sobre o relacionamento amoroso e sexual em geral.

29.10.05

Confidências e Desabafos de Savarin (124)

Passo meses sem beber, "but sometimes I feel in the mood for alcohol". Nesses momentos, cedo sem complexos ao prazer de saborear umas doses generosas de bebidas espirituosas. Aliás, só me entrego aos efeitos dos vapores etílicos quando me sinto "in the mood for drunkennesse", pois se não estiver para aí voltado, apenas um golo de cerveja ou de vinho me provoca uma insuportável náusea, ainda mais profunda do que a do Jean-Paul. Já experimentei infringir este mandamento com resultados desastrosos. Confesso que hoje não bebi, mas aprecio, em especial as boas aguardentes, sobretudo nestes dias feitos de águas mil, nuvens densas e névoas de sortilégio. Um ponche é a bebida ideal para fruir em dias de tempestade. Ontem, ao fim do dia, apeteceu-me reler algumas passagens de A Psicanálise do Fogo de Bachelard, e nem de propósito, abri o livro no capítulo VI, onde se pode ler - todo o capítulo é de ler e chorar por mais:

Uma das contradições fenomenológicas mais evidentes foi-nos fornecida pela descoberta do ácool, triunfo da actividade taumatúriga do pensamento humano. A aguardente é a água do fogo. É uma água que queima a língua e se inflama com a mais pequena faúlha. (...)
O álcool é pois objecto de uma valorização substancial evidente. Ele manifesta também o seu efeito em pequenas quantidades: ultrapassa em concentração os caldos mais deliciosos. Segue a regra dos desejos de posse realista: concentrar uma grande força num pequeno volume. Visto que a aguardente arde diante dos olhos extasiados, visto que aquece todo o ser até à boca do estômago, isso vem provar o sentido convergente das experiências íntimas e subjectivas. Esta dupla fenomenologia prepara certos complexos que o conhecimento objectivo terá que desfazer para recuperar a liberdade da experiência. (...)

Nas grandes festas de Inverno, na minha infância, era costume fazer-se um ponche. O meu pai despejava num prato fundo aguardente da nossa vinha. No centro colocava pedaços de açúcar partido, os torrões maiores que havia no açucareiro. Quando o fósforo tocava numa ponta do açúcar, as chamas azuladas corriam com um ligeiro ruído por sobre o álcool espalhado. A minha mãe apagava o candeeeiro de suspensão. Era a hora do mistério e da festa um tanto ou quanto grave. Os rostos familiares, de súbito irreconhecíveis na sua lividez, cercavam a mesa redonda. Por momentos, o açúcar chiava antes do desabar da pirâmide, algumas franjas amarelas estalavam nos bordos das longas chamas pálidas. Quando as labaredas vacilavam o meu pai remexia o ponche com uma colher de ferro. A colher ficava envolta em labaredas como se fosse um instrumento do Diabo. Nessa altura "teorizava-se": se se apagasse tarde de mais o ponche ficaria demasiado doce; se se apagasse cedo de mais, isso equivalia a "concentrar" menos o fogo e por conseguinte a enfraquecer o efeio benéfico contra a gripe. Havia quem falasse de um ponche que tinha ardido até à última gota. Outros relatavam um incêndio [não na padaria, ...] em casa do destilador durante o qual os barris de rum rebentavam como se contivessem pólvora, explosão esta, de resto, à qual ninguém assistira. À viva força, pretendia-se descobrir um sentido objectivo e geral para este fenómeno estranho ... Por fim, deitavam-me o ponche no copo; quente e pegajoso, na verdade essencial. Por isso eu compreendo Vigenère quando este, de uma maneira um pouco afectada, fala do ponche como "de uma pequena experiência, divertida e rara." (...)Após tal espectáculo, as confirmações do paladar deixam recordações imperecíveis. Entre os olhos extasiados e o estômago consolado estabelece-se uma correspondência baudelairiana tanto mais sólida quanto mais materializada. (...)
Sem a experiência pessoal desse álcool quente e açucarado, da sua chama numa meia-noite alegre, compreende-se mal o valor roântico do ponche, falta-nos um processo de diagnóstico para estudar certas poesias fantasmagóricas.

Seguidamente, Bachelard disserta acerca da obra de Hoffmann, em seu entender atravessada por uma poesia da chama, e marcada pelo complexo do ponche, que se poderia designar, com propriedade, como complexo de Hoffmann.
Gaston Bachelard, A Psicanálise do Fogo, (Lisboa, Litoral, 1989), pp.91-93.

26.10.05

Ilusões num Dia de Vendaval

Nos dias de vento à solta, a inquietude evola-se, passeia pelas praças, voa com as folhas, em mim fica toda a euforia da calma.

22.10.05

Narciso e Orfeu


Salvador Dali (1904-1989), Metamorfoses de Narciso (1937).Óleo sobre tela
20 x 30, Tate Gallery, Londres


The Orphic-Narcissistic images are those of the Great Refusal: refusal to accept separation from the libidinous object (or subject). The refusal aims at liberation
at the reunion of what has become separated. Orpheus is the archetype of the poet as liberator and creator; he establishes a higher order in the world--an order without repression. In his person, art, freedom, and culture are eternally combined. He is the poet of redemption, (…) the god who brings peace and salvation by pacifying man and nature, not through force but through song (...)

The Orphic Eros transforms being: he masters cruelty and death through liberation. his language is song, and his work is play. Narcissus' life is that of beauty, and his existence is contemplation. These images refer to the aesthetic dimension as the one in which their reality principle must be sought and validated.

Herbert Marcuse, Eros and Civilization: A Philosophical Inquiry into Freud, (New York, Vintage, 1955), pp. 154, 155, 156.

Impressões Ultra-românticas

A chuva de Outono, à temperatura dos trópicos, gerou uma Primavera extemporânea nos vasos do terraço.

O arvoredo do castelo, há poucos dias lucilando em estrias de luz, refugia-se,agora naS cinzaS da sombra. É caso para subir ao castelo, e ali mesmo, na Torre da Má Hora, de preferência sob chuva, entre relâmpagos e trovões declamar ao sabor do vento que a unidade constituída pelo aglomerado de células que agora sou, amanhã se vai desfazer, e cada uma das células, por seu turno se irá dispersar na multiplicidade de uma unidade (?)maior.

O Riso

Uma página inteira sobre o riso, para a Brígida, de onde copiei esta citação:

«Le caractère commun du comique ou du risible, dans les cas les plus différents, c'est en effet l'irruption soudaine d'une spontanéité, d'une fantaisie, d'une liberté dans la trame des événements et des pensées. Le comique, à tous les degrés et sous ses formes les plus diverses, est donc l'oeuvre d'une liberté. C'est proprement la liberté supposée de la nature ou celle de l'esprit, intervenant en quelque sorte en dépit de la règle, bien plus, comme se jouant, se moquant de la règle, et comme pour faire, si l'on peut ainsi parler, une niche à la raison. Cette brusque intervention, qui dérange le convenu, qui bouscule l'ordre et introduit un pur jeu là où le sérieux se croyait sûr de durer, voilà, si je ne me trompe, où trouver la source profonde du rire.» (A. Penjon, Le rire et la liberté, Revue philosophique, 1893, t. II)

21.10.05

Christiana Morgan


Desenho a tinta de Christiana Morgan para o cartão C do TAT a partir de uma gravura de Pruett Carter publicada no número de Setembro de 1931 de Woman's Home Companion para ilustrar uma história de Margaret Deland

A leitura da biografia de Christiana Morgan, da autoria de Claire Douglas, foi uma experiêcia decepcionante, estava à espera de outro perfil feminino, e "aparece-me" alguém que se anulou por motivos sentimentais. Logo mais explicitarei melhor as causas do meu desapontamento.

19.10.05

A Atitude da Maria Rita é Démodé

Ao contrário da Maria Rita, e para nosso incomensurável gáudio, o escriba voltou.

18.10.05

Assim falava Nietzsche ...

"Não tomar a sério os seus inimigos e as suas desgraças, é o sinal característico das naturezas fortes que se acham na plenitude do seu desenvolvimento e que possuem uma superabundância de força plástica regeneradora e curativa que sabe esquecer. (Um bom exemplo nos tempos modernos é Mirabeau, e que não podia perdoar, simplesmente porque esquecia). Um tal homem, com uma só sacudidela, desembaraça-se da bílis que nos outros faz moradia; só ele pode amar os inimigos, se é que tal amor é possível na Terra."

Nietzsche, A Genealogia da Moral, (Lisboa, Guimarães Editores, 1992), p. 31.

"78) Quem se despreza a si próprio, mesmo assim não deixa de se respeitar como desprezador."

"173) Não se odeia enquanto se despreza, mas só quando se preza algo como igual ou superior."

Para Além do Bem e do Mal, (Lisboa, Guimarães Editores, 1982), pp. 78-88.

17.10.05

Mais um conto de Kafka: Burocracia e Tédio Atormentam o Deus dos Mares


Templo de Poseidon 440 a.C. - Cabo de Sounion

Poseidon

Poseidon sat at his desk, doing figures. The administration of all the waters gave him endless work. He could have had assistants, as many as he wanted — and he did have very many — but since he took his job very seriously, he would in the end go over all the figures and calculations himself, and thus his assistants were of little help to him. It cannot be said that he enjoyed his work; he did it only because it had been assigned to him; in fact, he had already filed many petitions for — as he put it — more cheerful work, but every time the offer of something different was made to him it would turn out that nothing suited him quite as well as his present position. And anyhow it was quite difficult to find something different for him. After all, it was impossible to assign him to a particular sea; aside from the fact that even then the work with figures would not become less but only pettier, the great Poseidon could in any case occupy only an executive position. And when a job away from the water was offered to him he would get sick at the very prospect, his divine breathing would become troubled and his brazen chest began to tremble. Besides, his complaints were not really taken seriously; when one of the mighty is vexatious the appearance of an effort must be made to placate him, even when the case is most hopeless. In actuality a shift of posts was unthinkable for Poseidon — he had been appointed God of the Sea in the beginning, and that he had to remain.
What irritated him most — and it was this that was chiefly responsible for his dissatisfaction with his job — was to hear of the conceptions formed about him: how he was always riding about through the tides with his trident. When all the while he sat here in the depths of the world-ocean, doing figures uninterruptedly, with now and then a trip to Jupiter as the only break in the monotony — a trip, moreover, from which he usually returned in a rage. Thus he had hardly seen the sea — had seen it but fleetingly in the course of hurried ascents to Olympus, and he had never actually traveled around it. He was in the habit of saying that what he was waiting for was the fall of the world; then, probably, a quiet moment would be granted in which, just before the end and having checked the last row of figures, he would be able to make a quick little tour.
Poseidon became bored with the sea. He let fall his trident. Silently he sat on the rocky coast and a gull, dazed by his presence, described wavering circles around his head.


Poseidon

(tradução de Torrieri Guimarães)


Poseidon estava sentado à sua mesa de trabalho e fazia contas. A administração de todas contas. A administração de todas as águas dava-lhe um trabalho infinito. Poderia dispor de quantas forças auxiliares quisera, e com efeito, tinhas muitas, mas como tomava seu emprego muito a sério, verificava novamente todas as contas, e assim as forças auxiliares lhe serviam de pouco. Não se pode dizer que o trabalho lhe era agradável e na verdade o realizava unicamente porque lhe tinha sido impôsto; tinha-se ocupado, sim, com frequência, em trabalhos mais alegres, como ele dizia, mas cada vez que se lhe faziam diferentes propostas, revelava-se sempre que, contudo, nada lhes agradava tanto como seu atual emprego. Além do mais era muito difícil encontrar uma outra tarefa para ele. Era impossível designar-lhe um determinado mar; prescindindo de que aqui o trabalho de cálculo não era menor em quantidade, porém em qualidade, o Grande Poseidon não podia ser designado para outro cargo que não comportasse poder. E se se lhe oferecia um emprego fora da água, esta única idéia lhe provocava mal-estar, alterava-se seu divino alento e seu férreo torso oscilava. Além do mais, suas queixas não eram tomadas a sério; quando um poderoso tortura, é preciso ajustar-se a ele aparentemente, mesmo na situação mais desprovida de perspectivas. Ninguém pensava verdadeiramente em separar a Poseidon de seu cargo, já que desde as origens tinha sido destinado a ser deus dos mares e aquilo não podia ser modificado.


O que mais o irritava - e isto era o que mais o indispunha com o cargo - era inteirar-se de que como representavam com o tridente, guiando como um cocheiro, através dos mares. Entretanto, estava sentado aqui, nas profundidades do mar do mundo e fazia contas ininterruptamente; de vez em quando uma viagem da qual além do mais, quase sempre regressava furioso. Daí que mal havia visto os mares, isso acontecia apenas em suas fugitivas ascenções ao Olimpo, e não os teria percorrido jamais verdadeiramente. Gostava de dizer que com isso esperava o fim do mundo, que então teria certamente ainda um momento de calma, durante o qual, justo antes do fim, depois de rever a última conta, poderia fazer ainda um rápido giro.

Impressões

Ontem, pelas 17.45, subi ao castelo para levar a minha filha à sua primeira aula de dança contemporânea, no Convento da Saudação. Sob uma chuva morna, trepámos o Quebra-costas com os nossos guarda-chuvas made in China, em tons de amarelo. Durante o tempo de aula dela, sentei-me no claustro quadrado, cujas cores se fundiam no cinzento matizado de lilás e amarelo do horizonte, tão baixo, a ler o epílogo do livro, de Claire Douglas, com o pomposo título: Translate This Darkness, The Life of Christiana Morgan, The Veiled Woman in Jung's Circle, por entre espiadelas às laranjeiras e à instalação de dez prateleiras de vidro suspensas por fios de nylon, que atravessam o centro do claustro, em fila indiana.
Finda a aula, lusco-fusco, corremos em grande euforia, pelas escadas e ruas íngremes até ao Largo dos Paços do Conselho.

Noite à Varanda:

Depois de velar a lua, a névoa preencheu todos os espaços vazios do Largo, em louvor de Aristóteles.


Nos últimos dias, fora tomada de assalto pela pergunta: A minha vida pertence-me? Não por razões místicas ou tão pouco metafísicas, mas em função dos pequenos turbilhões do quotidiano, das rotinas, das obrigações, das reuniões para isto e para aquilo, na incontabilidade dos mesquinhos afazeres. Um almoço em Portalegre, no Sábado, Domingo, o final do dia de ontem afastaram, em parte, a questão candente acima enunciada.

11.10.05

Agradecimento

Fiquei sem palavras perante a caracterização tão simpática do Digitalis, veiculada no blogue Legendas & Etcaetera. Não conhecia Legendas, mas gostei do que vi e li. Sem querer cometer plágio, retribuo a apreciação.

Um Jovem Poeta de S.Tomé

Há pouco chegou o correio. E com a conta da água tive a grata surpresa de receber mais um livro da UNEAS. Lembrei-me da Brígida e da sua dedicação imensa a S.Tomé. Por isso, lhe dedico este poema:

Lá vai ele

Na sua senda
Buscando a vida da sua vida
Desta que nunca foi vivida ...

Lá vai ele
Atrás do sol na cerrada noite.


Adilson Pinto, Lágrimas Sem Fim, (S. Tomé e Príncipe, UNEAS, 2005)

10.10.05

Atenas e Jerusalém: Notas Dispersas

Leon Chestov é um daqueles autores que escreveu sobre temas que não me interessam, particularmente - filosofia da religião - defende muitas teses com as quais não me identifico, mas gosto muito de ler as suas obras. Aprecio o seu estilo provocador, bem assim como as interpelações que os seus textos suscitam.
Em Atenas e Jerusalém Chestov aborda a relação entre Fé e Razão, Filosofia e Revelação da Fé de uma forma original. Contrapõe-se à posição daqueles que partem do princípio que a filosofia grega e o pensamento cristão seriam duas manifestações sucessivas da acção de um mesmo espírito divino entre os homens. De acordo com esses pensadores ambas as tradições derivariam de uma mesma fonte transcendente. O que equivale a dizer, segundo Chestov que os adeptos deste tipo de explicação cristianizam secretamente a natureza do paganismo antigo vendo nele uma prefiguração providencial do mistério cristão.
Chestov opõe Atenas e Jerusalém. Em seu entender toda a filosofia é uma obediência aos princípios, às estruturas lógicas, ela constitui-se com base nesses princípios e deles não pretende sair. Nem o próprio Deus escapa ao constrangimento da Necessidade. Deus, o dos filósofos, só lhe foi concedida a liberdade uma vez: no momento da criação. É o parere de Séneca, todos os filósofos obedecem e curvam-se perante a Necessidade, sentem-se constrangidos. Com Platão e Plotino teria ocorrido alguma anomalia, pois divergiram, na medida em que toda a filosofia platónica é uma preparação para a morte, "é um treino de morrer" e Plotino insatisfeito, procurou superar a filosofia através da via mística. Aristóteles, o discípulo dissidente, escandalizou-se perante determinadas doutrinas de Platão. A importância atribuída por Platão às narrativas mitológicas, a superação da razão discursiva, e principalmente a lógica polivalente de Platão desagradavam-lhe particularmente. O Estagirita tal como "o Parménides algemado" não podia fugir à ananke. Em toda a Idade Média a filosofia escolástica leria a Bíblia , modelada pelo pensamento helénico. Por conseguinte, a interpretação da Revelação seguiria os pressupostos aristotélicos e estóicos. Consequentemente, toda a teologia escolástica assentaria na procura da ordem do ser e na obediência ao princípio da não-contradição.
Ora, afirma Chestov, Deus, a Fé são criação contínua. A Fé "move montanhas", não no sentido propriamente material, pois transcende-o. E, ao invés, do que preconizou Hegel*, o milagre não é "violação do espírito", o milagre é "encarnação da Fé", "é criação".
O autor russo defende que não é possível encerrar Deus num quadro lógio enquanto génese ou princípio da cadeia do Ser. Para Chestov, o homem é mais do que um simples elo do Ser. Há que valorizar o humano. A Fé é intrinsecamente humana. Há que dar o salto para além da ordem do real. A busca da ordem do ser seria a anulação do humano uma vez que implicaria a fusão do homem no todo. Ter Fé seria escapar à ordem do Ser. Ter Fé equivaleria ao Jubere.
Chestov afirma também que o homem não se reduz ao "animal teorético", ele transcende a actividade cognoscitiva.
Os judeus subiam as escadas simbolizantes dos caminhos que de todos os pontos da Palestina se dirigiam para Jerusalém. A escada das ascensões físicas daria lugar a uma ascensão interior que aproximaria de Deus. Na sua ascensão, para onde haveria de levantar os olhos senão para o termo em direcção ao quel tendia e queria subir? Com efeito a terra sobe ao céu . Segundo Chestov, o homem subirá ao céu se meditar em Deus que dispôs no seu coração os meios para subir. Subir no coração é a aproximação a Deus. Quem Dele se desliga, mais do que descer cai, nos braços da Necessidade.

Concordo com Chestov quando declara que há uma separação abissal entre os que vivem a Fé e aqueles, como eu, a quem a Fé não terá tocado.

No entanto, ao contrário de Chestov, defendo a existência de estruturas antroplógicas idênticas, quanto à experiência religiosa, independentemente, dos diferentes modos como se expressam, ou seja das diferentes crenças.

* Hegel que nas suas obras de juventude, também, opõe o espírito grego ao judaísmo, embora favorecendo o primeiro.

Um texto [interpelativo] de Chestov:

Ces barbares qui nous menacent aujourd'hui

Ce qui se produit dans le monde contemporain ne manque pas de rappeler à l'observateur attentif la période des invasions barbares. Il y a toutefois une différence de taille. Les barbares qui mirent fin à la civilisation romaine vinrent de l'extérieur; or les barbares qui menacent la civilisation de l'Europe moderne viennent de l'intérieur. Il serait cependant faux de croire - comme beaucoup le font - que cette nouvelle “invasion barbare” risque vraiment d'anéantir notre civilisation. […]

Le cataclysme le plus vaste ne pourrait engloutir la civilisation, si nous incluons dans ce terme les innombrables conquêtes de l'homme dans les différents domaines de la science et de la technique.

De plus, les “barbares” dont nous parlons ne sont pas le moins du monde tentés de faire obstacle au développement naturel des sciences positives et de la technique. Ils comprennent parfaitement que science et technique ne sont pas seulement utiles mais indispensables. L'Allemagne a expulsé Einstein et bien d'autres savants célèbres mais cela n'empêche pas les Allemands de continuer à exploiter de toutes les manières possibles les progrès scientifiques, sans se soucier de leur origine. En Russie soviétique, un homme tel que Pavlov est toléré bien qu'il ne cache guère sa désapprobation du régime.[…]

Il n'y a donc pas de raison de se faire du souci pour l'avenir de la science et de la technique. Les barbares modernes, comme ceux d'autrefois, auront à cœur de préserver et même de perfectionner tout ce qui peut contribuer au triomphe de la force brute.

Mais, s'interroge le lecteur, si la force brute se constitue gardien du progrès scientifique et technique, quel bénéfice l'humanité en retirera-t-elle? […]

Qu'est-ce qui détermine les lois d'airain [de l'économie moderne]? La réponse me semble évidente. Nous sommes perpétuellement confrontés au Tartare, voué corps et âme à la poursuite du seul idéal valable à ses yeux: le triomphe de la force brute, de la force physique, de la force matérielle. C'est pourquoi il se prosterne devant les “lois d'airain de l'économie”, puisque sa propre nature est adaptée à ces lois. Il croit que ce qui fait de la vérité la Vérité n'est autre que son désir de contraindre et son pouvoir d'exercer cette contrainte.

Suivons cette ligne de pensée. On considère généralement “le Tartare” comme un Asiatique. La phrase “Grattez un Russe et vous trouverez un Tartare” laisse entendre que la croyance populaire accole aux Russes l'épithète infamante de barbares asiatiques. Il existe toutefois un autre adage occidental d'une toute autre signification: “Ex Oriente lux”. La lumière est venue de l'Est, c'est-à-dire de l'Asie vers l'Europe. L'Europe n'a fourni à l'humanité ni prophètes ni apôtres tandis que l'Asie a été le berceau de toutes les religions et tous les grands prophètes ont vu le jour à l'Est. Les historiens ont de bonnes raisons de s'interroger sur l'influence considérable de l'Orient, qui embrasse jusqu'aux philosophes de la Grèce classique. Les œuvres de Plotin, le dernier des grands penseurs grecs, lancent un fervent appel aux plus éclairés de ses contemporains, les implorant de modifier la situation spirituelle de l'Europe; cette situation était le résultat inévitable des conditions de développement du monde occidental. Bien que Plotin n'eût pas fait usage de la phrase “Ex Oriente lux”, son regard était résolument tourné vers l'Asie, source de lumière spirituelle. […]

L'apparition de Plotin et de son œuvre coïncide étrangement avec un des phénomènes les plus mystérieux et les plus inexplicables de l'histoire européenne. Le monde gréco-romain, cette puissance dont la structure étatique était d'une étendue sans précédent dans l'histoire et qui avait soumis à son joug tant de peuplades d'origines diverses, allait maintenant s'incliner devant la vérité d'un petit peuple parmi les tribus assujetties de l'Empire romain, faible et universellement méprisé. L'Europe, puissante et civilisée, renonça à sa puissance, à la civilisation qu'elle avait fondée et maintenue par la force pour placer sa foi dans une vérité apparemment peu sûre, défaillante, inerte, et même illusoire: la vérité révélée par les Saintes Ecritures. D'innombrables tentatives ont été faites pour expliquer cette page de l'histoire. Qu'est-ce qui poussa la Rome toute-puissante à fléchir le genou devant l'insignifiante province de Judée, comment se fait-il que la glorieuse Athènes s'abaissa devant Jérusalem? Aucune des explications avancées n'explique quoi que ce soit, au point qu'on se demande parfois s'il existe une explication valable. Je ne tenterai pas ici de résoudre cette éternelle énigme, étant donné que l'exigence même d'une explication implique la possibilité de découvrir une force visible, tangible et mesurable, alors que par définition cette force n'existe pas dans le cas présent et ne peut, par conséquent, être découverte. […]

Aujourd'hui, le Tartare qui se cache sous notre couche européenne manifeste des signes de réanimation. Ce qui lui semble le plus dangereux, ce qu'il hait le plus, ce ne sont ni la science ni la technique, mais ce qui a été révélé à l'homme à travers les Ecritures, ce qui lui a été légué par la religion: la compréhension et l'amour de la liberté, celle des autres pas moins que la sienne propre. […]

Nous devons sauver la liberté.
Léon Chestov

The Aryan Path, août 1934

Traduction de Gilla Eisenberg

Selma Lagerlöf: Mais Objectos de Devoção

Lendas religiosas
e um conto.
No texto O Imperador de Portugal o pai, personagem principal da narrativa, também sente um amor desmedido/doentio pela filha, que o leva a imaginá-la imperatriz.

9.10.05

Existenciais: A Fadiga

O tema da fadiga é recorrente em Kafka, trata-se, aliás, de uma coordenada crucial, elucidativa da situação vivencial do ser humano. A fadiga exaure as forças dos seres, vencendo a sua vontade. No Processo, Joseph K. no auge da sua luta contra o absurdo, ao tentar localizar, materializar e caracterizar a terrível acusação de que é vítima, acaba por atingir a saturação, e em determinado momento desiste de compreender o que lhe explicam, demasiado cansado para prever todas as consequências da sua história.
Na narrativa A Toca, o ser que de um modo febril e obstinado constroi um labirinto para sua protecção, às vezes no desespero do seu cansaço físico quer abandonar tudo.
O cansaço tudo sujeita à erosão, como se pode concluir da leitura do desfecho da última lenda de Prometeu:

Prometheus

There are four legends concerning Prometheus:

According to the first he was clamped to a rock in the Caucasus for betraying the secrets of the gods to men, and the gods sent eagles to feed on his liver, which was perpetually renewed.

According to the second Prometheus, goaded by the pain of the tearing beaks, pressed himself deeper and deeper into the rock until he became one with it.

According to the third his treachery was forgotten in the course of thousands of years, forgotten by the gods, the eagles, forgotten by himself.

According to the fourth everyone grew weary of the meaningless affair. The gods grew weary, the eagles grew weary, the wound closed wearily.

There remained the inexplicable mass of rock. The legend tried to explain the inexplicable. As it came out of a substratum of truth it had in turn to end in the inexplicable.
Kafka

Translated by Willa and Edwin Muir Copyright © 1971, Schocken Books.
Franz Kafka




Lendas


De Prometeu contam-se quatro lendas:


Pela primeira – por ter ele traído os Deuses junto aos homens, foi ele posto a ferros numa penedia do Cáucaso e lá os Deuses mandavam águias a fazer de pasto o seu fígado sempre renovado.


Pela segunda – atormentado pelos bicos que o laceravam, Prometeu foi encolhendo-se cada vez mais de encontro ao rochedo até formar com ele uma coisa única.


Pela terceira – a traição de Prometeu esqueceu-se nos séculos: os Deuses esqueceram, as águias, ele próprio...


Pela quarta – cansaram-se, todos, daquele processo sem fundamento: cansaram-se os Deuses, cansaram-se as águias, cansada fechou-se a ferida.


Ficou o inexplicável monte de pedra. A lenda busca explicar o inexplicável: como surgiu de um fundo de verdade, tinha de acabar todavia sem explicação.


(Tradução de Torrieri Guimarães)


Bibliografia:

Kafka, O Processo, (Lisboa, Publicações Europa-América, 1976).
Kafka, "A Toca", in A Grande Muralha da China, (Lisboa, Publicações Europa-América, 1976), p.47.

Lírios


Korin, Iris Flowers.

8.10.05

Murasaki Shikibu


Cópia tardia datável do século XIX, de dois fascículos de Genji Monogatari.

Murasaki Shikibu (c. 976-c. 1031) foi a autora do primeiro romance japonês: Genji Monogatari. Mais informação sobre a obra aqui.
Página com o Diário.
da escritora.

Um artigo: Geneviève Daridan,"Les Dames de l'An Mille à Kyoto", in H, (Paris, Le Cercle Historia, 1966), pp.126-253.

7.10.05

Selma Lagerlöf : três livros, três traduções em português

Carl Larsson, Selma Lagerlof (1908).

1. Os Sete Pecados Mortais e Outros Contos, (Lisboa, Sociedade Editora Arthur Brandão e Cª, 1931)

2. A Lenda de Gösta Berling, (Lisboa, Edição Minerva, 1945)

3. O Imperador de Portugal, (Lisboa, Ulisseia, 1988)

6.10.05

Devoção

Da dádiva dizer: doar-te, Duarte.

O Professor Sofisma

Carrilho é um Cálicles que nunca chegará a Górgias.

Selma Lagerlöf, A Saga de Gösta Berling

Gosto muito da escrita de Selma Lagerlöf, dos Contos - já publiquei, aqui, um post sobre A Lenda da Rosa do Natal - do romance, O Imperador de Portugal e sobretudo da obra A Saga de Gösta Berling.
Ontem, lembrei-me de procurar documentos sobre a autora. Fiquei a saber que em Janeiro do corrente ano a Saga foi adaptada ao teatro por Pierre Sarzacq e e no ano de 1924 realizou-se uma adaptação cinematográfica da referida obra, Greta Garbo fazia parte do elenco:
GÖSTA BERLINGS SAGA (T.l.: La leggenda di Gösta Berling - T.i.: I cavalieri di Ekebù / Svezia, 1924)

R.: Mauritz Stiller. S.: dall'omonimo romanzo di Selma Lagerlöff. Sc.: Mauritz Stiller, Ragnar Hyltén-Cavallius. F.: Julius Jaenzon. Scgf.: Vilhelm Bryde. Cost.: Ingrid Gunter. Didascalie: Alva Lundin. In.: Lars Hanson (Gösta Berling), Ellen Hartman-Cederström (Märta Dohna), Torsten Hammarén (Henrik Dohna), Greta Garbo (Elisabeth Dohna), Mona Märtensson (Ebba Dohna), Gerda Lundqvist (Margaretha Samzelius, la “Comandante”), Hilda Forslund (sua madre), Otto Elg-Lundberg (comandante Samzelius), Jenny Hasselqvist (Marianne Sinclaire), Sixten Malmerfelt (Melchior Sinclaire), Karin Swanström (Gustafva Sinclaire), Sven Scholander (sovrintendente Sintram), Svend Kornbeck (capitano Christian Berg), Oscar Bergström (mastro Julius), Hugo Rönnblad (colonnello Beerencreutz), Knut Lambert (Ensign Rutgen von Orneclou). P.: A-B Svensk Filmindustri., Stoccolma. Prima proiezione: 10 marzo 1924 (parte 1), 17 marzo 1924 (parte 2). L.prima parte: 1906 m., L. seconda parte: 1854 m., D. complessiva.: 164' a 22 f/s. Didascalie svedesi / Swedish intertitles

Da: Svenska Filminstitutet

Accompagnamento musicale di Alain Baents (pianoforte) / Musical accompaniment by Alain Baents (piano)


“Che Garbo sia già un'attrice, in Gösta Berling Saga, non è sicuro. Più ancora: che i ruoli europei interpretati da questa ragazza svedese, per Stiller prima e per Pabst poi, in due film che nessuna storia del cinema dimentica, che questi ruoli abbiano qualcosa a che fare con ciò che poi nella storia delle immagini è stata Garbo, pure non è affatto sicuro. In Gösta Berling è fantastica quando è immobile, nei vestiti bianco impero, tra gli arredi gustaviani, oppure stagliata contro qualche orizzonte di neve e di fuoco (centro drammatico e figurativo del film è una lunghissima scena d'incendio, e Garbo corre su una slitta verso le fiamme per ritrovare il suo amore ancora segreto, il funebre dongiovanni Gösta Berling); e nei momenti migliori Stiller osserva quel viso ancora infantile come un paesaggio nevoso, come altro materiale lirico che d'improvviso si offre al suo obiettivo. Gösta Berling Saga, che adatta e prosciuga il grande romanzo di Selma Lagerlöff, è un film complesso, sovraccarico, chiamato a sostenere un peso narrativo grave, teso nella ricerca di un equilibrio che permetta di dipanare le storie di molti personaggi, i fantasmi del passato, la colpa e la redenzione, le questioni morali, l'innocenza sacrificata e poi l'innocenza trionfante, “lo scatenarsi delle passioni che si mescola con frenesia al crepitio delle fiamme”, come dice Jean Béranger che non esita a considerarlo un capolavoro. Garbo attraversa tutto quanto lasciandosi appena intravvedere, talora tendendo avanti le braccia, un poco come se avesse osservato qualche diva italiana in disarmo (di origine italiana è peraltro la sua Elisabeth Dohna), scivolando senza batter ciglio fuori da un matrimonio improbabile, e conquistandosi il lieto fine senza aver troppo sofferto”. (Paola Cristalli, Cinegrafie, n. 10, 1997)


“It is not yet evident that Garbo was already an actress in Gösta Berling Saga, and the more so in the European roles played by this Swedish girl for Stiller first and Pabst later in two films that the history of cinema would never forget. In Gösta Berling she is as fantastic as she is still, in her white Empire-style dresses, among Gustavian décor, or else when she is silhouetted against a snowy and fiery horizon (the dramatic and figurative focus of the film is a very long scene where Garbo speeds with her sleigh towards the flames to meet her secret love, the funereal dongiovanni Gösta Berling). In his best moments Stiller observed that face as a snowy landscape, another lyric element suddenly offering itself to his camera. Gösta Berling Saga, the exhaustive adaptation of Selma Lagerlof's great novel, is a complex, overloaded film, called upon to bear the weight of severe narration, aiming at reaching a balance between the unraveling of the stories of many characters, the ghosts of the past, crime, punishment and redemption, moral issues, sacrificed and at last triumphing innocence, “the raging of passion which frantically intermingles with the crackle of fire”, as Jean Bérenger said proclaiming it as a masterpiece. Garbo moves through all this allowing herself to be just barely perceived, sometimes slightly projecting her arms forward as if she had watched an already-forgotten Italian actress, slipping way without batting an eye from an improbable marriage, and winning a happy ending for herself without having suffered too much”. (Paola Cristalli, Cinegrafie, n. 10, 1997)

5.10.05

Leituras

Rhoda K.Unger, Handbook of the Psychology of Women and Gender, (New Jersey, John Wiley & Sons, Inc., 2001): para quem se interessa por psicologia, um livro que reune os contributos de investigadores, com perspectivas e metodologias diferentes - mais tradicionais ou pós-modernas - e apresenta as últimas teorias e práticas sobre a psicologia da mulher e género.

Uma mina, para quem se interessa por psicanálise: Salles de Lecture.

Prémio Prometeu de Kafka

oito horas de nuvens por dia

Impressões

No céu azul-ainda-frio da manhã uma estreita faixa de névoa protege o mistério do castelo.

O Mito de Orfeu (16)

"Orphée est l'homme qui a violé l'interdit et osé regarder l'invisible"*.

Orphée promit de ne jamais se retourner sur sa femme Eurydice avant qu'elle ne fût totalement revenue à la clarté du jour, avant qu'elle ne fût totalement libérée du joug des dieux infernaux. Mais l'impatient dérogea à son engagement : pris d'un doute mortel, il l'embrassa du regard et Eurydice disparut pour toujours. Pour avoir violé l'interdit et osé regarder l'invisible, Orphée perdit tout. On ne retint de lui que son formidable pouvoir de séduire à tous les niveaux du cosmos et du psychisme, sa capacité à endormir le mal sans être capable de le détruire. Lutteur idéaliste, Orphée succomba à ses propres contradictions : aspiration vers le sublime et vers la banalité. Néanmoins, aussi paradoxal fut-il, il ouvrit une brèche et effleura l'essentiel (ou ce qui devait se révéler comme tel) pour les hommes des arts et du spectacle, à commencer par les inventeurs du cinéma : Joseph Plateau, Georges Méliès, les frères Lumière. Persévérance, irrépressible désir de braver les forces de l'invisible, de sonder l'impénétrable lumière.

O autor do texto acima transcrito, certamente, terá lido as obras abaixo referenciadas, ou pelo menos o Dictionnaire des Symboles, tal é a semelhança da primeira parte do extracto, com a entrada do referido dicionário para Orfeu.

* Jean Chevalier,; Alain Gheerbrant, Dictionnaire des Symboles, (Paris, Robert Laffont, 1982), p.712.
Paul Diel, Le Symbolisme dans la Mythologie Grecque, Étude psychanalytique (Paris, Petite Bibliothèque Payot, 1966).
Jean Servier, Les Portes de l'Année, (Paris, Robert Laffont, Paris 1962)

O Mito de Orfeu (15)



Johann Wilhelm Baur(1600-1640), Orpheus cythara feras et inanima trahit,
na sua edição das Metamorphoses em 1703, utilizou as pranchas de Virgil Solis(1563)
Ovid, Met. X, 86-105

Orfeu "herói-cultural"*:

Foi Orfeu, o sagrado intérprete dos deuses,
quem afastou os homens selvagens do assassínio
e do nefando pasto: por isso se dizia que ele aman-
sara tigres e ferozes leões.


Horácio, Arte Poética, (Lisboa, Inquérito, 1984), pp.113-114.
* Marcuse, "As Imagens de Orfeu e Narciso", in Eros e Civilização, (Rio de Janeiro, Zahar Editores, 1968), p.155.

Destaque

A Escola e o Tempo, no Nocturno com Gatos. E, aproveito para dar as minhas felicitações a Amélia Pais pelo dia de ontem, e também pelo luminoso blogue.

Confidências e Desabafos de Savarin (123)

Vasculhando nas revistas de culinária, que herdei da minha mãe, em busca de receitas de bolos de aniversário, eis que encontro uma versão de:
Camarão à Baiana

Ingredientes:


1 kg de camarão
5 ou 6 tomates grandes,maduros pelados, sem sementes, e picados
1 cebola
2 dentes de alho esmagados
2 colheres (sopa) de azeite
1 limão
1 chávena de leite de côco
2 ou 3 pimentas vermelhas
1 ramo de salsa, coentros, segurelha e mangerona
azeite dendê
Sal
pimenta

Preparação:

Limpar os camarões, retirar as tripas e lavar. Conservar durante pelo menos uma hora numa marinada feita com sal, pimenta, sumo de limão e alho.
Prepare o refogado com azeite e a cebola picada, o ramo aromático e os tomates picados. Deixar cozinhar até desfazer bem os tomates. Acrescentar os camarões com o tempero da marinada. Adicionar também a malagueta e um pouco de azete dendê se assim o desejar. Quando os camarões estiverem cozidos, retirar as pimentas e o ramo de cheiro. Despejar o leite de côco e mexer bem. Provar e rectificar o tempero. Mexer até ferver sem deixar talhar.

Servir com arroz branco, angu de farinha de arroz.

Adaptado da Revista Bom Apetite , 46, Abril Cultural, (1979), p. 543.

O Mito de Orfeu (14)

A Brígida também aderiu ao "movimento órfico", contribuindo para a antologia sobre Orfeu, com este post encantador.

4.10.05

O Mito de Orfeu (13)


Barbara Kerstetter, Song of Orpheus, (1997), óleo sobre linho.

O Mito de Orfeu (12)



Yarek Godfrey, Orpheus & Euyridice (1994)
óleo sobre tela, CFM Gallery.

(...)

15

Homens e deuses! Que triste
Ser um poeta moderno!
Um Orfeu que não resiste
A uma descida ao Inferno!
E o coração partisse,
Nem por amor de Eurídice,
Homens e deuses! É triste.

(...)

Afonso Duarte,"Canto de Babilónia, Redondilhas", op.cit, p. 135.

Poemas de Afonso Duarte e de Nuno Júdice

Seguidilhas

1

Dizei vosso verso,
Meu verbo disperso
Nas asas do vento?

- Foge à luz dum pensamento
A alma dum sonho-universo
Perdida de sentimento.

2

Qual é esse vago
Dos sonhos que trago
Dos ecos dos montes?

- Ao longe nos horizontes
Pede-o ao luar sobre um lago.
Pede-o às águas das Fontes ...

3

E quais os sentidos
Poemas erguidos
Das verdes folhagens?


- Paisagens, tudo paisagens ...
São sonhos indefinidos
De vozes vagas de Imagens.

(...)

Afonso Duarte, Antologia Poética, (Lisboa, Direcção-Geral da Divulgação, 1984), p.26

Estudo Biográfico

Encontrou uma nova secura com que, disfarçando
a amargura da alma, se dirigiu aos seus semelhantes.
Os traços do rosto modificaram-se, e também a voz:
agora, com entoações trágicas, provocava a emoção
do auditório. E se alguém lhe respondia nesse mesmo tom,
demonstrando adesão ou correspondência afectiva,
mudava subitamente. Tornava-se interior, fechado,
e o brilho dos seus olhos sombrios dissipava
a momentânea atmosfera de entendimento.
Assim recebia amigos e inimigos. Secreto
como quem domina a profundidade do espírito,
mas igualmente e vulnerável e infantil, até
morrer, como se esperava, soltando sangue e riso
pela boca.

O Viajante

Que porto abrigará o fatigado corpo? Que abraço
de ocasional mulher o despertará, de madrugada,
do sono ébrio? Espero por ele, num velho patamar,
contando os degraus para passar o tempo; e
os meus dedos esfarelam o resto do pão, que
as fugazes gaivotas não teriam desprezado. Foi
aqui que o deixei, há anos, cansado das suas
histórias inverosímeis e do cheiro da taberna
(tabaco barato e vinho entornado) - e também
de um sentimento confuso que as suas confissões
transportavam: que imagem de mulher arrastava,
pela solitária alma, que ainda hoje me atormenta
como se, eu próprio, a tivesse beijado,
em despedidas longínquas de lenços e mastros?
Por isso estou aqui, esperando que a sua voz
familiar dissipe a treva e me aqueça por instantes,
com um hálito de aguardente. «Quem é ela»,
dir-lhe-ia, «a feminina sombra que tu persegues
em quartos estranhos de estranhos países?» E ele,
com uma desculpa, conversaria de cidades e de
barcos, até partir, sabendo que não haveria regresso
.

Nuno Júdice, Obra Poética (1972-1985), (Lisboa, Quetzal Editores, 1991), pp. 158 e 290

3.10.05

O Mito de Orfeu (11.2)


Carl Milles - Orpheus Fountain - at Sunset in Autumn. Fotografia de Bethany Shorb. CRANBROOK ART MUSEUM

O Mito de Orfeu (11)



Carl Milles (1875-1955) - escultor sueco, discípulo de Rodin - Orpheus Fountain, (1936), Estocolmo.

2.10.05

Acne senil

Perdoem revelar, em público, as moléstias da idade ... todavia, cá vai disto, ontem, num intervalo entre dois momentos de ócio, confirmei que para além do olhar mais baço, dos sulcos do sobrolho mais profundos - de tanto o franzir ao longo de décadas - das incontáveis rugas e vincos, eis que surgem, ali e acoli, borbulhas no rosto, a mim que não sofri de acne juvenil. Solução avestruz: só olhar para qualquer espelho à distância mínima de 15 metros, ou não olhar de todo.

Toxicosolitas

Para quem ama estar só, a solidão é um vício incurável, uma droga que provoca um tipo de dependência resistente a qualquer tentativa de desentoxicação.

Símbolos: Paeonia



As peónias têm maravilhado os jardineiros desde há 1600 anos, ou ainda há mais tempo. Para além da sua beleza constituem um ingrediente fundamental na preparação de remédios contra a dor, infecções e hipertensão.
Na China, o país onde há maior diversidade de espécies desta planta, é símbolo de riqueza e de honra, em função do seu porte e da sua cor. O seu nome meoutan, encerra o termo tan cinábrio, droga da imortalidade que a faz associar ao simbolismo da Fénix.
As propriedades medicinais das peónias selvagens aparecem descritas num Herbário clássico, Shen Nong Ben Cao Jing, escrito por volta de 200 BC, mas teriam começado a ser utilizadas muito antes.
Paeonia broteri Nativa dos bosques abertos do centro, oeste, sul de Espanha e sul de Portugal. Precisa de sombra. Frequentemente encontrada em solo calcário.

O Mito de Orfeu (10)

DIZER TREVAS



Como Orfeu, toco

a morte nas cordas da vida

e à beleza do mundo

e dos teus olhos que regem o céu

só sei dizer trevas.



Não te esqueças que também tu, subitamente,

naquela manhã, quando o teu leito

estava ainda húmido de orvalho e o cravo

dormia no teu coração,

viste o rio negro

passar por ti.



Com a corda do silêncio

tensa sobre a onda de sangue,

dedilhei o teu coração vibrante.

A tua madeixa transformou-se

na cabeleira de sombras da noite,

os flocos negros da escuridão

nevavam sobre o teu rosto.



E eu não te pertenço.

Ambos nos lamentamos agora.



Mas, como Orfeu, sei

a vida ao lado da morte,

e revejo-me no azul

dos teus olhos fechados para sempre.


Ingborg Bachmann, O Tempo Aprazado, (Lisboa, Assírio e Alvim, 1992), pp.27-28

1.10.05

Símbolos: Acantus mollis



A representação da folha de acanto era muito utilizada nas ornamentações antigas e medievais. Segundo uma lenda relatada por Vitrúvio, o escultor Calímaco, no fim do século V a.C., ter-se-ia inspirado, para decorar um capitel, num ramo de folhas de acanto tombadas sobre o túmulo de uma jovem. Podemos reter desta lenda, que no início,a utilização do acanto fazia-se sobretudo na arquitectura funerária para indicar que as provas da vida e da morte smbolizadas pelos picos da planta, tinham sido superadas.

As folhas de acanto ornavam os capiteis coríntios, os carros funerários, a indumentária dos grandes homens, porque os arquitectos, os defuntos, e os heróis venceram as vicissitudes do seu destino e alcançaram a glória.

Pormenor da folha de acanto sobre capitel do Foro de Augusto


Fragmento do capitel do templo do Divo Giulio, pormenor com folha de acanto



Vinha e Folhas de Acanto, uma tapeçaria desenhada e tecida por William Morris




Folha de acanto, estudo de Burne-Jones.

Confidências e Desabafos de Savarin (122. 2)



Encontrei aqui uma versão jamaicana de Natal, da receita que publiquei há pouco, bastante mais rica, pois também leva côco, sumo e raspa de lima.

Confidências e Desabafos de Savarin (122)



Zingiber officinale


Zingiber[ófilo] officinale me confesso.



O gengibre tem múltiplos usos: fresco, cristalizado, seco, em pó, aromatiza doces e salgados, constitui a essência de chás e refrigerantes, tem propriedades medicinais, pode, ainda, embelezar as janelas da sala ou da cozinha.


Pão de Gengibre e Cerejas

Ingredientes:


175 gr de farinha de trigo
1 1/2 de chá de fermento em pó
2 colheres de chá de gengibre em pó
75 gr gramas de manteiga
50 gr de gengibre cristalizado picado
75 gr de cerejas em calda picadas
75 gr de açúcar mascavado
6 colheres de sopa de leite

Preparação:

Colocar a farinha, o fermento, o gengibre em pó numa tigela, acrescentar a manteiga, mexendo até a mistura lembrar migalhas de pão. Juntar o gengibre picado, as cerejas, o açúcar, misturar e adicionar o leite. Mexer até obter uma massa consistente.
Despejar numa forma de bolo inglês de 500 gr, previamente untada com manteiga e polvilhada com farinha, assar em forno moderado, pré-aquecido, durante 1 hora ou 1 h e 15 minutos.