30.9.05

Devaneios botânicos

Junto à varanda, as hastes de gengibre lançam-se para a luz.

[No Verão, plantei os rizomas de gengibre, em estágio na cozinha, pois ofereciam bonitos rebentos, que cresceram num ápice].

29.9.05

Confidências e Desabafos de Savarin (121)

Prato de Peixe; Prato de Carne; Folhas de Hortelã-pimenta

Filets de Poisson Pochés au Vin Blanc


Ingredientes:

50 gr de manteiga
2 colheres de sopa de cebolinho picado
1,5 kg de filetes de linguado sem pele
sal
pimenta
salsa picada
3 chávenas de vinho branco seco
2 colheres de sopa de farinha
150 gr de camarões cozidos descascados
1 limão
alguns camarões cozidos com casca

Preparação:

Derreter 25 gr de manteiga e juntar-lhe o cebolinho, deixar ao lume 2 minutos.
Enrolar os filetes e dispô-los num recipiente refractário. Verter a manteiga+cebolinha, sobre o peixe, temperar a gosto com sal e pimenta, polvilhar com a salsa, e adicionar o vinho. Cozinhar tapado, em forno moderado, pré-aquecido, durante 15 a 20 minutos.
Transferir o peixe, com uma escumadeira, para uma travessa aquecida e manter quente.
Entretanto, misturar 25 gr de manteiga com a farinha, coar o caldo do peixe, verter para uma panela, ferver e acrescentar gradualmente a manteiga+farinha, para engrossar o molho, com cuidado, para não formar grumos. Juntar os camarões e rectificar os tempêros. Derramar sobre os filetes e decorar com rodelas de limão e camarões com casca.

Por vezes, apetece comer um suculento steak au poivre verte ou uma coisa deste tipo:

Carne de vaca com mostarda

Ingredientes:

1kg de 1 peça de carne de vaca, vazia ou lombo, com 5 cm de espessura
3 colheres de sopa de mostarda
sal
pimenta
50 gr de manteiga
2 chávenas de natas
3 colheres de sopa de cognac
agrião (facultativo :))


Preparação:

Untar a carne, por inteiro, com uma colher de sopa de mostarda. Tapar e deixar repousar durante 1 hora.
Derreter a manteiga numa frigideira com o fundo pesado, fritar, rapidamente, a carne de ambos os lados, em lume forte. Temperar com sal e pimenta. Baixar o lume, e fritar por 5, 7, ou 12 minutos de cada lado, conforme o gosto.
Transferir para uma travessa aquecida, mantendo-a quente.
Juntar a restante mostarda a metade das natas, misturar e adicionar ao molho na frigideira, mexendo bem. Aquecer levemente. Acrescentar o resto das natas, sal pimenta e deixar quase ferver. Juntar o cognac e mexer bem.
Cortar a carne em fatias grossas e derramar o molho sobre a carne. Decorar com ramos de agrião e servir com batatas salteadas ou fritas.

No fim, mascar umas folhas de hortelã-pimenta para digerir melhor tanta proteína ;).

Azul-ultramarino


Duane

naqueles lagos azul-ultramarino afogo-me por gosto

Para onde foi a lógica?

Professor - Veja: aqui estão três fósforos. Aqui está mais um, o que faz quatro. Veja bem. Aqui estão quatro. Tiro um, quantos ficam?
Aluna - Cinco. Se três e um são quatro, quatro e um são cinco.
Professor - Mas não é isso, não é isso de maneira alguma. A menina tem tendência para adicionar. É preciso também subtrair. Não se deve unicamente integrar; é preciso desintegrar. É isso a vida, é isso a filosofia, é isso a ciência, é isso o progresso, a civilização.
Aluna - Sim, senhor professor.
Professor - Vejamos, reflicta bem. Não é fácil, eu sei. Mas a menina é suficientemente culta para produzir um esforço intelectual e chegar a compreender. Então?
Aluna - Não consigo, senhor professor, não sei.
Professor - Vejamos exemplos mais simples. Se a menina tivesse dois narizes e eu lhe arrancasse um, com quantos ficaria?
Aluna - Com nenhum.
Professor - Com nenhum?
Aluna - Sim. Justamente porque o senhor não arrancou nenhum é que eu tenho um agora. Se o tivesse arrrancado, eu não teria nenhum.


Eugène Ionesco, A Lição, (Lisboa, Minotauro, s/d), p.76.

Contradições em catadupa:

Só tive uma finalidade na vida: provar que a finalidade não existe.

Uma só coisa é certa: nada é certo.

Graças a Deus, sou ateu.

Num caixote de lixo: Conserve o lixo no seu lugar próprio.

28.9.05

Pourquoi ...



Quando leio certos textos, que deveriam pautar-se pelo rigor, e verifico que evidenciam a vontade de classificar, de encaixar os fenómenos, dentro de determinadas categorias, com a vã pretensão de tudo explicar e controlar, penso de imediato na crítica de Nietzsche, ao afirmar que muitas teorias não passam de meras designações vazias de sentido, muletas ilusórias, expressões da vontade de domínio, segundo a sua terminologia.
Vem isto a propósito de um livro que estou a ler. Apesar do seu brilhantismo enquanto psicanalista e historiadora, ao divulgar e analisar textos fundamentais, mas esquecidos, a autora cedeu à tentação de interpretar um artigo de Ruth Brunswick de acordo com o paradigma lacaniano. Por outro lado, omite as discordâncias entre Freud e Karen Horney.

O livro procura reconstituir o período entre 1920 e 1933, quando a comunidade psicanalítica debatia as teorias de Freud acerca do desenvolvimento feminino. Relendo os textos de Freud e dos seus pares, Hamon traça as interacções entre os diferentes estudos.
Marie-Christine Hamon expõe os diálogos subreptícios, integra os diferentes contributos no pensamento de Freud quer os relegados para segundo plno, quer alguns dos que foram objecto da desaprovação de Freud. Revela, ainda, o poder da influência de Freud e as tensões com o seu círculo.
No entanto, Hamon interpreta os artigos da autoria de Freud e dos seus associados através do crivo da abordagem de Lacan.
As suas perspectivas sobre os trabalhos de H. W. van Ophuijsen, Jeanne Lampl–de
Groot, August Starcke, Karl Abraham, Helene Deutsch, Melanie Klein, e de Ruth Mack Brunswick estão subjugados ao seu interesse em delinear a evolução de Freud na direcção do conceito lacaniano de "castração da mãe".
Hamon cita o artigo de Karen Horney 1924, todavia não refere a discordância de Horney quanto ao falocentrismo da teoria de Freud. Trata-se, segundo Paula Bernstein, de uma omissão crucial, na medida em que é legítimo argumentar que os artigos de Freud, publicados em 1923, 1924, e 1925 foram inspirados pela comunicação de Horney em 1922,intitulada “On the Genesis of the Castration Complex in Women”. “The Flight from Womanhood” (1926) foi a réplica de Horney a Freud. Freud declarou, explicitamente, o seu desacordo em 1931. “The Denial of the Vagina” e “The Dread of Woman” foram objecto de acessos debates entre os textos de Freud de 1931 e 1932–1933.

Concordo, em grande parte, com a crítica de Paula P. Bernstein, Psychoanalysts Past, 295-299, quando afirma:

But even by 1926, Horney was casting off Freud’s language and speaking of
the girl’s female genital anxieties, of reasons for the little girl’s penis envy, of regression to the masculinity complex in the face of oedipal conflicts, and of the awe of motherhood in boys and girls. Hamon curtly dismisses Horney as “insisting upon misunderstanding Freud,” without critiquing her formulations.
For Hamon, Brunswick’s case material “puts an end to all the challenges” to Freud’s phallocentric conceptualization of femininity(p. 214). For me the case highlights the girl’s exploration through masturbation of vulva and vagina. The patient had been seduced at three and again at five by a sister ten years older than she. Thereafter the lonely child, who lost both her mother and sister, was drawn to repeat with playmate and pets her penetration of the “quivering vagina.” The guilt ridden repressed experiences were recovered through transference dreams. It seems to me that Brunswick’s interpretation that the little girl assumed a penis beneath the pubic hair she observed on her sister functioned as the “inexact interpretation” that led to her confession of the early initiation into vaginal penetration, active and passive, early sexual experiences felt to be powerful and gratifying, but dangerous and bad(see Frenkel 1996). Clearly the patient is preoccupied with images of sexual intercourse and with competition with the males for her sister’s company—on the one hand identifying with her sister and on the other wishing to posses her. But Hamon always uses the word castration for vaginal penetration or female genital injury. In her schema, Brunswick invites us to think “in a new way” about the relation between the girl’s dependence on the mother and her avoidance of recognition of the mother’s castration, leading us beyond Freud to Lacan.
(...)
Hamon is a gifted scholar and historian. Missing from the certitude she conveys is any sense of foment alive today in Lacan’s circle. Numerous papers in the current literature (many by female analysts) explore the limitations imposed on what we hear when phallic terms and con-cepts appropriate to male experience are misapplied to women. Why is it that the Lacanian women analysts are not at the forefront of the
current interest in replacing phallocentric language with terms that structure female experience?

Esta última questão também se pode aplicar, com igual propriedade, ao livro da psicanalista brasileira Malvine Zalcberg, A Relação Mãe Filha, (Rio de Janeiro, Campus, 2003).
"Análise de um Delírio de Ciúme"*

Esta noite sonhei que tivera uma "liaison dangereuse" de grande intensidade melodramática, com uma das protagonistas da série Desperate Housewives - não vou dizer com qual delas, porque isso é do foro privado, só adianto que não foi nem com a loura, nem com a ruiva, nem com a grávida. Entretanto, o objecto dos meus sonhos tentou chantagear-me com uma cassete onde gravara as nossas cenas amorosas.** Ameaça vã, pois eu já tinha relatado o caso, a toda a família.

É o que acontece a quem lê artigos de Ruth Mack Brunswick, antes de adormecer. (Claro, que só estou a recalcar).

E isto é apenas uma reduzida síntese da imbrincada trama onírica.

*Ruth Mack Brunswick, "L'Analyse d'un Délire de Jalousie,". In: Marie-Cristhine Hamon (ed), Féminité Mascarade, Études Psychanalythiques Réunies, (Paris, Éditions du Seuil, 1994), pp.133-195.
** Aqui revelo megalomania.

27.9.05

Impressões de ontem

Perdi o autocarro, mesmo por um triz, e lá fiquei, na paragem, à espera do seguinte, a olhar para a mesquita, em frente dos meus olhos, eu que não acredito em nenhum deus e, ainda menos em Alá. Muito alcatrão, muita gente, homens "hipercalóricos", mulheres "hipercalóricas", uma velha senhora minúscula, com um lenço repleto de inscrições e símbolos Chanel, a tapar um penteado, tipo "colchão no toucado"; raparigas bonitas, rapazes nem tanto, autocarros, táxis, americanos a perguntar onde é o metro, duas italianas esbaforidas apanham, à tangente o autocarro para Sesimbra, mais senhoras, mulheres, homens, raparigas, rapazes, [é caso para perguntar onde estão as crianças?) e eis que chega o almejado 158.

Da janela do autocarro, a caminho da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa, pouco antes de Âlcantara, ao passar pelo bairro multicolorido, onde - presumo - foram realojados muitos dos moradores do Casal Ventoso, reparo no logotipo de uma montra: uma senhora de tailleur e chapéu azul turqueza ilustra a designação Mini-mercado Lady Di.


Na paragem da Faculdade, dois estudantes, um português e um japonês - saiem de skate na mão, depositam-no no pavimento, e logo deslizam, com agilidade, pelo campus até ao edíficio onde, provavelmente, decorrerão as aulas do seu curso. Pela parte que me toca, vou até à biblioteca esperar que a secretaria abra as suas portas ao público.

26.9.05

Impressões

revelados reflexos do rio

Sectarismo

XXS passou a sentir-se muito bem a partir do momento em que decidiu relacionar-se, apenas, e só apenas, com quem padecia das mesmas disfunções psicológicas.

25.9.05

O Mito de Orfeu (9)

Versões portuguesas de Orfeu na Música

Encontrei as informações, abaixo transcritas, através do Google. (Mas, gostaria de saber mais sobre os autores, e sobre as suas obras, pois estes dados são, manifestamente, insuficientes).

Conde Fernando de Azevedo da Silva, (? - 1923 Lisboa), criou Morte de Orfeu (1907, Antwerpen)

Ruy Coelho ( 1892-1986) foi o autor de Orfeu em Lisboa ­ ópera: 3 actos (1963-66; 31/12/1966, Teatro Nacional de S. Carlos). Orquestra Sinfónica da Emissora Nacional. Libr. Compositor.

Sobre esta obra, vide Maria de Fátima Silva (Coord.), Representações de Teatro Clássico no Portugal Contemporâneo. Vol. II (Coimbra, Fac. de Letras da Universidade, 2000)

No primeiro Blogue de Esquerda:

Fiquem com duas observações musicais, tiradas dos Diários de Gomes Ferreira (Dias Comuns. 1 Passos Efémeros, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1990):
21 de Dezembro de 1966
Anunciam para breve o 3.º acto de Orfeu em Lisboa de Ruy Coelho. Os dois primeiros roçavam pelo delírio parvo, concebidos como foram pelo próprio compositor que – à Wagner – escreveu o libreto, cujo nível se pode medir pelo leitmotiv:

O teu sorriso
é o paraíso.

O que o Abelaira e eu rimos! (O Abelaira é um guloso de Ruy Coelho.) E no entanto o pobre autor das Camoneanas anda nesta luta desde os 20 anos: a tentar exprimir qualquer coisa que não sabe bem o que é, e, nem por acaso, sai cá para fora.»

24.9.05

Outono em Trondheim


Vadim Makarov, Northern lights over Moholt student village. Trondheim, Norway , from Lights of Trondheim


Vadim Makarov, Rainbow over Nidarosdomen. Trondheim, Norway , from Lights of Trondheim
As auroras boreais são uma visão esplendorosa, de emudecer.
Trondheim é uma bela cidade, e no Outono as águas escuras do fiorde contrastam com as tonalidades quentes das folhagens caducas.

Segundo a minha amiga Trude Mørk sou uma Outono, porque as cores características desta estação me favorecem.

Confidências e Desabafos de Savarin (120)

Ao sucesso de uma Experiência - em jeito de agradecimento

Ontem, experimentei uma receita de bavarois de grande requinte e frescura, de facto "muito bonito aromático e tonificante", criação de quem escuta e traduz o "divino sopro" das musas.

O Mito de Orfeu (8)


Ossip Zadkine, Orphée, (1928 et 1930), madeira,
Musée d'Art Moderne de la Ville de Paris



Pierre Franqueville, Orphée charmant les animaux
(1598), mármore, Musée du Louvre




A ler, as seguintes páginas com muita informação relevante:

Orphée et Eurydice: mythes en mutation

Orphée et ses Oeuvres

Orphée et Eurydice

21.9.05

O Mito de Orfeu (7)






Depois de uns tempos em pousio, ouve-se de novo, deste lado do castelo:

1. Claudio Monteverdi, L'Orfeo - La favola d'Orfeo, opera, SV 318, Gabriel Garrido

Antonio Abete, Gloria Banditelli, Elyma Ensemble, Adriana Fernandez, Roberta Invernizzi, Maria Cristina Kiehr, Maurizio Rossano, Victor Torres, Gerd Turk, Furio Zanasi, Fabian Schofrin , 1996

2. Joseph Haydn, L'Anima del filosofo ossia. Orfeo ed Euridice - Christopher Hogwood
Cecilia Bartoli, Uwe Heilmann, The Academy of Ancient Music, et al., Decca
1997

3. Christoph Gluck, Orfeo ed Euridice, Munich Bach Orchestra/Karl Richter -Dietrich Fischer-Dieskau, Gundula Janowitz, Edda Moser, 1968.

Digitalis do Dia


Por Platero.

O Mito de Orfeu (6)

"Guarda-te melhor
guarda-te caminhante
do caminho que também caminha."

Rilke, "Apêndice II, Do ciclo dos Sonetos a Orfeu, Esboços e Fragmentos". In: Poemas, As Elegias de Duíno e Sonetos a Orfeu, (Porto, O Oiro do Dia, 1983), p.288

20.9.05

Album Lapillus

A data ideal para marcar um encontro indesejável, embora incontornável, é o dia 29 de Fevereiro do próximo ano.

19.9.05

O Mito de Orfeu (5)

A sombra de Eurídice, I


Canção divina as cousas comovia,
E de ternura as árvores choravam...
E lembrava o luar a luz do dia
E os ribeiros, extáticos, paravam.

Era Orfeu, de inspirado, que descia
Às entranhas da terra! E se afundavam
Os seus olhos na noite, muda e fria,
Onde as pálidas sombras vagueavam.

Eurídice, o seu morto e triste amor,
Ouvindo-o, tomou forma e viva cor,
Íntima luz à face lhe subiu...

Mas Orfeu, pobre amante enlouquecido,
Quis ver aquele corpo estremecido...
E, outra vez sombra, Eurídice fugiu...


Teixeira de Pascoaes, aqui.

18.9.05

O Mito de Fausto (3)


Os Mitos de Fausto


“See, see, where Chris’s blood streams in the firmament!”
Christopher Marlowe, The Tragical History of Faustus, (New York, MacMillan St. Martins Press, 1969), Acto V, cena III, p. 54.

O Homem Fáustico

Na realidade, a paixão que impulsiona o inventor não tem qualquer relação, seja de que ordem for, com as consequências da sua invenção. Esta paixão é a sua razão pessoal de viver, a sua ventura ou desventura pessoal; o inventor quer para si o gozo proporcionado pelo triunfo sobre os provocantes enigmas da Natureza, tal como desja a glória e a riqueza que se lhe seguem. Que a sua descoberta seja útil ou perigosa, fecunda ou destruidora, importa-lhe tanto como coisa alguma. Aliás, ao fim e ao cabo, ninguém pode calcular os resultados, antecipadamente, de uma invenção.

Spengler, op. cit., p. 110

Mitanálise

Apercebemo-nos de que, ao longo da história, há avanços e recuos de um mito. Vemos, por exemplo, que o mito de Prometeu que emergia no Renascimento, desaparece e cede o lugar a outros mitos, pelo menos no contexto francês no fim do séc. XVI e no XVIII, sobretudo, e ressurge no fim do séc. XVIII. (…)
Estes avanços e recuos do mito podem ser medidos, se assim posso dizer, por esta “fisiologia da mitanálise”. Há ainda a deformação do mito: por mutilação dos mitemas (…) ou por acrescento dos mitemas. Por exemplo, vemos o mito de Prometeu transformar-se curiosamente no século XIX, e no fim resultar no mito de Fausto. Fausto é Prometeu sem altruísmo nem generosidade. É um Prometeu que assumiu o egoísmo do romantismo mas que é difícil reconhecer, porque no Fausto há um terceiro elemento fisiológico: aquilo a que chamaria o bloqueio sócio-cultural. Ora o exemplo de Fausto é muito probante.(…) o mitologema de Fausto aparece no século XVI com Marlowe, etc; mas é violentamente rejeitado, quer dizer é moralizado. Fala-se na “danação” de Fausto. Fausto aparece como mau, tem problemas com Margarida, vende a alma ao diabo para possuir a juventude e a ciência, e depois, no fim, evidentemente, sem moral está condenado, está liquidado. Ora, esta condenação de Fausto vai persistir mesmo depois de Goethe, durante todo o século XIX. As óperas populares - não sei se há algumas portuguesas da época – mas em França temos pelo menos dois Faustos: o de Gounod e o de Hector Berlioz. Mais explicitamente, a Danação de Fausto ou ainda o Mefistófeles de Boito, são lições de moral, liquidação de Fausto.



Vamos encontrando, portanto, em cada um dos casos, uma retracção do altruísmo e da generosidade, ou mesmo um bloqueamento. Desde há muito que o mito está para sair, mas pode realmente sair, o que é surpreendente, no século XX. O Fausto perfeito, o Fausto consumado é o Dr. Faustus de Thomas Mann, porque é a realização apocalíptica do mito. Adriano Leverkuhn, é o nome do Dr. Fausto (…) É um músico dodecafónico, personagem que foi inspirada a Thomas Mann pela loucura de Nietzsche, por um lado, bem entendido, mas por outro, também, pela biografia de Schönberg. Assistimos à decadência deste Dr. Fausto, assistimos, mais uma vez por uma criatividade que é promovida pela paralisia geral, uma sensibilidade que se torna paralítica, tal como Nietzsche, no fim, se torna louco e, ao mesmo tempo, produz uma obra assustadora, uma obra petrificante, uma obra no limite do assombro.
Mas, sobre o fundo sociológico de tudo isto, está a derrocada alemã de 1945. Então, poderíamos dizer que a personagem do Dr. Fausto se desmorona com, que assume o desmoronamento do regime nazi. Podemos supor que é nazi e, ao mesmo tempo, assume o desmoronamento criador da sua própria personalidade. O mito de Fausto consuma-se, para o séc. XX, nesta obra de Thomas Mann. Aí, não há danação, há beatificação na doença mental. E é assim que termina, com o exemplo de Nietzsche e com o exemplo de Hölderlin subjacentes, e que inspiraram Thomas Mann.


Gilbert Durand, “A Mitanálise – para uma Mitodologia”, Conferência na Faculdade de Letras de Lisboa em 11/02/1981, in Gilbert Durand, Mito, Símbolo e Mitodologia, (Lisboa, Editorial Presença, 1982), pp.105-107.

17.9.05

O Mito de Fausto (2) A Cultura Fáustica

Construir, pois, por si-mesmo , um mundo - ser, então, um deus - tal é o sonho dos inventores da era Fáustica. Foi a partir desse sonho que jorraram as formas sucessivas e inuneráveis de máquinas concebidas e modificadas sem cessar, sempre com o objectivo de chegar o mais perto possível desse limite inacessível que é o perpetuum mobile. Assim, a ideia que o animal predador tem da sua presa estende-se, na sua latitude até ao extremo limite. Não é apenas esta ou aquela realidade parcelar do universo - tal é o caso de Prometeu ao apoderar-se do fogo celeste - mas o próprio Universo, com o seu segredo energético; esta é a presa a atingir com a criação da nossa Cultura. Mas aqueles que não sentiam em si essa vontade de Domínio sobre a Natureza atribuíram, necessariamente, a esse projecto uma virtualidade diabólica.

Oswald Spengler, O Homem e a Técnica, (Lisboa, Guimarães Editores, 1980, p.108

O Mito de Orfeu (4) Sob o Signo de Orfeu

De Helena para Helena.

Esta história "exemplar" é, em certo aspecto, a do controverso poder da criatividade da Arte, resumindo de uma forma sintética e profundamente bela algo que procuramos dizer por uma via analítico-discursva. Orfeu é o artista, o criador por excelência. A sua vida é marcada por esse sentido estético-lúdico que apazigua os Homens e impressiona os deuses, assinalando-se nesta singular imagem a dimensão ética e prática dos objectos estéticos enquanto passíveis, à sua maneira, de transformarem comportamentos e atitudes, de fazerem irromper aqui e além a possibilidade dum mundo-outro, num tempo-outro.

Levi Malho, O Signo de Orfeu, Requiem por uma Estética Insular, (Porto, Edições Afrontamento, 1984), pp. 314-315.

O Mito de Orfeu (3) - Jean Cocteau e Guillaume Apollinaire









Orphée

Admirez le pouvoir insigne

Et la noblesse de la ligne:

Elle est la voix que la lumière fit entendre

Et dont parle Hermès Trismégiste en son Pimandre.




Guillaume Apollinaire (1880-1918)

Le Bestiaire où Cortège d’Orphée (1911.

Anexos

Sobre os filmes de Cocteau: Orphée (1949) e Testament d'Orphée
(1959), ler aqui, e acoli.
Filmografia de Orfeu.

15.9.05

O Mito de Orfeu (2)


George Frederick Watts RA (1817-1904),Orpheus and Euridice.Óleo sobre tela, 56 x 76 cm.
Ocean

Deep blue floating eyes.

14.9.05

O Mito de Orfeu


Jean-Baptiste-Camille Corot(1796-1875).
Orfeu Conduzindo Eurídice
(1861) Óleo sobre tela, 112.3 x 137.1 cm Museum of Fine Arts, Houston, Texas

Orpheus with his Lute Made Trees

Orpheus with his Lute made Trees,
And the Mountaine tops that freeze,
Bow themselues when he did sing.
To his Musicke, Plants and Flowers
Euer sprung; as Sunne and Showers,
There had made a lasting Spring.
Euery thing that heard him play,
Euen the Billowes of the Sea,
Hung their heads, & then lay by.
In sweet Musicke is such Art,
Killing care, & griefe of heart,
Fall asleepe, or hearing dye.


William Shakespeare aqui.

O Mito de Fausto

Profícuo é o serão, quando se encontram excelentes páginas sobre o mito de Fausto, como é o caso das que se seguem:

I
II
III

13.9.05

Públicos Vícios, Virtudes Privadas
(Sob influência de um episódio da série CSI, transmitido no passado fim de semana, em cujo título não reparei).


Desde os três anos de idade, XXL padecia de quiromania*. No início da década de 90, do século XX, aos vinte anos de idade, decidiu desprender-se de complexos de culpa estéreis, e dar um novo rumo à sua vida, participando num "reality show on the air 24 hours a day, every day".
Mais tarde, aderiu ao slogan "porn FROM the masses FOR the masses". Para isso, investiu parte do capital obtido através do concurso, na aquisição de uma câmara digital e de "software" adequado. Agora, produz programas caseiros, de "soft porn", "online 24 hours a day, every day", a baixos custos e com grandes lucros.

Anexos

*Egas Moniz discorreu, longamente, sobre o Onanismo na sua Vida Sexual, no capítulo "Parasexualidade" páginas 508 a 551 - Lisboa, Casa Ventura Abrantes, 14ª edição:

c) Onanismo. - De todas as perversões sexuais, cujo estudo vimos fazendo, é esta inegàvelmente a mais espalhada e a mais conhecida. (...)É necessário notar que a todas as horas homens, mulheres e crianças, trabalham à porfia para prejudicar a sua saúde, a sua vida intelectual e moral, o seu país e a raça humana. (...)

A palavra »onanismo» deriva do título duma obra atribuída a BEKKERS, de Londres, Onania, que por sua vez foi derivada de ONAN e de que MOYSÉS fala no capítulo XXXVIII do Génesis.
A Bíblia diz-nos, em resumo, que HER, o filho mais vélho de JUDAS e marido de THYMAR morrera sem filhos. Seu irmão ONAN devia pois , segundo a Lei, casar com ela e o filho que dela houvesse teria o nome de HER. Mas ONAN odiava o irmão e não querendo expor-se a ter um filho com o nome dêle e que fosse chefe de família, realizava com THYMAR o princípio do do acto coital e ejaculavat extra vas, como dizem os casuístas.
Daqui se conclui que etimològicamente há diferença entre onanismo e masturbação.
As práticas onanistas, propriamente ditas, são realizadas actualmente por alguns matrimoniados que pretendem fugir às conseqüências da procriação. Essas práticas porém pouco diferem das manuais e, por serem menos vulgares ou por abuso de linguagem, é certo que o onanismo e masturbação são hoje sinónimos. Ao lado dêstes dois termos muitos outros há para designar o mesmo vício, devendo notar-se os de manustupração, manualização, vício manual, quiromania, hábito solitário, etc.

Pouillet [na obra L'Onanisme chez la femme, Paris, 1897] chama onanismo ao acto contra a natureza feito com o auxílio dum orgão vivo (mão, língua, etc.) ou instrumento qualquer, a fim de provocar o orgasmo venéreo, quer êste acto seja solitário, quer seja executado em comum.

CHRISTIAN [Dictionnaire Dechambre, art. Onanisme Vol. XV, 2ªsérie]resume e generaliza ainda mais a definição. Para êle o onanismo é o conjunto de meios empregados por um ou outro sexo para produzir a satisfação genésica, artificialmente, fora das condições do coito normal.


Entretanto, os avanços da tecnologia fizeram nascer propostas delirantes como se pode constatar ao ler esta notícia.

12.9.05

Confidências e Desabafos de Savarin (119)
Os Músicos à Mesa - Inspirado por Dissoluto Punito


A despropósito de Così Fan Tutte ou Tutti? é voz corrente dizer-se que um das sopas preferidas de Mozart - quiçá a predilecta - seria a sopa de peixe

E, já agora uma ementa alla Rossini. Embora, o interesse do músico por gastronomia, bem assim como os pitéus criados ou inspirados por ele, sejam por demais conhecidos, não será por isso, que irão perder o excelente sabor:

Salada alla Rossini
Tournedos alla Rossini

E para sobremesa ?

Aquando da estreia de Guillaume Tell, na Ópera de Paris a 3 de Agosto de 1829, os convidados foram obsequiados com uma Tarte de Maçã, decorada com um arco de pastilhagem e uma maçã inteira trespassada, por uma seta confeccionada com a mesma técnica.
(Nesta página também se encontra uma receita de Tournedos).
Uma proposta de Tarte de Maçã
Impressões em atraso

Na encosta do castelo, mais próxima da minha casa, as copas das oliveiras alinhadas como bolas de bilhar, eram os únicos toques de verde sobre a aridez do declive.
Nas outras encostas, muitas árvores secaram devido à seca e quiçá à incúria.

11.9.05

Confidências e Desabafos de Savarin (118)

Cup e Sangria


O post "Que jantar ..." - incluindo os comentários - publicado no África de Todos os Sonhos recordou-me o "old fashion" cup, bebida considerada de grande requinte há uns anos atrás, em Portugal, e que como tal deveria figurar no menu de um "copo-de-água" refinado. Nos livros da Coleccção Laura Santos editados pela Editorial Lavores - veja-se o mais completo no respeitante à culinária, o Mestre Cozinheiro, mas também outros com títulos como: A Mulher na Sala e na Cozinha, A Perfeita Dona de Casa , Escola de Noivas, Livro das Noivas, Noiva, Esposa e Mãe, Lições de Culinária...- era comum encontrar receitas de cup como a que se segue [(copiada da 9ª edição daEscola de Noivas - "o verdadeiro guia das donas de casa") p.362]:

Cup

Água 5 litros
Vinho branco 5 litros
Beneditine 1 frasco
Vinho do Porto 3 garrafas
Champanhe 1 garrafa grande
Açúcar q.b.
Ananás, bananas, morangos, laranjas, tangerinas, cerejas e uvas q.b.

Cortam-se os frutos em pedacinhos pequenos, misturam-se com o açúcar e os vinhos, excepto o champnhe que só se deita à hora de servir.
Os frutos devem ser misturados com o açúcar e os vinhos umas 9 a 10 horas antes de serem servidos.
Esta receita dá para 40 pessoas, aproximadamente.



Entretanto, naveguei em busca de receitas de cup e aqui ficam alguns dos achados. A maior parte das referências e receitas que encontrei eram espanholas, francesas e inglesas.

Definições:

Noun 1. champagne cup - a punch containing a sparkling wine
cup - a punch served in a pitcher instead of a punch bowl
9.A sweetened, flavored, usually chilled beverage, especially one made with wine: claret cup.
10. A dish served in a cup-shaped vessel: fruit cup.


Receitas:

Uma receita francesa:


Champagne cup
Ingrédients :
Pour 12 personnes :

Une bouteille de champagne sec, cinq verres de porto blanc, un verre de curaçao, un verre de chartreuse verte, deux oranges, un verre de sirop d'ananas, un citron, deux tranches d'ananas, huit fraises.

Mode de préparation :

• Mettez dans une terrine le porto blanc, le curaçao, le sirop d'ananas, la chartreuse verte, les oranges et le citron coupés en tranches fines. Couvrez la terrine et laissez macérer pendant deux heures au frais.
• Passez le mélange dans un pichet, ajoutez les tranches d'ananas coupées en dés, les fraises et le champagne bien froid.
Servez dans de grands verres en répartissant les fruits.


Duas receitas inglesas:

I - Claret Cup

1 cn Fronzen Lemonade*
1 cn Grapefruit Soda**
1/2 c brandy
1/4 c Cointreau or Curacao
13/16 qt Bottle Claret Wine
Ice Cubes or Mold

*INGREDIENT LIST SHOULD READ: 1 6-oz. can frozen lemonade concentrate.
**INGREDIENT LIST SHOULD READ: 1 12-oz. can grapefruit soda, chilled.

In large pitcher or punch bowl, combine all ingredients. Chill with ice
cubes or mold. Serve immediately.

Garnish this lovely cocktail beverage with a pink grapefruit wedge or
orange slice.


II -White Wine Fruit Cup

Title: Wine Fruit Cup
Categories: Appetizers, Fruits
Yield: 6 servings

1 1/2 c White Wine; Dry
1 T Lemon Juice
1/4 t Salt
1/2 c Raisins; Golden Seedless
2 ea Nectarines, Sliced
1/2 c Sugar
1 1/2 t Anise Seed
1 ea Cinnamon Stick; Small
4 ea Purple Plums; Sliced

In an enameled or stainless steel saucepan, combine the wine, sugar,
lemon juice, anise seed, salt and sinnamon stick and bring to a boil.
Turn off heat and cool to room temperature. Combine the raisins,
plums, and peaches in a bowl and strain the cooled wine syrup over
them. Cover and refrigerate for several hours, stirring
occasionally. NOTE: This fruit cup can be served as a dessert also.


Uma receita portuguesa e três receitas espanholas:

Cup do sorriso

Champagne Cup I
Champagne Cup II
Champagne Cup III

1 botella de champagne seco • 1 vasito de curacao • 2 cucharadas de whisky • 2 cucharadas de Marrasquino • 4 naranjas

Colocar en un recipiente grande o ensaladera de cristal unos cubos de hielo. Verter el champagne helado, el Cura?ao, el whisky y el Marrasquino. Agregar las naranjas previamente lavadas, secas y cortadas en rodajas muy finas. Dejar macerar unos minutos y servir en copas para champagne.
Confidências e Desabafos de Savarin (117)

Diário Económico

Ainda a Crise na Mirabell - Novos Desenvolvimentos


Notícia de Última Hora:

O Movimento Women Power (1) une os seus objectivos aos interesses dos mestres confeiteiros, com o patrocínio dos Licores Nannerl.


A quem aproveita a instabilidade social?

Pergunta, com toda a pertinência, o nosso correspondente em Viena, revelando, uma vez mais, os seus dotes de Poirot, ao desvelar segredos centenários. Já foi nomeado, e com certeza, receberá o Globo de Ouro "Repórter Virtual do Ano", acrescido de um prémio de nível internacional.

Mas, vamos ao cerne da questão: o Movimento Women Power financiado - estamos em crer com segundas e obscuras intenções - pela empresa que produz os licores Nannerl, oferece o seu incondicional apoio aos mestres confeiteiros da Mirabell em troca da confirmação oficial do segredo do baú, ignominiosamente, oculto pelo seu ex-mestre. Milhares de mulheres preparam-se, neste momento, para marchar sobre as ruas de Viena munidas de elegantes botelhas de Licor Nannerl, cópias A3 deste libelo e cartazes denunciadores do falocentrismo freudiano. Entretanto, nos Estados Unidos da América do Norte, as mais empenhadas investigadoras na área dos "Gender Studies" defendem a tese que os bombons Echte Salzburger Mozartkugel são um dos símbolos mais nefandos da dominação masculina e da concomitante vitimização obscurantista da mulher. Pretender-se-ia ludibriar os eventuais génios do sexo feminino, recorrendo à voluptuosa mistura de marzipan e de chocolate. Em contrapartida, consumir o licor Nannerl representaria a libertação dos preconceitos sexistas, que advogam a abstinência de bebidas espirituosas por metade da humanidade. Como comentaria, com perspicácia, o nosso enviado [o qual (é imperioso divulgá-lo aqui) passou a contar com os preciosos préstimos e a sabedoria de um conceituado melómano da nossa praça], a verdade é que isto anda tudo ligado

(1) Organização Feminista Mundial conhecida pela sua luta sem tréguas, em prol da denúncia de todos os casos de filhas, esposas, mães e irmãs, cujos dotes artísticos e intelectuais foram sufocados ou mesmo furtados, pelos grilhões da inveja e da manipulação machistas, em nome de todas Nannerl, de todas as irmãs de Shakespeare, de Maria Winkelmann e demais Marias .

(2)As três Marias portuguesas também vão participar.
Confidências e Desabafos de Savarin (116)
Surpresa


Sábado, aqui o Savarin ofereceu um almoço a um grupo de amigos noruegueses cuja missão do dia era surpreendê-lo desprevenido.
Todavia, por acaso, tinha saltado cedo do leito, e rumado à praça onde encontrei 1 só molho de beldroegas mui viçosas, à minha espera. Capitosos ramalhetes de oregãos e segurelha a pedir para ser transportados para a cozinha; pequenos figos, em frenesim, ansiavam ser deglutidos. Queijinhos de cabra curados exibiam, sem pudor, os colos ebúrneos.
O certo é que embora assaltado pelo inesperado, tinha a cozinha recheda de dos mais frescos víveres para alimentar muitas valquírias e guerreiros de Odin.
Assim munido, com as beldroegas e os queijos preparei a sopa das ditas. Enquanto a saboreavam os nórdicos subiram até Valhalla (1) e o azul dos seus olhos faíscava de gula. Ficaram abismados com a sabedoria demonstrada pelos cozinheiros alentejanos na criação de tão simples, mas feliz harmonia de sabores.
Seguiu-se uma salada de tomate e oregãos, um peixe no forno temperado com a segurelha e os figos com gelado de natas e iogurte para sobremesa.

Nota: Um deles obsecado, em extremo, pela culinária trouxe fotografias da sua própria cozinha, em todos os ângulos, para eu dizer de minha justiça. Nas próximas férias irei à Noruega para verificar se as imagens correspondem à realidade.


(1)Valacha ou Valhala, salão dos mortos escolhidos, o paraíso dos homens escolhidos entre os caídos em combate heróico. Era um palácio magnífico que continha quinhentas e quarenta portas as quais poderia passar uma formação de oitocentos homens, que davam para uma grande sala coberta de espadas
tão brilhantes que iluminavam a estância refletindo a sua luz no artesanato feito de escudos de ouro e nos peitilhos e malhas que decoravam os bancos, a sala de jantar e o lugar de reunião para os Einherjars (mortos gloriosos ou chamuscado com fogo) trazidos entre os mortos pelas Valquírias. É servido
a carne de javali Schrinnir (empretecido), que chega fartamente para todos, pois embora o javali seja cozido todas as manhãs, fica inteiro novamente todas as noites. Para bebida, os heróis dispunham de abundante hidromel, fornecido pela cabra Heidrun (sobre a origem do hidromel, ele também vem do sangue de Kvasir e pela chuva das Nornes. O sangue
de Kvasir deu origem ao Odhroerir “hidromel da inspiração”de Odin, enquanto que o hidromel das Nornes é outra ainda).




Confidências e Desabafos de Savarin (115) - Cozinhar com Ervas Aromáticas II

Alecrim - Rosmarinus officinalis

Com alecrim pode fazer-se uma bela tisana, de travo amargo, mas revigoradora. Não aconselhável às gestantes que desejem levar a gravidez a bom termo, pois tem efeitos abortivos.

Borrego com Alho e Alecrim

Ingredientes:


1 perna de borrego
3 a 6 dentes de alho
3 a 6 hastes de alecrim
sal
pimenta preta moída
azeite, óleo ou manteiga derretida
vinho branco


Preparação:

Com uma faca afiada fazer incisões profundas até ao osso. Introduzir 1 dente de alho e 1 haste de alecrim em cada incisão. Esfregar a carne com sal, pimenta e pincelar com a gordura escolhida. Envolver a carne em folha de alumínio e levar a assar em forno médio durante 1 hora. Retirar a folha de alumínio e colocar novamente no forno, regar com o vinho, deixar cozinhar até ficar ao gosto.
Acompanhar com cabeças de nabo glaceadas e batatas doces assadas.

Lombo de Porco com Alecrim e Mostarda

Ingredientes:

1 kg de lombo de porco
2 colheres de sopa de mostarda de Dijon
2 colheres de chá de alecrim seco, ou raminhos de alecrim fresco
azeite
vinho branco q.b misturado com sumo de limão e de laranja

Preparação:


Barrar o lombo com uma camada regular de mostarda e polvilhar com o alecrim. Colocar um pouco de azeite no fundo de uma assadeira e assar em forno médio 190º, th. 5 durante hora e meia. Vigiar e ir regando com a mistura de vinho e citrinos.

Empadão de Batatas com Alecrim

Ingredientes:

1kg de batatas cortadas às rodelas finas
500 gr de cebolas cortadas às rodelas finas
1 colher de sopa de farinha
3 a 5 dl de leite
sal e pimenta
alecrim fresco ou seco
Manteiga q.b.

Preparação:

Untar um recipiente de ir ao forno. Colocar as batatas e as cebolas em camadas alternadas e salpicar cada camada com leite, farinha, sal, pimenta moída, alecrim picado e nozinhas de manteiga. A última camada deve ser de batatas e depois de completar o prato o leite deve chegar a meio da altura do mesmo.
Cobrir o prato e levar a cozer em forno moderado durante cerca de 1 hora e 30 minutos, até o líquido ser absorvido e as batatas estarem macias.

Estragão Artemisia dracunculus

O estragão é considerado uma das mais nobres e apreciadas ervas aromáticas. O seu aroma valoriza uma grande gama de pratos, por exemplo a sopa de tomate - que eu também adoro com poejo ou com coentros - mas combina, invulgarmente bem, com o frango.Vou deixar uma receita diferente do habitual frango com estragão da cozinha gaulesa.

Supremos de Frango Assado com Estragão

Ingredientes:


4 peitos de frango
1 ovo 1 colher de sopa de farinha
4 colheres de sopa de miolo de pão fresco reduzido a migalhas
50 gr de manteiga
1 colher de sopa de estragão picado
sal e pimenta
azeite ou óleo

Preparação:

Bater levemente o ovo. Misturar o miolo de pão com o estragão, o sal, a pimenta. Derreter a manteiga em lume muito fraco, para não a deixar fritar, juntar o miolo de pão, com um garfo mexer e esmagar o miolo de pão até obter uma pasta homogénea. Envolver os peitos de frango primeiro em farinha, depois no ovo batido e, finalmente na pasta de pão. Calcar bem a camada de miolo de pão para a fazer aderir ao frango e ficar distribuída com regularidade. Dispôr os supremos num tabuleiro untado e levar a assar em forno a 200ºC, th.6, durante 3 quartos de hora.

E agora, o celebrado Vinagre de Estragão:

Colocar uma mão cheia de folhas de estragão recém colhidas, limpas, num frasco de vidro de boca larga. Encher com vinagre de vinho branco e rolhar bem. Deixar num local exposto à luz solar directa, durante 2 semanas, agitando com vigor de vez em quando. Findo este período, retirar o estragão, coar e filtrar, enfrascar, rolhar com rolhas de cortiça, não usar metal . Dispôr um raminho de estragão, em cada frasco, para dar um toque final.
Ava Gardner



Confidências e Desabafos de Savarin (114)
As Virtudes da Fruta II

Ava Gardner para além de ser muito bela, era uma grande apreciadora de bebidas espirituosas:

Sangria Ava Gardner
- Já a pensar no Verão de S.Martinho!

1 l de vinho tinto
1 laranja descascada e cortadas em finas rodelas
2 figos abertos
1 pêssego muito maduro,pelado com o caroço
1 pau de canela
1 copo de cognac
1 copo pequeno de água de flor de laranjeira
cascas de laranja cristalizada cortada em cubos q.b.
cubos de gelo

Misturar num jarro grande a raspa do limão, a laranja, os figos, o pêssego e a canela. Deixar macerar, à temperatura ambiente, durante duas horas.
No momento de servir acrescentar a água de flor de laranjeira, o conhaque e os cubos de gelo. Misturar, tapar e manter em repouso por alguns minutos.
Ao servir, colocar alguns cubos de laranja cristalizada, em cada copo e cobrir com a sangria.
Joséphine Baker



Confidências e Desabafos de Savarin (113)
As virtudes da Fruta I

Agora, que esfriou, e voltaremos a usar peças de roupa menos denunciadoras, nada melhor do que um pudim "caliente", à altura da sua inspiradora:

Flan Joséphine Baker


Ingredientes:

3 ovos
1/2 l de leite
3 colheres de sopa de açúcar
2 colheres de sopa de farinha
1 colher de sopa de Kirch
2 colheres de sopa de Chartreuse verde
3 bananas
Sumo e raspa de um limão.

Preparação:

Descascar e cortar as bananas, em rodelas, regar com o sumo de limão. Deixar macerar. Dissolver a farinha no leite. Bater os ovos inteiros com o açúcar, juntar a mistura leite+farinha, mexer bem. Aromatizar com as bebidas espirituosas.
Adicionar as raspas do limão ao preparado, terminar acrescentando as rodelas de bananas enxutas num papel absorvente.
Vazar numa forma untada, que dê para ir ao forno e à mesa. Deixar cozer cerca de 20 minutos em forno bem quente e depois diminuir a temperatura até ficar cozido.

Mais Joséphine Baker aqui e aqui canções.

8.9.05



Édipo e a Esfinge - Gustave Moreau, 1864
Metropolitan Museum of Arts, New York
Imagem do Metropolitan Museum of Arts


Édipo recupera a visão e faz as malas

Agora, que XS resolveu a velha desavença, com o "logos paterno" vai iniciar súbitas viagens e repentinas partidas, à conta da "Lei-do-Pai".



Dendrobium aphyllum
1001 flowers shower. Espécie chinesa da floresta tropical de Xishuangbanna. 1001 flores desabrocham, subitamente, na Primavera. Depois da floração rebentam novas folhas.


Poemas Tang

ORCHID AND ORANGE I

Tender orchid-leaves in spring
And cinnamon- blossoms bright in autumn
Are as self- contained as life is,
Which conforms them to the seasons.
Yet why will you think that a forest-hermit,
Allured by sweet winds and contented with beauty,
Would no more ask to-be transplanted
THan Would any other natural flower?

ORCHID AND ORANGE II

Here, south of the Yangzi, grows a red orangetree.
All winter long its leaves are green,
Not because of a warmer soil,
But because its' nature is used to the cold.
Though it might serve your honourable guests,
You leave it here, far below mountain and river.
Circumstance governs destiny.
Cause and effect are an infinite cycle.
You plant your peach-trees and your plums,
You forget the shade from this other tree.

Zhang Jiuling
Destaque

Gosto mesmo muito do Reverie 7

7.9.05

Henri Michaux

Fatias de Saber

Aos oito anos, eu ainda sonhava ser admitido como planta.

Dever-se-iam fazer os funerais nos pântanos. Não será justo que os vivos, que vão atrás do morto, se vejam também em apuros?

Suponha que os pensamentos são balões; o ansioso até nestes se pode cortar.

A vida em comum: perda de si, mas diminuição dos enigmas.

Pobreza sem dívidas, seria solidão demais, diz o pobre na sua sabedoria.


***

A arte é aquilo que ajuda a sair da inércia.
O que conta não é a repulsa ou o sentimento generador, é a vitalidade. É para aí chegar, consciente ou inconsciente, que a gente ruma a um certo estado com o máximo impulso, que é o máximo de densidade, o máximo de ser, o máximo de actualização de que o resto é apenas o combustível - ou o ensejo.

Por isso, contra a minha natural inércia, a que a arte me vem arrancar, é esse o mais enérgico meio interior de que disponho contra o meu próximo meio social, o que mais me realimenta, o que dá resposta a inúmeras situações, porque muito amiúde, na vida, me vejo ultrapassado, ou sem isso me veria ultrapassado.


Henri Michaux, O Retiro pelo Risco, (Lisboa, Fenda, 1999), pp.68-70 e 144.
Representações da Sexualidade Feminina na Querela Psicanalítica Anglo-vienense (1920-1935) e Imaginação Delirante

Estou a começar um texto que versará o debate em torno das teorias psicanalíticas sobre a sexualidade feminina, nomeadamente, a recepção do artigo de Freud “A Organização Genital Infantil” publicado em 1923. Debate que dividiu a comunidade psicanalítica ao desencadear uma acesa polémica e profundas lutas teóricas, no interior do movimento psicanalítico, entre o grupo de psicanalistas reunidos em Viena, fiéis às teses de Freud, Hélène Deutsch, Anna Freud, Jeanne Lampl de Groot, Marie Bonapart, Ruth Mack Brunswick, e o grupo que se formou em Londres à volta de Ernest Jones, Karen Horney, Melanie Klein, Josine Muller, Joan Rivière. Os elementos do grupo de Viena defendiam a abordagem freudiana do monismo sexual, a tese da essência masculina da libido, em suma, a teoria fálica da sexualidade feminina. Em clara oposição, o grupo de psicanalistas de Londres preconizava a existência de uma libido especificamente feminina, com base nos dados da prática clínica e numa concepção dominante da complementaridade entre os sexos.

Porém, tenho um reparo a fazer, a análise de alguns dos artigos e livros consultados leva-me a pensar que muitos dos seus autores foram bafejados com uma imaginação delirante.
Top 5

No post "Top 5" não dei qualquer indicação sobre a razão de ser da lista de blogs, que tinha por objectivo "passar o testemunho, ou desafio" tal como a Brígida fizera comigo.



Melissa Officinalis



Allium Schoenoprasum

Confidências e Desabafos de Savarin (112)
Cozinhar com Ervas Aromáticas - Cebolinho e Erva-cidreira



Cebolinho - Allium Schoenoprasum


O cebolinho é muito agradável para guarnecer e aromatizar omeletas e ovos mexidos, polvilhar sopas, ou usar como se segue:


Pasta de queijo fresco com cebolinho - para canapés, saladas ou sanduíches


50 gr de tâmaras picadas
4 colheres de sopa de sumo de laranja
200 gr de queijo fresco
4 colheres de sopa de cebolinho picado

Demolhar as tâmaras picadas no sumo de laranja, de um dia para o outro. Esmagar bem as tâmaras demolhadas, juntar o queijo e misturar. Adicionar o cebolinho. Levar ao frigorífico durante pelo menos duas horas antes de servir.

Notas: O cebolinho não deve ser submetido a uma cozedura muito prolongada, pois o seu aroma evola-se facilmente.
Outra versão: 100 gr de Gorgonzola com 100 gr de queijo creme.
Natas batidas com sumo de limão e cebolinho picado é um bom tempero para batatas cozidas ou assadas com pele.

Erva-Cidreira -Melissa Officinalis



As folhas de erva-cidreira oferecem um delicado perfume a limão, aos pratos doces ou salgados. Podem usar-se para polvilhar saladas, condimentar o sumo de laranja natural e o chá verde, fazer a tradicional tisana, ou para confeccionar estas delícias:

Frango Assado com Erva-cidreira

Untar um frango de 1,5 kg com 1 colher de sopa de azeiteo ou óleo, sal e pimenta, envolver completamente com 4 a 5 ramos de erva-cidreira. Atar tudo muito bem com um fio e assar em forno médio, durante cerca de meia hora. Retirar do forno, cortar o fio e deitar a erva-cidreira fora.

Molho para temperar saladas

125 gr de iogurte natural
1 colher de chá de sumo de limão
1 colher de sopa de folhas frescas de erva-cidreira picadas
sal e pimenta

Misturar todos os ingredientes.


Um pequeno conto de Kafka,
com profunda multiplicidade de sentidos:


As Ávores

Porque somos como troncos de árvores na neve. Aparentemente estão apenas pousadas na neve e com um simples empurrão conseguir-se-ia afastá-los. Não, não é possível porque estão firmemente ligados ao solo. Mas reparem que até isto é apenas aparente.



Franz Kafka, Os Contos, (Lisboa, Assírio e Alvim, 2004), 1º vol. , p. 47
Relatos de um Cidadão de New Orleans

Cheguei aqui através deste post.

6.9.05

Impressões de Ontem à Noite

Abri as portadas da varanda, de onde se vê o largo, inspirei o novo cheiro a humidade e a paz de quem alcançou todos os desejos.
Egotismo.

Tem sido um Verão sinistro, de um sofrimento inominável para milhões de seres humanos - inclusive os casos de todos aqueles que não são objecto de noticiários e polémicas vãs - mas, evoco e invoco, na muito conhecida canção de Louis Armstrong, a utopia de uma futura New Orleans:


WHAT A WONDERFUL WORLD



I see trees of green, red roses too
I see them bloom for me and you
And I think to myself what a wonderful world.
I see skies of blue and clouds of white
The bright blessed day, the dark sacred night...
...The colors of the rainbow so pretty in the sky
Are also on the faces of people going by
I see friends shaking hands saying "how do you do?"
They´re really saying I love you.
I hear babies crying, I watch them grow
They´ll learn much more than I´ll never know...

Historieta por demais contada a quem teve o infortúnio de me conhecer



A propósito, da pré-história da minha vida de estudante em Lisboa, e do sotaque micaelense, lembro-me sempre de um episódio que decorreu num Photomaton da estação de comboios do Rossio, quando fui tirar fotografias para um novo passe, pois perdera o anterior.
Quando estava a pagar perguntou-me o "fotógrafo":

- Não é portuguesa, pois não?
- Não ... respondi com displicência.
- Deve ser francesa.
-Pois sou...
-Há quanto tempo está em Portugal?
-Há dois meses.
- Mas, já fala muito bem o português!
TOP 5 [Isto deveria ser antes o top 10]

Brígida , confesso que as minhas escolhas obedeceram a critérios a puxar para o aleatório.

5 -


arrogância bacoca
complexo de vítima
hipocondria/lamechice
injustiça
indelicadeza

NB. Também não tolero o mau cheiro, o desmazelo, etc e tal ...

5+


estradas à beira mar com falésias escarpadas e precipícios
soutos no Outono
jardins [ingleses]
lagos e lagoas
ficar sózinha a comer marzipan com chá de hortelã-pimenta

5 álbuns

Domenico Belli, Il Nuovo Stile
Vivaldi, Suonata à Violoncello Solo del Signor Antonio Vivaldi
Miles Davis, Kind of Blue
Miles Davis John Coltrane, Live in New York
Roxy Music, Manifesto


Uma mão cheia de músicas


David Bowie, China Girl
Milton Nascimento, Cais
Lou Reed, Perfect Day
Boris Vian, Le Déserteur
Dinah Washington, September in the Rain

5 Blogs


Click Portugal

Crónicas do Deserto
Don Vivo
O Olho do Girino
Reverie

3.9.05

Noites Sem Nocturno

Esta menina perdeu-se no caminho, ou encontrou o tesouro no fim do arco-íris e não nos diz nada?



A zona mais estreita de S.Miguel

Muitas das pessoas que visitam, pela primeira vez,uma ilha, dizem sentir uma espécie de angústia, ou claustrofobia, por se encontrarem "rodeadas" por água. (Algumas nunca se habituam). Comigo aconteceu a situação inversa, durante os primeiros meses a residir em Lisboa, fazia o possível por ir até ao rio, porque era terra a mais para mim. Pensar que agora vivo no Alentejo rodeada de terra e em plena seca.

2.9.05


ÁGUA DAS LOMBADAS



Fotografias copiadas desta página, excelente reportagem fotográfica de uma viagem a S.Miguel.

Quando fui estudar para Lisboa, tinha por hábito pedir água das Lombadas, em vez de água das Pedras. Quem me atendia, ficava a olhar para mim sem esconder o espanto, porque desconhecia a marca, e à conta do meu sotaque micaelense - não confundir com açoriano uma vez que cada ilha tem o seu acento próprio.
Claro que a água das lombadas é melhor!!!

Um testemunho:


Mergulhar as mãos na nascente da Água das Lombadas.
Situada no centro da Ilha de S.Miguel, numa paisagem agreste, a nascente da Água das Lombadas faz brotar da terra uma das melhores águas gasosas naturais do mundo, levemente borbulhante e extremamente digestiva. Habituados a bebê-la do copo, experimenta-se uma reconfortante sensação de abundância e plenitude ao sentir directamente nas mãos o jorro de água da nascente.
Confidências e Desabafos de Savarin (111)

Aprendendo com os Mestres


Vou passar a fazer os bombons sortidos como se pode ver neste filme. A ideia do palito gigante é muito boa, adeus garfo para "galvanizar"(1) o massapão, por imersão a quente, no chocolate derretido.

(1)Em memória das aulas de Físico-Química, no liceu, ministradas pela saudosa professora "estou-me borrifando!"


I'm Blue

"Blue (Da Ba De)"

Yo listen up here's a story
About a little guy that lives in a blue world
And all day and all night and everything he sees
Is just blue like him inside and outside
Blue his house with a blue little window
And a blue corvette
And everything is blue for him and hisself
And everybody around
Cos he ain't got nobody to listen to

I'm blue da ba dee da ba die...

I have a blue house with a blue window.
Blue is the colour of all that I wear.
Blue are the streets and all the trees are too.
I have a girlfriend and she is so blue.
Blue are the people here that walk around,
Blue like my corvette, it's standing outside.
Blue are the words I say and what I think.
Blue are the feelings that live inside me.

I'm blue da ba dee da ba die...

I have a blue house with a blue window.
Blue is the colour of all that I wear.
Blue are the streets and all the trees are too.
I have a girlfriend and she is so blue.
Blue are the people here that walk around,
Blue like my corvette, it's standing outside.
Blue are the words I say and what I think.
Blue are the feelings that live inside me.

I'm blue da ba dee da ba die...

Inside and outside blue his house
With the blue little window and a blue corvette
And everything is blue for him and hisself
And everybody around cause he aint got
Nobody to listen to

I'm blue da ba dee da ba die...

I'm blue (if I was green I would die)

Eiffel 65

1.9.05

Desabafos e Confidências de Savarin (110)- Diário Económico


Crise na Mirabell .

Mestres confeiteiros em debandada, imploram o despedimento - sem direito a indeminização - para abraçar a crítica musical. Em declarações prestadas ao nosso correspondente em Viena, confessaram estar fartos de ver a efígie de Mozart nas pratas dos chocolates, e sem tempo disponível para ouvir e palestrar sobre a sua música e intérpretes.
Milhares de Echte Salzburger Mozartkugeln toxicómanos organizam grandiosa manifestação junto à Casa-Museu de Sigmund Freud.



Os gestores da famosa empresa de chocolates vienense, a braços com a mais grave crise desde a sua fundação, encontram-se em negociações com Willy Wonka no sentido de ceder o contrato com os Oompa-Lompas, pois os mestres confeiteiros, responsáveis pela feitura dos "fabulosos" bombons Mozartkugeln, pretendem trocar as batedeiras,o chocolate, o praline e o marzipan por uma carreira de críticos musicais. Tal decisão foi despoletada pelos protestos gerados devido à negligência evidenciada pelos discípulos, agora dissidentes, de Paul Fürst, aquando do Salzburger Festspiele, na selecção da tonalidade exacta dos pistachios para o recheio do coração dos rotundos bombons, símbolos por excelência da perfeição do ser.

Segundo fontes bem informadas, a atitude de inusitado desmazelo teve origem directa numa acalorada discussão sobre qual das versões do "Don Giovanni" leva a palma sobre todas as outras. Perante o encanto da retórica libertadora e sublime dos acordes, das breves, dos bemóis, das claves,das colcheias, mínimas, semínimas e sustenidos, "as minudências" da delicatessen perderam toda a graça face ao Inefável esplendor da música.

Amanhã pelas 17 horas vai realizar-se uma grandiosa concentração de Mozartkulgen dependentes provenientes de todo o mundo, na sala de espera da casa museu de Freud. Entretanto, os donos da empresa, à beira do colapso cardíaco-cerebral-finaceiro-nervoso, temem que a situação se aproxime do descalabro finaceiro do membro mais balda da União Europeia, o estado português. Nesse sentido, Vítor Constâncio já foi convidado para proferir uma palestra intitulada: Da Unidade na Multiplicidade: Variações sobre o Déficite.

Mas, toda a desgraça alimenta os abutres, por isso há quem ande a obter chorudos lucros com esta crise, sem paralelo, no mercado financeiro internacional, é o caso das grandes rivais da Mirabell, embora com efeitos bastante nefastos nos sofisticados aparelhos digestivos dos consumidores habituados ao refinamento dos produtos Mirabell, já para não falar nas erupções cutâneas registadas na fresca derme das jovens púberes, em virtude do uso de pernicioso sucedâneo de chocolate.