30.3.05

Aviso Urgente


Destinatários:todas as Luísas e todos os Luíses.

Caras amigas e amigos,

A partir de hoje, a contar desde esta hora, só comparecerei a encontros que se realizem junto ao portão principal do Hospital Júlio de Matos.
Peço desculpa pelo incómodo, mas o meu estado de saúde não me permite andar a deambular pelo país, ou até pelas amadas calçadas, ruas e ruelas de Lisboa, o mesmo é dizer que os médicos não me deixam ir mais longe, por isso fico já aqui... Esqueci-me de tomar os comprimidos, como se diz por aí - tretas típicas do cidadão preso às grilhetas do senso comum - adiante, o facto é que as minhas distracções foram o alibi para me forçarem a esta espécie de prisão condicional. Mas, eu vou lutar pelos meus direitos, antes que me submetam a uma leucotomia, ou pior ainda a uma lobotomia.
Peço desde já que se mobilizem, organizem manifestações, abaixo-assinados, moções, etc, no sentido de defenderem minha nobre causa.
Belo, sem adjectivos ;)

She Tells Her Love While Half Asleep


She tells her love while half asleep
In the dark hours,
With half-words whispered low;

As Earth stirs in her winter sleep
And puts out grass and flowers
Despite the snow,
Despite the falling snow.


Robert Graves

29.3.05

Aforismo

Quem sabe fazer rir é um indutor de Eros.

Distância e Sintonia

Versão química:

"A sintonia dissolver-se-á na distância?" Luis aquele.
Tal como o açúcar é solúvel na água, a sintonia será solúvel na distância?

Versão física:

A sintonia propagar-se-á na razão inversa da distância?
ou
A distância diminuirá na razão inversa da sintonia?

Versão biológica:

A sintonia à distância poderá ser integrada na categoria dos processos simbióticos?
Constituirá um fenómeno particular de simbiose?

Versão económica:

A sintonia à distância revelar-se-á, no futuro um excelente recurso. Uma óptima forma de desviar o capital dispendido em meios de comunicação e transporte para outros investimentos. Os gestores do futuro deverão submeter os funcionários da sua empresa a um intensivo treino neste domínio.

Versões psicológicas (Jung):

A sintonia à distância é uma manifestação do inconsciente colectivo.

(Freud)

A sintonia à distância é um mecanismo de sublimação das pulsões eróticas.

Versão parapsicológica:

A sintonia à distância será uma prova da percepção extra-sensorial?
A sintonia à distância confirmará a existência da telepatia?

Versão mística:

A sintonia à distância é uma hierofania, reveladora da comunhão entre espíritos.

28.3.05

Devaneio narcísico

Talvez, sob a influência dos comentários da Brigida e do misterioso NBR, ao post "Estou a pensar mudar de sexo,"esta manhã ao olhar para o espelho, pareceu-me que as diferentes peças do meu corpo se estruturam segundo uma determinada harmonia, e aceitei com agrado a minha "forma feminina".Espero que este estado de bem disposta aceitação se mantenha.

27.3.05

Fim de tarde

XX escreveu: Naquela tarde,estava contente. O mar reflectia tonalidades de azul,cinza e verde, mesmo à medida do meu gosto. As árvores tinham as formas e as cores perfeitas. A rebentação vestia as falésias de branco.Tudo era belo. Mas, tal como a espuma saltando alegre sobre nós, nos impregnava de iodo, a tua tristeza entranhou-se em mim, uma tristeza tão pesada como há muito tempo não sentia. À tristeza, seguiu-se a fúria, uma fúria que foi surgindo subrepticiamente. Com que direito a tua tristeza me contagiava assim, porque raio eu me deixava tomar por ela?
À noite serenei. Desfiz muitos dos nós que me amarravam a alma.

26.3.05

Estou a pensar mudar de sexo...

Pelo menos três homens disseram-me, que a minha forma de raciocionar, e até de agir é muito masculina. Qual Descartes, fui assaltada pela dúvida metódica, e depois de me embrenhar em profundas cogitações, ponderei, muito seriamente, submeter-me a uma operação, no intuito de dar uma forma material à minha alma masculina.
Novos Acessos

Agora, também, já tenho acesso à rede, no local onde me encontro, temporariamente. Como não poderia deixar de ser, estou hospedada muito perto do Hospital Júlio de Matos.

Humor Negro

XX escreveu: Comecei a ministrar pequenas doses de digitalina, ao meu amor por ti.Em breve, sob o efeito do veneno, o meu amor por ti sofrerá um colapso cardíaco letal.

23.3.05

Filmes *****

Akira Kurosawa, Dreams, 1990
O Numinoso Sousa Martins

Ao folhear a obra Antropociências da Psiquiatria e da Saúde Mental, de Barahona Fernandes, deparei-me com umas linhas, que não podia passar, sem as transmitir ao mui venerado Escriba-mor. Penso que apreciará, sobremaneira, o epíteto atribuído a Sousa Martins, bem assim, como o segundo parágrafo da citação.

Persistia ainda [na década de 40 do Século XX] a tradição do numinoso Sousa Martins, através dos continuadores de Belo de Morais, Mário Moreira, Cancela de Abreu e outros.
A fina sabedoria desses "bons clínicos" - correspondente à "phronesis" dos gregos _ está no justo equilíbrio do conhecimento científico das respectivas técnicas e da sageza de as utilizar na praxis de modo personalizado e consoante as circunstâncias.


Barahona Fernandes, Antropociências da Psiquiatria e da Saúde Mental, (Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 1998),p.33
Eterno Descanso

Bob Marley pode, finalmente, repousar em paz no Além, pois encontrou a resposta para a sua insistente pergunta, aqui.

Is this love

I wanna love you and treat you right;
I wanna love you every day and every night:
We'll be together with a roof right over our heads;
We'll share the shelter of my single bed;
We'll share the same room, yeah! - for Jah provide the bread.

Is this love - is this love - is this love -
Is this love that I'm feelin'?
Is this love - is this love - is this love -
Is this love that I'm feelin'?
I wanna know - wanna know - wanna know now!
I got to know - got to know - got to know now!

I'm willing and able,
So I throw my cards on your table!

I wanna love you - I wanna love and treat - love and treat you right;
I wanna love you every day and every night:
We'll be together, yeah! - with a roof right over our heads;
We'll share the shelter, yeah, oh now! - of my single bed;
We'll share the same room, yeah! - for Jah provide the bread.

Is this love - is this love - is this love -
Is this love that I'm feelin'?
Is this love - is this love - is this love -
Is this love that I'm feelin'?
Wo-o-o-oah! Oh yes, I know; yes, I know - yes, I know now!
Yes, I know; yes, I know - yes, I know now!

I'm willing and able,
So I throw my cards on your table!
See: I wanna love ya, I wanna love and treat ya -
love and treat ya right.

I wanna love you every day and every night:
We'll be together, with a roof right over our heads!
We'll share the shelter of my single bed;
We'll share the same room, yeah! Jah provide the bread.
We'll share the shelter of my single bed

Bob Marley

22.3.05

O Casal Ideal

Ideal é o casal em que um dos seus membros, seja XY ou seja XX, tendo a necessidade de se distrair ou do tédio ou da depressão, ou de ambos, dê largas à sua líbido, mas regresse, infalivelmente, aos braços abertos e plenos de empatia do cônjuge. Deste modo, se revela o seu indestrutível amor. Passo a demonstrar:

O primeiro, ao experimentar todos os potenciais colos, e voltar ao colo primordial, prova que sabe mesmo o que quer. O segundo, evidencia a sua maturidade afectiva bem assim como o altruísmo dos seus sentimentos, ao realizar-se através da felicidade do outro.
Logo, da conjugação entre a extrema infidelidade com a fidelidade extrema surgirá a mais elevada harmonia conjugal.

21.3.05

O Magnífico Automóvel de Egas Moniz

Depois de ter feito o segundo comentário ao post "A Controvérsia (2)" de Manuel Correia, no seu blog Egas Moniz, lembrei-me de afirmações de Barahona Fernandes,ao explicar as causas da sua opção pela medicina, que evidenciam o profundo fascínio exercido por Egas Moniz, desde a sua juventude. Na secção intitulada "Relance Autobiográfico" incluída no primeiro capítulo do seu livro, Antropociências da Psiquiatria e da Saúde Mental, declarou o seguinte:

A auréola, já então brilhante, de Egas Moniz não deve ter sido estranha a essa motivação. Deixem-me recordar um pequeno episódio(cuja interpretação vos deixo). Numa das vezes que, no fim da tarde, regressava do consultório, "o Egas" (como meu pai dizia) convidou-me para ir para casa no seu magnífico automóvel (no começo dos anos vinte, ainda não vulgarizado como hoje) e sentou-me no banco de trás, à sua direita. Ante o protesto do tímido estudantinho, afirmou então, no tom cordial que lhe era peculiar: "é uma velha tradição coimbrã, não podes recusar..."
Mesmo nos mais desafogados parámos da fantasia e do desejo, jamais ousara tecer os rumos que o futuro me reservaria - colaborador, depois colega de Egas Moniz na Faculdade e na Academia das Ciências, pesquisador da sua ousada descoberta da leucotomia, sobre que discursaria, em 1950 no grande Anfiteatro da Sorbonne, no I Congresso Mundial de Psiquiatria (...)


Barahona Fernandes, Antropociências da Psiquiatria e da Saúde Mental, (Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 1998), pp.20-21.

20.3.05

Monotonia em L Maior

Ontem à noite, por sinal, em conversa com um Luis, enumerei a série de namorados e quase namorados de seu nome Luis, que passaram pela minha vida. A saber: Luis Alberto, Luís Anastácio,Luis António, Luis Apenas, Luis Bento, Luis Bernardo,Luis Carlos, Luis Daniel, Luis Diogo, Luis Duarte, Luís Eduardo, Luís Fernando, Luís Filipe, Luis Geraldo, Luis Hugo, Luis Igor, Luis João, Luis Jorge, Luis José, Luis Maria, Luís Manuel,Luis Miguel,Luis Nuno,Luis Olavo, Luis Quadrado, Luis Paulo,Luis Pedro, Luis Rodrigo, Luis Sérgio, Luis Somente, Luis Tito, Luis Umbelino, Luis Venâncio, Luis Xavier, Luis Zarco... Uma verdadeira compulsão pela letra L. A grande vantagem é poder dizer: "Imagina, ontem jantei com o Luis ..., hoje vou almoçar com o Luis..., amanhã irei passear com o Luis... Em 1900 e troca o passo, gostei de um fulano chamado Luis, em 2000 e tal continuei a luisar." Enfim, sou de uma extrema fidelidade!

19.3.05

Substâncias etílicas

Na madrugada, ecoa etilizante a voz já cansada, a fazer coro com os pássaros.
Olhou o reflexo e sentiu-se feliz ao vê-lo

" Que um dia havias de vir, não respirei
eu, de tanta meia-noite, por amor de ti,
tal inundação?(...)"

Rainer Maria Rilke, "Poemas à noite," in As Elegias de Duíno e Sonetos a Orfeu, (Porto, O Oiro do Dia, 1983),p.342.
Espírito Voyeur

XX era um espírito voyeur. A génese do seu interesse por XY residia, sobretudo, nesse traço da sua personalidade. O relacionamento entre os dois alimentou,convenientemente, aquele apetite, até ao dia em que XY atingiu o ponto de saturação, e correu as cortinas.

La Divina Comedia di Dante Alighieri, cioe l’Inferno, il Purgatorio, ed il Paradiso. Composto por Giovanni Flaxman, escultor inglês, e Tommaso Piroli Rom. Roma (1802) 28 x 22 cm.
Rapsódia Italiana

Beatriz e Laura

Com Beatriz não só passamos pelo stilnovismo, mas percorremos o mundo medieval com seus símbolos e alegorias, o mundo da filosofia e da teologia; com Laura, mais homens menos anjos, descobrimos a beleza feminina com todos seus predicados e quais amantes, descobrimos o tempo e o espaço do amor que mesmo que faça sofrer dever ser tratado com toda elegância.

Dante elevou Beatriz ao topo do universo e com ela conheceu e penetrou os arcanos da luz divina, Petrarca colocou em Laura o universo e com ela conheceu e penetrou os segredos do amor humano.


Livio Panizza, Beatriz e Laura em Confronto

A propósito, quem se recorda do incrível The Inferno: A TV Dante de Peter Greenway, produzido em 1989?

The TV Dante is a collaboration between Britain’s Channel Four, artist Tom Phillips and innovative director Peter Greenaway. They have taken one of the greatest works in history, Dante’s 600-year-old Inferno (Cantos I-VIII), and using new visual techniques, created a dazzlingly rich tapestry which both illustrates and complements Dante’s text. Bob Peck plays Dante, the narrator, and Sir John Gielgud is the Roman poet Virgil, Dante’s guide. Joanne Whalley plays Beatrice, Dante’s muse. The London Times said, “Nothing quite like it has been seen on television before,” while the Manchester Guardian called it “a dazzling and inventive piece of video image-making.”. Aqui.
E mais esta excelente página sobre a Divina Comédia.

18.3.05

Poesia na Madrugada

Primeiro livro de Lapinova

14

A segurança destas paralelas
_ a beira da varanda e o horizonte,
assim me pacifico, e é por elas
que subo lentamente cada monte.

O tempo arrefecido, e só soprado
por uma brisa tarda que do mar
torna este minuto leve aconchegado,
traz mansas as certezas de se estar.

E vêm novos nomes: são as fadas,
gigantes e anões, que são assim
alegres de o serem _ pardos nadas

que enchendo de silêncios este sim
dele fazem brinquedos, madrugadas...
Agora eu estou em ti e tu em mim.

E é a tua sombra, e é e se desfaz,
se faz raíz e grão
no que te tenho aqui.
O dedo de penumbra que me dás
aumenta a minha mão
e tem-me em ti.

Chocalha agora a tarde nas coleiras
de ovelhas indiferentes:
tudo com elas fica, e as oliveiras,
não vistas, mas presentes.
Abafo-me com isto; ao seu calor
o nosso sangue é um e amadurece.
Boa-noite, meu amor.
Boa-noite, que amanhece.

Pedro Tamen

Pedro Tamen,(ed),20 Anos de Poesia Portuguesa, (Lisboa, Moraes Editores, 19977), pp.91-92.

Ao ler este poema, evoquei períodos de férias passados na serra da Lousã. Quando ao fim da tarde, ouvia os chocalhos das ovelhas, olhando da varanda as oliveiras, pintava a aguarela, pensando no encontro do dia seguinte, primeiro em Viseu, depois em Coimbra
Confidências e Desabafos de Savarin (73)

Chacuti de Galinha


Há, como sabem, muitas versões do Chacuti de galinha. A receita aqui apresentada era confeccionada, no restaurante Arco do Castelo,em Lisboa, e foi revelada num programa de televisão, já não me lembro qual, há muitos anos atrás, penso que em 1981. Como podem calcular é uma versão bastante hot... por isso quem for mais sensível deverá reduzir o número de malaguetas, ou adicionar apenas uma malagueta.
Dedico esta curiosidade ao Chefe acompanhada de um ramalhete extra de coentros.

Ingredientes:


1 frango
1 cebola
coco ralado
4 colheres de sopa de óleo
6 estrelas de aniz
6 a 7 cravinhos
12 grãos de pimenta preta
1 colher de chá de sementes de mostarda
meia noz moscada
1 pau de canela
7 bagas de cardamomo
1 colher de chá de cominhos
6 malaguetas secas
5 dentes de alho
1 pedacinho de gengibre fresco
1 colher de sopa de coentros em grão
açafão/curcuma em pó
1 molho de coentros
2 chávenas de água
vinagre q.b.



Preparação

Torrar o coco, sem gordura, durante 10 minutos, mexendo de vez em quando. Refogar a cebola cortada em meias luas finas, com o óleo.
Torrar e moer as especiarias até se obter uma massa com a qual se unta o frango,cortado aos bocados, que se coloca, seguidamente, no refogado, regando-se com as duas chávenas de água e se deixa cozinhar tapado durante meia hora, acrescentar o vingre. Finalmente, guarnece-se com o molho de coentros frescos picados.
Acompanhar com arroz.

16.3.05

Impressões de ontem e de hoje

Ontem de manhã - St. Patrick's Day e dia da elevação de Montemor-o-Novo a cidade, embora o Santo Padroeiro desta pequena urbe seja S.João de Deus, aqui nascido a 8 de Março!!! - subi duas vezes até ao castelo pela rua do Quebra Costas, e claro desci outras duas... Mais do que contemplar absorvi cada dado de cada sentido, cada percepção: as ruas estreitas e inclinadas, as casas baixas, brancas azul e ocre, as ameixoeiras e os pessegueiros em plena floração alva-rosa, as figueiras ainda sem folhas, com figos minúsculos agarrados aos galhos, as palmeiras torcidas pelo vento, os muros de pedra, as diferentes perspectivas da cidade oferecidas ao olhar, por cada ruela ou largo. Ao longo da caminhada saboreio a surpresa da novidade no familiar.



Esta manhã


Dir-se-ia que os novos rebentos das árvores e dos arbustos descobriram a essência mesma do verde, extra-qualquer-catálogo-de-cores.

Alguns, mais pessimistas, dirão que esses rebentos se transformarão em folhas, folhas que brevemente sofrerão um processo de putrefacção. Direi que tudo se corrompe e renasce ou se dissipa no fogo.
Filmes *****

Neil Jordan, The Crying Game, (1992.

Patrice Chéreau, La Reine Margot, (1994). Com umas das actrizes, a hiper-fabulosa Isabelle Adjani, que mais gosto.

14.3.05

Filmes *****

In the Name of the Father - sempre!!!
Poesia logo pela manhã

No meu espírito é Verão, por isso o poema é:

Dias de Verão

Os dias de verão vastos como um reino
Cintilantes de areia e maré lisa
Os quartos apuram seu fresco de penumbra
Irmão do lírio e da concha é nosso corpo

Tempo é de repouso e festa
O instante é completo como um fruto
Irmão do universo é nosso corpo

O destino torna-se próximo e legível
Enquanto no terraço fitamos o alto enigma familiar dos astros
Que em sua imóvel mobilidade nos conduzem

Como se em tudo aflorasse eternidade

Justa é a forma do corpo.



Sophia de Mello Breyner Andresen, Dual
Impressões

Dispersa sobre o arvoredo, reflectida nas torres do castelo, a luz revela a nova estação.
Porquê as Representações de São Sebastião por El Greco?

Porque nasci na freguesia de São Sebastião - Matriz de Ponta Delgada e o altar-mor tinha uma imagem do santo.
Porque gosto muito de El Greco.
Porque gosto muito do quadro O Martírio de São Sebastião, de El Greco.
Porque o meu primeiro namorado a sério era tal qual o São Sebastião representado no Martírio,sem as setas, e há que alimentar o mito do primeiro namorado a sério.
Representações de São Sebastião segundo El Greco


El Greco, O Martírio de São Sebastião, (1580), óleo sobre tela, 192x148 cm, Sacristia da Catedral de Palencia, 192x148 cm.


(1610-14), El Greco, São Sebastião, óleo sobre tela, 115x85 cm, Museu do Prado.

13.3.05


Impressões


Acácias amarelo limão e verde seco, temperatura amena, estado de espírito à altura.

12.3.05

Poesia ao fim da tarde

Um poema na esteira do texto de Sophia Mello Breyner:

Como a Onda

Como a onda a um toque de vento,
Principia um poema,
Lá longe,
No mar largo da vida.

Junta as coisas perdidas
À força que o levanta:
_ Vozes, acenos, olhares,
As frases sem motivo,
Leves espumas.

Cresce cantando,
Cresce reunindo e caminhando
À Síntese eleita
E morre como a onda, ao encontrar
Outra onda mais pura e mais perfeita.

João Maia

Pedro Tamen, ed., 20 Anos de Poesia Portuguesa, (Lisboa, Moraes Editores, 1977), p. 89.
Arte e Ciência - Meteorologia e Pintura: A classificação científica das nuvens e os estudos de Constable

O texto abaixo transcrito foi retirado de um interessante artigo, da autoria de Peter Galison e Alexi Assmus (1), sobre a criação da câmara de nuvens - descrita por muitos físicos do século XX como o primeiro detector de partículas, até porque serviu de protótipo aos detectores posteriores, nomeadamente, à câmara de bolhas - por Charles Thomson Rees Wilson,em 1911, e considerada como a "materialização da confluência de duas tradições científicas, a analítica e a mimética," (2) pelos acima citados investigadores.
Também é interessante referir que o objectivo inicial de Wilson era demonstrar que as nuvens se formavam em torno de iões. No entanto, o seu laboratório de nuvens não transformaria a meteorologia, contudo as suas nuvens artificiais permitiram a observação de partículas reais. (4)

The Victorian Context of Mimetic Experimentation

The extremities and rarities of Nature held an endless fascination for the Victorian imagination. Explorers ventured to the ends of the Empire, to the deserts, jungles and icecaps. Painters and poets tried to capture the power of storms and the grand scale of forests, cliffs and waterfalls. Both artists and scientists reconized a tension between he racionalising law-like image of Nature proferred by the natural philosopher, and the irreductible, often spiritual aspect presented by artists.
There was a similar split in science itself between an abstract law-seeking, often mechanical reducionist approach that authors from Goeth to Maxwell had dubbed the 'morphological' sciences. Of these sciences Goeth took particular joy in meteorology, for 'atmospheric phenomena can never become strange and remote to the poet's eye'.Yet until Goethe was nearly seventy, there had been no systematic classification of clouds. Then, in 1802-03 a British chemist, Luke Howard, presented a classification system that he modelled on Linnaean taxonomy. Through Goethe, Howard's system entered the cultural mainstream.
Adressing a small philosophical society, Howard sorted clouds with a 'methodical' nomenclature: 'cirrus', 'cumulus', and 'stratus'. Howard chose Latin for his system, in contrast to chemists, who used Greek to label invisible chemical entities. Howard wanted to classify clouds 'by [their] visible characters, as in natural history. No doubt this affinity with natural history appealed to Goethe. When he discovered Howard in 1815, the poet hailed the new way of seeing clouds: 'I seized on Howard's terminolgy with joy,' Goethe announced, for it provided 'a missing thread'. From Goethe, the Dresden school of painters learned to wew clouds differently. The art historian Kurt Badt surmises that it was Luke Howard's expanded opus of 1818-20 that triggered Constable's astonishing cloud studies of 1821-22. Metereology thus fostered cloud studies in painting, in poetry, and later in photography. Clouds became a central figure of romantic thought.
(3)

(1)Peter Galison; Alexis Assmus, "Artificial Clouds, Real Particles," in D.Gooding, T. Pinch, S.Schaffer, eds; The Uses of Experiment-Studies in the Natural Sciences, (Cambrige, CUP, 1989) pp.225-274.
(2) Op.cit., p. 227.
(3) Op. cit., pp. 227-228.
(4)Op.cit., p.269.

11.3.05

"Aconteceu-me um Poema"

A propósito da resposta da Amélia a um comentário lembrei-me (dir-se-ia que só penso por associação, talvez seja por excesso de leituras da obra de Locke ) de um elucidativo texto de Sofia de Melo Breyner sobre o enigma da experiência da criação artística.

Como se trata, de uma exposição muito longa, transcrevo apenas uma parte:

Fernando Pessoa dizia:"Aconteceu-me um poema".
A minha maneira de escrever fundamental é muito próxima deste "acontecer". O poema aparece feito, emerge, dado (ou como se fosse dado). Como um ditado que escuto e noto.
É possível que esta minha maneia esteja em parte ligada ao facto de, na minha infância, muito antes de eu saber ler, me terem ensinado a decorar poemas. Encontrei a poesia antes de saber que havia literatura. Pensava que os poemas não eram escritos por ninguém, que existiam em si mesmos, que eram como que um elemento do natural, que estavam suspensos, imanentes. E que bastaria estar muito quieta, calada e atenta para os ouvir.
Desse encontro inicial ficou em mim a noção de que fazer versos é estar atento e de que o poeta é um escutador.
É difícil descrever o fazer de um poema. Há sempre uma parte que não consigo distinguir, uma parte que se passa na zona onde eu não vejo.
Sei que o poema aparece, emerge e é escutado num equilíbrio especial da atenção, numa tensão especial da concentração. O meu esforço é para conseguir ouvir o "poema todo" e não apenas um fragmento. Para ouvir o "poema todo" são precisas duas coisas: que a atenção não se quebr ou atenue e que eu não intervenha. É preciso que eu deixe o poema dizer-se. Sei que quando o poema se quebra, como um fio no ar, o meu trabalho, a minha aplicação não conseguem continuá-lo.
Como,onde e por quem é feito esse poema que acontece, que aparece como já feito? A esse "como, onde e quem" os antigos chamavam Musa. É possível dar-lhe outros nomes e alguns lhe chamarão o subconsciente, um subconsciente acumulado, enrolado sobre si próprio como um filme que de repente, movido por um qualquer estímulo, se projecta na consciência como mum écran. Por mim, é-me difícil nomear aquilo que não distingo bem. É-me difícil, talvez impossível, distinguir se o poema é feito por mim, em zonas sonâmbulas de mim, ou se é feito em mim por aquilo que em mim se inscreve. Mas sei que o nascer do poema só é possível a partir daquela forma de ser, estar e viver que me torna sensível - como a película de um filme - ao ser e ao aparecer das coisas. E de uma obstinada paixão por esse ser e esse aparecer.

Deixar que o poema se diga por si, sem intervenção minha (ou sem intervenção que eu veja), como quem segue um ditado, (que ora é mais nítido, ora mais confuso), é a minha maneira de escrever.


Sofia de Mello Breyner Andresen, Dual, Arte Poética IV, (Lisboa, Moraes Editores, 1977).
Déclinaison érotique

amadouer
boucler
ceindre
doigter
effeuiller
flairer
fondre
geindre
jouir
oindre
pomper
recevoir

et après thé de Ceylan aux épices
A Praia

No final do trajecto, a camioneta abria as portas junto de uma colina povoada de pinheiros e lantana. Do lado oposto o mar faíscava. Era só descer a rampa de basalto, para sentir a areia preta escaldar a pele por entre as frestas das sandálias. O mar, logo ali, o areal reduzido a escassos metros. De imediato, os corpos se fundiam nas ondas, nadavam um pouco, perdiam pé e o mundo devinha água. Horas a fio de mergulhos, risos, gritos de desafio, habilidades várias.
Os corpos violáceos tomados por uma fadiga alegre, lançavam-se sobre o solo, aqueciam polvilhados pela areia negra.

10.3.05

Estudos de Nuvens, por Constable


John Constable, Landscape with Clouds, (1821-22), 47.5 x 57.5 cm; óleo sobre tela, National Gallery, London.


John Constable, Study of Clouds, (c.1822), 48 x 59 cm; óleo sobre papel, sobre tela, National Gallery, London.


Esta manhã, ao observar a multiplicidade de tipos de nuvens em redor do castelo - cirrus, cumulus, stratus, densas esfarrafadas, brancas, cinza, e por aí adiante - lembrei-me dos estudos fascinantes, desse fenómeno, efectuados por Constable.

9.3.05

Poesia ao pequeno-almoço

Será efeito das flores de acácia, da sua cor, do seu perfume, ou, mais vulgarmente, da proximidade da Primavera, editar um segundo poema sobre o amor?

Os Amantes

Olha como um para o outro crescem:
Espírito se faz tudo em suas veias.
As suas formas tremem como eixos
a cuja volta há um girar quente e arrebatado.
Sequiosos, logo encontram que beber.
Despertos - olha: logo têm que ver.
Deixai que se afundem um no outro,
pra um no outro se vencer.


Rilke

[(Provavelmente)Paris, Maio-Junho de 1908)]

Não resisto a transcrever a composição, da qual gosto mais, da página anterior:

O Perfume

Inapreensível espírito, quem és tu?
como, donde e quando sabes tu achar-me,
tu que (como um cegar aos poucos) fazes
o íntimo tão íntimo que se fecha e revolve?
O amante; que arrebata a si uma mulher,
não a tem perto; só tu é que és o perto.
Quem é que tu não embebeste como se de repente
te fizesses a cor mesma dos seus olhos?

Ai, quem visse música num espelho,
ver-te-ia e saberia dizer o teu nome.

Rilke

[Primeiro esboço Paris, fim de Agosto de 1907, provavelmente concluído na 1ª metade de 1908.]

Rainer Maria Rilke, Poemas, As Elegias de Duíno e Sonetos a Orfeu, (Porto, O Oiro do Dia, 1983), pp.308-309.
As acácias do largo da minha aldeia


As acácias do largo onde vivo são um tanto retardadas... só agora começaram a florir. Por outro lado, as suas flores são menores, de um amarelo mais pálido do que as da maior parte das espécies da dita árvore, que iluminam as estradas e as elevações de terreno, por estes dias de Fevereiro e Março. Mas, serão talvez mais bonitas, apesar da sua sobriedade, e alegrarão o largo durante um longo período de tempo.
Poesia ao almoço

O Amor segundo António Ramos Rosa

O amor cerra os olhos, não para ver mas para absorver: a obscura transparência, a espessura das sombras ligeiras, a ondulação ardente: a alegria. Um cavalo corre na lenta velocidade das artérias. O amor conhece-se sobre a terra coroada: animal das águas, animal do fogo, animal do ar: a matéria é só uma, terrestre e divina.

António Ramos Rosa, 21 Poemas Escolhidos, [Três Lições Matinais,(1989)],Porto/Lisboa,Brevíssima, Livraria Civilização Editora/Contexto Editora, 1997, p.53
Confidências e Desabafos de Savarin (72)


Cinema e Gastronomia

The cook, the thief, his wife and her lover
- um filme para estômagos e nervos de aço inoxidável. Como pode calcular, quem não o viu, a partir de uma passagem da crítica de Daniel Rogov, ao referido filme, retirada desta interessante página sobre as relações entre arte, literatura, música, filmes e comida.

Even though the dishes prepared by the cook are impeccable in presentation and quality, Greenaway assures that not one dish will make itself appealing to those in the audience. Avocado in vinaigrette sauce with shrimps; truffled roast chickens; a salad of pike fillets with oysters; a rich potage a la Monglas - a creamy soup made with foie gras, truffles, and mushrooms and flavored with Madeira can all be enormously rewarding culinary experiences, but when accompanied by the farts, belches and vomiting of the crooks that sit at the table, one is hard pressed to think of any food, no matter how masterfully prepared, as being appetizing.

Even if it were not for the noxious company, this is not a restaurant to which most true gourmets would be attracted. Great cooking should be decorative but it should not be ostentatious. Nor should sophisticated modern dining involve great amounts of waste, overindulgence in too many rich and uncomplimentary courses that follow one after the other, or service that is so stilted and formal that it borders on groveling. Such vulgar displays have been banished from the table, as much for the sake of hygiene and good taste as for reasons of expediency.

There are some who claim that the most offensive moment of the film is the moment when the lover's body, spit roasted and garnished with cauliflower and turnips is served up as the single course in a special dinner prepared for the thief. From the moral point of view, this objection stands up badly, for in this film where excess is the rule, the eating of human flesh is no more offensive than eating dog excrement, urinating into a sauce, torturing a young boy or mutilating the face of a beautiful woman, all of which have their place in Greenaway's world. Culinary purists will argue, however, that spit roasting is not the ideal way to prepare human flesh. Those who have sampled this dish (including Guy du Maupassant, Marco Polo and Captain James Cook, who was eventually eaten himself) are in general agreement that the best means of cookery is by slow stewing in a peppery red wine marinade that contains juniper berries, marjoram, rosemary and plenty of onions.


Daniel Rogov

8.3.05

Confidências e Desabafos de Savarin (71)

Maria, Maria mole

Maria matuta mandriar, morfar Maria mole.
Maria manifesta, manifesta moleza.
Fim de tarde com poesia

De um dos meus livros de poesia preferidos, uma invulgar forma de expressar a mágoa provocada pela ausência, neste caso sem retorno, do ser amado. O poema a seguir transcrito, é um dos 240 poemas que Izumi Shikibu escreveu durante o luto pelo seu amante o príncipe Atsumichi, falecido devido a uma epidemia.
Ler o Diário de Izumi Shikibu aqui.

[Poems Mourning Prince Atsumichi]

Remembering you...
The fireflies of this marsh
seem like sparks
that rise
from my body's longing.

It would console me
if you returned
even for the lengh of the flash -
seen and then gone - of lightning at dusk


Izumi Shikibu, The Ink Dark Moon, (New York, Vintage Books,1990), p.145.

6.3.05

Feriado Municipal

Amanhã, para além de se celebrar o dia da mulher, é dia de S. João de Deus, logo feriado municipal em Montemor-o-Novo!!! Nada como fazer um longo serão esta noite, para que amanhã o feriado seja mesmo feriado.
Impressões de Sábado

O rio, as oliveiras, um almoço divertido na companhia de uma prima muito querida e as instalações de Rebecca Horn.

É urgente ver a exposição Bodylandscapes. Desenhos, Esculturas, Instalações 1964 - 2004 (de 04-02-2005 a 17-04-2005)de Rebecca Horn,no Centro Cultural de Belém, para nosso próprio bem.

Vou revisitá-la, sobretudo, para voltar a entrar em cinco dos universos de água, de luz, movimento e palavras, criados pelo génio da artista alemã. Universos fascinantes em que emoção e razão se reunem numa inusitada harmonia.

Nota: Quem gostar de banhos de multidão, pode aproveitar a entrada livre durante a Festa da Primavera, nos dias 19 e 20 de Março.

3.3.05

Impressões

Só ontem me lembrei, que o Digitalis surgiu num dia 15 de Fevereiro, há dois anos.

Depois de uma aprazível e longa noite de sono, acordei para uma manhã homérica, porque rósea, génese de um dia cinzento.

O castelo continua a destilar charme, mas a observadora que há em mim anda mais voltada para as moradas da alma, para o castelo interior.

2.3.05

Parabéns e agradecimentos

Parabéns ao talentoso escriba de Umblogsobrekleist pelo seu segundo aniversário, pelo regresso à escrita regular no blog e pelo prazer que os seus textos nos proporcionam. Agradeço, ainda, a arguta, amável, aliteração a Amadeus.

Agradeço, também, a Manuel Correia o link e as gentis palavras com que caracterizou o Digitalis. Aproveito, para o felicitar, publicamente, pela excelente ideia de criar um blog sobre Egas Moniz, e contribuir, deste modo, para estudo e divulgação da história da ciência em Portugal.
XX reconhece-se em Camões

XX:- Depois de muitas dúvidas, conflitos entre id e super-ego, alguma cobardia, "vi claramente visto" e aceitei a evidência: gosto mesmo muito de XY. E, pior do que não ser amado por quem se ama, é não saber de quem se gosta.
Neste momento, sinto o que Camões tão bem descreve, nestas duas quadras de um dos seus sonetos:

Transforma-se o amador na cousa amada,
Por virtude do muito imaginar;
Não tenho logo mais que desejar
Pois em mim tenho a parte desejada.

Se nela está minha alma transformada,
Que mais deseja o corpo de alcançar?
Em si somente pode descansar,
Pois consigo tal alma está liada.


Luís Vaz de Camões