28.12.04

Lendas e Mitos

O Mito de Quimera


Quimera de Arezzo, escultura etrusca de bronze do século V a.C. com 80 cm de altura. Foi encontrada em 1553 e pode apreciar-se no Museu Arqueológico de Florença.

Quem diria que a Quimera era um bicho tão feio! Bem nos avisam contra as quimeras...

O mito de Quimera tem a sua génese na Anatólia e teria aparecido na Grécia durante o século VII a.C. Segundo a versão mais conhecida da lenda, a Quimera era um monstruoso fruto da união de Equidna - metade mulher, metade serpente - com o gigante Tífon. De acordo com outros relatos seria filha da hidra de Lerna e do leão de Neméia, os quais teriam sido mortos por Hércules. A descrição comum retrata-a com cabeça de leão, torso de cabra e parte posterior de dragão ou serpente. Criada pelo rei da Cária, arrasaria, posteriormente, este reino e o de Lícia com o fogo que lançava continuamente. Tal suplício só findou, quando o herói Belerofonte, montado no cavalo alado Pégaso, conseguiu matá-la. A representação plástica mais corrente da Quimera é a de um leão com uma cabeça de cabra na espádua. A referida representação foi também a mais comum na arte cristã medieval, que fez dela um símbolo do mal. Ao longo do tempo, passou a designar-se genericamente por quimera todo o tipo de monstros fantásticos usados na decoração arquitectónica.

Na linguagem popular, o termo quimera remete para qualquer composição fantástica, absurda ou monstruosa, formada pela mistura bizarra de elementos diversos.



E deixo aqui uma narrativa sobre o fim da Quimera:

A morte da Quimera



Belerofonte, um jovem príncipe da cidade de Corinto, viveu algum tempo na corte de Proeto, nessa altura rei de Argos. Enquanto ali esteve, a mulher do rei, Anteia, apaixonou-se por ele. Assim que Belerofonte descobriu os sentimentos dela, resolveu evitá-la sempre que pudesse, mas não abandonou a corte. Durante muito tempo, Anteia insistia em persegui-lo, mas por fim ficou ofendida com a sua recusa e planeou vingar-se. Com o rosto mais inocente, disse ao marido que Belerofonte a perseguia, o que era o contrário da verdade.



Procto acreditou no que a mulher lhe disse e ficou furioso. Porém, as leis da hospitalidade não lhe permitiam matar o hóspede. Então, escondeu os seus sentimentos e pediu a Belerofonte para ir levar uma carta a Lóbates, pai de Anteia. A carta estava selada e Belerofonte não sabia o que ela dizia. De facto dizia a Lóbates que Belerofonte era um perigoso adúltero e pedia para o matarem sem demora: estava em jogo a honra da filha de Lóbates.



Por qualquer razão, Lóbates não queria ser ele próprio a praticar o crime, mas imaginou imediatamente um plano que esperava tivesse o mesmo resultado. Metendo a carta no cinto depois de a ler, foi até à janela da sala, onde estava Belerofonte.



- O meu genro diz-me que tu és um valente - disse ele. Parece-me que encontrei o homem de que eu preciso.



Belerofonte olhou para ele interrogativainente.



- Existe perto daqui um monstro - continuou Lóbates - que há uns tempos nos dá problemas. Chama-se Quimera e é metade leão, metade cabra, com cauda de víbora. Dizem que o pai foi Tífon, o da cabeça de serpente. Quero que seja destruído, mas nenhum dos meus súbditos se atreve a enfrentá-lo. Mas se tu és o homem que Proeto diz... Lóbates não acabou a frase, mas Belerofonte compreendeu perfeitamente. Se não se oferecesse para combater a Quimera, seria acusado de covarde. Sem hesitar, Belerofonte aceitou o desafio. Contudo, Lóbates não tinha dito toda a verdade. A Quimera era muito mais terrível do que ele a descrevera. A cabeça de leão deitava lume pela boca como um dragão, por isso era impossível atacá-la de perto, e tinha a agilidade de uma cabra dos montes em saltar e esquivar-se das setas bem apontadas.



E a cauda de víbora vencia qualquer atacante cuspindo veneno das suas mandíbulas mortais. Muitos dos melhores soldados de Lóbates já tinham tentado dominá-la e haviam sido vencidos.



Antes de resolver atacar a Quimera, Belerofonte aconselhou-se com um adivinho. E este disse-lhe que ele só venceria se fosse montado no cavalo Pégaso. Pégaso era filho de Poséidon e da górgona Medusa. Mas, embora filho da horrível mulher de cabelos de serpente, estava longe de ser horrível. O seu corpo de cavalo airoso e forte era mais bonito do que o de qualquer outro animal, enquanto as enormes asas que lhe cresciam nas costas o levavam pelo ar, com mais leveza do que um pássaro.



Antes de Belerofonte o poder montar, tinha primeiro que o apanhar e pôr-lhe rédeas e freio, porque o animal vivia em plena liberdade.



Naquela tarde, enquanto Belerofonte regressava a Corinto, apareceu-lhe a deusa Atena, com uma rédea de ouro na mão.



- Toma - disse Arena a Belerofonte -, porque sem ela nunca poderás dominar um cavalo tão vivo como Pégaso.



Belerofonte conseguiu agarrar o Pégaso pelas crinas, enquanto este estava a beber num regato. Atirou-lhe a rédea de ouro sobre a cabeça e amarrou-a com força, enquanto o cavalo relinchava e dava pinotes, para se libertar da prisão a que não estava habituado. Mas daí a pouco, permitiu que Belerofonte o montasse e partiram os dois a voar.



As fortes asas de Pégaso levaram-nos rapidamente por sobre muitas milhas até que Belerofonte viu lá em baixo, num planalto, a figura horrenda da Quimera. Puxou as rédeas a Pégaso para o fazer parar e começaram a descer, voando baixo em volta do monstro, enquanto ele arremetia e tentava apanhá-los no ar. Quando passavam mais perto, Belerofonte lançava setas atrás de setas com o seu arco, até que percebeu que o monstro estava cansado. E Belerofonte meteu esporas a Pégaso para o ataque final.



Para isso tinha preparado uma maneira pouco vulgar. Atena avisara-o de que a Quimera lançava fogo da cabeça de leão e ele preparara uma arma especial. Cautelosamente, ele e o Pégaso aproximaram-se do monstro, e, enquanto as grandes fauces com as temíveis fileiras de presas se abriam para os morder, Belerofonte meteu entre elas a lança. E na ponta da lança estava enrolado um grande pedaço de chumbo. As chamas que vinham da garganta do monstro não atingiam Belerofonte, são e salvo em cima do Pegaso, mas depressa derreteram o chumbo, que escorreu a ferver para dentro do monstro. E a Quimera teve uma morte horrível.



Quando Belerofonte voltou vitorioso ao palácio, Lóbates começou pela primeira vez a duvidar de que tal homem se tivesse comportado da maneira desonrosa como a filha dissera. Contudo, entregou a Belerofonte mais algumas tarefas perigosas, e depois de todas cumpridas ele teve a certeza de que o tinham querido enganar.



Por fim, falou a Belerofonte na carta de Anteia, e quando ouviu a verdade ofereceu-lhe a mão da sua segunda filha, para o recompensar. E no meio de uma grande festa, casaram.



Belerofonte passou a ser um cidadão respeitado, querido de todos pelas suas proezas. As pessoas elogiavam-no e exageravam até os seus feitos, e, com o tempo, ele passou a acreditar que elas diziam a verdade. Tornou-se intoleravelmente vaidoso e quando alguém o comparava aos deuses aceitava o cumprimento. Com o tempo, julgou que era de fato igual aos imortais. E, sendo assim, raciocinava ele, porque não havia de visitar o Olimpo?



Quando Zeus ouviu isto, duvidou de que um simples mortal pensasse em ir ao alto do Olimpo sem ser convidado, e resolveu dar uma lição a Belerofonte.



Entretanto, cá em baixo, Belerofonte tinha vestido os seus mais belos trajes e, montado no Pégaso, cavalgou desde o pátio do palácio até ao alto de uma pequena colina. Daí, o cavalo alado levantou-se facilmente no ar. Voaram cada vez mais alto, até que a Terra lá em baixo parecia um mapa gigantesco. E depressa estavam entre as nuvens, e as montanhas ficavam para trás. E continuaram a subir, até aos altos picos do Olimpo.



Enquanto Belerofonte ainda estava a certa distância, Zeus soltou um moscardo no ar, Direito como uma seta, ele picou o Pégaso por debaixo da cauda. Muito espantado, o cavalo deu pinotes e reviravoltas e, soltando um grito horrível, Belerofonte caiu da sela. Ainda tentou agarrar-se às crinas do cavalo, mas escorregaram-lhe as mãos. E foi cair lá em baixo na terra.



Zeus riu para consigo, enquanto via o Pégaso aos coices, outra vez em liberdade:



- Assim acabam os que pretendem rivalizar com os deuses - disse ele.




27.12.04





Jardim Mediterrânico

Algumas áreas da serra algarvia podiam - julgo, pois alguns dirão que tal ideia é motivada pela demência - transformar-se em aromáticos jardins mediterrânicos onde a figueira, a alfarrobeira, a oliveira e o cedro vermelho se misturariam com a bergamota, a flor de laranjeira, o oleandro, o rosmaninho, a lavanda, o alecrim e umas quantas suculentas, entre outas plantas mediterrânicas ao gosto do terreno, do clima e, já agora, dos jardineiros.
Vem este post a propósito de um passeio na serra algarvia, em que a aridez da maior parte da paisagem contrastava com algumas zonas de exuberante vegetação adequada ao terreno e ao clima.

22.12.04

Confidências e Desabafos de Savarin (67)

Cognac e Porto


Aqui fica mais um delicioso texto de Egas Moniz, requintado gourmet, dedicado, em especial aos apreciadores de bom vinho do Porto:

Uma vez, depois dum jantar a que assistiam vários neurologistas estrangeiros, Heri Babinski fez a apologia dum magnífico cognac do tempo do Império, que era, de facto, precioso pelo bouquet equilibrado e exquis. Falámos do nosso Porto, mas não consegui levar o grande gourmet a dar-lhe a consideração que merecia. Quando regressei a Portugal seleccionei duas caixas do melhor vinho do Porto que pude obter, para o que pedi a colaboração dum amigo, reputado apreciador do estimado vinho do Douro. Enviei-as ao autor de Gastronomie Pratique. Nesse mesmo ano tive de voltar a Paris e fui, como era habitual, convidado para um almoço, desta vez apenas para julgarmos o vinho oferecido, disse Henri. Ao último prato, apareceu o vinho, que foi largamente apreciado pelos irmãos Babinski e por Picard, velho e familiar amigo, também apreciador destes ágapes. Ao sair da casa de jantar, pedi, particularmnte, ao criado que não retirasse da mesa os copos que tinham servido o Porto. E seguimos para outra sala, onde foi servido o café acompanhado do precioso cognac.
(...)
Aproveitei o momento do final da conversação para levar da mesa os dois copos onde passara o vinho do Porto. Pedi então que apreciassem ainda o bouquet que deles dimanava, apesar de estarem há muito vazios e como ainda o precioso aroma embalsamava o ambiente austero da sala de mesa. Então, sim, todos concordaram na excelência do vinho português.
- Mas desta qualidade nunca o tinha bebido - disse o engenheiro Henri.
- Também - respondi - cognac como o que me deu só aqui o saboreei.
E ficámos reconciliados. Desde esse dia Henri passou a dar ao vinho do Porto a categoria a que tem incontestável direito.

Egas Moniz, Confidências de um Investigador Científico, (Lisboa, Edições Ática, 1949), pp.74-75
Confidências e Desabafos de Savarin (66)


Lapas da ilha das Flores


Ler e escrever sobre ostras evocou, na minha gulosa mente, outro molusco, as lapas.

Embora, uma das mais conhecidas receitas de lapas da gastronomia açoriana seja as lapas com molho Afonso, quando vivia em S.Miguel adorava saborear lapas grandes e suculentas, preparadas pela minha mãe. Os moluscos eram dispostos num tabuleiro de ir ao forno e depositava-se, em cada um deles, um pouco de manteiga, pimenta e sumo de limão. As lapas eram levadas ao forno só para derreter a manteiga e alourar ligeiramente. O molho que se forma é pura ambrósia.
As lapas também se comem cruas e há quem as prefira ao natural. Tal como as ostras também devem estar vivas. No caso deste molusco é bastante fácil verificá-lo, dada a morfologia das lapas, imediatamente, exposta ao olhar dos curiosos quando retiradas das rochas onde se encontram, agarradas com intensa firmeza.

Confidências e Desabafos de Savarin (65)



Ostras: uma hipotética entrada para a ceia de Natal.

No fim de um dia, que já lá vai, deliciei-me com umas belas ostras, na esplanada de um restaurante da Manta Rota. Como vou voltar ao lugar do crime, lembrei-me de escrever sobre ostras...

Em França as ostras constituem uma entrada típica num jantar ou numa ceia de Natal.

A propósito da degustação das ostras, "não resisto à tentação de transcrever" um saboroso trecho de Egas Moniz da sua obra Confidências de um Investigador Científico:

[Henri Babinski * em Gastronomie Pratique] Depois de se referir às ostras portuguesas, mais anunciadas em França do que em Portugal, e que não passam afinal de um Gryphus angulata, não sendo, por isso, uma ostra propriamente dita, das da elevada estirpe de Belon, Marennes ou Ostende, ocupa-se da forma como devem ser saboreadas, problema de complicada solução delicada técnica.

"Só no momento de serem comidas, escreve, Ali-Bab [pseudónimode Henri Babinski]. As boas ostras mostram-se gordas e carnosas. Os amadores devem verificar, uma por uma, se estão bem vivas. Para isso, diz Henri Babinski, é indispensável explorar-lhes os reflexos, sinal objectivo que nunca induz em erro. Basta tocar o bordo das suas lamelas, que se retraem se o animal está vivo."

(...) Como tenho o volume diante dos meus olhos, não resisto à tentação de transcrever a parte que se segue, em que a ostra é venerada:
Puis enlevez-la délicatement de sa coquille, portez-la immédiatement à la bouche, toue nue, sans aucun accompagnement et aussitôt, d'un coup de dent, percez-lui le fois. Si le sujet répond à ce que vous êtes en droit d'attendre de lui, vos gencives doivent baigner dedans tout entière et vôtre bouche doit être inondée de jus.

Restez un instant dans cette situation, puis avalez lentement le jus et achevez la mastication et la déglution du mollusque. Tonifiez-vous alors avec une gorgée de bon vin blanc sec, mangez de pain blanc ou noir, beurré ou non, pour neutraliser les papilles de la langue et être en état d'apprécier intégralement l'huitre vivante.

Aí fica exposto o ritual, para uso do apreciador da boa ostra. Entre nós, as chamadas ostras portuguesas, hoje melhoradas de qualidade, mas não acrescentadas de espécies mais valiosas, não merecem, ao menos para mim, bárbaro mastigador de grífeas, as sugestões acima expostas. Aprecio-as muito despretenciosamente com sal, pimenta e algum limão, como desde rapaz vi praticar. Que me perdoe a heresia a memória do velho amigo com quem muita vez caturrei em assuntos desta natureza.


Egas Moniz, Confidências de um Investigador Científico, (Lisboa, Edições Ática, 1949), pp.72-73

*Henri Babinski era irmão do célebre neurologiata, amigo de Egas Moniz, Joseph Babinski .
Confidências e Desabafos de Savarin (64)

Há quem não dispense o bacalhau na ementa da ceia de Natal, por isso aqui segue uma receita de bacalhau natalício, mas à moda da Provença:

Bacalhau à Provençal

Ingredientes:


750 gr de bacalhau salgado demolhado
15 gr de farinha
pimenta preta
2 colheres de sopa de azeite
30 gr de manteiga

Molho

1 cebola grande às rodelas
2 dentes de alho esmagados
750 gr de tomate, sem pele e picados
1 colher de sopa de tomate em calda
1 colher de sopa de alcaparras
1 colher de sopa de pepinos em conserva
1 colher de sopa de estragão, outra de tomilho e outra de salsa frescos e picados

Preparação:

Bacalhau

Demolhar 6 postas de bacalhau, durante 24 horas, em água fria em abundância, mudando-a 3-4 vezes.
Retirar o bacalhau e secar sobre papel absorvente, retirar as barbatanas, a pele e as espinhas.
Temperar a farinha com a pimenta preta. Passar bem o bacalhau pela farinha dos dois lados.
Aquecer o azeite e a manteiga numa frigideira larga . Colocar metade das postas e frite até alourarem de ambos os lados. Retirar com a escumadeira e deixar escorrer sobre papel absorvente. Manter as postas quentes e fritar as restantes.

Molho à provençal

Para preparar o molho alourar a cebola e o alho na frigideira. Juntar o tomate fresco e em calda e deixar levantar fervura. Manter em lume brando durante2-3 minutos, misturar as alcaparras, os pepinos de conserva e as ervas, temperar com pimenta preta.
Colocar o molho numa travessa aquecida e dispor as postas sobre o molho. Guarnecer com raminhos de ervas aromáticas

21.12.04

Da Voluptuosidade (20)

Aforismos de Novalis sobre as relações entre voluptuosidade e crueldade:

"É estranho que a base própria da crueldade seja a voluptuosidade."

E, acerca da ligação entre voluptuosidade e religião:

"A religião cristã é a verdadeira religião da voluptuosidade. O pecado é o maoir atractivo do amor divino; quanto mais um homem se sente pecador, mais cristão é."

Novalis, Fragementos, (Lisboa, Assírio e Alvim, 1986), pp.24-25.

Da Voluptuosidade (19)

Ao findar desta estação evoca-se, através do texto de Senancour, a Voluptuosidade e a Melancolia do Outono

Fontainebleau, 28 octobre, II e année

Lorsque les frimas s'éloignent, je m'en aperçois à peine ; le printemps passe, et ne m'a pas attaché ; l'été passe, je ne le regrette point. Mais je me plais à marcher sur les feuilles tombées, aux derniers beaux jours, dans la forêt dépouillée.

D'où vient à l'homme la plus durable des jouissances de son coeur, cette volupté de la mélancolie, ce charme plein de secrets, qui le fait vivre de ses douleurs et s'aimer encore dans le sentiment de sa ruine ? Je m'attache à la saison heureuse qui bientôt ne sera plus : un intérêt tardif, un plaisir qui paraît contradictoire m'amène à elle alors qu'elle va finir. Une même loi morale me rend pénible l'idée de la destruction, et m'en fait aimer ici le sentiment dans ce qui doit cesser avant moi. Il est naturel que nous jouissions mieux de l'existence périssable, lorsqu'avertis de toute sa fragilité nous la sentons néanmoins durer en nous. Quand la mort nous sépare de tout, tout reste pourtant ; tout subsiste sans nous. Mais, à la chute des feuilles, la végétation s'arrête, elle meurt ; nous, nous restons pour des générations nouvelles, et l'automne est délicieuse parce que le printemps doit venir encore pour nous.

Le printemps est plus beau dans la nature ; mais l'homme a tellement fait que l'automne est plus douce. La verdure qui naît, l'oiseau qui chante, la fleur qui s'ouvre ; et ce feu qui revient affermir la vie, ces ombrages qui protègent d'obscurs asiles ; et ces herbes fécondes, ces fruits sans culture, ces nuits faciles qui permettent l'indépendance ! Saison du bonheur ! je vous redoute trop dans mon ardente inquiétude. Je trouve plus de repos vers le soir de l'année, et la saison où tout paraît finir est la seule où je dorme en paix sur la terre de l'homme.


Étienne Pivert de Senancour, Oberman, "Lettre XXIV" in André Lagard; Laurent Michard, XIXe Siècle, (Paris, Bordas, 1969), p.28

20.12.04

Sintonia

XY disse - És uma joia!
[Amaldiçoada, pensou.]

Respondeu XX - E tu és um doce!
[Enjoativo, cogitou]
Da Voluptuosidade (18)

Baudelaire: voluptuosas sinestesias

O texto abaixo transcrito, "Parfum Exotique" foi o primeiro poema - da parte dedicada à sua amante Jeanne Duval - da secção "Spleen et Idéal," da obra Les Fleurs du Mal.

No referido poema a figura da mulher desvanece-se, gradualmente, em função do poder do seu perfume. O odor engendra uma visão imaginária e idealizada. É evident,e o movimento em crescendo da imagem da mulher para as representações da ilha e do porto. Bem assim, como o jogo de correspondências entre as sensações, sinestesias, característico do simbolismo.

O poeta estabelece uma relação entre o sentido do olfacto e o da visão versos 2-3 . Daí o posicionamento simétrico dos verbos no início dos versos. Esta simetria evoca o poder do perfume que gera uma visão de luminosidade: passa-se do perfume à vista (versos 3-4)
De realçar a pluralidade de sensações : verso 10 : sensação visual; verso 12 : sensação olfactiva (" parfum ") e o verso 14 : auditiva (" chant ")
As sensações são realçadas por um jogo de ecos e pelo recurso a aliterações.

Como diria Baudelaire neste poema: " les parfums, les couleurs et les sons se répondent ".


Parfum exotique


Quand, les deux yeux fermés, en un soir chaud d'automne,
Je respire l'odeur de ton sein chaleureux,
Je vois se dérouler des rivages heureux
Qu'éblouissent les feux d'un soleil monotone;

Une île paresseuse où la nature donne
Des arbres singuliers et des fruits savoureux
Des hommes dont le corps est mince et vigoureux,
Et des femmes dont l'oeil par sa franchise étonne.

Guidé par ton odeur vers de charmants climats,
Je vois un port rempli de voiles et de mâts
Encor tout fatigués par la vague marine,

Pendant que le parfum des verts tamariniers,
Qui circule dans l'air et m'enfle la narine,
Se mêle dans mon âme au chant des mariniers.



Charles Baudelaire, Les Fleurs du Mal et Autres Poèmes, (Paris, Garnier-Flammarion, 1964), pp. 52-53.



19.12.04

Natal em Vermelho Rubens

Um Natal muito alegre, um ano de 2005 pleno de felizes realizações e continuação do excelente humor - que tão bem evidenciam, instalados no sofá de um voluptuoso "vermelho Rubens" - são os meus votos para o "Casal Miniscente"
Adenda a Da Voluptuosidade (11)

Um belo exemplar de Volupté de Sainte-Beuve aqui.
Da Voluptuosidade (17)



Reprodução de L’Amour et Psyché de Louis-Jean-François Lagrenée, O Velho, (1725-1805), entre 1767 et 1771

Apologia da Volúpia pelo Autor de Les Fables:

Éloge de la Volupté


Ô douce Volupté, sans qui, dès notre enfance,
Le vivre et le mourir nous deviendraient égaux ;
Aimant universel de tous les animaux,
Que tu sais attirer avecque violence !
Par toi tout se meut ici-bas.
C'est pour toi, c'est pour tes appâts,
Que nous courons après la peine :
Il n'est soldat, ni capitaine,
Ni ministre d'État, ni prince, ni sujet,
Qui ne t'ait pour unique objet.
Nous autres nourrissons, si pour fruit de nos veilles
Un bruit délicieux ne charmait nos oreilles,
Si nous ne nous sentions chatouillés de ce son,
Ferions-nous un mot de chanson ?
Ce qu'on appelle gloire en termes magnifiques,
Ce qui servait de prix dans les jeux olympiques,
N'est que toi proprement, divine Volupté.
Et le plaisir des sens n'est-il de rien compté ?
Pour quoi sont faits les dons de Flore,
Le Soleil couchant et l'Aurore,
Pomone et ses mets délicats,
Bacchus, l'âme des bons repas,
Les forêts, les eaux, les prairies,
Mères des douces rêveries ?
Pour quoi tant de beaux arts, qui tous sont tes enfants ?
Mais pour quoi les Chloris aux appâts triomphants,
Que pour maintenir ton commerce ?
J'entends innocemment : sur son propre désir
Quelque rigueur que l'on exerce,
Encore y prend-on du plaisir.
Volupté, Volupté, qui fus jadis maîtresse
Du plus bel esprit de la Grèce,
Ne me dédaigne pas, viens-t'en loger chez moi ;
Tu n'y seras pas sans emploi.
J'aime le jeu, l'amour, les livres, la musique,
La ville et la campagne, enfin tout ; il n'est rien
Qui ne me soit souverain bien,
Jusqu'au sombre plaisir d'un coeur mélancolique.
Viens donc ; et de ce bien, ô douce Volupté,
Veux-tu savoir au vrai la mesure certaine ?
Il m'en faut tout au moins un siècle bien compté ;
Car trente ans, ce n'est pas la peine.



Jean de La Fontaine (1621-1695), Les Amours de Psyché

18.12.04

Dia das Canções de Natal

Através dos Greetings do Yahoo fiquei a conhecer mais uma efeméride, ou dia de ... . Neste caso, o dia das canções de Natal.

17.12.04

Confidências e Desabafos de Savarin (63)

Confesso, adorei o "Elogio da Batata" da autoria da Charlotte , editado a 2 de Dezembro deste ano da Graça de 2004. A gravura escolhida destaca a fotogenia do saboroso e versátil vegetal.

Gosto, perdidamente, de comer batatas. Não resisto a nenhum prato de batatas, desde os singelos tubérculos cozidos, passando pelas populares batatas fritas, até ao mais sofisticado "gratin dauphinois."






16.12.04

Da Voluptuosidade (16)

Volúpia Barroca:




Peter Paul Rubens, Retrato de Susanna Fournent ("Le chapeau de paille"), c. 1622-25
óleo, 311/16 x 211/4 in (79 x 54 cm)
National Gallery, Londres

"Encantam-me [...] a cor e as carnações de Rubens em que se sente a perfeição da forma e a macieza da pele."
"Os seus quadros falam claro, através da sua côr quente das suas fisionomias expressivas, da materialidade das suas concepções. Rubens foi um homem feliz.A sua arte, reflexo da sua vida, é um canto de agradecimento à Natureza forte e sadia em que se inspirou."
Egas Moniz exaltou ainda "a opulência e a riqueza pagâ dos quadros de Rubens em que a carne palpita e a linha se espreguiça."

Egas Moniz, Ao Lado da Medicina, (Lisboa, Livraria Bertrand, 1940), pp.74, 195 e 347.
Confidências e Desabafos de Savarin (62)


Pois é Nuno, o Cozinheiro tem uma escrita deliciosamente apurada e bem temperada. A meu ver, supera em movimento, colorido e invulgaridade a do tão celebrado José Quitério. Quanto ao homem que deixou a arder a padaria devo dizer que fez muito bem, porque o lugar dele é mesmo na cozinha. Quando leio os posts do incendiário tenho a ilusão de estar na cozinha do próprio, a observá-lo em acção e a ouvir os seus preciosos conselhos ministrados num tom de agradável descontracção.

Bem só me resta desejar, aos dois Festas Felizes, e junto das demais ofertas de Natal, grandes cestos de anonas micaelenses...

15.12.04



Da Voluptuosidade (15)

Rilke ou a Hierofania da volúpia:

Para Vague de La Marée Haute:

[SETE POEMAS]

[Fim do Outono de 1915]

[I]

De repente a que estava a colher rosas
lança a mão ao botão cheio do membro vital dele,
e do susto da diferença
desfalecem dentro dela os [suaves] jardins.

[II]

Verão impetuoso que tu és,
a súbita árvore alçaste a semente.
(Espaçosa por dentro, sente em ti o arco
da noite em que ele se emancipa.)
Eis se ergueu e cresce ao firmamento, imagem reflectida de árvore
junto às árvores.
Oh, derruba-a, que ela, invertida
pra dentro do teu ventre, conheça o contra-céu
em que se faz arbórea e ascende de verdade.
Paisagem ousada, como as vêem as videntes
em bolas de cristal. Aquele Dentro
pra que converge o Fora das estrelas.
[Ali desponta a morte, que fora brilha nocturna.
E ali estão todos os que foram
unidos a todos os futuro
se bandos sobre bandos se bandeiam
como o Anjo quer.]

[III]

Com nossos olhares fechamos o círculo
em que a tensão confusa se funde em rubro branco.
Já o teu ignorante comando faz erguer
a coluna na mata do meu pudor.

Erigida por ti a estátua do deus
alça-se na encruzilhada sob as roupas;
todo o meu corpo tem o nome dele. Nós ambos
somos a região em que impera o seu encanto.

Mas ser bosque e céu em torno à herma
a ti pertence. Cede. Pra que o deus
livre entre os seus bandos saia
da coluna em deleite destroçada.

Munique, 17-27 de Outubro de 1915

[IV]

Desfalecida, não conheces as torres.
Mas vais descobrir agora uma
no portentoso espaço
dentro de ti. Cerra bem o olhar.
Foste tu que a ergueste
sem dares por tal, com olhar e aceno e requebro.
De súbito regurgita de perfeição,e eu, feliz de mim, posso habitá-la.
Ah, como me sinto apertado dentro dela!
Leva-me com teus afagos 'té à cúpula:
que eu possa arremessar nas tuas noites brandas
com o impulso de foguetes que deslumbram ventres
mais sentimento do que eu próprio sou.

Munique, entre 27 de Outubro e 1 de Novembro de 1915

[V]

Como o espaço vasto de mais nos rarefez!
Súbito voltam a si as opulências.
Ressuma agora pelo crivo silente dos beijos
o amargar do vermute e do absinto do ser.

Quanto não somos! Do meu corpo levanta
árvore nova a repleta coroa
e sobe para ti: porque - vê bem! - o que era ela
sem o Verão que no teu ventre paira?
És tu, sou eu, o que tanto deleitamos?
Quem o dirá, quando desfalecemos? Talvez
se erga no quarto uma coluna de êxtase
que suporta a abóbada e mais devagar decai.

[VI]

De quem estamos próximos? Da morte, ou daquilo
que inda não é? O que seria barro ao pé do barro,
se o deus sentindo não moldasse a figura
que entre nós ambos cresce? Compreende bem:
Isto é o meu corpo que quer ressuscitar.
Aiuda-o devagar da sepultura ardente
para aquele céu que em ti possuo:
que ousada saia dele a sobrevida.
Tu, lugar jovem da ascensão ao fundo!
Tu, ar escuro cheio de pólen do Verão!
Quando em ti raivam os seus mil espíritos,
o meu cadáver hirto de novo se enternece.

[VII]

Como eu te chamei! Eis os gritos mudos
que em mim dulcificaram.
Agora arrombo em ti degrau após degrau
e o meu sémen sobe alegre e infantil.
Ó montanha primeva do prazer: súbito salta
sem fôlego até à crista íntima de ti.
Oh entrega-te, para senti-lo aproximar-se;
porque tu vais ruir quando ele no alto acene.

Munique, entre 1 e 9 de Novembro de 1915

*

(Ao escrever-te, saltou seiva
na máscula flor
que à minha humanidade
é rica e misteriosa.


Sentes tu ao ler-me,
amada longe, quanta

doçura no feminino cálice
voluntária aflui?)

Ragaz, 22 de Julho de 1924

Rainer Maria Rilke, Poemas, As Elegias de Duíno e Sonetos a Orfeu, (Porto, Editorial O Oiro do Dia, 1983), pp.375-378 e 417.

Desaparecimento

Procuro, em vão, a colina, o arvoredo, o castelo, a muralha e as torres. Desapareceram sob a densidade branca da névoa que desceu até à calçada.
Da Voluptuosidade (14)

A Delicadeza dos Momentos de Voluptuosidade do Jovem Werther:
"Comme je dévorais ses yeux noirs pendant cet entretien! comme mon âme était attirée sur ses lèvres si vermeilles, sur ses joues si fraîches! comme, perdu dans le sens de ses discours et dans l' émotion qu'ils me causaient, souvent je n'entendais pas les mots qu'elle employait!
(...)
Jamais je ne me sentis si agile. Je n'étais plus un homme.Tenir dans ses bras la plus charmante des créatures! voler avec elle comme l'orage: voir tout passer, tout s'évanouir autour de soi! sentir!...
(...)
A la troisième contredanse anglaise, nous étions le second couple. Comme nous descendions la colonne, et que, ravi, je dansais avec elle, enchainé à son bras et à ses yeux, où brillait le plaisir le plus pur et le plus innocent (...)"

Goethe, Werther, (Paris, Librairie Marpon et Flammarion, s/d), pp.30; 32-33

Da Voluptuosidade (13)

Encantos dos eunucos

"Je t'ai ouï dire mille fois que les eunuques goûtent avec les femmes une sorte de volupté qui nous est inconnue, que la nature se dédommage de ses pertes; qu'elle a des ressources qui réparent le désavantage de leur condition; qu'on peut bien cesser d'être homme, mais non pas d'être sensible; et que, dans cet état, on est comme dans un troisième sens, où l'on ne fait, pour ainsi dire, que changer de plaisir."

Montesquieu, Lettres persanes , Lettre LIII
Da Voluptuosidade (12)

Tem a palavra Rilke:

"A volúpia da carne é uma coisa da vida dos sentidos, como o olhar puro, como o puro sabor de um belo fruto sobre a língua. é uma experiência sem limites que nos é dada, um conhecimento de todo o universo, o próprio conhecimento na sua plenitude e no seu esplendor. O mal não está nesta experiência, mas no facto de a maioria a aviltar, considerando-a apenas um excitante, uma distracção para os momentos de fadiga e não uma concentração, uma ascensão do ser para as alturas."
Rainer-Maria Rilke, Cartas a um Jovem Poeta, (Lisboa, Contexto, 1986), pp.22-23

14.12.04

Da Voluptuosidade (11)

A Volúpia segundo Sainte-Beuve

Volupté


"[La volupté] a saisi votre chair, elle flotte dans votre sang, serpente en vos veines, scintille et nage dans vos yeux; un regard échangé où elle se mêle suffit à déjouer les plus austères promesses."

Introdução


"(...) je me laisse rentraîner à l'enchantement volage des souvenirs. Ils sommeillaient, on les croyaient disparus; mais, au moindre mouvement qu'on fait dans ces recoins de soi-même, au moindre rayon qu'on y dirige, c'est comme une poussière d'innombrables atomes qui s'élève et redemande à briller."

Capítulo II


"Il faut souvent que les sens soient déjà un peu émoussés pour que le sentiment distinct de la beauté nous vienne. Heureux alors qui sait apprécier cette beauté tardive, qui s'y voue encore à temps et se crée un coeur digne de la réfléchir!"

Capítulo V


"Cela m'était redit de deux ou trois côtés à la fois. A cette injure, je courais droit chez elle, et, en me hâtant par les rues, il m'échappait tout haut des paroles de blasphèmes; j'en étais averti par l'étonnement des passants qui tournaient la tête, comme aux propos d'un insensé."

Capítulo final

Charles Augustin de Sainte-Beuve, Volupté
Ler a obra completa aqui


Da Voluptuosidade (10)


A Voluptuosidade Expressionista



Egon Shiele, Casal de Amantes, 1913

Guache e grafite sobre papel, 48, 5x32 cm. Colecção particular

13.12.04


Da Voluptuosidade (9)


Imagens de Volúpia


Henri MATISSE - Luxe, calme, et volupté - 1904 - óleo - Centre Georges Pompidou


Da Voluptuosidade (8)


Será a Voluptuosidade uma Arte?

(...) a conversa deslizou, não sei como, para a voluptuosidade na arte.
E então a americana bizarra logo protestou:
- Acho que não devem discutir o papel da voluptuosidade na arte porque, meus amigos, a voluptuosidade é uma arte - e, talvez, a mais bela de todas. p.66
Porém, até hoje, raros a cultivaram nesse espírito. Venham cá, digam-me: fremir em espasmos de aurora, em êxtases de chama, ruivos de ânsia - não será um prazer bem mais arrepiado, bem mais intenso do que o vago calafrio de beleza que nos pode proporcionar uma tela genial, um poema de bronze? Sem dúvida, acreditem-me. Entretanto o que é necessário é saber vibrar esses espasmos, saber provocá-los. E eis o que ninguém sabe; eis no que ninguém pensa. Assim, para todos, os prazeres dos sentidos são a luxúria, e se resumem em amplexos brutais, em beijos húmidos, em carícias repugnantes, viscosas. Ah! mas aquele que fosse um grande artista e que, para matéria-prima, tomasse a voluptuosidade, que obras irreais de admiráveis não altearia!… Tinha o fogo, a luz, o ar, a água, e os sons, as cores, os aromas, os narcóticos e as sedas - tantos sensualismos novos ainda não explorados… Como eu me orgulharia de ser esse artista!… E sonho uma grande festa no meu palácio encantado, em que os maravilhasse de volúpia… em que fizesse descer sobre vós os arrepios misteriosos das luzes, dos fogos multicolores - e que a vossa carne, então, sentisse enfim o fogo e a luz, os perfumes e os sons, penetrando-a a dimaná-los, a esvaí-los, a matá-los!… Pois nunca atentaram na estranha voluptuosidade do fogo, na perversidade da água, nos requintes viciosos da luz?.. Eu confesso-lhes que sinto uma verdadeira excitação sexual - mas de desejos espiritualizados de beleza - ao mergulhar as minhas pernas todas nuas na água de um regato, ao contemplar um braseiro incandescente, ao deixar o meu corpo iluminar-se de torrentes eléctricas, luminosas… Meus amigos, creiam-me, não passam de uns bárbaros, por mais requintados, por mais complicados e artistas que presumam aparentar!

Passado um mês Lúcio foi convidado a ir a uma festa na casa da americana. Encontrou-se com Gervásio que lhe apresentou o conhecido poeta que Lúcio tanto admirava: Ricardo Loureiro. A americana recebeu-os e tudo era sumptuoso e deslumbrante - a sala, as luzes e até as cores da sua túnica enlouqueciam. E antes da meia-noite - a americana disse:
Depois da ceia, é o espectáculo - o meu Triunfo! Quis condensar nele as minhas ideias sobre a voluptuosidade-arte. Luzes, corpos, aromas, o fogo e a água - tudo se reunirá numa orgia de carne espiritualizada em ouro!



Mário de Sá Carneiro, A Confissão de Lúcio, (Lisboa, Ática, 1945), pp. 66 e 72
Impressões

O cinza violáceo a envolver o castelo, evoca as tempestades na ilha, quando vivia numa casa com dois terraços e um miradouro, dos quais se podia contemplar o mar a saltar o porto.Como eu gostava de estar sózinha naqueles lugares, sobretudo durante a noite, projectar as minhas iras de adolescente na espuma branca das vagas, no fragor do vento e da trovoada, nos relâmpagos que iluminavam intermitentemente o cais. De súbito, chovia em bátegas torrenciais, mas era bom sentir aquela força da água quase quente.
Da Voluptuosidade (7)

Gastronomia e Volúpia

12.12.04

Da Voluptuosidade (6)

Assim falou Zaratustra, sobre a voluptuosidade, segundo Nietzsche:

»Voluptuosidade: uma espinha e um aguilhão para todos os que desprezam o corpo penitente, amaldiçoado como "mundo" por todos os visionários de além, porque ela zomba e ilude todos os professores da perturbação e do erro.

»Voluptuosidade: para a gentalha, é o fogo lento que a consome; para toda a madeira carunchosa, para todo o farrapo malcheiroso, é o forno incandescente.

»Voluptuosidade: para os corações livres, inocente e livre é a felicidade campestre da terra, a exaltação reconhecida de todo o futuro pelo presente.

»Voluptuosidade: para as almas mirradas, um veneno adocicado, mas, para quem tem vontade de leão, é o cordial, o vinho dos vinhos que se poupa com respeito.

»Voluptuosidade: a grande felicidade, o símbolo da suprema felicidade. Porque a muitas coisas está o casamento prometido e mais do que o casamento.

»... a muitas coisas mais estranhas a si próprias do que o homem é em relação à mulher - e quem alguma vez compreendeu completamente a que ponto o homem e a mulher são estranhos um ao outro!

»Voluptuosidade: entretanto vou pôr cadeias em volta dos meus pensamentos e até em volta das minhas palavras: com medo de que os porcos e os exaltados irrompam pelos meus jardins.

Friedrich Nietzsche, Assim falou Zaratustra, (Lisboa, Publicações Europa-América, 1978), pp.185-186
Da Voluptuosidade (5)

Volúpia Cósmica:

"Cubro-te com o meu corpo e abrem-se-me universos inteiros, silenciosos, como uma porta de acesso a um jardim repentino. Acordo subitamente e estou de pé sobre ti, como uma torre, falando aos elementos, aos anões, às frágeis nebulosas, ao circo que cresce em ti e me afoga em floco. Sou arrastado para a frente, através de ti, como uma torrente furiosa, como uma peste, um fermento de agonia para a qual não há cruz, nem pregos, nem último acto, nem o véu rasgado no templo, nem angústia no jardim."

Lawrence Durrell, O Livro Negro de Lawrence Durrell, (Lisboa, Livros do Brasil, s/d), p. 284.



[A sexualidade] é o ponto de encontro de duas perfeições. O acto sexual é um acto de amor que liga [os amantes] intimamente ao processo cósmico total; não é uma luta de almofadas entre egos determinados a dominarem-se um ao outro.

Adaptado de Lawrence Durrel,Um sorriso nos olhos da alma,(Lisboa,Quetzal Editores, 1990).

"Ter sido amado - compreendia de repente que se tratava de um enorme cumprimento. E, no entanto, curiosamente, muitas vezes não tínhamos tido consciência de realmente ter feito ou não amor - tão transfigurado fora o encontro, tão densa a comunhão da presença e do tacto." ibidem, p.38.



Da Voluptuosidade (4)

Sensualismo Naturalista

Seguem-se quatro excertos da obra O Barão de Lavos, 1º volume da triologia do ciclo Patologia Social do escritor naturalista Abel Botelho. Trata-se de um dos mais conhecidos textos da ficcção portuguesa dos finais do século XIX e um dos mais característicos do “naturalismo português”, se é que se pode falar de um movimento literário naturalista português.Romance agora esquecido. Aquando da sua publicação foi objecto de escândalo e polémica, facto que o tornou uma dessas obras obrigatoriamente citadas por críticos e historiadores, mas desconhecidas do público.Por tudo isto e muito mais aconselho a sua leitura.

Por fim a baronesa cedeu, vencida do simpatismo sensual, prostada de fadiga. O efebo alcançara-a novamente e adstrigia-a contra o peito num abraço fervido, inclemente. Dava-lhe aos músculos uma têmpera de aço a rigidez impetuosa do desejo.
– Inevitável!- Elvira abandonou-se…Os olhos molharam-se-lhe, o rosto fez-se mais pálido, os pés tartamelearam um instante na alcatifa, desfalecidos. Doíam-lhe os bicos dos peitos, tinha frio nas fontes, o coração parava-lhe… Cingida sempre por Eugénio, lânguidamente recumbiu sobre a causeuse… e suplicava ainda:
— Não! Não! Eugénio…isso não!(…)

Desde esse dia uma fase nova se abriu, de comoções e turbulências, na vida regrada e simples da baronesa. Como um golpe de luz, numa tela de Velásquez, chispa de repente a dar valor às caóticas confusões do claro escuro, assim a ousadia de Eugénio veio aquecer e tornar férteis, vibrantes as modalidades daquela alma baça de burguesita, cujos valores sensoriais e afectivos, mercê das condições de educação e convivência, se tinham até ali conservado nulos, espatinados, surdos. O efebo foi da ânsia latente de gozar dessa branca mocidade, o Galvani afortunado. A sua amorosa investida foi o revelador de quanta sede de prazer bravejava ignorada na carne e no espírito da mulher do barão.(…)
Mal que o efebo, a horas próprias apontava junto da baronesa, ela atirava-se-lhe, tremendo, contra o peito apolíneo, numa ânsia vitoriosa e exultante, e colava os lábios aos lábios, sorvia-o, cingia-o, estrangulava-o, a desforrar-se na cachoante exaltação de um magnífico instante de loucura, dessa chateza dissaborida e mesquinha do seu viver interior. Gozavam… E depois dormente no abandono lânguido, feliz, na complacente lassidão em que os paroxismos do prazer nos amolentam, a baronesa demorava as mãos entre as mãos do efebo, sentava-se-lhe no colo, afagava-o e olhava-o longamente, numa expressão empanada e húmida, misto de gratidão e de ternura.(…)
Eugénio foi gradualmente, de sua banda, aquecendo e renitindo na frequentação amorosa da baronesa. Às audácias e apetites próprios da sua fresca juventude , ajuntava-se a acicatar-lhe o desjo o irritante prazer destes amores clandestinos, o receio, a precipitação, a incerteza, o acirrativo travor da dificuldade. Sempre que podiam, os dois amavam-se sem reservas, dias e dias de seguida, afastando o barão, distraindo os criados, de dia ou de noite, no primeiro minuto que pudessem subtrair ao chorrilho habitual da vida – com uma frequência, um furor, uma plenitude e uma audácia que passavam as raias da demência.

Abel Botelho, O Barão de Lavos, (Lisboa, Livros do Brasil, s/d), pp. 222-225.
Da Voluptuosidade (3)

Para o discípulo de Freud, Sandor Ferenzi, o amor seria um estado de hipnotização recíproca. O orgasmo constituiria um momento de tréguas no combate entre o homem e a mulher, que assim fruiriam um momento de felicidade e paz semelhante ao estado da primeira infância:

J' estime que la crainte et la séduction sont les deux moyens pour rendre docile une autre personne. Je les ai appelés respectivement hypnose paternelle et maternelle. On peut décrire l'état amoureux comme une hypnotisation réciproque, au cours de laquelle chaque sexe mettra en avant ses propres moyens de combat : l'homme surtout sa force corporelle, intellectuelle et morale, grâce à laquelle il en impose; la femme sa beauté et ses autres avantages, qui lui permettent de régner aussi sur le soi-disant sexe fort. Dans l'état de conscience, proche du sommeil, ou transporte l'orgasme, ce combat s'apaise provisoirement, et l'homme comme la femme jouissent pour un moment du bonheur de l'état de prime enfance qui ne connaît ni dêsirs ni luttes.

Sandor Ferenzi, "Masculin et Féminin" in Thalassa, (Paris, Payot, 2002), pp.41-42
Da Voluptuosidade (2)

Fetichismo, Frigidez e Onanismo

A propósito do fetichismo, afirmou Egas Moniz, na obra, "A Vida Sexual:

"O próprio Descartes era feiticista de uma deformidade feminina. Só se excitava com as mulheres vesgas, e explicava isso pela razão de ter êsse defeito a primeira mulher com quem tivera relações sexuais."

Egas Moniz, A Vida Sexual, (Lisboa, Casa Ventura Abrantes, 1927), p. 557.

Quem diria, Cartesius, como o designava Schopenhauer, era um original!

Continuem a pasmar com as seguintes afirmações de Freud:

Consideramos como reacção normal que a mulher, em subsequência à introdução do pénis, abrace o homem, apertando-o contra ela no auge da satisfação, e observamos essa atitude como expressão de sua gratidão e prova de sujeição duradoura. Mas sabemos que não é regra, de maneira alguma, que a primeira ocasião do acto sexual conduza a esse comportamento; muito frequentemente significa apenas desapontamento para a mulher, que permanece fria e insatisfeita e, geralmente, requer bastante tempo e frequente repetição do acto sexual, antes que também comece a encontrar satisfação no mesmo. Há uma sucessão ininterrupta dos casos de simples frigidez inicial que logo desaparece, até a triste manifestação de permanente e obstinada frigidez que nenhum esforço carinhoso da parte do marido pode vencer. Acredito que essa frigidez nas mulheres ainda não é suficientemente compreendida e, excepto para aqueles casos que devem ser atribuídos à potência insuficiente do homem, clama por elucidação, possivelmente através de fenómenos coligados.

Freud, "O Tabu da Virgindade" in Cinco Lições de Psicanálise, Contribuições à Psicologia do Amor, (Rio de Janeiro, Imago, 1997), p. 103.

E, segue-se mais um extracto da Vida Sexual de Egas Moniz, desta feita sobre o onanismo a "perversão sexual primeiro conhecida e divulgada" ou a "perturbação genésica mais espalhada", vulgo a masturbação. Não será de espantar o sucesso que esta obra teve aquando da sua publicação e as muitas reedições...

Nos países orientais, onde as mulheres parecem ser mais lascivas, devido talvez à acção da temperatura, regime alimentar e vida excitante dos haréns , onde não têm outro fim em vista senão o prazer sexual, existe um pequeno aparelho composto de duas esferas: uma (a fêmea) é completamente ôca e outra (o macho) é uma esfera maciça que se justapõe à primeira no canal vaginal de forma a ficar a esfera ôca juntodo colo uterino. A maciça segue-se-lhe na vagina. O menor movimento das coxas provoca, por meio do rolamento, uma vibração na esfera cheia que imediatamente se comunica à outra que por sua vez a transmite ao útero. As esferas têm a grandeza de ovos de pomba. Conta-se que a excitação genésica experimentada é grande sendo inútil o movimento da bacia para obter as vibrações das esferas. Depois das primeiras vibrações as próprias contracções do canal vaginal bastam para entreter o frémito lento e contínuo, que bem depressa arrasta a mulher ao espasmo genésico.

Egas Moniz, AVida Sexual, (Lisboa, Casa Ventura Abrantes, 1927), pp. 515-516.

É de salientar o entusiasmo, e a abundância de pormenores evidenciados pelo autor desta sugestiva descrição.

Agora começo a compreender o significado oculto da cena dos ovos no filme O Império dos Sentidos...

Entretanto, surgiram-me algumas dúvidas: Será que os protagonistas desconheciam este pequeno aparelho?Este pequeno aparelho proporcionará mais prazer do que uma afamada peça de lingerie que está apetrechada com um estimulador do clítoris?
Da Voluptuosidade (1)

De como se deve tratar a Voluptuosidade, segundo S.Francisco de Assis

"3. Com toda a austeridade se vigiava constantemente a si mesmo, pondo o máximo cuidado em conservar a pureza da alma e do corpo. Já nos primórdios da sua conversão lhe acontecera ter de se lançar em pleno Inverno numa poça cheia de água gelada, para conseguir dominar por completo o inimigo que todo o homem traz dentro de si, e para preservar do incêndio da voluptuosidade o vestido branco da inocência. Para um homem espiritual, é muito mais fácil suportar o frio no corpo do que o mais ligeiro ardor carnal.

4. Estava o Santo a orar certa noite na sua pequena cela, junto do ermitério de Sartiano, quando o antigo inimigo veio ter com ele, chamando-o três vezes:
- Francisco! Francisco! Francisco!
- Que é que queres? - perguntou o Santo.
E o demónio, na sua velha astúcia:
- Não há no mundo nenhum pecador a quem Deus não perdoe, se se converter; mas quem se matar pela dureza da penitência, esse é que nunca jamais alcançará misericórdia.
Mas logo o homem de Deus reconheceu por divina revelação a cilada do inimigo, que pretendia dessa maneira aliciá-lo à boa vida. Abriu-lhe os olhos o que aconteceu em seguida. Logo após o citado diálogo, por instigação daquele cujo sopro faz arder as brasas (11), viu-se Francisco a braços com uma violenta tentação carnal. Amante como era da castidade, logo que deu conta, tirou a roupa e começou a chicotear-se violentamente com uma corda, ao mesmo tempo que dizia:
- Anda, irmão asno! Assim é que tu deves estar! Assim é que deves apanhar! A túnica é um hábito religioso, um símbolo de santidade; um vicioso não tem direito de a roubar! Se queres ir onde pensas, vai assim como estás!
Mas não ficou por aí. Num ímpeto de fervor de espírito, sai da cela e vai para o jardim e rebola na grossa camada de neve o corpo nu. Depois molda com as mãos sete bonecos de neve, põe-se diante deles e interpela o irmão asno:
- Aí tens! Este maior é a tua mulher; estes quatro são dois filhos e duas filhas; os outros dois são o criado e a criada - porque não podes passar sem criados! Anda! Vai vesti-los, senão morrem de frio! Mas se te aborreces de tanta solicitude que eles precisam, então empenha toda a tua solicitude em servir só a Deus.
O tentador, vencido, bateu em retirada; e o santo regressou à sua cela vitorioso. O frio exterior a que se submetera como castigo extinguira o fogo interior da concupiscência, de tal forma que nunca mais sentiu tentações desse gênero.Certo Irmão que a essa hora ainda se encontrava em oração, presenciou todo o espectáculo, graças à claridade do luar. Sabendo disso o homem de Deus, contou-lhe o drama da tentação que tivera, e pediu-lhe que enquanto ele vivesse não contasse esse episódio a ninguém."

(11) Job 41, 12.569"

5. Ensinava ele que não basta destruir os vícios e reprimir os ímpetos da carne: mais que isso, era preciso vigiar muito cuidadosamente os sentidos exteriores, pelos quais pode entrar a morte para a alma. Mandava evitar com todo o cuidado o trato familiar, as conversas e o olhar para mulheres, que para muitos são ocasião de ruína; "intimidades dessas, afirmava ele, perdem muitas vezes os espíritos fracos, e outras vezes enfraquecem os fortes. A não ser para um espírito muito bem formado, não é mais fácil falar-lhes sem se ser contaminado do que andar sobre fogo sem queimar os pés (12), como diz a Escritura". E ele dava o exemplo: desviava os olhos para não verem essa vaidade (13). De tal modo que, como confidenciou uma vez a um companheiro, praticamente não conhecia de vista quase nenhuma mulher (14). Não é prudente, pensava ele, captar as imagens dessas formas femininas, que podem reavivar a fogueira duma carne indómita ou macular a alvura duma alma inocente. Afirmava mesmo que falar a uma mulher era um sintoma de frivolidade, a não ser em confissão ou para lhe dirigir breves palavras de exortação, tendo em conta o bem da sua alma e o conveniente decoro. "Que assuntos é que um religioso terá a tratar com uma mulher, a não ser quando ela pede para receber o sacramento da Penitência ou algum conselho para viver melhor? Quando alguém está muito seguro de si, não liga tanto ao inimigo; e o demónio é daqueles que quando se lhes dá a mão, agarram logo o braço).

6. Quanto à ociosidade, considerava-a como a sentina de todos os maus pensamentos, que a todo o custo se devia evitar, mostrando com o seu exemplo como domar a carne rebelde e preguiçosa com contínuas disciplinas e trabalhos úteis (15). Chamava ao corpo o "Irmão asno", dando a entender que era preciso carregá-lo bem, açoitá-lo melhor e tratá-lo mal."

(12) Pr 6, 28.
(13) SI 118, 37.
(14) Duma ou outra reteria certamente as feições e com grande alegria de coração. Celano menciona Clara e Jacoba de Settesoli (cf. 2 C 112).
(15) Não forçosamente trabalhos manuais. O Poverello sabia respeitar todas as vocações. Chega mesmo a enumerar quatro ocupações no viver quotidiano dos irmãos: a oração, a pregação, o trabalho e a mendicância.


S.Boaventura, "Legenda Maior - S. Boaventura" in S. Francisco de Assis, Fontes Franciscanas, Editorial Franciscana, Braga, 1982, pp.568-569

10.12.04


Monet, Le Jetty dans l'Havre Posted by Hello

A manhã cinzenta evoca cais, portos. Os dias em que na avenida marginal de Ponta Delgada contemplava tempestades, barcos e ondas a trepar o paredão da doca.
Impressões


No jardim, em frente ao mercado, as laranjeiras carregadas de frutos reluzem, sob o sol de Dezembro e no meu olhar deslumbrado.

9.12.04

Algumas Notas a Propósito da Privação Sensorial

1. Um mundo de cores, cheiros, dores, sabores, sons e texturas ...

Os sentidos constituem os principais intermediários entre as necessidades internas do indivíduo e o ambiente. Assim sendo, qualquer privação sensorial irá reflectir-se no equilíbrio emocional do ser humano, embora essa repercussão varie de acordo com as características de cada pessoa, e não se manifeste de forma sistemática.

A privação sensorial pode provocar estados alterados de consciência: alucinações, psicose passageira e distúrbios mentais temporários. Esta situação verificou-se, por exemplo, nos casos de indivíduos condenados a longos períodos em solitárias, sendo este o castigo mais temido até mesmo pelos reclusos mais resistentes. O isolamento total constitui uma das formas mais eficazes de tortura, para obter confissões.

De acordo com Eric Berne*, a privação emocional e sensorial poderá produzir modificações no organismo, se parte do "sistema reticular" não for suficientemente estimulado, as células novas poderão degenerar-se. A partir destes dados observacionais, o referido autor estabeleceu uma relação biológica entre a privação afectiva e sensorial e as consequentes alterações degenerativas. Berne comparou a ausência de estímulos ou de relacionamento com a fome, no respeitante à sobrevivência do organismo.

Segundo Berne o "estímulo" deve ser entendido como a "unidade básica da interacção social" (Berne, 1977, p. 19). "Uma troca do estímulos constitui uma transacção, que por sua vez é a unidade básica do relacionamento social" (Berne, ibidem). No que concerne aos Jogos Psicológicos, Berne defendeu que "qualquer relacionamento social representa uma vantagem sobre a ausência de relacionamento" (Berne, ibidem). Berne fundamentou esta tese nas experiências de S. Levine com ratos, através das quais se observaram alterações favoráveis no desenvolvimento físico e químico do cérebro pela estimulação do contacto físico. Concluiu-se que quer os estímulos delicados , quer os dolorosos foram igualmente eficientes, mantendo a saúde dos animais, ao contrário da sua ausência que provocaria consequências negativas.

2. O Tanque de Privação Sensorial

Durante a Guerra Fria, em 1954, o neurologista John Lilly pesquisava no Instituto Nacional de Saúde Mental , perto de Washington. Na época, as técnicas de lavagem cerebral russas e coreanas despertavam grande receio. Neste sentido, Lilly decidiu fazer de si próprio objecto de uma experiência de "privação sensorial". Mergulhou num tanque com água, a 34 graus celcius , à prova de som e gravidade, onde flutuou, na escuridão, durante longas as horas - esta experiência foi registada no filme "Alterated States" - , as versões posteriores deste aparelho foram designadas por "tanque de privação sensorial." Todavia, Lilly discordou da designação, segundo o investigador, em lugar de privação, teria ocorrido um novo tipo de sensações resultantes da ausência de estimulação externa. No entender de John Lilly o cérebro teria processado informação interna.
O neurologista descreveu, então, a ocorrência de estados semelhantes à catalepsia, de experiências místicas, de uma sensação de estar sintonizado com redes de comunicação fora do alcance da consciência comum, e até mesmo de experiências que podem ser consideradas alucinatórias. É evidente que quando se recebe um mínimo absoluto de estímulos externos, a pessoa é submetida a uma torrente de experiências que se situam num nível muito diferente da rotina quotidiana. Logo, o indivíduo saudável não sucumbiria à homeostase, num equilíbrio passivo.

3. Privação Sensorial e Experiências Místicas

Também há quem se sujeite à privação sensorial, precisamente, com o objectivo de desencadear vivências místicas.

*Criador da análise transacional.

Eric Berne, Os Jogos da Vida, (Rio de Janeiro, Editora Artenova S.A., 1977).
Eric Berne, Sexo e Amor, (Rio de Janeiro, José Olympio Editora,1988).

5.12.04

Impressões

Com o encantamento, de sempre, espreito o rio através das frestas das ruas.

Agradou-me voltar a apreciar o trabalho de Kar Wai Wong e a actuação de Tony Leung Chiu Wai em 2046.


"Nous avons tous besoin d'un endroit où stocker, voire cacher, souvenirs, pensées, impulsions, espoirs et rêves. Ce sont des aspects de nos vies que nous ne pouvons résoudre ou plutôt sur lesquels nous ne pouvons agir, mais en même temps nous redoutons de nous en délester. Pour certains cet endroit est un lieu réel, pour d'autres un espace mental, pour un plus petit nombre ce n'est ni l'un ni l'autre. 2046 est un projet entamé il y a quelque temps. Le chemin pour achever le film fut long et riche en péripéties. Tout comme les souvenirs que nous cherissons, il est difficile de s'en défaire." Kar Wai Wong


2.12.04

Do Prazer de Viver

No esplendor desta manhã, tão fria, concentro-me nas minhas obsessões perceptivas. Sinto-me atoleimadamente feliz, pela existência daqueles objectos de representação - como não defendo a posição idealista face à natureza do conhecimento, não duvido da sua realidade. É também causa deste estado de alma ir encontrar-me, esta tarde, com uma amiga muito especial, e, ainda porque vou dedicar algum tempo à busca de uma série de ingredientes como arroz de grão curto, algas nori e konbu, Kampyo, gari, sake, su, shiitake, wasabi, etc e tal, para o Savarin preparar um jantar de sushi , a todos os títulos memorável, passe a presunção da prospectiva.

Outono Posted by Hello
Tokiwa Mountain's
pine trees are always green -
I wonder, do they recognize autumn
in the sound of the blowing wind?



Ono No Komachi
Provocações - Da Sexualidade

"A sexualidade, sempre tão importante para mim - e continua a ser - cada vez me parece mais vazia de sentido quando não há outro modo de diálogo e de encontro, embora seja muito difícil resistir ao desejo imediato." António Lobo Antunes, Entrevista ao Diário de Notícias de 9/11/2004, p.2.


Que me desculpe o António Lobo Antunes, mas a sexualidade tem sentido em si mesma, e não estou a falar dos imperativos da reprodução.

A sexualidade é antes de tudo satisfação do desejo, como se afirma, aliás, na última frase. O cerne do problema reside na sua hipervalorização. Espera-se da sexualidade o que ela não pode dar. Uns procuram no sexo o paraíso perdido, outros atribuem-lhe a causa de todos os males, outros fazem dela um instrumento de poder e de manipulação.

É evidente que a sexualidade é uma fonte de gratificação e de prazer ou um instrumento de sofrimento e humilhação. Pode ser uma forma de de comunhão entre pessoas que se amam, quiçá um meio de união ao cosmos, uma forma de conhecimento, uma experiência mística... mas porque razão se há-de esperar de cada acto sexual uma revelação?

1.12.04


Da Morte (21)

Encerro este primeiro ciclo sobre a morte com um agradecimento, muito sentido, à Soledade pela Dedicatória e pelo poema de Manuel Bandeira:

PREPARAÇÃO PARA A MORTE

A vida é um milagre.
Cada flor,
Com sua forma, sua cor, seu aroma,
Cada flor é um milagre.
Cada pássaro,
Com sua plumagem, seu vôo, seu canto,
Cada pássaro é um milagre.
O espaço, infinito,
é um milagre.
O tempo, infinito,
O tempo é um milagre.
A memória é um milagre.
Tudo é milagre.
Tudo, menos a morte.
– Bendita a morte, que é o fim de todos os milagres.

Manuel Bandeira, Estrela da Tarde, in Estrela da Vida Inteira, Ed. Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1993
Da Morte (20)

Último poema

Julga-se, que o poema, a seguir copiado, teria sido o último poema escrito por Izumi Shikibu, no seu leito de morte, aproximdamente, em 1034:

The way I must enter
leads through darkness to darkness -
O moon above the mountains' rim,
please shine a little further
on my path.


Izumi Shikibu, The Ink Dark Moon, (New York, Vintage Books, 1990), p.157
Da Morte (19)

Uma morte santa:

O Falecimento de um Mestre

O ilustre mestre zen Bankei morreu num templo de província na última década do século XVII. Perto do fim, os discípulos pediram-lhe um poema de despedida, segundo o antigo costume zen.
O mestre disse: "Estou neste mundo há setenta e três anos, dos quais passei quarenta e quatro a ensinar Zen para libertar os outros. Tudo o que vos referi em mais de meia vida é o meu verso de despedida. Não há outro verso de despedida a compor. Por que havia eu de imitar todos os outros e fazer uma confissão no meu leito de morte?"
Tendo dito isto, o grande mestre zen Bankei faleceu, sentado em perfeita postura


Thomas Cleary, Novos Contos Zen, (Lisboa, Presença, 1995), p.29