30.11.04


Da Morte 18

Uma possível resposta aos comentários

Encaro a morte como a dissolução no todo, logo como um estado de fusão na natureza. Daí que a morte em si mesma me pareça um estado desejável de eterno vazio. Afinal, mesmo para quem não acredita no divino, a morte não é o fim definitivo, é apenas mais uma metamorfose.


A maior parte das religiões fez da morte um instrumento de persuasão através do temor - o célebre argumentum ad terrorem - o que contribuiu para criar uma imagem aterradora de um fenómeno tão natural quanto o nascimento. E sabemos quão complexo e difícil é o nascimento de uma criança.

Os modos de morrer, esses sim, podem ser assustadores. Concordo em parte com as "Musas Esqueléticas", não "aceito" a morte dos outros, em particular a morte de quem se ama, ou de quem se espera muito, ou ainda, de quem é sujeito a formas de morte violentas e indignas.


A estética do processo de putrefacção também suscita náusea, mas os processos de decomposição são intrínsecos à vida.

Também gosto muito do poema do Ruy Belo:

Um dia não muito longe não muito perto

Às vezes sabes sinto-me farto
por tudo isto ser sempre assim
Um dia não muito normal um dia quotidiano
um dia não é que eu pareça lá muito hirto
entrarás no quarto e chamarás por mim
e digo-te que tenho pena de não responder
de não sair do meu ar vagamente absorto
farei um esforço parece mas nada a fazer
hás-de dizer que pareço morto
que disparate dizias tu que houve um surto
não sabes de quê não muito perto
e eu sem nada pra te dizer
um pouco farto não muito hirto vagamente absorto
não muito perto desse tal surto


queres tu ver que hei-de estar morto?

"Um dia não muito longe não muito perto", Outono, in Homem de Palavra[s]

25.11.04

Da Morte (17)


É impossível falar sobre a morte e não pensar no sublime Requiem de Mozart.

21.11.04

Da Morte (16)


Duas obras fundamentais sobre a morte:

Edgar Morin, O Homem e a Morte, (Lisboa, Publicações Europa-América, 1988).
Original: (Paris, Editions Du Seuil, 1970)

Philippe Ariès, O Homem perante a Morte, (Lisboa, Publicações Europa-América, 1988), 2 volumes.

Original:(Paris Editions Du Seuil, 1977)
Da Morte (15)

A morte absurda, num dos meus poemas preferidos desde adolescente:

Receita para fazer um herói

Tome-se um homem,
Feito de nada, como nós,
E em tamanho natural.
Embeba-se-lhe a carne,
Lentamente,
Duma certeza aguda, irracional,
Intensa como o ódio ou como a fome.
Depois, perto do fim,
Agite-se um pendão
E toque-se um clarim.

Serve-se morto.


Reginaldo Ferreira, "Poemas," in Jorge de Sena (ed), Líricas Portuguesas, (Lisboa, Edições 70, 1983), 2º vol., p.46
Da Morte (14)


Klimt, Vida e Morte


Death

Nor dread nor hope attend
A dying animal;
A man awaits his end
Dreading and hoping all;
Many times he died,
Many times roses again.
A great man his pride
Confronting murderous men
Casts derision upon
Superssion of breath;
He knows death to the bone -
Man has created death.


W.B.Yeats, Poemas, (Lisboa, Assírio & Alvim, 1988), p.62

Da Morte (13)

"Só há um problema filosófico verdadeiramente sério: é o suicídio" Albert Camus (1)

Lucius Annaeus Seneca (4 a.C.-65 d.C.) Não deixa de ser irónico que o estóico Séneca, tenha sido condenado ao suícidio por Nero.


Cristoforo Savolini
(Cesena 1639 - Pesaro o Cesena? 1677) La Morte di Seneca, Cassa di Risparmio di Cesena

"A questão não é morrer cedo ou tarde, e sim de morrer bem ou morrer doente. E morrer bem significa ter a sorte de escapar do perigo de viver doente."

Cartas a Lucílio - Livro VIII - Carta 70

"Tu receias a morte, tal como receias os boatos: há coisa mais ridícula do que ver um homem com medo... de palavras? O filósofo Demétrio costumava dizer, com humor, que tanta importância dava aos clamores dos insensatos como ao ruído que produzimos no baixo ventre!... "Que diferença me faz" - dizia ele "que o som saia por cima ou por baixo?!"

Cartas a Lucílio - Livro XIV - Carta 91



Cristoforo Serra
(Cesena 1600-1689), Suicidio di Lucrezia, Cassa di Risparmio di Cesena

(1) Albert Camus, O Mito de Sísifo, (Lisboa, Livros do Brasil, s/d), p. 13.

20.11.04

Da Morte (12)

Declarou Jorge Luis Borges:

"- Acredita que há outra vida?
- Não. Confio em que não exista nenhuma outra e não me agradaria que existisse. Quero morrer inteiro. Nem sequer me agrada a ideia de que me recordem depois de morto. Espero morrer, esquecer-me e ser esquecido."

Jorge Luis Borges entrevistado por Franco Maria Ricci

María Esther Vázquez, Eu, Borges, Imagens Memórias Diálogos, (Lisboa, Editorial Labirinto, 1986), p. 59

E.Munch, Junto ao Leito de Morte, (cerca de 1915). Abordagem expressionista de um tema recorrente na sua obra. Cada figura representa a morte. Posted by Hello

19.11.04

Da Morte (10)

O que pensam os filósofos ...

A filosofia como preparação para a morte:

[Sócrates] - "(...) O comum das pessoas está provavelmente, longe de presumir qual o verdadeiro alvo da filosofia, para aqueles que porventura o atingem, e ignoram que a isto se resume: um treino de morrer e estar morto. Mas, uma vez que assim é, custaria a compreender que alguém passasse toda uma vida sem outra aspiração, para se revoltar justamente na iminência dessa realidade, que há tanto tempo era o objecto exclusivo do seu empenho e dos seus esforços..."

Platão, Fédon, 64, (Lisboa, Lisboa Editora, 1999), p.49.

O homem: ser-para-a-morte

De acordo com Heidegger o homem é um ser-para-a-morte. Todavia, a morte não é o acontecimento ôntico que põe fim à vida, mas o advento interior à ek-sistência, a sua inalienável possibilidade. A concepção metafísica da morte como uma separação da alma e do corpo não contempla esta experiência. A morte entendida enquanto separação, é, por assim dizer, a morte da morte, ou seja o fim do processo do ser-para-a-morte. O paradoxo do ser humano reside no facto que a sua possibilidade mais próxima é simultaneamente a impossibilidade mais radical do seu ser, pois morrer é ser eliminado do ser-no-mundo e do ser-com-os-outros.

Ver Martin Heidegger, Être et Temps, (Paris, Gallimard, 1964), pp.142-159.


Da Morte (9) . E. Munch, A Morte na Casa da Doente (1894-1895). Posted by Hello

Da Morte (8) . Morte e Milagre - El Greco, O Enterro do Conde de Orgaz, Toledo (1586), Igreja de S.Tomé. Posted by Hello
Da Morte (7)

A Morte cantada por Jacques Brel em 1959:

La Mort

La mort m'attend comme une vieille fille
Au rendez-vous de la faucille
Pour mieux cueillir le temps qui passe
La mort m'attend comme une princesse
A l'enterrement de ma jeunesse
Pour mieux pleurer le temps qui passe
La mort m'attend comme Carabosse
Al'incendie de nos noces
Pour mieux rire du temps qui passe


Mais qu'y a-t-il derrière la porte
Et qui m'attend déjà
Ange ou démon qu'importe
Au devant de la porte il y a toi


La mort m'attend comme une vieille fille
Au rendez-vous de la faucille
Pour mieux cueillir le temps qui passe
La mort m'attend comme une princesse
A l'enterrement de ma jeunesse
Pour mieux pleurer le temps qui passe
La mort m'attend comme Carabosse
A l'incendie de nos noces
Pour mieux rire du temps qui passe


Mais qu'y a-t-il derrière la porte
Et qui m'attend déjà
Ange ou démon qu'importe
Au devant de la porte il y a toi

La mort attend sous l'oreiller
Que j'oublie de me réveiller
Pour mieux glacer le temps qui passe
La mort attend que mes amis
Me viennent voir en pleine nuit
Pour mieux se dire que le temps passe
La mort m'attend dans tes mains claires
Qui devront fermer mes paupières
Pour mieux quitter le temps qui passe

Mais qu'y a-t-il derrière la porte
Et qui m'attend déjà
Ange ou démon qu'importe
Au devant de la porte il y a toi

La mort m'attend aux dernières feuilles
De l'arbre qui fera mon cercueil
Pour mieux clouer le temps qui passe
La mort m'attend dans les lilas
Qu'un fossoyeur lancera sur moi
Pour mieux fleurir le temps qui passe
La mort m'attend dans un grand lit
Tendu aux toiles de l'oubli
Pour mieux fermer le temps qui passe


Mais qu'y a-t-il derrière la porte
Et qui m'attend déjà
Ange ou démon qu'importe
Au devant de la porte il y a toi

18.11.04

Da Manhã

Qual D.Sebastião o castelo perdeu-se na névoa.
Da morte (6)

A perspectiva de escolher a morte pode ser reconfortante...


"157) A ideia do suicídio é uma grande consolação: ajuda a passar as noites más."

Nietzsche, Para Além do Bem e do Mal, (Lisboa, Guimarães Editores, 1982), p.87

Da Amizade

(Para A.)

Uma pausa no tema dominante dos últimos dias, para louvar a excelência da Amizade, através das palavras de Voltaire:

Contrato tácito entre duas pessoas sensíveis e virtuosas. Sensíveis, porque um monge, um solitário, pode não ser ruim e viver sem conhecer a amizade.Virtuosas, porque os maus não adjungem mais que cúmplices. Os voluptuosos careiam companheiros de devassidão. Os interesseiros reúnem sócios. Os políticos congregam partidários. O comum dos homens ociosos mantêm relações. Os princípes têm cortesãos. Só os virtuosos possuem amigos. Cétego era cúmplice de Catilina, Mcenas era cortesão de Octávio. Mas, Cícero era amigo de Ático.
Que estabelece esse convénio entre duas almas ternas e honestas? As obrigações são mais ou menos intensas consonte a sensibilidade de uma e outra e o número de serviços prestados, etc.

Voltaire, Dicionário Filosófico, (São Paulo, Editora Martin Claret, 2002), p.23.
Da Morte (5)

As afirmações, a seguir transcritas, do monge católico americano Thomas Merton sobre a morte, parecem-me plenas de sentido e sabedoria mesmo para agnósticos, como eu.

"Death is the point at which life, by freely and totally giving itself, enters into this ground and this infinite act of love. Death is the point at which life can, if we so choose, became perfectly real (...) Death is, then, the point at which life can attain its pure fulfillment. Death brings life to its goal. But the goal is not death - the goal is perfect life."

Thomas Merton, "Seven Words," in Love and Living, (London, Sheldon Press, 1979), pp.104-105

17.11.04

Da Morte (4)

A morte é no dizer dos existencialistas, uma situação-limite, como tal há que reflectir sobre ela, e não fugir dela.

À Morte

Tu hás-de vir, dê por onde der - por que não já?
Espero por ti - e tão difícil me é viver.
Apaguei a luz e abri-te a porta,
a ti, ó tão simples e maravilhosa.
Toma o aspecto que quiseres,
irrompe como um projéctil envenenado ou avançasorrateira e barra na mão como o bandido experinte,
ou envenena-me com ar de tifo.
Vem como conto de fadas que inventaste
e toda a gente conhece até à náusea -
para que eu veja o cocoruto do boné azul
e o porteiro pálido de medo.
Tanto me faz. Ferve o Ienissei.
Brilha a estrela polar
e a luz azul dos olhos amados
anuvia-se do derradeiro horror.


Anna Akhmátova, Só o Sangue Cheira a Sangue, (Lisboa, Assírio e Alvim, 2000), p.99.

Da Morte (3) - Egon Schiele, A Morte e a Rapariga, (1951). Óleo sobre tela, 150x180 cm. Österreichische Galerie, Viena. Posted by Hello
Da Morte (2)

Confesso que a morte me fascina, embora certos modos de morrer me atemorizem, não o vou negar. Mas, desde que li, ou ouvi dizer que um ser humano quando é atacado por um urso, por exemplo, liberta endomorfinas e deixa de sentir a dor...
A propósito, o primeiro e o último sonetos, da apologia à morte da autoria de Antero de Quental:

Elogio da Morte

I

Altas horas da noite, o Inconsciente
Sacode-me com força, e acordo em susto.
Com se o esmagassem de repente,
Assim me pára o coração robusto.


Não que de larvas me povoe a mente
Esse vácuo nocturno, mudo e augusto,
Ou forceje a razão por que afugente
Algum remorso, com que encara a custo...

Nem fantasmas nocturnos visionários,
Nem desfilar de espectros mortuários,
Nem dentro em mim terror de Deus ou Sorte...

Nada! o fundo de um poço, húmido e morno,
Um muro de silêncio e treva em torno,
E ao longe os passos sepulcrais da Morte.

VI

Só quem teme o Não-Ser é que se assusta
Com teu vasto silêncio mortuário,
Noite sem fim, espaço solitário,
Noite da Morte, tenebrosa e augusta...

Eu não: minh'alma humilde mas robusta
Entra crente em teu átrio funerário:
Para os mais és um vácuo cinerário,
A mim sorri-me a tua face adusta.


A mim seduz-me a paz santa e inefável
E o silêncio sem par do Inalterável,
Que o envolve o eterno amor no eterno luto.

Talvez seja pecado procurar-te,
Mas não sonhar contigo e adorar-te,
Não-Ser, que és o Ser único absoluto.

Antero de Quental, Sonetos, (Lisboa, Editores Reunidos, 1994), pp. 151 e 156

16.11.04

Da Morte

"A morte é a transformação, a expulsão do princípio individual, que entra numa nova aliança, mais tolerável e melhor."


"A doença, como a morte, faz parte dos prazeres do homem."

Novalis, Fragmentos, (Lisboa, Assírio e Alvim, 1986), pp. 26 e 30.

14.11.04

Olhar

Na doçura do teu olhar descubro o melhor de ti e de mim.
As Histórias da Avó (3)

Natividade casou com um bom homem, não com quem amava. As causas desta escolha não se deveram a uma qualquer imposição familiar, mas aos seus princípios de conduta.
O objecto do seu desvelo pareceu-lhe indigno de o ser, porque numa das muitas carta trocadas mencionou a fábrica, já em decadência, e sugeriu a sua remodelação depois do casamento. Segundo o noivo a fábrica voltaria ao esplendor dos velhos tempos. Em resposta, Natividade terminou o noivado alegando ser o interesse material o móbil das suas núpcias. Na penumbra do quarto ouviu-se um leve suspiro.

11.11.04

Destaque

Desde há muito, dentro de uma concepção virtual do tempo, acompanho, assiduamente e com gosto, o blogue Linha de Cabotagem. É, também um blogue para ler com atenção, sentir e reflectir sobre o que por lá se edita.
A propósito do post sobre o Convento de Mafra, na verdade, visitar o Convento de Mafra é uma experiência inolvidável. A perspectiva dos longos corredores e a Biblioteca são de cortar a respiração.

Parabéns Soledade !!!

Pelo aniversário do Nocturno com Gatos, um blogue para ler sempre, sentir e pensar.

Impressões

Um bando de plátanos doura o cinza do céu à esquina da escola.

Aos quase, quase, quase, 43 anos - a completar dia 26 - descubro a harmonia com o mundo, horizonte longínquo desde a adolescência.

Joseph Beuys: "Nao trabalho com símbolos, mas com materiais." Posted by Hello
O que faz de um objecto uma Obra de Arte?
Joseph Beuys

Na mesma revista, de onde transcrevi o artigo sobre Velazquez, há também um texto sobre um dos maiores artistas plásticos do século XX Joseph Beuys, da autoria de Norval Baitello JR. onde se narra a seguinte situação :

"A BANHEIRA"

Na cidade de Leverkusen­- Altenrath, R. F. Alemanha, no ano de 1973, em uma festa do Partido Social De­mocrata (SPD), realizada no Museu Schloss Mors­broich, necessitavam as damas organizadoras da festividade de um recipiente para lavar os copos de cerveja. Após alguma bus­ca, foi encontrada nó de­pósito do museu uma pe­quena banheira de bebê, antiga, com faixa usada para enrolar o umbigo de recém-nascidos, curativos, uma bolota de gordura e creme de vaselina. Não vacilaram em limpar a ba­nheira de todo aquele lixo, sem ao menos de longe imaginar que viriam a ser processadas por destruir uma obra do famoso Jo­seph Beuys, pela qual te­riam que pagar na justiça a bagatela de 80 mil mar­cos alemães (hoje aproxi­madamente 40 mil dóla­res).
Beuys a identificara com sua pró­pria banheira quando be­bê e resolvera reconstruir sua própria história, a partir dos objetos relacio­nados com esta fase de desenvolvimento do re­cém-nascido. Novamente aparece a importância dos materiais imediatamente associados ao nascimento - ao umbigo: o algodão da faixa, a faixa em si, o creme de vaselina, a ba­nheira, todos eles impor­tantes objetos na transmis­são e/ou na conservação
do calor. E por último, o material não diretamente associado ao nascer, o bloco de gordura, para Beuys e sua história, signi­fica o renascer.


Norval Baitello JR, "Joseph Beuys,"Galeria, 17, (1989), 111-112
Dia de S.Martinho

Romãs, castanhas, batatas doces, nozes, marmelos e plátanos iluminados.
O coração em festa.

Velazquez, A Infanta Margarida, 1650 (?), Col. Kunsthistorisches Museum, Vienna. Posted by Hello

Velazquez, Luis de Góngora, 1922, Col. Museum of Fine Arts, Boston Posted by Hello
Da Pintura e dos Pintores

Velazquez

Transcrevo, com ligeiras adaptações, um artigo de que gosto muito de Luiz Marques, Doutor em História de Arte, publicado na revista brasileira, Galeria:



Velásquez

"Vencido de la edade sentí mi espada
y no hallé cosa en qué po­ner los ojos
que no fuese recuerdo de la muerte"

É um convite à fantasia imaginar a convivência entre Velázquez e Que­vedo ou entre o pintor e Góngora, de que resultam retratos famosos, um deles conhecido hoje ape­nas através de cópias de época, mas o outro, o de Góngora, uma terrível obra-prima de "severi­dad", de uma aspereza quase insustentável ao olhar (desde 1931, no Mu­seu de Boston); todavia, nem aqui estamos li­vres de uma contradição, e talvez a mais interessante, entre a pesquisa formal do artista e a forma diversa como a qualificaram os críti­cos da época. E, é justa­mente do convívio com Quevedo que vemos surgir, não apenas um apelo à fantasia, mas, sobretudo, uma primeira interpretação moderna da poética de Velázquez. Esta última evolui, como se sabe, a uma velocidade vertiginosa, desde o pri­meiro período sevilhano e caravaggesco stricto sen­su (1617-1622), que cul­mina justamente no retrato de Góngora, de 1622, passando pelo período "cinza" dos primeiros anos madrilenos, do qual "Olivares" (…)é um dos momentos mais significativos, até a se­gunda viagem à Itália (1649), que abre a última década de sua actividade, o das mais prestigiosas obras-primas: a "Vénus ao Espelho", os retratos de Inocêncio X (ferozmente copiado por Bacon), de Mariana da Áustria, da In­fanta Margarita, do prín­cipe Felipe Próspero, de Feli­pe IV como" condottiero" (ou de seus últimos bustos evanescentes), do "Anão inglês com cão" e, enfim, "Las Meninas", de 1656, e "Las Hilanderas", de 1657, no Prado. Ao longo dessas mutações estilísticas, há talvez uma única cons­tante: a rarefacção pro­gressiva do em pasto, a pincelada mais e mais aé­rea, solta, vaporosa, a dis­solução ameaçadora dos contornos, da trama estru­tura_ do desenho, o esgar­çamento da própria man­cha cromática. "Quando nos avizinhamos de suas últimas telas, escreve As­túrias, que parecem grava­das pelos pesadelos de Felipe IV, face à própria falência na Europa e América, pela miserável desgraça do Conde-Du­que de Olivares, pela re­belião catalã e pela se­paração de Portugal da coroa espanhola, encon­tramo-nos diante apenas de massas larvais, de ful­gurantes alusões, de uma criação mediante a de­composição da matéria em seus reflexos".
É compreensível que uma assim crescente instabili­dade das formas semeas­se a confusão no espírito da época. De tal modo que, de um lado, Veláz­quez continuava a ser en­carado, impassivelmente, como uma espécie de campeão do naturalismo: "Pintor sapiente, no qual a arte gloriosa deixa estupe­facta a Natureza", escreve G. de Salzedo Coronel em 1627, enquanto J. de AI­faro continua a chamá-lo "Apelles deste nosso sé­culo", em pleno 1658. Mas, de outro lado, não haveria de faltar quem ou­sasse denunciar, no pintor do rei, tais atentados "con­tra Ias regias dei arte", como relata seu biógrafo Palotino um século depois (1724). E mesmo uma au­toridade artística como o grande pintor florentino hispanizado Vicente Car­ducho (Carducci) referir­-se-á veladamente a Veláz­quez como um "pintor in­dodo y buen prádico"... "Diálogos", 1633).
E efectivamente só com Quevedo que se inicia o acercamento ao problema estético de Velázquez. Não sabemos ao certo de quando data o seu retrato, ainda que o "terminus ante quem" seja evidentemente a prisão do poeta concep­tista em 1639, mas é certo que desde o início dos anos 20, num poema per­tencente à série "Silvas" ("Silva el pincel"), Quevedo haja captado algo das no­vas possibilidades expres­sivas que se esboçam em Velázquez, ao escrever: "con las manchas dis­tantes que son verdade en él, no semejantes".
Nestes dois versos, já transcritos por Bardi em 1969, há talvez a mais sin­tética e fulminante apreen­são do cômpito da nova pintura barroca, tal como a vinha inventando Veláz­quez.
Trata-se de uma tal novi­dade, que ela aparece aos olhos de um poeta mais velho, Lope de Vega (1562-1635), como um as­sombroso paradoxo: "Oh, imagen de pintor diestro que se cerca de un borrón" Examinemo-lo à luz dos versos de Quevedo.
Desde logo, é agora a "mancha" e não já o dese­nho que conduz a elabora­ção da forma; mas não qualquer mancha e sim a mancha "distante", i.e., aquela que requer uma observação a uma certa distância para que o efeito óptico de que ela é o su­porte se evidencie e possa agir sobre a percepção.
Em seguida, tendo defi­nido o novo agente doa­dor de formas de que se vale o pintor, Quevedo atribui a estas manchas uma "verdade", nas mãos de Velázquez, que não provém de sua eficácia mi­mética ("no semejantes"), mas de sua própria organi­zação formal, i.e., da ma­neira como Velázquez ("en él") lhes infunde verdade poética.
E supérfluo lembrar, mais uma vez, como nos de­talhes de "Las Meninas", (Museo del Prado), anun­cie-se todo o programa da pintura impressionista. Mas observe-se como o ma­nejo da pura mancha cro­mática imanta o gesto do pintor com uma energia vi­brante, que é a própria imagem da nova pintura, de tal maneira a converter o auto-retrato de Veláz­quez, num verdadeiro au­to-retrato ou manifesto de sua poética. Vale mais a pena frisar que, para além de seus prenúncios impres­sionistas, esta poética irra­dia um sentimento de gra­vidade, de continência, de plenitude recolhida, que o impressionismo não com­preendeu, ou talvez sim­plesmente não reteve”

LUIZ MARQUES, “Velazquez,” Galeria, 17, (1989), 55-58.




10.11.04


Li K'an (c.1260-1310), Bambus Posted by Hello
Fazer esperar

Diz Roland Barthes:"( ...) fazer esperar é prerrogativa constante de quem tudo pode, passatempo milenário da humanidade."

Nas relações ditas amorosas há quem use o jogo da espera como estratégia de sedução, ou como meio de despertar ou manter o interesse do outro. No meu caso, sou como o mandarim da história, citada pelo referido autor, que transcreverei abaixo, mas menos paciente: a estratégia da espera tem o efeito contrário, gera o desinteresse.

Um mandarim estava apaixonado por uma cortesã. "Serei vossa, diz ela, quando tiverdes passado cem noites à minha espera, sentado num tamborete, no meu jardim, debaixo da minha janela." Mas, à nonagésima nona noite, o mandarim levantou-se, pôs o tamborete debaixo do braço e foi-se embora.

Roland Barthes, Fragmentos de um Discurso Amoroso, (Lisboa, Edições 70, 1987), p.136
Dos Amores

Ao que parece podemos falar em, pelo menos, três tipos de amor: o amor concupiscente ou seja o amor-desejo que remete para a satisfação do prazer apaixonado dos sentidos; o amor captativo que procura o domínio do ser amado e o amor oblativo que se traduz na dávida de si mesmo.

Lembrei-me da classificação, acima referida, a propósito das seguintes afirmações de António Lobo Antunes, em entrevista ao Diário de Notícias de ontem:

"A noção de amor varia de pessoa para pessoa. Muitas vezes estamos apaixonados ou estamos apenas agradecidos por gostarem de nós? Ou será que o outro é alguém junto de quem nos sentimos menos sózinhos? Só tenho perguntas, não tenho respostas.
Até que ponto o amor não é apenas a idealização de um outro e de nós mesmos?"

Na minha perspectiva, a tendência para a idealização não se restringirá ao fenómeno amoroso, ela será intrínseca à condição humana.

Máscaras Posted by Hello
Da Qualidade da Poeira

Embora, com algum atraso, constato que no dia sete de Novembro o vento espalhou belas Poeiras.

9.11.04

As Histórias da Avó

Em dada noite Natividade evocou o pai. Proprietário de uma fábrica de fiação distante da residência de família, voltava do trabalho carregado de moedas de ouro.
No regresso de uma viagem de negócios, ofereceu-lhe um sonho: estudar na Universidade de Coimbra, fazer um curso superior.
A morte impediu-o de cumprir o futuro da filha. A mãe passou a beber aguardente, os irmãos reduziram o número de moedas de ouro e Natividade casou-se.
Obsessões perceptivas

O castelo, as torres do castelo, as ameias do castelo surgem de dentro e sobre o arvoredo multicor, destacam-se do céu. As metamorfoses da luz, sempre a luz. Como eu compreendo Monet todo o tempo a seguir a luz.
Da Visão da Cor


Onde reside a cor? Na luz ou nas coisas?

A cor de um objecto depende da sua natureza própria, mas também da fonte luminosa exterior que incide sobre ele, pode dizer-se que também depende do sujeito que a percepciona.

Cada corpo tem uma assinatura colorida própria e que permite ao químico identificá-lo em função da sua coloração.
Por exemplo, o vermelho carmim identifica o lítio; o amarelo, o sódio e o azul-lavanda, o potássio.
A cor é a parte é a parte visível da luz. A cor é também uma sensação dependente do comprimento de onda da luz. A luz é uma onda ou uma partícula-fotão, consoante o instrumento de observação utilizado.
A diferença entre a luz azul e a luz vermelha resulta da quantidade de energia dos fotões, o que se traduz em ondas de comprimentos diferentes.
O espectro da luz branca da luz branca é composto por radiações de cores: vermelho, alaranjado, amarelo, verde, azul e violeta.
Quando a luz branca incide sobre uma superfície, algumas dessas radiações são absorvidas e outras reflectidas. Estas últimas determinam a cor da superfície.
A cor das tintas depende desse mesmo fenómeno de reflexão selectiva.

Há, no entanto, diferenças: as luzes coloridas primárias são o vermelho, o verde e o azul => síntese aditiva.

As tintas coloridas primárias são o vermelho, o amarelo e o azul => síntese subtractiva.

Luzes:

Vermelho + verde = amarelo
Verde + vermelho = azul claro
Azul + vermelho = violeta

Soma das três = luz branca

Tintas:

Amarelo + azul = verde
Amarelo + vermelho = laranja
Vermelho + azul = violeta


Características das tintas:

Tonalidade: nome da cor, os diversos matizes de uma cor.

Luminosidade: poder de reflexão da tinta (tintas brilhantes e tintas opacas)

Saturação: intensidade da cor.

Composição das tintas:

Pigmento => substância corante

Aglutinante => meio no qual o pigmento é disperso (cera; água; água+ gema de ovo - têmpera; óleo - século XV na Flandres e Século XVI em toda a Europa; goma arábica - século XVII, aguarela e gouache; goma de tragacanta- pastel, século XVII; resina sintética - 1920 acrílico).

Solventes => servem para controlar a consistência da tinta (essência de terebentina, por exemplo).




8.11.04

As Histórias da Avó

Natividade ganhara, aos oitenta anos de idade, o costume de revelar à sua neta mais velha, e de quem não gostava, as histórias da família.
Assim à noite, no escuro do quarto, com a cabeça a espreitar por cima da dobra do lençol, muito engomada, começou por descrever o caso do marido da sua muito estimada prima Isabel Barata. Senhor de uma excepcional posição social e económica, teria por requinte pedir à Madame do bordel da sua preferência, jovens virgens para fruir o prazer de as desflorar, como se dizia então. Neste ponto da narrativa, Natividade adormeceu, e logo se ouviu ressonar.
À Procura do Reflexo

As complexas redes de células nervosas da retina foram desenhadas por Santiago Ramón y Cajal por volta de 1900. Os bastonetes e os cones no topo da imagem. As fibras nervosas ópticas conducentes às áreas visuais do cérebro podem ser vistas abaixo à direita. Posted by Hello
Dos Limites da Visão

A citação de Cézanne fez-me pensar nas restrições dos nossos sentidos, e em especial, nas da visão.
Cada sistema sensorial está reduzido a um pequeno conjunto de estímulos físicos aos quais é especialmente sensível. Os olhos reagem à energia electromagnética dentro de uma banda muito estreita: os comprimentos de onda entre, os 400 e os 700 nanómetros; a visão propriamente dita limita-se à zona dos 500 a 560 nanómetros. Como já foi referido, não vemos tudo o que existe, apenas os aspectos da realidade que se conformam com as limitações físicas do nosso sistema visual. Assim, a nossa visão tem uma estreita banda de sensibilidade à energia radiante, ligada a uma tendência para agrupar imagens visuais segundo princípios como o contraste e a proximidade, entre outros.
Da Visão

A visão poderia descrever-se como uma forma de descodificação. Os olhos absorvem a luz e, por meio dos cones, distinguem os diferentes comprimentos de onda que correspondem às cores.
Por detrás da retina, as fibras interiores dos nervos ópticos dos dois olhos cruzam-se, passando para o lado oposto - este cruzamento torna possível a visão tridimensional normal.
Finalmente o estímulo visual é transmitido por numerosos processadores intermédios até à área estriada - córtex visual- na rectaguarda do cérebro. Nesta, a luz, especificamente uma banda estreita da radiação electromagnética, é transformada em sinais eléctricos e químicos.
Invertido pelo cristalino o produto final é uma imagem invertida, codificada nas redes neuronais do cérebro. A decifração deste código é uma das linhas de investigação da neurobiologia. Na verdade, não vemos tudo o que existe, mas apenas os aspectos da realidade que se conformam com as limitações do nosso sistema visual, quer enquanto espécie, quer enquanto indivíduos.

7.11.04

Da Pintura, segundo Cézanne, ou da tentativa de prender e racionalizar a Natureza, ou, à maneira de Nietzsche, da Vontade de Poder na Arte, ou ainda de reter a evanescência da percepção:


Cézanne diz-nos em certo passo das suas conversas com Gasquet: "Tudo quanto vemos ... desconjunta-se, desaparece. A natureza é sempre a mesma, mas nada perdura dela, daquilo que nela é visível... Que está por detrás? Nada, talvez. Talvez tudo. Tudo, compreende você?... Da direita, da esquerda, daqui, de acolá, de toda a parte, jarro, sons, cores, gradações da natureza, que prendo, relaciono... Formam linhas, tornam-se objectos, rochas, árvores, sem eu dar por isso. Adquirem peso, possuem um valor-cor. Quando este peso, estes valores correspondem no meu quadro, na minha sensibilidade, aos planos e às manchas que estão diante dos nossos olhos, então bem, então o meu quadro faz sentido... A paisagem espelha-sse em mim, torna-se humana, torna-se possível. Concedo-lhe objectividade, traduzo-a, prendo-a na minha tela... O quadro, a paisagem, ambos estão fora de mim: uma, porém, caótica, transitória, confusa, sem existência lógica, alheia totalmente à razão; o outro duradoiro, acessível ao sentimento, ordenado segundo categorias, participando no «modo», no drama das ideias."

In Ernesto Grassi, Arte e Mito, (Lisboa, Livros do Brasil, s/d)

Monet, Nenúfares de manhã Posted by Hello
Imagens da História Natural - Ilustrações do Reino Animal


George Frederic Cuvier (1773-1838); Etienne Geoffoy Saint Hilaire (1772-1844), Histoire Naturelle des Mamiferes. Posted by Hello

August Johann Roesel Von Rosenhof (1705-1759), Historia Naturalis Ranarum Nostratium. Posted by Hello

6.11.04

Imagens da História Natural - Ilustrações Botânicas

Antoine Risso (1777-1845), Limonier Sauvage Posted by Hello

Georgio Gallesio (1772-1839), Fig, Fico regina Posted by Hello
Tédio

Súbito, um cansaço, uma náusea de mim. Uma vontade de mudar de ego, e já agora, de id e de superego para uma renovação completa.

Monet, Gelo a derreter Posted by Hello
Palavra de S. Freud

(...) Quase que poderíamos dizer que uma histeria é uma obra de arte deformada, que uma neurose obsessional é uma religião deformada e uma mania paranóica, um sistma filosófico (...)Ao analisar as tendências que estão na base das neuroses, vemos qu as pulsões sexuais desempenham um papel decisivo, enquanto que as formações sociais atrás referidas assentam em tendências provenientes de um encontro entre factores egoístas e factores eróticos.

Freud, Totem et Tabou, (Payot, Paris, 1968), p. 88
Da Pintura

1.

"Na pintura há duas coisas: os
olhos e o cérebro. Os dois devem
ajudar-se mutuamente."

Cézanne


«À força de transformações acompanho - dizia Monet - a natureza, sem a poder captar... o Sol anda tão depressa que não o posso acompanhar...a Natureza modifica-se tão depressa neste momento, é aflitivo...».
Guy de Maupassant descreve-o nesta procura agitada:
«Na verdade, já não era um pintor mas um caçador. Andava seguido por crianças que lhe transportavam as telas. Cinco ou seis telas representando o mesmo assunto em diversas horas e com efeitos diferentes. Retomava-as e abandonava-as sucessivamente, de acordo com as alterações do céu. E o pintor, à frente do assunto, esperava, espiava o sol e as sombras, apanhava com algumas pinceladas o raio que brilha ou a nuvem que passa e, desdenhoso do falso e do convencional, pousava-o sobre a tela com rapidez.» «Vi-o captar assim uma queda brilhante de luz sobre a falésia branca, e fixá-la num movimento cursivo de tons amarelos que reproduziam estranhamente o surpreendente e fugidio efeito desse incaptável e ofuscante deslumbramento.»
Os olhos de Monet, de uma extraordinária acuidade - que já Duret em 1873 qualificava de «fantásticos» e que Cézanne definirá como «os mais prodigiosos desde que existem pintores» -, esses olhos capazes de trespassar as aparências, de surpreender as mais ínfimas- modificações, vão a partir de então rivalizar com a câmara apta a registar a sucessão dos movimentos. E não há dúvida de que é em filmes que nos fazem pensar as famosas séries que se sucedem: Mós (1891), Choupos (1892), Catedrais (1893), Falésias (1896)
Vistas de Londres (1905), sem contar com Nenúfares.

Jean-Dominique Rey, O Impressionismo, (Lisboa, Livros do Brasil, s/d), pp. 65-66

Eis extensões marinhas, eis velas, eis nuvens que flutuam entre o céu e o mar. Eis a morna profundidade e espuma iluminada, eis fantasmas de flores sob a superfície dos charcos... Eis a sombra das folhas misturada com os ribeiros vivos pela ondulação das algas... Eis os nevoeiros, eis a geada que cobre o chão e o gelo e que se prende às árvores, eis os fumos vagarosos dos comboios e dos barcos. Eis o aroma das ervas queimadas, das ervas floridas... Os jogos do sol e da sombra e da bruma e das estações... É o pintor das águas, o pintor do ar livre.
Aqui é Veneza, aqui Londres, aqui um rio francês, um canal holandês.


(De uma apreciação de Monet por Elie Faure - Citado por Jean Bersier in O Impressionismo - Livros do Brasil- pág. 15)

Rapsódia emocional - três formas de abordar as emoções

1.

. Sétimo: as emoções são algo que nos acontece, mais do que coisas que desejamos que nos aconteçam. Embora as pessoas criem, a toda a hora, situações para modular as suas emoções - ir ao cinema e a parques de diversões, tomar uma refeição deliciosa, consumir álcool e outras drogas recreativas - nestas situações, os factos exte­riores estão simplesmente dispostos de modo a que os estímulos que automaticamente provocam emoções estejam presentes. Nós temos pouco controlo sobre as nossas reacções emocionais. Quem quer que tenha tentado falsear uma emoção, ou que tenha sido recipiente de uma emoção falseada, conhece demasiado bem a futilidade da tentativa. Quando o controlo consciente das emoções é fraco, as emoções podem inundar a consciência. Isto deve-se ao facto de as ligações do cérebro, neste momento da nossa história evolutiva, serem tais que as comunicações dos sistemas emocionais aos sistemas cognitivos são mais fortes do que as comunicações dos sistemas cognitivos aos sistemas emocionais.
. Finalmente, uma vez que as emoções tenham lugar, elas tornam-se poderosos motivadores de comportamentos futuros. Elas traçam o percurso da acção momento a momento, bem como exercem influência nas realizações a longo prazo. Mas as nossas emoções também podem causar distúrbios. Quando o medo se torna ansie­dade, o desejo abre caminho à ambição, ou o tédio se transforma em raiva, a raiva em ódio, a amizade em inveja, o amor em obsessão, ou o prazer em vício, as nossas emoções começam a funcionar contra nós. A saúde mental é mantida através da higiene emocional, e os problemas mentais, em grande medida, reflectem uma ruptura de ordem emocional. As emoções tanto podem ter consequências úteis como patológicas.


Joseph le Doux, O Cérebro Emocional, (Lisboa, Pergaminho, 2000), p.21

2.

SE TU VIESSES VER-ME …


Se tu viesses ver-me hoje à tardinha,
A essa hora dos mágicos cansaços,
Quando a noite de manso se avizinha,
E me prendesses toda nos teus braços. . .

Quando me lembra: esse sabor que tinha
A tua boca . . . o eco dos teus passos. . .
O teu riso de fonte …os teus abraços. . .
Os teus beijos. . . a tua mão na minha. . .

Florbela Espanca

­3.

Há duas afirmações do amor. Primeiro, e logo que o apaixonado encontra o outro, há uma afirmação imediata (psicologicamente: des­lumbramento, entusiasmo, exaltação, projec­ção louca de um futuro pleno: sou devorado pelo desejo, a impulsão de ser feliz): digo que sim a tudo (cegando-me). Segue-se um longo túnel: o meu primeiro sim está ator­mentado por dúvidas, o valor do amor está permanentemente ameaçado de depreciação: é o momento da paixão triste, a ascensão do ressentimento e da oblação.

Roland Barthes, Fragmentos de um Discurso Amoroso, (Lisboa, )

5.11.04

A brincar aos detectives

Vá lá saber-se porquê hoje sinto-me uma autêntica Miss Marple ...
Só é pena não acertar na solução dos enigmas para os meus casos pessoais.



Milagre das Rosas

As camélias que eu gostava de oferecer à Ana transformaram-se em rosas...



Pierre-Joseph Redouté, Rosa centifolia L. cv Posted by Hello

Camélias para a anima do Modus Vivendi


Camélias de Pierre-Joseph Redouté e outros ilustradores, para a melhor das amigas e uma das dez mais belas cidadãs da blogosfera e arredores!




Antero de Quental, tópicos sobre a obra Tendências da Filosofia na Segunda Metade de Século XIX - Continuação
Quadro comparativo entre as tendências do pensamento antigo e as do pensamento moderno, de acordo com Antero de Quental:

Pensamento Antigo

Abstracção

Formalismo dialéctico

Metafísica enquanto derivação da lógica.

A realidade como emanação do ser em si absoluto e só verdadeiramente existente.
O princípio de energia e propriedade dos seres era-lhes exterior e neles infundido.

Radical distinção entre matéria e forma.
O movimento das coisas era atribuído ao fatalismo.

Recorrência a um grande círculo dos mesmos tipos físicos e inalteráveis desde a eternidade.

Necessidade dos factos.
Decreto superior imposto aos seres determinando-lhes a natureza.
Via a realidade fraccionada num certo número de categorias, géneros ou espécies substâncias incomunicáveis e redutíveis entre si.

Universo é concebido como uma estrutura que obedece a um plano pré-concebido
(imobilismo).

Unidade fora do universo. Princípios transcendentes.

Pensamento Moderno

Realismo

Relação das ideias com o mundo objectivo

A lógica tende a ser dominada e determinada pela metafísica.

A realidade é fieri incessante dum ser em si só potencialmente existente e que só realizando-se atinge a plenitude (noção de desenvolvimento).

Matéria e forma são indissolúveis, fundam-se na natureza autónoma dos seres, cujo o princípio de energia lhes é própria e constitui a sua essência. (Força e imanência)

A fórmula desse movimento é criação permanente transformando-se e renovando-se incessantemente. (Desenvolvimento)

Essa necessidade como a expressão da natureza dos seres, com a sua lei a forma adequada da sua actividade espontânea. (Lei e imanência)

Quebra as prisões lógicas, vê na realidade o acto único da primeira substância omnínoda integrando todos os momento na unidade, cujas as diferentes potências manifestam, influenciando-se mutuamente.

Universo é perspectivado como um ser vivo cuja a forma de actividade apenas obedece às tendências do seu próprio desenvolvimento.

Encontra a unidade imanente na sua própria diversidade.
**************
Na sua tentativa de síntese Antero destaca sobretudo os filósofos que desenvolveram as noções acima referidas. Assim, salientou em cada um dos seus sistemas as concepções, em seu entender, mais importantes.

Descartes o teorizador do "cogito ergo sum" ao defender a unidade do ser pensante estabeleceria por analogia a do universo pensado. Ao reduzir a matéria à extensão Descartes acabaria por identificar ser e saber e reconstituir o universo de acordo com as leis do espírito. (9)

Espinoza considerou o pensamento e a extensão (10) como meros atributos de uma única substância. Esta substância sem limites de tempo nem de espaço, seria o Deus imanente no Universo Infinito nele se desdobrando e realizando, segundo as determinações de uma substância que seria a essência das coisas. Esta substância desdobrar-se-ia em duas séries de fenómenos ou modos paralelos - os da extensão e os do pensamento - sempre em perfeita correspondência. (11)

Leibniz procedeu a uma crítica de cariz intelectualista. Segundo o referido filósofo, o pensamento e a extensão não passariam de de abstracções. O universo seria constituído por mónadas. As mónadas são forças e elas constituem a realidade universal. São todas da mesma natureza, diferenciando-as apenas o grau em que nelas se manifestam a percepção e a apetência. Desta diferença resultaria no Universo, um plano de extensão, segundo a terminologia cartesiana, em que tudo se subordinaria ao mecanismo das leis físicas e o plano superior, o do pensamento, em que os fenómenos são de natureza espiritual. Ao passar da ordem ideal à ordem real, a Razão encontrar-se-ia a si mesma. No microcosmos que ele é o homem surpreenderia o macrocosmos de que faz parte. (12)

No entender de Antero todos estes filósofos teriam em comum a ideia de força imanente não transitiva. Encontrariam na consciência a experiência que manifesta tal força. Todos estabeleceriam uma perfeita correspondência entre a natureza e o espírito; as leis do pensamento e as leis dos fenómenos. Todos eles dominavam a física e a matemática do seu tempo mas para todos o mecanismo representaria apenas uma parte da verdade uma vez que tudo radicaria num fundamento espiritual.
Neste sentido,"Kant ao construir o criticismo, solucionou o problema da origem do conhecimento. Distinguiu a realidade fenoménica (13) do noumenon (14) ou seja que é inacessível ao conhecimento." Antero fez uma interpretação peculiar do noumenon ao afirmar que este é o próprio espírito. (15) Segundo Antero a crítica de Kant veio confirmar e ampliar as noções fundamentais do espírito moderno, levando-as às últimas consequências. Schelling e Regel partiram do idealismo kantiano. Renovaram o naturalismo e o panteísmo do período anterior enquadrando-os nos moldes da Critica da Razão Pura. (16)

Hegel defendeu que a evolução não se reduz apenas ao processo mecânico e obscuro da realidade, perspectivando-a como o próprio processo dialéctico do Ser e da Razão. O pensador alemão identificou ser e saber. (17)

Antero terá herdado, simultaneamente, a concepção mecanicista e o legado espiritualista da época moderna.
***
(9) Antero de Quental, op.cit., pp.50-51.
(10) Que constituíam para Descartes os dois termos irredutíveis da realidade, a alma e o corpo.
(11) Antero de Quental, op.cit., pp.51-52.
(12) Antero de Quental, op.cit., pp.51-52.
(13) O fenómeno é, para Kant , a realidade conhecida pelo sujeito, uma manifestação do objecto, aquilo que podemos apreender dentro dos moldes ou categorias a que a nossa constituição psicológica os conforma.
(14) O noumenon é a coisa em si, o objecto em si mesmo. Existe mas é incognoscível.
(15) Antero de Quental, op.cit., pp.53-56.
(16) Kant,Critica da Razão Pura, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 1989.
(17) Antero de Quental, op.cit., pp.55-56.

4.11.04

Antero de Quental, tópicos sobre a obra : Tendências Gerais da Filosofia na Segunda Metade do Século XIX

I Capítulo

Na primeira parte do ensaio Antero após relevar o papel fulcral da dúvida na reflexão filosófica, (1) definiu a filosofia como "(...) a equação do pensamento e da realidade, numa dada fase do desenvolvimento daquele e num dado período do desenvolvimento desta (...)"(2) Antero realçou a correspondência entre o pensamento filosófico e o momento histórico em que surge defendendo a relatividade histórica da verdade. (3) Os variados sistemas coetâneos, parecem irredutíveis entre si, verificando-se, contudo entre eles "um certo ar de família"(4), pois todos eles radicam no mesmo substrato histórico-cultural. Antero exemplificou esta concepção apresentando a sucessão dos diversos tipos de compreensão da realidade. (5) Segundo ele, todos estariam representados no Renascimento: o idealista, o espiritualista, o panteísta e o materialista. Considera também que se iniciou nessa época o processo de enfraquecimento do espírito de sistema dogmático e rígido e o desenvolvimento do criticismo. (6) Circunstância que possibilitou uma espécie de osmose entre os diferentes sistemas filosóficos e entre eles e as ciências. Desta interacção teria resultado a peculiar atmosfera intelectual e psicológica do mundo moderno. (7) Surgiram em tal atmosfera as noções fundamentais de força, de lei, de imanência ou espontaneidade e de desenvolvimento. Seria por elas que o pensamento moderno se distinguiria do antigo. (8)


(1) Antero de Quental, Tendências da Filosofia na Segunda Metade do Século XIX, Lisboa, Lisboa Editora, 1997,42.
(2) Antero de Quental, Tendências da Filosofia na Segunda Metade do Século XIX, Lisboa, Lisboa Editora,1997, p.43.
(3) Antero de Quental, op.cit.,p.43
(4) Antero de Quental, op.cit.,p.44.
(5) Antero de Quental, op.cit.,pp.43,44 e 45. Antero também questiona acerca da possibilidade de fazer uma síntese do pensamento moderno ou ater-se ao sincretismo.
(6) Antero de Quental, op.cit.,pp.46-47 .1t. 5"0.
(7) Antero de Quental, op.cit.,pp.47-48.
(8) Antero de Quental, op.cit.,pp.48-49.
Da manhã

Hoje não havia névoa branca, apenas o castelo, a colina e o arvoredo num azul de Verão arrefecido.
Confidências e Desabafos de Savarin (62)

Desilusão e Protesto

Ao contrário da Digitalis que entrou numa onda Zen... eu estou muito desapontado, direi mesmo decepcionado, porque até ao momento não houve uma única boca que se abrisse para louvar as formosas anonas cujas qualidades tanto exaltei! Nem o brilho das ilustrações a ocultar a caixa de comentários despertaram as vossas capacidades oratórias! É demais, tenciono retirar-me como forma de protesto perante tamanha indiferença.
Da Noite de um dia exemplar

A manhã revelou o deslumbramento da névoa alva. A noite oferece um azul da Prússia, mesmo como eu gosto.

Um dia em que o ideal de quietude intemporal - plagiando a expressão da Soledade na caixa de comentários do seu preciosoNocturno com Gatos - minha quimera de sempre, se tornou realidade. E a bonomia tomou conta de mim.

3.11.04


Confidências e Desabafos de Savarin (61)

Anonas -Annona cherimola Mill.

Evoco, com gulosa saudade, as anonas saboreadas durante as férias do Natal em S.Miguel. Também me lembro das árvores frondosas da quinta de um tio paterno, que produziam enormes e fabulosas anonas. Infelizmente, o meu tio tinha alma de ermita e as visitas ao paraíso foram rareando até à extinção.
Aqui podem obter mais informações sobre o exótico fruto e facto da maior importância receitas à base de anonas.
Por último, declaro que as anonas de S.Miguel se destacam, de todas as outras, pela brancura da sua polpa e pela delicadeza do seu paladar. Degustar uma anona micaelense equivale a vivenciar uma experiência gastronómica única.
Perdoem-me os habitantes da ilha da Madeira, mas comparadas com as frutas nascidas na Ilha Verde, as anonas madeirenses , embora com direito a página na rede, constituem um atentado à essência da genuína Anona!!!
Só não percebo, porque conjunto de razões ou causas não encontrei informação na Net sobre a cultura, em S.Miguel, da referida espécie, de inolvidável aroma! Talvez os escribas do Ilhas me possam esclarecer. O provavelmente baixo índice de produção não constitui uma justificação. Trata-se de uma lacuna grave e difícil de aceitar, ou deve-se a deficiências na minha pesquisa?

Da manhã

A brancura da névoa envolve a colina onde pousa o castelo.
Sou arrebatada pelo fascínio desta luz, mescla de cores que não quero e não sei adjectivar.
Absurdo

Comenta o psiquiatra:

- Imagine caro colega, a paciente que acabei de analisar sofre de claustrofobia sentimental. Nem sei como é possível, pois trata-se de uma mulher, de meia idade e feia!

1.11.04

O Problema

"A vida não é resolver o problema, mas sim viver o problema."

Jacob Bronowoski, Arte e Conhecimento, (Lisboa, Edições 70, 1983), p.162.
Evidência

Aldrabar, disfarçar, enganar, falsear, fingir, fintar, iludir, ludibriar, mentir, ocultar, simular... existem, segundo um especialista na matéria, uns trinta verbos para designar a mentira. E nenhum para expressar a verdade. Apenas é possível afirmar, por exemplo, dizer a verdade, ser verdadeiro, ser sincero, mas não há o verbo "verdir", ou "verdar"ou "verdadar"...

Será porque a mentira estimulará a criatividade? Ou porque muita gente pensou e alguns, ainda hoje, julgam que a verdade é só uma?