31.5.04

Confidências e Desabafos de Savarin (33)

Hoje só quero enaltecer a qualidade de dois vinhos: o excelente Reguengos V.Q.P.R.D. tinto de 1999, Garrafeira dos Sócios, produzido pela Cooperativa Agrícola de Reguengos de Monsaraz e uma genuína ambrósia, como aperitivo ou para acompanhar a sobremesa, o J.P. Moscatel de Setúbal D.O.C.


"Há um Esplendor do Tédio," Soledade dixit, na caixa de comentários.

De acordo com Kierkegaard há dois graus ou tipos de tédio, à semelhança do que acontece com a distinção entre medo e angústia. Há as formas superficiais de tédio, em que o homem se aborrece de qualquer coisa de concreto e outras formas mais profundas, quando o indivíduo experimenta um autêntico aborrecimento, que se apodera dele por completo, sem fundamento determinado e o faz sentir-se enfadado, sendo, então, assaltado pelo sentimento de um vazio indefinido. Perante este vazio tudo perde o sentido, nada interessa, nada parece importante ou merecedor de atenção. Tal como sucede na angústia, embora com maior sucesso pode combater-se o tédio com divertimentos e distracções, procedimento que Kierkegaard baptizou com a expressão: "economia das variações", consistindo a estratégia em mudar continuamente de meio no intuito de fugir ao peso da existência. O tédio torna-se então um verdadeiro estímulo pois suscita a curiosidade... Neste sentido, o filósofo dinamarquês afirmou que no princípio era o tédio...

Todavia, quando o tédio toma conta do homem por inteiro, não o deixa escapar e desencadeia efeitos idênticos aos provocados pela angústia. O homem será então obrigado a desprender-se da agitação da vida vulgar e inautêntica, para se converter a uma existência autêntica.

Mas, também, pode reconhecer-se incapaz de se manter na senda da autenticidade e recair, constantemente, nas formas inautênticas de existência...

Alguém com os pés assentes na terra diria, estes pré- existencialistas e existencialistas mesmo, cultivam os estados mórbidos da alma...

30.5.04


Desvario

Corpo /barco flutuar

Oscilação/ temperamento/disfunção bipolar
neurotransmissores desvairados
hormonas tresloucadas

meditar-contemplar
retorno
alegria-paz
Tédio

Heidegger defendeu, na linha de Kierkegaard e dos existencialistas, que o tédio seria um dos estímulos para uma existência autêntica, um existencial como a melancolia e a angústia. Bem, prescindo dos estímulos ou da autenticidade da existência.

Ps. Também se debate sobre a integração, ou não, da filosofia heideggariana dentro das correntes existencialistas.
Breves apontamentos sobre grandes questões das neurociências (5)
Ce qui nous fait penser. La nature de la règle.


Paul Ricoeur interfere dizendo que voltarão mais tarde à natureza dos ensinamentos que a observação clínica acrescenta à conduta vivida. Dentro do plano epistemológico, um dos pontos críticos, em seu entender, é o paralelismo ilícito entre as duas frases: "Eu agarro com as minhas mãos" e "Eu penso com o meu cérebro." Porque enquanto a primeira afirmação decorre de uma vivência, a segunda resulta de uma aprendizagem.

Por seu turno, Jean-Pierre Changeux afirma que nas ciências do sistema nervoso há dois tipos de discursos que se referem a dois métodos de investigação distintos.
Um é o discurso da anatomia, centrado na morfologia do cérebro, na sua organização microscópica, nas células nervosas e nas suas conexões sinápticas.
O outro tem por objecto as condutas, os comportamentos, as emoções, os sentimentos, os pensamentos, as acções sobre o ambiente. Constituem dois modos de descrição que estiveram separados um do outro durante muito tempo. E refere, a propósito, o papel do behaviorismo para o reforço desta dicotomia.
Nenhum neurobiologista dirá, comenta Changeux, que a linguagem é a região frontal superior do cérebro. Dirá, antes, que a linguagem mobiliza domínios particulares do nosso cérebro.O termo mobiliza estaria particularmente apropriado, porque faz intervir um conjunto de processos que não é abrangido por nenhum dos discursos referidos por Ricoeur. Trata-se, de actividades dinâmicas e transitórias que circulam no tecido nervoso. Estas actividades eléctricas ou químicas, constituem o liame interno entre uma organização anatómica de neurónios e de conexões, de uma parte, e o comportamento, de outra parte.
É preciso introduzir um terceiro discurso, já pressentido por Spinoza e que põe em jogo esta dinâmica funcional, a fim de unir o anatómico e o comportamental, o descritivo comportamental e o descritivo neuronal e o percebido-vivido. Changeux considera que não se libertaria de uma amálgama semântica, pelo contrário utilizaria múltiplos discursos e relacioná-los-ia entre si de uma forma adequada e operacional.

Contrapõe Ricoeur: Não é apenas o anatómico e o comportamental que é preciso relacionar. Há, por um lado, o comportamento observado e descrito cientificamente e por outro lado, o mesmo vivido de maneira significativa e nos termos que Canguilhem chama valores vitais. É neste nível que a dualidade dos discursos coloca problemas.

Objecção do biólogo: Problemas, sim, mas não incompatibilidades.

Continua
Impressões de Domingo

Depois do entusiasmo de Sábado, uma náusea furtiva de tudo envenena a placidez do Domingo. Mas há pequenas rosas no terraço ...

Predomina uma vontade de percorrer as praias de uma ilha das cores que eu quiser, porque a longa distância do mar já faz doer o corpo e ressecar a alma.

29.5.04

Tautologia

Adormeci com vontade de ti, sonhei contigo, acordei com vontade de ti.

Poetas da Índia

Ramayana

Blow, wind, to where my loved one is,
Touch her, and come and touch me soon:
I'll feel her gentle touch through you
And meet her beauty in the moon.
These things are much for one who loves_
A man can live by them alone_
That she and I breathe the same air,
And the earth we tread is one.




À minha amiga Madalena

Quando eu conheci a Madalena, percebi que tinha encontrado uma amiga fundamental. Logo no primeiro ensaio pensei :vou gostar de conviver com esta pessoa. A Madalena tem duas características fundamentais: a primeira é a coragem e a segunda, uma dignidade que resiste à falta de ética do nosso tempo. A Madalena tem imensos problemas, como já disse em post anterior, mas arruma-os em duas frases e não massacra os amigos com eles.


Quero...

Quero, terei -
Se não aqui,
Noutro lugar que inda não sei.
Nada perdi.
Tudo serei.


Poesias inéditas (1930-1935) de Fernando Pessoa, (Lisboa, Ática, 1978), p.134

23.5.04

Viagem no Tempo

Se voltasse a ser adolescente gostaria que o meu pai me escrevesse uma carta assim.

Le Conte du Monde Flottant

Felicitações!

Li hoje que o Azul Cobalto - um dos meus blogs "mais preferidos" - cumpriu, ontem, doze meses de "vida pública". Parabéns e bem haja por existir.
Nocturno

Esta noite vou correr num campo de hortelã-pimenta
sentir o calor da terra
e a frescura do ar
sob a brancura da lua
ao som de grilos e rãs
na margem das águas
encantada com os meus fantasmas

De X para Y

X pensou que talvez haja corpos que se escolhem, independentemente, da vontade dos donos. Corpos que querem certos corpos. Que fazer? Talvez... como dizia Abrunhosa. Fruir, em absoluto, a efemeridade da opção da carne até que se esgote a si mesma.

X ama a evanescência do ser e do acontecer, sentir um pé no precipício quase a tombar no abismo. Mas, pressente a unidade na pluralidade, a imutabilidade no devir. Há, também preferências que não se esgotam, não cedem à entropia, apesar de todos os jogos e interesses paralelos. Quais?

22.5.04

Léo Ferré (2)


À Memória de Antero e ao belo texto da Ana "A Vida em Relâmpago"

LES POÈTES


Ce sont de drôles de types qui vivent de leur plume
Ou qui ne vivent pas c'est selon la saison
Ce sont de drôles de types qui traversent la brume
Avec des pas d'oiseaux sous l'aile des chansons

Leur âme est en carafe sous les ponts de la Seine
Leurs sous dans les bouquins qu'ils n'ont jamais vendus
Leur femme est quelque part au bout d'une rengaine
Qui nous parle d'amour et de fruit défendu

Ils mettent des couleurs sur le gris des pavés
Quand ils marchent dessus ils se croient sur la mer
Ils mettent des rubans autour de l'alphabet
Et sortent dans la rue leurs mots pour prendre l'air

Ils ont des chiens parfois compagnons de misère
Et qui lèchent leurs mains de plume et d'amitié
Avec dans le museau la fidèle lumière
Qui les conduit vers les pays d'absurdité

Ce sont de drôles de types qui regardent les fleurs
Et qui voient dans leurs plis des sourires de femme
Ce sont de drôles de types qui chantent le malheur
Sur les pianos du coeur et les violons de l'âme

Leurs bras tout déplumés se souviennent des ailes
Que la littérature accrochera plus tard
A leur spectre gelé au-dessus des poubelles
Où remourront leurs vers comme un effet de l'Art

Ils marchent dans l'azur la tête dans les villes
Et savent s'arrêter pour bénir les chevaux
Ils marchent dans l'horreur la tête dans des îles
Où n'abordent jamais les âmes des bourreaux

Ils ont des paradis que l'on dit d'artifice
Et l'on met en prison leurs quatrains de dix sous
Comme si l'on mettait aux fers un édifice
Sous prétexte que les bourgeois sont dans l'égout...



Léo Ferré
Gosto de viver neste corpo

porque ao andar na noite mesmo já um tanto etilizada com amigos queridos ainda me alegro com a surpresa da harmonia de uma praça com a graça de um miradouro

porque há música e poesia que me entontecem

porque já manhã depois de subir a Avenida da Liberdade a pé descubro as manchas lilás dos jacarandás no arvoredo do Parque

porque não tenho medo do prazer nem da dor e prefiro o primeiro

porque a vida me assalta e deixo-me levar

porque há pessoas adoráveis

porque sou uma simples cadeia na imensa cadeia de seres do universo

porque a morte não me assusta

não saberei talvez o que é o amor

alguém por mim o saberá

sei o que é gostar

e é bom gostar

Léo Ferré



Léo Ferré, je t'aime!





Avec le temps




Avec le temps...
avec le temps, va, tout s'en va
on oublie le visage et l'on oublie la voix
le cœur, quand ça bat plus, c'est pas la peine d'aller
chercher plus loin, faut laisser faire et c'est très bien

avec le temps...
avec le temps, va, tout s'en va
l'autre qu'on adorait, qu'on cherchait sous la pluie
l'autre qu'on devinait au détour d'un regard
entre les mots, entre les lignes et sous le fard
d'un serment maquillé qui s'en va faire sa nuit
avec le temps tout s'évanouit

avec le temps...
avec le temps, va, tout s'en va
mêm' les plus chouett's souv'nirs ça t'as un' de ces gueules
à la gal'rie j'farfouille dans les rayons d'la mort
le samedi soir quand la tendresse s'en va tout' seule

avec le temps...
avec le temps, va, tout s'en va
l'autre à qui l'on croyait pour un rhume, pour un rien
l'autre à qui l'on donnait du vent et des bijoux
pour qui l'on eût vendu son âme pour quelques sous
devant quoi l'on s'traînait comme traînent les chiens
avec le temps, va, tout va bien

avec le temps...
avec le temps, va, tout s'en va
on oublie les passions et l'on oublie les voix
qui vous disaient tout bas les mots des pauvres gens
ne rentre pas trop tard, surtout ne prends pas froid

avec le temps...
avec le temps, va, tout s'en va
et l'on se sent blanchi comme un cheval fourbu
et l'on se sent glacé dans un lit de hasard
et l'on se sent tout seul peut-être mais peinard
et l'on se sent floué par les années perdues- alors vraiment
avec le temps on n'aime plus

Léo Ferré

20.5.04

Um sentir nosso, nas palavras do Poeta

Nascimento Último

Como se não tivesse substância e de membros apagados.
Desejaria enrolar-me numa folha e dormir na sombra.
E germinar no sono, germinar na árvore.
Tudo acabaria na noite, lentamente, sob uma chuva densa.
Tudo acabaria pelo mais alto desejo num sorriso de nada.
No encontro e no abandono, na última nudez,
respiraria ao ritmo dos vento, na relação mais viva.
Seria de novo o gérmen que fui, o rosto indivisível.
E ébrias as palavras diriam o vinho e a argila
e o repouso do ser no ser, os seus obscuros terraços.
Entre rumores e rios a morte perder-se-ia.


António Ramos Rosa, No Calcanhar do Vento, (1987)
MICHAEL BASINSKI





Incurvation


blink think sing drink
puzzle prizzle at glances
sin skin ink
spider's silk milk here
hear woven generate
haste waist decay
dreaded by the carnel lover




Michael Basinski

19.5.04

De que falamos quando falamos de amor? Pergunta um personagem de Raymond Carver

- O que é que, na realidade, qualquer um de nós sabe sobre o amor? – perguntou Mel. – Ao que me parece, não passamos de principiantes nestas coisas do amor. Dizemos que nos amamos uns aos outros e isso é uma verdade, não restam dúvidas. Eu amo a Terri e a Terri ama-me; vocês os dois também se amam… Agora percebem a que género de amor me estou a referir: o amor físico, aquele impulso que nos conduz a alguém especial, bem como o amor pela outra pessoa enquanto ser humano, pela sua essência: o amor carnal e, chamemos-lhe assim, o amor sentimental, a atenção pela outra pessoa em cada dia que passa. Mas às vezes tenho dificuldade em explicar o facto de que devo ter também amado a minha primeira mulher. Mas amei-a; eu sei que é verdade. Por isso, suponho que, neste aspecto, sou como a Terri. Terri e Ed. – Fez uma pausa para reflectir nisso e continuou: - Houve uma altura em que pensava que amava a minha primeira mulher mais do que a própria vida. Mas agora odeio o ar que ela respira. Não tenho dúvidas. Como é que isso se explica? O que é que aconteceu a esse amor? Era isso que eu gostava de saber. Quem me dera que alguém me dissesse. Depois há o Ed. Ok, voltamos ao Ed. Ele ama a Terri de tal maneira que tenta matá-la e acaba por se matar.
Mel parou de falar para dar um gole e continuou:
- Vocês os dois estão juntos há dezoito meses e amam-se. Está escrito nas vossas caras. Vocês respiram amor. Mas tanto um como o outro amaram outras pessoas antes de se conhecerem; tal como nós, vocês foram casados anteriormente. E, provavelmente, até amaram outras pessoas antes disso. Terri e eu vivemos juntos há cinco anos e estamos casados há quatro. E o que é terrível… terrível, mas simultaneamente bom – uma graça divina, se assim se pode dizer – é que se amanhã nos acontecesse alguma coisa, o outro, a outra pessoa, sentiria dor durante algum tempo, estão a perceber?, mas depois o que sobrevivesse continuaria a sua existência e amaria de novo, teria em breve outra pessoa. Tudo isto, todo este amor de que temos estando a falar, não passaria de uma recordação; talvez nem isso. Estarei enganado? Estarei fora da realidade? Porque, se vocês pensarem que estou errado, quero que me digam. Quero saber. Quer dizer… eu não sei nada e sou o primeiro a admiti-lo.


Raymond Carver, De que falamos quando falamos de amor, (Lisboa, Teorema, 2001), pp.193-194.

E a pergunta fica sem resposta...
X e Y

X pensou que gostar de Y era um exercício de narcisismo. Uma manifestação de afinidade subreptícia ao nível dos respectivos Id e Superego.

18.5.04

Confidências e Desabafos de Savarin (32)

Não posso passar muito tempo sem confraternizar à volta de uma série seleccionada de pitéus. Nada melhor para alegrar o espírito do que um convívio gastronómico. Por isso já comecei a planear um jantar para o dia 29 deste mês das rosas. Já fiz a lista dos comensais e convidei alguns. Experimento algumas dúvidas quanto à elaboração da ementa. Todavia, desta feita inclino-me para um menu açoriano, fava rica, sopa de funcho de S. Miguel, polvo à moda do Faial, alcatra da Terceira e ainda estou a meditar nas sobremesas. Aceito sugestões dos especialistas do Ilhas.

17.5.04

Tudo quanto penso...

Tudo quanto penso,
Tudo quanto sou
É um deserto imenso
Onde nem eu estou.

Extensão parada
Sem nada a estar ali,
Areia peneirada
Vou dar-lhe a ferroada
Da vida que vivi.

[...]


Fernando Pessoa, Poesias Inéditas (1930-1935), (Lisboa, Ática, 1978), p.190
SUBITAMENTE SURGE. TEM O TEU ROSTO

O paraíso terrestre é uma flor verde.
As árvores abrem-se ao meio.
O que é sucessivo perde-se.
Se o tempo modifica os seres e os objectos
eu sinto a diferença e gasto-me.
O sol é um erro de gramática, a luz da madrugada
uma folha branca à transparência da lâmpada.
Soam então os barulhos. Soam
de dentro das janelas,
de dentro das caixas fechadas há mais tempo,
de dentro das chávenas de café.
É tarde e és tu, acima de tudo,
entre a manhã e as árvores,
à luz dos olhos
à luz só do límpido olhar.

Nuno Júdice, Obra Poética (1972-1985), (Lisboa, Quetzal Editores, 1991),p. 168

16.5.04

Quem foi Aleksandr Romanovitch Luria?

Aleksandr Romanovitch Luria (1902-1977) Foi professor de Psicologia na Universidade de Moscovo e um dos mais perspicazes observadores dos efeitos das doenças neurológicas no comportamento e na mente humanos.
Prosseguiu as investigações de Pavlov e de Vygotski, Luria retomou a teoria dos dois sistemas de sinalização da linguagem (ligações condicionais, significações verbais) e desenvolveu a ideia de predominância progressiva do segundo sistema no controlo do comportamento humano. A partir de observações comportamentais, patológicas e neurológicas, estudou o funcionamento do segundo sistema e mostrou as estruturas nervosas envolvidas neste funcionamento.

Continua

Impressões de Domingo

Ao calor do terraço contemplava, mais uma vez, a colina arborizada e a torre do castelo. Esquecida de mim era feliz.

Ao subir para e descer do castelo, como não me perder nas formas e nos cheiros das cascatas de folhas de figueira sobre os muros?

No castelo, por entre as frestas das ruínas, campos, arvoredos, piteiras, relevos, uma vontade de me lançar pela encosta abaixo.


Antes do terraço e do castelo

Motivada pelas referências de Oliver Sacks, nos seus livros, faz tempo que procurava obras de Aleksandr Romanovitch Luria. Encontrei alguma documentação na Internet, que gulosamente, logo imprimi. Nessa altura tinha sempre os tinteiros cheios, hoje encontram-se vazios...
Tudo isto para dizer, que ontem ao ir tomar uma infusão de gengibre, limão, entre outros ingredientes, à livraria do Largo dos Paços do Conselho, encontrei uma tradução portuguesa da sua obra, O Caso do Homem que Memorizava Tudo, (Lisboa, Relógio D'Água, 2003), escusado será dizer que ganhei o dia.


O fim do dia


Ao crepúsculo reguei as plantas dos vasos do terraço. E fatigada - o que não corresponde à verdade - vi dois filmes de seguida. Quase no final do segundo filme, "O Jogo de Mr. Ripley," tive a brilhante ideia de telefonar à Madalena e acordar a bela adormecida...
A Madalena não terá achado muita graça a um despertar deste tipo, mas como é uma extraordinária amiga, certamente me desculpará.

15.5.04

Poetas da Índia

Aimlessly
Yet fascinated
I wander in the world
My clothes smeared with dust.
At times I am enveloped
By the drifting fragrance of flowers,
At times I am beckoned
By the sweet notes of cuckoo,
Crazily eyeing all the colours around,
My feet follow my mind
To the world full of love.
The trodden path I do not take,
But with every step I lay a fresh track,
Playing my lute abundantly
I move amazed
In the maze of light and shadows,
Like a boat drifting in the ocean of endless joy.
I multiply myself to enjoy everything
And yet, I remain undivided, alone.


Rajendra Keshavlal Shah
In The Mood For Love

Há semanas atrás vi, em casa, o filme "In the mood for love", um dos meus filmes de culto. Não vou falar da impossibilidade do amor ou da inevitabilidade do desencontro. Só quero destacar as imagens dos corpos que o realizador faz dançar e o texto final. Se querem ler críticas interessantes recomendo a consulta deste site.

Do filme:

It is a restless moment.
She has kept her head lowered,
to give him a chance to come closer.
But he could not, for lack of courage.
She turns and walks away.

That era has passed.
Nothing that belonged to it exists any more.

He remembers those vanished years.
As though looking through a dusty window pane,
the past is something he could see, but not touch.
And everything he sees is blurred and indistinct.



Lábios


Passou o tempo a olhar-lhe para os lábios. Lábios, que inspiravam a alegria súbita de um beijo.
A Gravura Japonesa

Consultem a página Man-Pai, modelo de organização, sobre gravura japonesa e visitem a exposição "O Armário Milagroso - Visões do Japão no final do séc. XIX através da gravura japonesa," espólio da colecção de Manuel Paias, autor do site acima recomendado. Alegrem os olhos do espírito.
Esta exposição está integrada na comemoração dos 150 anos do nascimento de Wenceslau de Morais promovida pela Associação de Amizade Portugal-Japão
Calendário:

11 de Maio a 3 de Junho - Sociedade de Geografia de Lisboa [ R. Portas de Sto Antão, 100 Lisboa : 2ª a 6ª : 09h00 -18h00]
8 a 25 de Junho - Coimbra. Na Universidade de Coimbra, salões nobres. Org. Pró-Reitoria da Cultura da Universidade de Coimbra


Poetas da Índia

DESIRE

(tr. Agha Shahid Ali)

I have certainly
no faith in miracles, yet I long
that when death comes to take me
from this great song
of a world, it permits me to return
to your door and knock
and knock
and call out: "If you need someone

to share your anguish, your simplest pain,
then let me be the one.
If not, let me again

embark, this time never
to return, in that final direction,
forever."



Faiz Ahmed Faiz (1910-1984)


14.5.04

Destaque e agradecimento

Fiquei sem palavras ao ler o comentário de João Nuno Almeida e Sousa do blog Ilhas. Agradeço a sua gentileza e os desmesurados elogios. Já visitei o Ilhas que considero um blog vivo onde as questões são debatidas com intensidade e de uma forma profunda. Acresce que sou natural de Ponta Delgada e vivi lá durante a infância e adolescência. Pensava fazer uma referência, mas como tenho frequentado pouco a net só agora o faço.

12.5.04

Alecrim aos molhos, por ti brilham os meus olhos

Ao crepúsculo, descia a rua do Alecrim. O Tejo em frente brilhava para mim.
Pela matina, subia a rua do Alecrim e não me esquecia de voltar a cabeça para contemplar o rio.

Impressões

Caminhando olho

o jardim
a luz
a luz no jardim
o verde
a relva
o verde da relva
o vermelho
as flores das romanzeiras
o vermelho das flores de romanzeira

Como Klee sinto: "As árvores olham-me, falam-me. Eu escuto, espero ser submergido, sepultado."
Manhã

Celebro o esplendor desta manhã!!!
Les Liaisons Dangereuses

Procura-se escritor inspirado capaz de criar um final feliz para os vilões do livro acima citado.
Provocações

Leonard Cohen (3)


Andam por aí a falar de amor... Leonard Cohen diz que não há cura para esta "mild form of mental disease."

Ain't No Cure For Love


I loved you for a long, long time

I know this love is real

It don't matter how it all went wrong

That don't change the way I feel

And I can't belive that time's

Gonna heal this wound that I'm speaking of

There ain't no cure

There ain't no cure

There ain't no cure for love



I'm aching for you baby

I can't pretend I'm not

I need to see you naked

In your body and your thought

I've got you like a habit

And I'll never get enough

There ain't no cure

There ain't no cure

There ain't no cure for love



(There ain't no cure for love)

(There ain't no cure for love)

All the rocket ships are climbing through the sky

The holy books are open wide

The doctors working day and night

But they'll never ever find that cure for love

(There ain't no drink, no drug)

(There's nothing pure enough to be a cure for love)



I see you in the subway

And I see you on the bus

I see you lying down with me

And I see you waking up

I see your hand, I see your hair

Your bracelets and your brush

And I call to you, I call to you

But I don't call soft enough

There ain't no cure

There ain't no cure

There ain't no cure for love


I walked into this empty church

I had no place else to go

When the sweetest voice I ever heard

Whispered to my soul

I don't need to be forgiven

For loving you so much

It's written in the scriptures

It's written there in blood

I even heard the angels

Declare it from above

There ain't no cure

There ain't no cure

There ain't no cure for love



(There ain't no cure for love)

(There ain't no cure for love)

All the rocket ships are climbing through the sky

The holy books are open wide

The doctors working day and night
But they'll never ever find that cure, that cure for love

(No cure for love, there ain't no cure for love...)
Breves apontamentos sobre grandes questões das neurociências (4)
Ce qui nous fait penser. La nature de la règle


Paul Ricoeur prossegue afirmando, que enquanto um dos discursos remete para conceitos como neurónios, conexões neuronais, sistema neuronal, no outro fala-se de conhecimento, de acção, de sentimento, ou seja de actos ou de estados caracterizados por intenções, motivações, valores. Ricoeur sublinha que combaterá aquilo que designa por amálgama semântica e que vê resumida na fórmula, digna de um oxímoro: "O cérebro pensa." Neste sentido, declara que parte de um dualismo semântico. Como hipótese de partida não vê a passagem de uma para outra ordem do discurso: ou bem que se fala de neurónios, e situamo-nos numa certa linguagem, ou bem que falamos de pensamentos, de acções, de sentimentos e os ligamos ao nosso corpo com o qual estamos numa relação de posse e de pertença. Assim eu poderei dizer que as minhas mãos, os meus pés, etc são os meus orgãos no sentido em que eu caminho com os meus pés, agarro com as minhas mãos, mas isto relevaria do vivido. Em contrapartida, quando me dizem que eu tenho um cérebro, nenhuma experiência viva, nenhum vivido corresponde a isto., eu aprendo-o nos livros, conclui Ricoeur.
Objecta Jean-Pierre-Changeux: Excepto quando tenho uma dor de cabeça ou uma lesão cerebral, devida por exemplo a um acidente que pode privar da fala ou da capacidade de ler ou escrever.

Continua
Confidências e Desabafos de Savarin (31)
Moqueca, Bobó de camarão e Caruru.


Há tempos, alguém falava com prazer de uma deliciosa moqueca de camarão servida num jantar em sua honra.Lembrei-me, no momento, embora não o tenha verbalizado, de uma libação organizada por mim e pela minha dama encantada de ocasião - que por um mero acaso não era de nacionalidade brasileira - onde incluimos um prato de moqueca na ementa. Já agora, por associação, derivei para o bobó e o caruru por serem iguarias com um certo grau de parentesco.


Moqueca de camarão

Ingredientes:


2kg de camarão
2 cebolas médias
2 dentes de alho
6 tomates maduros
1 ramo de coentros
1 colher de sopa de vinagre
1 malagueta
0,5 dl de óleo
1,5 de leite de coco
0,5 de azeite dendê
sal e pimenta

Preparação:


Temperar os camarões descascados com sal, sumo de limão e os coentros picados e deixar marinar. Levar ao lume o óleo com a cebola e os dentes de alho picados num tacho até alourar. Juntar os camarões. Deixar refogar. Misturar os tomates pelados e limpos das sementes cortados aos bocadinhos. Tapar o tacho e cozinhar em lume brando. Acrescentar a malagueta pisada, o vinagre e o leite de coco. Ferver para engrossar. Por último deitar o azeite dendê, que não deve ferver. Servir com arroz.


Caruru

Ingredientes:


500gr de camarões descascados
1dl de azeite de dendê
1 cebola média
1kg de quiabos
3 tomates
120 gr de amendoim
120 gr de castanha de caju
5 colheres de sopa de óleo
1 l de água
1 limão
1 ramo de salsa
sal e pimenta

Preparação:


Levar ao lume num tacho o óleo com a cebola picada. Logo que a cebola comece a alourar adicionar os quiabos cortados aos bocados com o sumo de limão e os camarões. Juntar os tomates, as castanhas de caju e o amendoim batidos com a varinha. Acrescentar a água quente e deixar cozer com o tacho tapado. Pouco antes de servir, verter o azeite de dendê. Servir com arroz branco.


Bobó de camarão

Ingredientes:


1kg de camarão sem casca
500gr de mandioca
0,5 dl de óleo
5 dentes de alho
4 tomates grandes e vermelhos
1 pimentão verde
1 ramo de coentros
1 raminho de hortelã
1 malagueta
1dl de água
3 dl de leite de coco
0,5 dl de azeite de dendê
2 cebolas médias
1 limão
sal

Preparação:

Cozer a mandioca com água e sal e 1 dl de leite de coco. Bater com a varinna mágica para fcar em creme. Levar ao lume o óleo, o azeite de dendê com a cebola e os dentes de alho picados, os tomates pelados e sem pevides, o pimentão verde cortado aos quadrados e a malagueta pisada. Logo que tudo esteja tenro adicionar os camarões lavados e temperados com sumo de limão. Refogar um pouco e juntar os 2 dl de leite de coco, a hortelã, os coentros picados e a água quente. Tapar o tacho e deixar ferver em lume brando. Misturar o creme da mandioca e ferver até espessar. Servir co arroz.

Uf!Fiquei estourado!
11 de Maio de 2004 - Ontem tornado hoje

Parabéns à Ana pelo Modus Vivendi onde se reflecte a sua refinada sensibilidade.

10.5.04

Da ninfomania ou furor uterino

Da Ninfomania ou Furor Uterino

Dou a palavra a Monsieur Bienville:

CHAPITRE II -
DANS LEQUEL ON EXPLIQUE EN GÉNÉRALE CE QUE C'EST QUE NYNPHOMANIE, OU FUREUR UTÉRINE.

On entend par nynphomanie, un mouvement déréglé des fibres dans la partie organique de la femme. Cette maladie est différent de toutes les autres, en ce que celles-ci attaquent subitement, et annoncent presque sur-le-champ, par des symptômes évidents,toute leur malignité: celle-là au contraire se cache presque toujours sous le dehors imposteur d'un calme apparent; et souvent elle est déjà d'un caractère dangereux, qu'on ne s'est pas encore aperçu, non seulement de ses progrès, mais même de ses commencements. Quelque fois la malade qui en est atteinte a un ped dans le précipice, sans se douter du danger; c'est un serpent qui s'est insensiblement glissé dans son coeur (...)

CHAPITRE IV -
DES DEGRÉS ET SYMPTÔMES DE LA FUREUR UTÉRINE

Par tout ce que nous avons dit jusqu'à présent, il serait aisé de conclure qu'il n'est point de maladie où les gradations soient plus promptes et plus violentes, et les symptômes puissent rester longtemps cachés, au moins dans ses commencements, et même lorsqu'elle a acquis une certaine malignité.C'est alors qu'il faut absolument l'oeil pénétrant et habile d'un homme expérimenté auquel rien n'échappe, et qui sait, malgré le peu d'apparence du danger de la plaie, fonder avec autant de hardiesse que de lumière les sinus fistuleux, et pénétrer les clapiers dont d'autres ne se seraient pas seulement douté.

M. Bienville, Nymphomanie ou Traité de la Fureur Utérine, (Paris, Office de Librairie, 1886), pp.20 e 50

4.5.04

Breves apontamentos sobre grandes questões das neurociências (3)
Ce qui nous fait penser. La nature de la règle


Escrevo este texto em homenagem à minha amiga Madalena que me ofereceu o livro de Jean-Pierre Changeaux e Paul Ricoeur intitulado, precisamente, Ce qui nous fait penser. La nature de la règle. A Madalena partilha comigo o interesse pelas neurociências e, porque não dizê-lo, pela gastronomia e por outros prazeres afins.
Apesar de ela própria viver em quase permanente clima de crise existencial e afectiva ajudou-me a sair de um turbilhão de emoções negativas.

Irei proceder a um levantamento das questões abordadas ao longo do diálogo entre o "biólogo materialista e o filósofo cristão" sobre os fundamentos da moral e das normas, que me suscitaram maior curiosidade.
Jean-Pierre Changeux defende uma origem natural, neuronal do comportamento e da moral, bem assim como um discurso unificado - sob a égide da neurologia - sobre o comportamento e o pensamento. Por seu turno, Paul Ricoeur mostra-se reticente em aceitar que o neuronal e o psíquico se encontrem directamente correlacionados. Preconiza a elaboração de um terceiro discurso para além do científico e do humanista sobre a relação cérebro mente.
Uma das primeiras questões fundamentais enunciadas por Jean-Pierre Changeux é a de saber se é de manter a distinção entre o factual, o que é, e o normativo, o que deve ser, a regra moral. Ou se pelo contrário, podemos enriquecer a reflexão ética a partir do nosso conhecimento científico sobre o cérebro e as suas funções superiores, e porque não interrogarmo-nos sobre as relações entre a regra e a natureza.
Releva, no entanto, a necessidade de usar de uma certa prudência para evitar as ideologias da exclusão como aconteceu em relação à genética.
A ética como ciência objectiva da moral constitui,no entender do biólogo, uma problemática de grande actualidade.
Paul Ricoeur contrapõe afirmando que se situa numa semântica dos discursos elaborados por um lado sobre o corpo e o cérebro e por outro lado, sobre o que designa pelo mental, com as reservas que lhe fornecem as filosofias reflexiva, fenomenológica e hermenêutica. São, defende, perspectivas heterogéneas, irredutíveis e que não derivam uma da outra.


Continua

3.5.04

Provocações

"O amor por um só é uma barbaridade, porque se exerce à custa de todos os outros..." Nietzsche, Para Além do Bem e do Mal, op.cit. p. 77

"A mulher é uma degenerada," Miguel Bombarda dixit...


A mulher é uma degenerada, disse eu. Está claro que a phrase não aspira a mais que exprimir sob uma forma paradoxal uma grande verdade, qual é a inferioridade psychica da mulher, sua estreita dependência do homem e um certo grau de anomalia mental que a torna meio antagónica com o ambiente social. A degenerescência, que resulta d'uma construcção cerebral defeituosa, representa-se pela ausência ou diminuição da faculdade de adaptação ao meio e pela tendência à eliminação espontanea na sucessão das grerações. Se na mulher falta este ultimo caracter, os outros estão presentes; em particular o primeiro é grandemente accentuado. Isto apenas quer dizer que a degenerescência é parcial. O organismo inteiro é uma decadência; só ovulo se salva no grande desastre.
Não é preciso conhecer muito a fundo os factos embryologicos para se saber que a sexualidade feminina simplesmente representaria uma suspensão de desenvolvimento; isto bastaria para caracterizar de teratologico o organismo da mulher. Mas ha mais...


Miguel Bombarda, Lições sobre a Epilepsia e as Pseudo Epilepsias, (Lisboa, Livraria António Maria Pereira, 1896), p. 130
Continua