28.4.04

Breves apontamentos sobre grandes questões das neurociências (2)


As teorias sobre a etiologia da doença mental adaptaram-se às concepções acerca do funcionamento do cérebro dominantes em cada época. As causas eram procuradas, ora num dano orgânico difuso ou localizado do cérebro, ora na disfunção dinâmica dos circuitos cerebrais, ou na descrição dos mecanismos da transmissão sináptica.
A busca de uma lesão cerebral ainda que invisível, orientou a investigação de diferentes alienistas dos finais do século XIX, como Étienne Esquirol (1772-1840), Moreau de Tours (1804-1884), Morel (1809-1873), Valentin Magnan (1835-1916), e respondeu a imperativos de carácter científico e social. O critério biológico forneceu um modelo da doença mental que conferia um papel social ao psiquiatra, pois representava uma precaução positivista e materialista comum às outras áreas médicas e, simultaneamente, uma justificação clínica de protecção do alienado e da sociedade contra a alienação.
A procura da origem biológica do espírito encontrou a sua expressão mais marcada na ideia de transmissão genética dos estados mentais mórbidos, ou seja, na teoria da degenerescência. Temas como o organicismo e a identidade cérebro/mente encontravam-se na origem das investigações, quer dos defensores da tese das localizações cerebrais, quer dos holistas.
A teoria das localizações cerebrais de Gall e de Broca era admitida mas relegada para o domínio das funções sensoriais e motoras. Para alguns autores seus contemporâneos, a sede das funções psíquicas superiores residia na globalidade da superfície cerebral. Contudo, a observação dos efeitos antagónicos decorrentes das experiências de ablação dos lobos anteriores e posteriores em cães, efectuadas por Goltz, conduziram ao aprofundamento das pesquisas experimentais sobre as funções dos lobos frontais no animal e no homem. As investigações com animais realizadas de Hitzig a Jacobsen e Fulton, bem assim como a análise dos casos clínicos de lesões frontais efectuada sobretudo a partir da I Guerra Mundial, originaram grandes polémicas sobre o papel da região frontal no comportamento. Era evidente que as lesões frontais provocavam graves alterações da personalidade, mas não havia consenso quanto à sua patogenia. A questão girava em torno de saber qual o défice, emocional, intelectual ou mnésico que melhor poderia explicar o conjunto dos sinais observados. O problema em debate era o da primazia de um elemento sobre os outros e não o da conjugação de diferentes factores. Jean Lhermitte, em 1929, preconizou a primazia das perturbações emocionais. Brickner, em 1934, referiu-se ao papel das perturbações intelectuais, no estudo de um doente operado por Dandy e, finalmente Kurt Goldstein (1878-1965), nos anos 40, defendeu que nas lesões frontais se poderiam verificar três tipos de perturbações, intelectuais, emocionais e mnésicas. Actualmente, em virtude de uma caracterização mais completa da topografia das lesões, sabe-se que as lesões da região dorso-lateral dos lobos frontais provocam os chamados défices intelectuais, enquanto as lesões da zona ventro-mediana originam perturbações emocionais.
Durante muito tempo, considerou-se que os lobos frontais eram um centro de elaboração e controlo da actividade mental. A constatação de que depois da ablação ou da lesão frontais se verificava a coexistência de perturbações intelectuais e afectivas, seguida de uma modificação radical de atitudes — animais violentos tornavam-se dóceis, homens responsáveis deixavam de o ser e jovens melancólicos passavam a ter espírito galhofeiro — fez surgir a ideia de intervir no seu funcionamento com o objectivo de alterar a actividade mental perturbada.
Breves apontamentos sobre grandes questões das neurociências (1)

A História das Neurosciências estruturou-se em torno de três grandes debates temáticos:
• Mente vs. cérebro (monismo/dualismo): serão a mente (cognição/comportamento) e o cérebro (substância física) entidades distintas (dualismo) ou unidas (monismo)?
• Localismo vs. holismo: terão os neurónios e as áreas do cérebro funções específicas (localismo) ou indiferenciadas funcionando como um campo (holismo)?
• Natureza da comunicação neural: será a mente totalmente "criada" pelo cérebro? A consciência poderá reduzir-se a neurónios? Haverá uma alma para além dos neurónios? Estas questões continuam a ser debatidas, e constituindo John Eccles (1903-1997) e Francis Crick (n.1916), exemplos da permanência destas polémicas.
O estudo científico do cérebro e das suas relações com os comportamentos complexos começa com Franz Gall (1758-1828) nos alvores do século XIX. Posteriormente, os estudos anatómicos de Broca (1824-1880), em 1861, e de Wernicke em 1874, sobre a afasia despertaram em muitos cientistas a convicção de que o cérebro era o centro das capacidades intelectuais e a causa potencial dos distúrbios mentais. A partir dos finais do século XIX até à Segunda Guerra Mundial, cientistas como Theodor Meynert, (1833-1898), Liepmann, Oppenheim, Charcot, Sergei Korsakoff (1853-1911), Babinski, Janet, Freud, Hughlings Jackson (1835-1900), Bleuler, Kraepelin, Bonhoffer e Alzheimer (1864-1915), entre outros, estavam empenhados na investigação das disfunções mentais. Todos eram considerados neuropsiquiatras interessados igualmente no estudo da neurologia e da psiquiatria. A neuropatologia nasceu dos esforços, primeiramente efectuados na Alemanha, para correlacionar as mudanças na estrutura do cérebro com as doenças mentais. Iniciou-se também a procura de meios técnicos mais eficazes e abrangentes do que a dissecação, que permitissem a visualização das áreas cerebrais e a consequente localização das diferentes funções.
Durante os anos trinta, muitos dos sintomas neurológicos foram clinicamente definidos e as suas bases neuropatológicas identificadas. Os exames neurológicos elementares foram redefinidos: testes diagnóstico como a análise CSF (análise do líquor ou líquido cefalorraquidiano) e instrumentos como o EEG (electroencefalograma) estavam na ordem do dia. Todavia, estes desenvolvimentos serviram para reforçar a dicotomia mente/cérebro. Enquanto os neurologistas preconizavam que as disfunções do sistema nervoso cujas etiologias estavam estabelecidas e demonstradas pela anatomia patológica constituíam a base das desordens mentais, muitos psiquiatras estavam persuadidos que não havia patologia visível para tais desordens, defendendo a origem funcional e ideopática da doença mental.
Com o crescimento e difusão da análise freudiana, a dicotomia orgânico versus funcional ganhou força e contribuiu para aumentar o fosso entre a neurologia e a psiquiatria. A maioria dos psiquiatras abandonou a biologia e medicina experimentais e orientou as suas investigações segundo coordenadas tendencialmente psicanalíticas e sociais. O estudo do cérebro enquanto orgão da cognição e do comportamento era por eles considerado irrelevante.
No entanto, um pequeno grupo de psiquiatras resistiu à tese baseada na dicotomia mente/cérebro e contestou a perspectiva acima referida. Este pequeno grupo de psiquiatras biológicos estabeleceu as bases científicas da neuroanatomia química, da neurotransmissão e da psicofarmacologia. Os agentes terapêuticos para as desordens psicóticas e afectivas começaram a ser utilizados em 1950.


Confidências e Desabafos de Savarin (30)
Neste momento não pretendo transcrever receitas, mas apenas desabafar através das palavras de Alfredo Saramago, palavras impregnadas de uma pertinente ironia:

Os torquemadas da cozinha deveriam dirigir as suas preocupações para a enunciação dos alimentos intragáveis que pervertem o paladar e prejudicam a saúde.
Um leitor atento e obediente estará hoje condenado à morte por inanidade; num dia proibem-lhe as gorduras, noutro a carne, para a semana as verduras que têm um teor perigoso de pesticidas, para a outra ainda os ovos, o leite ficará reservado para as crianças; de pão, quase nada, alcool nem vê-lo e água, só entre as refeições que já não existem, porque escassearam os produtos autorizados.


Alfredo Saramago, Cozinha para Homens, A Honesta Volúpia, (Lisboa, Colares Editora, 1992), p.15.

27.4.04

Mais Leonard Cohen

The Guests


One by one the guests arrive
The guests are coming through
The open-hearted many
The broken-hearted few

And no one knows where the night is going
And no one knows why the wine is flowing
Oh love, I need you, I need you, I need you
I need you now

And those who dance begin to dance
Those who weep begin
Welcome, welcome, cries a voice
Let all my guests come in

And all go stumbling through that house
in lonely secrecy
Saying Do reveal yourself
Or, Why hast thou forsaken me

All at once the torches flare
The inner door flies open
One by one they enter there
In every style of passion

And here they take their sweet repast
While house and grounds dissolve
And one by one the guests are cast
beyond the garden wall

And those who dance begin to dance
Those who weep begin
And those who earnestly are lost
Are lost and lost again

One by one the guests arrive
The guests are coming through
The broken-hearted many
The open-hearted few

And no one knows where the night is going
And no one knows why the wine is flowing
Oh love, I need you, I need you, I need you
I need you now


Leonard Cohen,
Recent Songs - 1979


24.4.04


Empatia - Agradável surpresa


Não posso deixar de agradecer e retribuir todas as palavras, imensamente gentis, da Ana do Modus Vivendi. A Ana é uma pessoa muito especial e fiquei muito feliz por conhecê-la.

20.4.04


Ausência e Comunicação


A minha ausência deveu-se a motivos técnicos e existenciais. Causas técnicas: o meu computador pifou. Motivações existenciais: actividades bem mais interessantes.

Para compensar os meus parcos leitores, transcrevo um texto de Paul Ricoeur sobre a comunicação. Para mais tarde, prometo a saga dos corações solitários no video clube.

Para o linguista, a comunicação é um facto e mesmo até o mais óbvio. As pessoas, efectivamente, falam umas às outras. Mas, para uma investigação existencial, a comunicação é um enigma e até mesmo um milagre. Porquê? Porque o estar junto, enquanto condição existencial da possibilidade de qualquer estrutura dialógica do discurso, surge como um modo de ultrapassar ou de superar a solidão fundamental de cada ser humano. Por solidão não quero indicar o facto de, muitas vezes, nos sentirmos isolados como numa multidão, ou de vivermos e morrermos sós, mas num sentido mais radical, de que o que é experienciado por uma pessoa não se pode transferir totalmente como tal e tal experiência para mais ninguém. A minha experiência não pode tornar-se directamente a vossa experiência. Um acontecimento que pertence a uma corrente de consciência não pode transferir-se como tal para outra corrente de consciência. E, no entanto, se algo passa de mim para vocês, algo se transfere de uma esfera de vida para outra. Este algo não e a experiência enquanto experienciada, mas a sua significação. Eis o milagre. A experiência experenciada, como vivida, permanece privada, mas o seu sentido, a sua significação torna-se pública. A comunicação é deste modo, a superação da radical não comunicabilidade da experiência vivida enquanto vivida.

Paul Ricoeur, Teoria da Interpreta??o, (Porto Editora, 1995), p.66.

15.4.04

Música, Músicos, Orfeu e Eurídice

Bem aventurados sejam os músicos, pois deles é o reino dos céus...



Marc Chagall

Orpheus. 1913-1914.
Oil on canvas, 42.5x56.2 cm. Private collection

Tenho uma obsessão pelo mito de Orfeu e Eurídice, sobretudo, pelas suas versões musicais, por isso, e muito mais, ouço agora,
Orfeo ed Euridice de Christoph Willibald Gluck (1714-1787), versão vienense de 1762. Sob a direcção de Karl Richter, com Gundula Janowitz, soprano (Eurídice)
Dietrich Fischer-Dieskau, barítono, (Orfeu) e Edda Mosser, soprano, (Amore). Deutsche Grammphon, 1968.


Penso que Eurídice morreu pela segunda vez, intencionalmente, ela preferiu ficar no Hades, por isso voltou a cabeça...

14.4.04


Império dos Sentidos (2)

Dentro da noite,
rasgam-se todos os véus.
De tão intenso o desejo corta,
Insano.
Na vertigem da lua cheia,
caprichosa criança, o corpo desalmado é um frenesim

Bernardo Rodrigues Barata

Envolvo-te na camisa chinesa.
A tua pele agradece,
o aflorar da seda.
Dispo-te,
para sentir
o teu corpo dançar
ao soltar-se da seda.
Adio,
aquele sopro de voz
a desprender-se
dos teus lábios:
quando o mundo se desvanece
e se encontra.

Bernardo Rodrigues Barata
Império dos Sentidos

Um poema que evoca o clima do Império dos Sentidos:


Insatiable

This has
Got to stop
Not the passion
Us not being
Able to resist
Each other
The endless craving
In my groin
The hunger of
My lips
To taste
You
The pull
Of my arms
To wrap you
To me
This has got to stop
Not the unquenchable
Desire
The tongue
Massaging flesh
The arms
That caress
And enfold

But the interruption
Of Daybreak
The Demands
Of work
The intrusion
Of friends
All those
Petty things
That steal us
From each other
Temper our
Rhythm
Wipe our
Wetness



That’s what has
Got to stop
Not you
Deep in me
Bodies thrashing
Drinking love
From each other
Not being able
To get enough
Of ourselves

The moon
Refusing
To surrender
Her place
To the sun
Us
Interconnected
Riding Waves
Smelting iron
Us
Resisting
Drowning ourselves
In each other

This has
Got to stop
But I pray
It never.


Opal Palmer Adisa

12.4.04

Provocações


"As consequências das nossas acções agarram-nos pelos cabelos, sem nada se importarem com o facto de, entretanto, nos termos «corrigido»."

"Há uma inocência na mentira que é o sinal da boa fé numa causa."

"Há uma exuberância na bondade que parece ser maldade."

Nietzsche, Para Além do Bem e do Mal, (Lisboa, Guimarães Editores, 1982), p.89.

11.4.04


Impressões de Sexta e Sábado


Ontem, Sábado, vi em DVD, um filme de Dai Sijie, Balzac e a princesa chinesa - tradução portuguesa - que me surpreendeu pela sua invulgaridade e beleza.

Coincidências

Anteontem, Sexta-feira, vi da varanda, desta casa em Montemor-o-Novo, a procissão do Enterro do Senhor. Das varandas da casa onde passei grande parte da infância e a adolescência, em Ponta Delgada, também se via a procissão do Enterro do Senhor.


Giovanni Segantini (1858-1899), A Punição da Luxúria, 1891, óleo sobre tela, 235 x 129.2cm.

A propósito das representações de Segantini sobre a mulher ler o ensaio do psicanalista Karl Abraham.
Duas Vias para a Compreensão da Hermenêutica Actual: Heidegger e Paul Ricoeur(8)

Segue-se uma síntese da análise heideggariana acerca do conceito de experiência em Hegel. O estudo deste ensaio, de Heidegger, mostra-nos claramente o modo próprio como Heidegger desmonta um texto; através desta análise vemos em que consiste a hermenêutica heideggariana e qual o sentido da designada "destruição" da Metafísica e da consequente edificação de uma nova Filosofia a partir dos textos da Tradição.
Hegel afirmou que a Filosofia " é o conhecimento efectivo daquilo que é na verdade".
Aquilo que é na verdade, o verdadeiramente ente, seria posto em evidência como o Real efectivo, cuja efectividade seria o"Espírito". A essência do "Espírito" residiria na consciência de si.
No período Moderno, diz-nos Heidegger, o pensamento é que seria o princípio, quer dizer o pensamento tomar-se-ia a ele mesmo como ponto de partida. O pensamento procuraria para ele o seu "fundamentum absolutum". A Filosofia instalar-se-ia na "terra", da incondicional certeza de si e do saber.
O Absoluto é para Hegel o Espírito. O conhecimento efectivo do Ente como ente é agora o conhecimento absoluto do absoluto na sua "absolutidade".

Seria preciso medir o conhecimento do absoluto quanto à sua conformidade com o Absoluto. Seria necessário, por conseguinte, reconhecer o absoluto, pois de outro modo toda a delimitação crítica cairia no vazio. Daqui se deduz outra coisa: a discussão do instrumento de conhecimento. Todavia, conclui-se que o exame crítico do instrumento não dá conta do absoluto e isto apesar ou a despeito da sua pretensão imediata de melhor saber. (Aqui reside a crítica a Kant).
A propósito, declarou Hegel: "O absoluto está desde o princípio, à partida "em si" e "para si" junto de nós e quer permanecer junto de nós. Este perto de nós, junto de nós, seria já e em si mesmo o modo como a luz da verdade, o Absoluto ele mesmo, nos iluminaria. O conhecimento do Absoluto que se encontraria sob o traço desta luz, "apresenta-o" e reflecte-o, sendo na sua essência o traço irradiante ele-mesmo e não o meio através do qual o raio passaria.

O primeiro passo, que o conhecimento do Absoluto teria a dar, consistiria em aceitar e receber com toda a simplicidade o Absoluto na sua Absolutidade ou seja no seu ser-junto-de-nós.
A Filosofia consistiria no conhecimento do Absoluto e como tal seria conhecimento efectivo, ou seja um conhecimento que representaria o real ele-mesmo e na sua verdade. Para isto se poder realizar, a ideia habitual de conhecimento deveria ser abandonada, o conhecimento não poderia ser considerado como meio, nem como instrumento.
A Filosofia, de acordo com Hegel, seria considerada o Saber incondicionado. A Filosofia na "ciência". Esta designação não significaria que a Filosofia tomou para si o modelo das outras ciências e que ela realizaria na perfeição este modelo ideal. Se o nome de ciência adquiriu no interior da Metafísica absoluta, o lugar do nome de Filosofia, teria sido porque essa significação derivaria da natureza e da certeza de si, da sua "auto-segurança", da certeza do sujeito conhecendo-se incondicionalmente. Seria este o "subjectum" que a Filosofia desde o começo reconheceu como aquilo que está presente. A Filosofia ter-se-ia tornado "ciência", porque ela permaneceria "a Filosofia". Competir-ia-lhe considerar o ser, o ente enquanto ente. O ente manifestar-se-ia no pensamento de tal modo, que todo o ente seria uma res cogitans e nesse sentido sujeito - acontecendo assim desde Leibniz. O sujeito "entende" o seu ser, desdobra-o na relação ao objecto, que é uma relação de representação. Esta relação seria já uma relação de representação para si. A representação apresentaria o objecto representando-o ao sujeito e nessa representação o sujeito ele-mesmo apresentar-se-ia como tal. A "apresentação" seria assim o traço fundamental do saber no sentido da consciência de si, do sujeito. A apresentação seria um modo de manifestação(*). Enquanto presença, a apresentação seria o ser do ente que estaria no género do sujeito (consciência "incondicionada").
A consciência sendo o modo velado da existência do Espírito deveria tornar-se naquilo que é ou seja consciência do Absoluto. Este devir da consciência, seria por assim dizer uma conquista. A consciência, gradualmente recusaria as ideias parciais que a representam para finalmente ressurgir ideia Total a qual tornará a consciência absolutamente transparente. A Fenomenologia do Espírito é afinal o desvelamento do Absoluto, interior ao sujeito pois a subjectividade consistiria na consciência condicionada em si, segundo Heidegger, incondicionada de si.
Hegel apresentou-nos o itinerário da consciência voltada para a razão do seu devir: o Espírito. A Fenomenologia do Espírito seria, assim, o triunfo da Lógica, da ciência da Lógica. O homem conquistaria o seu Absoluto através da manifestação aparição da "presença"das imagens da sua própria representação. No entanto, o que é este Absoluto dominado pela Razão, senão a plena transparência da consciência a si mesma, o triunfo ilusório do "subjectum"? O devir de Heraclito, contrapôs Heidegger, constituía um jogo misterioso, o devir em Hegel seria a "divina comedia" mediante a qual a Razão asseguraria para si o domínio do Real.
Heidegger vislumbrou na descrição do itinerário do Espírito uma aproximação à "diferença ontológica". A expressão ingénua da consciência, a consciência natural, quer dizer a consciência ôntica medida pelo sendo objecto, todavia esta não pode trazer à sua presença o objecto se não possuir ela própria a capacidade de o superar. A realidade da consciência concentra-se pois, sempre, para além do objecto embora ela seja consciência pre-ontológica. Este "recuo da consciência relativamente aos (seus) objectos por ela apreendidos, ou explicitando melhor, esta "diferença" que lhe é interior, torna possível o movimento da identidade ou antes da identificação, uma vez que a consciência não se realiza no conhecimento da Razão, mas sim no reconhecimento da Ideia.
Todavia - referiu Heidegger no comentário ao parágrafo sexto do texto referido no começo - a perspectiva teológica desta Filosofia impediu Hegel de pensar em toda a sua profundidade o ser da consciência, o sein da palavra "Bewnsstsein" o que quer dizer que consciência e saber identificar-se-iam. Também a consciência acabaria por se identificar com o reconhecimento da totalidade tornada inteligível pela Realidade do Absoluto.

O processo de identificação, desvanecer-se-ia face à identidade consumada, a "aparição" alienar-se-ia no jogo da "aparência", a "gratuidade" do ser e subjugada pelo olhar da Razão.

Afinal, comentou o autor de "Chemins..." a Fenomenologia do Espírito é a explicitação de uma tautologia - tautologia - a clarificação da estrutura lógica da Razão: o representado - sendo - e a representação - ser que se apresenta. A "presença" que representa e finalmente identificada com o presente representado e absolutizado.

Representada a partir do presente (a presença) tornar-se-ia o que está presente acima de tudo e assim o sendo presente supremo:
A dialéctica hegeliana, repousaria, segundo Heidegger, sobre o modelo platónico da Ideia, a qual seria a imagem objectiva (eidos) da consciência sujeito; o em-si do para-si. A superação da"Ideia" efectuar-se-ia sempre no horizonte de uma nova ideia que integraria a anterior. O Absoluto seria, assim, a ideia Perfeita, a qual reflectiria a transparência da consciência, do em-si tornado para si. A Razão, tornar-se-ia deste modo, a causa última; acabando por "assenhorear-se" da realidade do ser, "domesticando" o Tempo. Neste sentido, afirmou Heidegger:
"O objecto original do Pensamento, apresenta-se como a causa, a "causa prima", que corresponde ao retorno pendente, à última "ratio", a justificação última. O ser do sendo e representado no sentido de fundamento de forma exaustiva como causa sua."
Hegel teria reduzido o Eros ao Eidos, a vida ao Espírito. A vida seria o desenvolvimento da consciência que se procuraria através das suas próprias figuras e se superaria projectando-se em objectivações cada vez mais adequadas. A ideia e o discurso histórico mediante o qual se conquistaria o pensamento. (Hegel atribuiu, assim, à História o estatuto que Kant conferia à Ética).
Mas, torna-se premente perguntar, em que consiste, afinal o conceito de experiência em Hegel interpretado por Heidegger. Tudo quanto se referiu até agora, se encontra, intrinsecamente, relacionado com essa "definição", fornecendo os dados que nos permitem compreender a interpretação heideggaria na do conteito hegeliano de experiência.
"A experiência é este modo a partir do qual a consciência se lança em busca do seu conceito, enquanto ela e na verdade". Quando Hegel mencionou o labor do conceito ele não entendeu o "suor" do esforço cerebral nos eruditos, mas sim o absoluto, ele mesmo lutando para se extrair ate à "absolutidade" da sua auto-compreensão, partindo da certeza incondicional de si. A serena constância que caracterizaria a "Parousia" na medida em que ela constituiria a ligação da "presença" junto de nós, permaneceria ao menos compatÍvel com esta pena do Absoluto. É que o Absoluto "entraria" simplesmente enquanto Absoluto, nesta relação).
"A experiência seria o "tender para", que chegaria plenamente onde seria preciso, onde deveria. A experiência, seria o que faz conduzir a ..." como o pastor que conduz o rebanho desde o estábulo e o guia até à montanha". A experiência seria o percurso que se lança até ao que deve alcançar.

A experiência seria um modo da presença, quer dizer do ser. A experiência concerne ao presente na sua presença, na medida em que a consciência se apresentaria a ela própria.

A experiência seria o ser do ente. O ente surgiria na "fenda" da consciência e seria como o aparecendo da representação. A "experiência" identificar-se-ia com o movimento que a consciência ela mesma exerceria sobre ela própria. A experiência desprender-se-ia da vontade de absoluto do ser junto de nós, a representaçao pertenceria à essência da consciência, se a representação por sua vez, encontrar o seu fundamento no virar da consciência, no seu movimento, e se este virar da consciência for o cumprimento da nossa relação essencial ao Absoluto, então a nossa essência ela-mesma, fará parte da absolutidade do Absoluto.

Bibliografia
Martin Heidegger, El ser y el tiempo, (F.C.E. , 1954).
Martin Heidegger, "L'époque des conceptions du monde," in Chemins qui mènent nulle part, (Paris, Gallimard, 1980).
Martin Heidegger, "Hegel et son concept de l'experience," in Chemins qui mènent nulle part, (Paris, Gallimard, 1980).
Martin Heidegger, Introdução à metafísica, (Rio de Janeiro, Editorial Tempo Brasileiro, 1978).
Hegel, Phénémonologie de L'Esprit, (Paris, Aubier Montaigne, 1941).
Paul Ricoeur, Le conflit des interpretations, (Paris, Éditions Du Seuil, 1969)









8.4.04

Provocações

Viver com imensa e orgulhosa calma; sempre para além de. Ter e não ter, arbitrariamente, os seus afectos, o seu pró e contra, pousar neles, por umas horas; sentar-se neles como em cavalos, frequentemente como em burros: é o que se deve saber aproveitar a sua estupidez tal como a sua fogosidade. Conservar os seus trezentos primeiros planos; também os óculos escuros: pois há casos em que ninguèm nos deve olhar nos olhos e muito menos ainda nas nossas "razões". E escolher, para companhia, aquele vício matreiro e sereno: a delicadeza. E ficar senhor das suas quatro virtudes, a coragem, a perspicácia, a compaixão, a solidão. Pois a solidão é, entre nós, uma virtude, como tendência e ímpeto sublimes do asseio que adivinha como, no contacto de homem para homem - "em sociedade" - tudo é, inevitavelmente, sujo. Toda a comunidade - de qualquer modo, em qualquer parte, em qualquer altura - "torna vulgar".

Nietzsche, Para Além do Bem e do Mal, (Lisboa, Guimarães Editores, 1982), p.211.

7.4.04

Viagens

Lembro-me, com gosto, das viagens de barco entre Ponta Delgada e Lisboa. Eram bem mais emocionantes do que as de avião. Por vezes, o rigor das tempestades impedia-nos de sair dos camarotes. Mas, na maior parte do tempo, nós as crianças percorriamos o barco, a bisbilhotar tudo. Os passageiros que descansavam no convés não achavam muita graça às nossas correrias loucas. Tudo a bordo se tornava motivo de curiosidade e prazer, as refeições, os banhos na piscina. Outra actividade de grande interesse consistia em espreitar para o salão de baile e para a sala de cinema, uma vez que a nossa tenra idade não nos permitia frequentar aqueles espaços.
A beleza da chegada ao estuário do Tejo, primeiro o voo das gaivotas, depois avistava-se a Torre de Belém...

Adolescente sentada na avenida marginal olhava a doca de Ponta Delgada e sonhava com outras praias e gentes, outros poentes diferentes. Só sabia olhar, ver o mar que me dava notícias do mundo.
Joshua Slocum (1844-1909?) nos Açores

Joshua Slocum foi considerado o primeiro navegador solitário a circum-navegar a terra, numa viagem que decorreu entre 1895 e 1898. No livro Sailing Alone Around the World relatou a sua viagem à volta do mundo. Trata-se de uma descrição plena de fascínio, na medida em que para além de contar as suas aventuras náuticas, as tempestades, os perigos causados pelos piratas e indígenas, Slocum revela, através das suas histórias, os padrões de cultura da sua época.
Um aspecto que me encantou foi a antropomorfização do Spray, o barco onde navegou. O barco tem personalidade e vontade próprias. Destaco também o relato das recepções festivas, por parte das populações locais, em cada porto onde atracava, os presentes que recebia, as relações com os marinheiros que ia encontrando.

Com nasci nos Açores e quando criança viajei de barco, várias vezes - num paquete - entre a minha terra e Lisboa, vou transcrever, aqui, uma passagem relativa à chegada ao referido arquipélago:

Terra à vista ! Na manhã de 19 de Julho uma cúpula mística como uma
montanha de prata jazia sózinha no mar à minha frente. Embora a terra estivesse completamente escondida pela neblina branca e cintilante que brilhava ao sol como prata polida, tive a certeza que era a ilha das Flores. Às 16:30 estava de través. Entretanto a neblina desaparecera. A ilha das Flores fica a setenta e quatro milhas do Faial, e embora seja uma ilha alta, permaneceu por descobrir durante muitos anos depois de o primeiro grupo de ilhas ter sido colonizado.
No dia 20 de Julho, de manhã cedo, vi o Pico a surgir sobre as nuvens na proa de estibordo. Terras mais baixas avançaram à medida que o sol consumia o nevoeiro matinal, e foi aparecendo uma ilha após outra. Quando me aproximei, surgiram campos cultivados, e como era verde o milho! Só aqueles que viram os Açores do convés de um barco conhecem a beleza da imagem no meio do oceano. (...) Cheguei aos Açores na estação da fruta, e não tardei a ter a bordo mais fruta de todas as espécies do que eu podia comer. Os ilhéus são sempre as pessoas mais bondosas do mundo, e nunca encontrei pessoas mais bondosas do que os bons corações deste lugar. O povo dos Açores não são uma comunidade muito rica. O fardo dos impostos é pesado, com escassos privilégios em troca, e o ar que respiram é a única coisa livre de imposto. A metrópole nem sequer permite que tenham um porto de entrada para um serviço de correio estrangeiro. Um paquete que passe pertissimo com o correio para a Horta tem de o entregar primeiro em Lisboa, ostensivamente para ser desinfectado, mas na verdade por causa da tarifa do paquete. As cartas que enviei da Horta chegaram aos Estados Unidos seis dias depois da minha carta de Gibraltar, enviada treze dias depois.
No dia a seguir à minha chegada havia a festa de um grande santo. Barcos cheios de pessoas vieram de outras ilhas para festejarem na Horta. O convés do Spray esteve cheio, de manhã à noite de homens, mulheres e crianças. No dia a seguir à festa um nativo de bom coração aparelhou uma junta de bois e conduziu-me durante um dia pelas belas estradas do Faial, "porque", segundo disse num inglês macarrónico, "quando estive na América e não sabia dizer uma palavra de inglês, tive muitas dificuldades até encontrar alguém que parecia ter tempo para ouvir a minha história, e eu prometi ao meu santo que se algum estrangeiro viesse ao meu país eu tentaria fazê-lo feliz." Infelizmente, este cavalheiro trouxe consigo um intérprete para eu ficar a "conhecer melhor a terra". O homem quase me matou de enfado, a falar de barcos e viagens, e dos barcos que manobrara, a última coisa no mundo que eu queria ouvir. (...) O meu amigo e anfitrião quase não teve oportunidade de dizer uma palavra.


Comandante Joshua Slocum, Navegador Solitário, Viajando Sózinho à Volta do Mundo, (Lisboa, Publicações Europa-América, 2000), pp.62-63

6.4.04


O Contributo das Mulheres para a História da Psicanálise (7)

Melanie Klein (continuação)


Melanie Klein, em desacordo com Freud, afirmou a existência de uma posição feminina, na mulher, existente desde o nascimento.* A referida posição seria, posteriormente, substituída pela masculina a qual apenas consistiria numa defesa contra o medo primordial feminino, medo da destruição interior do corpo. Temor que Klein associou à fantasia do pénis enquanto orgão agressivo.
Melanie Klein divergiu ainda de Freud no que concerne à sua conceptualização do superego na mulher, enquanto Freud defendeu que o superego feminino seria débil, Klein refutou-o, considerando que é mais forte na mulher do que no homem. Outro ponto de discórdia centrou-se nas motivações da mulher para ter um filho, segundo Freud o desejo de ter um filho seria uma substituição do desejo de ter um pénis. Ora, para Klein o desejo de ter um filho seria uma consequência do medo primordial feminino.
Melanie Klein falou mesmo num complexo feminino no homem que consistiria no desejo de ter um orgão que lhe permitisse conceber. Em Inveja e Gratidão, defendeu que a inveja do peito, que é constitucional, no homem poderia transferir-se à vagina e a todos os atributos femininos, particularmente a capacidade para ter filhos. Deste modo o desejo de ter filhos também seria inato, no caso do homem.

* Freud preconizou que a menina adoptaria inicialmente uma postura fálica e só depois se resignaria a aceitar o seu papel de mulher.

Continua

Boa disposição e neurotransmissores

O nível de serotonina nas fendas sinápticas dos meus neurónios deve estar muito elevado, porque me sinto particularmente bem disposta. Verdade seja dita que tenho feito uma alimentação rica em hidratos de carbono. Semelhante dieta leva, segundo os entendidos, a um incremento dos níveis de triptofano no plasma e ao consequente aumento da síntese da serotonina!!!

Confidências e Desabafos de Savarin (26)


Sobremesas

Uma das doces receitas prometidas.

Sorvete de limão com molho de morangos


Ingredientes

Sorvete

1 lata de leite condensado
1 chávena e meia de chantilly
7 colheres de sopa de sumo de limão
1 colher de sopa de raspas de limão
2 claras
2 colheres de sopa de açúcar

Molho

250 gr de morangos
50 gr de açúcar
sumo de meio limão

Preparação

Sorvete

Bater o leite condensado com o sumo acrescentar a raspa de limão e o chantilly. Bater as claras em castelo com o açúcar e misturar ao preparado anterior. Colocar no congelador até solidificar.

Molho

Lavar os morangos, cortá-los em bocadinhos e levar ao lume com açúcar e um pouco de sumo de limão até espessar.

Montagem

Desenformar o sorvete e cobrir com o molho frio. Servir imediatamente.

Continua

Confidências e Desabafos de Savarin (25)

Apesar de me encontrar assoberbado com a preparação de uns quantos licores e outros elixires, vou, finalmente, cumprir as promessas e desvendar alguns dos meus segredos. Isto porque a acreditar em Austin prometer é um acto performativo ou seja prometer implica o sujeito, é já um fazer.

Ganso de vitela salteado com vinagre balsâmico

Ingredientes

1 ganso de vitela
1 cebola grande
manteiga
pimenta
vinagre balsâmico q.b.


Preparação:


Cortar a cebola em meias luas finissimas e colocá-las com a manteiga numa caçarola larga levar ao lume, deixar a manteiga derreter e juntar a carne. Saltear em lume forte, acrescentar o vinagre. Baixar o lume e tapar. Deve cozer durante 10 minutos. Temperar com pimenta e sal. Retirar do lume a carne deve ficar tostada por fora e rosada no interior.

Coq au vin

Ingredientes


1 galo ou um frango
100 gr de carne de porco magra ou
bacon
125 gr de cogumelos
10 cebolinhas ou 12 alhos franceses
2 ou 3 dentes de alho
1/4 de chávena de Conhaque
1 garrafa de vinho tinto
pimenta
1 galho de tomilho
2 folhas de louro
salsa
sal
50 gr de manteiga
2 colheres de sopa de farinha

Preparação


Saltear a carne de porco com metade da manteiga, juntar o frango e as cebolinhas, ou os alhos franceses lavados e cortados em três partes. Deixar dourar tapado em lume brando. Flamejar com o conhaque.
Acrescentar o vinho, os alhos, o louro, o tomilho, a salsa, sal e pimenta a gosto, cozinhar durante uma hora. Juntar os cogumelos e deixar ficar mais 15 minutos.
Misturar a manteiga com a farinha e fazer uma pasta, beurre manié, que se junta ao frango para engrossar o molho. Servir imediatamente.

Notas


No caso de usar bacon deve salteá-lo sem manteiga e reservar. A manteiga deve ser adicionada quando se salteia o frango.
O vinho pode ser Beaujolais, Bourgogne ou um bom tinto português.
Também se pode temperar com 2 colheres de sopa de mostarda de Dijon quando se acrescentam os cogumelos.

Continua...
Tueu Blues

Tu sou eu
Eu és tu
Nada há
De mais certo.

Tu és tu
Dó de mim
E eu sou tu-
Do sou sim

De ti de ti de ti
De ti para mim.
I get blue
Se não estás
Porque tu
Sou já eu
Tal como eu
És já tu.

You and me
Mim em ti
Do ré mi
Em Miami.

Bernardo Pinto de Almeida, Hotel Spleen, (Lisboa, Quetzal, 2003), p.34.

5.4.04

A lua está no largo

E agora a lua é, por direito, a "estrela" do largo.
Crepúsculo

No terraço sente-se um calor inebriante. Avistam-se nuvens rosadas e a torre do castelo na ponta da colina arborizada começa a ser uma sombra chinesa. Venham mais dias assim feitos da doçura do calor, é como se tivesse ficado no quente da cama e todo o quotidiano fosse um sonhar contente.
Mesmo aqui, nesta sala onde escrevo, a varanda está aberta e posso sentir ainda a calidez.
História da Filosofia Moderna

As Objecções de Hobbes a Descartes (7)


Na 6ª objecção, bem assim como na 11ª e 12ª objecções Hobbes abordou o tema da vontade. Neste sentido, contestou a tese cartesiana sobre a vontade, uma vez que para Descartes a sensação, a imaginação e o entendimento eram consideradas formas de pensar. Em seu entender, a vontade, as afecções não deveriam ser consideradas como pensamentos. O receio, por exemplo, só poderá ser considerado pensamento, em relação à imagem da coisa receada., o mesmo se dirá quanto à vontade, ao querer, o movimento de fuga não se identifica com o pensamento.
Nas 7ªe 9ª objecções, Hobbes retomou a questão da definição de ideia. Evidencia-se, assim, a sua perspectiva materialista ao afirmar que não temos a ideia de alma, nem de substância em nós. Tais noções seriam coligidas pela razão. A consciência de mim próprio formar-se-ia olhando o corpo, pois não tenho imagens da alma. Todavia, a razão indica-me que existe algo encerrado no corpo humano pelo qual ele sente e se move. A este movimento vital denominamos alma, segundo Hobbes.
De acordo com o autor de Leviathan, existiria apenas um nível de realidade, por assim dizer. Não há coisas mais coisas do que outras, nem com maior grau de realidade do que outras. A substância e os seus acidentes teriam a mesma realidade, formariam uma só realidade.
A criação revelaria uma certa ordem, a de um mundo de singularidades radicalmente diversas e indivisas. Substância e corpo identificar-se-iam. O corpo deixar-se-ia penetrar pela análise. Será corpo tudo aquilo que for susceptível de análise seja ou não divisível, no sentido primeiro da palavra, espacialmente indecomponível, mas num sentido mais profundo e complexo tudo seria divisível na medida em que manifestaria o conjunto das concepções formadoras do seu conceito, podendo, assim , constituir o objecto de uma teoria.
Quanto à 8ª objecção, Hobbes prosseguiu creditando a experiência sensível, o valor da experiência. Adivinha-se, aqui, a influência de Bacon no que concerne ao aspecto experimental , à observação empírica. No entanto, Hobbes superou Bacon, ao estabelecer o estudo analítico, garantindo, deste modo, a passagem da observação à lei, mostrando as relações dos fenómenos com as condições que os definem e não simplesmente, como acontecia em Bacon, anotando e classificando as puras coincidências.
Na 14ª objecção Hobbes refutou a tese das ideias inatas declarando que não há ideias inatas, a ideia de triângulo, por exemplo, provem da experiência, não está em mim. A ideia de triângulo seria coligida pela razão mediante a experiência.
As ideias da astronomia construir-se-iam através da observação sensorial dos fenómenos. O senso comum julga o sol minúsculo, mas a investigação e a observação científicas com os instrumentos adequados, permite ao homem atingir o conhecimento da realidade dos fenómenos, embora apenas parcialmente, pois não se esgota o fenómeno. Os enunciados racionais serão considerados válidos na medida em que expressarem sinificativamente a realidade. O mesmo é dizer que os conceitos, os universais sem o suporte concreto serão vazios pois constituir-se-iam como meras significações abstractas. Hobbes advogou a perspectiva nominalista ao preconizar que o universal não existiria nas coisas, nem no espírito. Relacionada com esta temática encontra-se também o problema dos critérios de verdadeiro e falso, tratado na 12ª e 13ª objecções.
Descartes respondeu que considerava a vontade uma capacidade mais vasta do que o entendimento, sendo este mais limitado. O erro derivaria, precisamente, da referida diferenciação. Ao conhcer clara e distintamente o objecto que se me apresente eu seria levado a reconhecê-lo. De acordo com Descartes, aprovariamos tudo quanto se nos afigura claro e distinto, mediante a vontade.
Hobbes, por seu turno, relevou o sentido objectivo da verdade, distinguindo-a das condições objectivas da sua aquisição. Conhecer clara e distintamente é, em seu entender, uma classificação metafórica, imprópria de uma argumentação lógica, afirmou em tom de censura. A revisão de um significado com o seu suporte verbal, é uma denominação, os universais, os conceitos e consequentemente, de certo modo, a própria verdade terão apenas esse modo de existência. A verdade era entendida por Hobbes como adequação, estabeleceria relações de coerência entre as significações. Equivaleria ao encadeamento lógico dos conceitos e neste ponto se revela o convencionalismo de Hobbes.
Na última parte da 14ª objecção Hobbes identificou, como já se referiu, essência com existência. Ser é existir. A essência seria apenas uma fantasia do espírito. Em oposição Descartes afirmou o primado da essência. A essência seria algo que transcenderia a própria existência, seria mesmo o fundamento da existência.
E com este comentário final á 14ª objecção concluimos que Hobbes e Descartes representam duas paralelas, ou seja dois modos de experiência original, duas vias diversas de reflexão quanto à apreensão e teorização da realidade. Ou na terminologia de Gerald Holton os dois filósofos seguiram motivações temáticas antagónicas, embora tivessem reflectido sobre as mesmas problemáticas.

Bibliografia

René Descartes, Oeuvres et Lettres, (Paris, Gallimard, 1978).

Hobbes, A Natureza Humana, (Lisboa, Imprensa Nacional Casa da Moeda, 1983)

As objecções de Hobbes e outros pensadores estão incluídas nas Oeuvres




História da Filosofia Moderna
As objecções de Hobbes a Descartes (6)


Hobbes refutou a resposta de Descartes de que o pensamento não precisaria de corpo contrapondo que a razão apenas articularia signos convencionais . Os nomes provenientes da imaginação resultariam do movimento dos orgãos corporais. A imagem reduzir-se-ia à aparência do movimento que o objecto produz no cérebro, sendo assim, o espírito não seria mais do que um movimento em certas partes do corpo.
Por seu turno Descartes acusou Hobbes de convencionalismo oco, de verborreia estéril. No entanto, este aparente convencionalismo foi superado por Hobbes ao afirmar que o mistério do conhecimento residiria na secreta linguagem natural das coisas, anterior à pluralidade das línguas e mediante a qual as coisas nos interpelariam directamente. Embora, segundo o empirista inglês essa linguagem deva ser depurada e elaborada através do raciocínio lógico. Os movimentos fundariam o fenómeno, manifestar-se-iam nele, constituiriam o fenómeno. O próprio conhecimento seria o movimento do objecto para o sujeito e do sujeito para o objecto. O determinismo biológico do homem determinaria a sua participação no devir propriamente físico da natureza.
Descartes, pelo contrário, estabeleceu uma dicotomia entre o cogito, a coisa pensante, e o corpo ou res extensa. Por isso, na resposta à objecção, mostrou o seu espanto e interrogou-se como era possível alguém relacionar espírito e movimento, dois géneros de natureza completamente diversa.
davia, a noção de movimento de onde derivamos o real pode traduzir um ideal de conhecimento na constituição metódica da análise e no desenvolvimento de princípios a culminar numa construção intelectual.
Em relação à terceira meditação, "Acerca de Deus, que Ele existe" Hobbes apresentou sete objecções, a saber, da 5ª à 11ª. A análise de todas estas objecções e respectivas respostas de Descartes, mostrou-nos que todas as divergências quanto ao meio de decifrar o real, entre os dois filósofos se encontram aqui bem explícitas. Verificamosa um distanciamento, sobretudo no que concerne à fundamentação do mundo e da existência de Deus. As provas comprovativas da existência de Deus foram enunciadas e processaram-se de modo diverso nos dois autores. A concepção do Criador e os caminhos percorridos até o atingir foram contrastantes, derivando, aliás, da posição epistemológica e da vivência filosófica de cada um dos autores.
a polémica instalou-se logo na 5ª objecção e prosseguiu na 11ª. Hobbes identificou ideia e imagem proveniente da representação sensível, a ideia é o reflexo da realidade sensível, do objecto em nós. Logo, de acordo co Hobbes, Deus é inconcebível racionalmente, não podemos ter em nós a ideia de Deus, a Sua existência não poderá ser validamente demonstrada deste modo, e ainda menos a criação do mundo. Será, apenas, recorrendo à existência das coisas exteriores a mim, do mundo, que poderei verificar que há uma ordem, um encadeamento coerente de causas e terei a necessidade de afirmar a existência de uma causa eterna, um primeiro princípio, um Deus providencialista, génese do mundo, gerador das estruturas.
Em contrapartida, Descartes definiu ideia como aquilo que é concebido imediatamente pelo espírito, ideias seriam as formas das concepções do entendimento divino. Descartes, pretendeu provar que DEus existe, mesmo antes, de examinar que existe um mundo criado por Ele. A existência de Deus foi demonstrada em termos de pura abstracção. Duvido, penso, logo existo; eu criatura finita, anseio a perfeição; esta ideia de infinito em mim infusa, foi, está sendo, vinculada no meu ser finito e imperfeito, por um ser infinito e perfeito que é Deus. Ele existe e cria continuamente o mundo sustentando-o a cada momento, mais Ele é a garantia de verdade. Foi este o percurso e as conclusões de Descartes.
No entender de Hobbes, a existência de Deus afirma-se relativamente ao mundo. Digo que Deus existe, mas nada poderei afirmar quanto à Sua origem, ou quanto às suas qualidades. Nada poderei imaginar acerca Dele. O ser humano não possui a ideia de Deus impressa na sua mente.
Na resposta à 10ª objecção, ripostou Descartes, não temos a ideia de Deus sempre presente, contudo teriamos em nós a capacidade de a produzir.

Continua...
Calor

Hoje acordei com um sorriso nos olhos da alma e espero o próximo voo das aves. O dia quente promete.
Ontem apeteceu-me tudo menos blogar, e fiz tudo menos blogar até fingir que pintava.


3.4.04

Eros e Música

"Graças à música, as paixões aprazem-se a si próprias"

Nietzsche, Para Além do Bem e do Mal, (Lisboa, Guimarães Editores, 1982), p.81.

Hey, That's No Way To Say Goodbye

I loved you in the morning, our kisses deep and warm,
your hair upon the pillow like a sleepy golden storm,
yes, many loved before us, I know that we are not new,
in city and in forest they smiled like me and you,
but now it's come to distances and both of us must try,
your eyes are soft with sorrow,
Hey, that's no way to say goodbye.
I'm not looking for another as I wander in my time,
walk me to the corner, our steps will always rhyme
you know my love goes with you as your love stays with me,
it's just the way it changes, like the shoreline and the sea,
but let's not talk of love or chains and things we can't untie,
your eyes are soft with sorrow,
Hey, that's no way to say goodbye.

I loved you in the morning, our kisses deep and warm,
your hair upon the pillow like a sleepy golden storm,
yes many loved before us, I know that we are not new,
in city and in forest they smiled like me and you,
but let's not talk of love or chains and things we can't untie,
your eyes are soft with sorrow,
Hey, that's no way to say goodbye.

Leonard Cohen

2.4.04

Parabéns!

Flores e bombons para Bomba Inteligente !

1.4.04

Talking Heads
Road to Nowhere



Ontem à noite ouvia Road to Nowhere:

WELL WE KNOW WHERE WE'RE GOIN'
BUT WE DON'T KNOW WHERE WE'VE BEEN
AND WE KNOW WHAT WE'RE KNOWIN'
BUT WE CAN'T SAY WHAT WE'VE SEEN
AND WE'RE NOT LITTLE CHILDREN
AND WE KNOW WHAT WE WANT
AND THE FUTURE IS CERTAIN
GIVE US TIME TO WORK IT OUT

We're on a road to nowhere
Come on inside
Takin' that ride to nowhere
We'll take that ride

Feelin' okay this mornin'
And you know,
We're on the road to paradise
Here we go, here we go

We're on a ride to nowhere
Come on inside
Takin' that ride to nowhere
We'll take that ride

Maybe you wonder where you are
I don't care
Here is where time is on our side
Take you there...take you there

We're on a road to nowhere
We're on a road to nowhere
We're on a road to nowhere

There's a city in my mind
Come along and take that ride
and it's all right, baby, it's all right

And it's very far away
But it's growing day by day
And it's all right, baby, it's all right

Would you like to come along
and you could help me sing this song?
And it's all right, baby, it's all right

They can tell you what to do
But they'll make a fool of you
And it's all right, baby, it's all right
[x2]

We're on a road to nowhere




Citrus aurantium

Laranjeiras em flor

Noites noites noites
uma noite
o milagre acontece
o cheiro
flores no cabelo
folhas tombam leves
soltam-se
sobre o corpo
um sopro
um sorriso
a beatitude

noites noites noites
uma noite