31.3.04

O Riso

O riso é o melhor meio para aliviar a tensão. Situações confrangedoras podem perder parte da carga negativa e ganhar uma dimensão mais positiva através do riso. Ou recorrendo à expressão bem conhecida, mundialmente, "rir é o melhor remédio". A investigação neste domínio demonstrou, que esta frase tem razão de ser. O riso e humor reduzem o stress e a ansiedade, reforçam a imunidade, relaxam a tensão muscular e diminuem a dor.
Música

Eixo arcaico anterior à ambivalência substitui os seres, o sexo até o amor.

30.3.04

Março=> Poesia

Na manhã do trigésimo primeiro dia de Março, para encerrar o ciclo - que se iniciou com ela - um poema de Ingeborg Bachmann:

Anos Depois

No arco do Sol, poisa a seta do tempo.
Quando no rochedo a piteira aflora,
pesam-te o coração sobre ela ao vento
e ele acompanha o fim de cada hora.

Sobre os Açores há uma sombra distante,
e no teu peito a trémula granada.
Se a morte faz seu cúmplice o instante,
tu és o disco que a deixa ofuscada.

Se o mar colhe favores, brilhos de sóis,
sobe o nível para o sangue, uma mão cheia,
e a piteira floresce anos depois
junto aos rochedos que a maré incendeia.


Ingeborg Bachmann, O Tempo Aprazado, (Lisboa, Assírio e Alvim, 1992), p.79
E.E. Cummings

E.E. Cummings além de ter sido um poeta fora de série era, perdoem a futilidade, um homem de uma beleza ímpar.

29.3.04

Março=> Poesia

Na trigésima manhã de Março, penúltimo dia do mês, uma maneira diferente de poetar a saudade:

Saudade


Uma gota de água
que ficara numa folha
de árvore, e só caiu
quando chegou o sol,
depois da chuva...



Alberto de Serpa, A Poesia de Alberto de Serpa, (Edições Nova Renascença,1981), p.26
Emanuel Swedenborg

A propósito do post de ontem do Almocreve das Petas sobre Emanuel Swedenborg, lembrei-me de um artigo de Charles Gross sobre o místico.
De acordo com Charles Gross, antes das suas visões místicas o interesse de Swedenborg pela alma teria levado este autor a estudar a sua localização no cérebro, tendo escrito uma série de extraordinários artigos sobre as funções cerebrais. Estes trabalhos conteriam algumas ideias que teriam antecipado, com cem anos de avanço, descobertas modernas. Caso das afirmações sobre o papel crucial desempenhado pelo cortex cerebral ao nível das funções sensoriais, motoras e cognitivas e isto num período em que se considerava que o cortex não tinha funções significativas. No entanto, os seus textos sobre o cérebro não tiveram qualquer impacto para o desenvolvimento da neurologia. As causas desta situação são várias. Provavelmente, os fisiologistas e anatomistas do seu tempo nem lteriam lido os seus trabalhos sobre o cérebero. Por outro lado, não teve cargos académicos nem tão puco colegas, estudantes ou estabeleceu uma correspondência científica. Também não desenvolveu de uma forma sistemática uma investigação empírica sobre o cérebro. A s suas especulações exprimiam-se numa linguagem barroca e grandiloquente o que aliado à sua fama de místico e louco não terá despertado o interesse dos estudiosos da época. O próprio Swedenborg perdeu o interesse pelas suas ideias acerca da eventual sede da alma e nunca terminou nem publicou os seus manuscritos sobre o tema.

Charles G. Gross, Brain, Vision, Memory, Tales in the History of Neuroscience, (Cambrige/Massachusetts, MIT Press, 1998), pp.119-136.

28.3.04

Impressões da viagem de ontem


Cydonia Oblonga

As flores dos marmeleiros lembravam pequenos nenúfares aéreos.
As folhas recém nascidas dos plátanos tecem uma rede etérea sobre a estrada.


E.E. Cummings,
Flowers and Hat: Patchen Place, c. 1950, oil on canvas, 44 X 33 1/2 in.



lily has a rose
(i have none)
"don't cry dear violet
you may take mine"

"o how how how
could i ever wear it now
when the boy who gave it to
you is the tallest of the boys"

"he'll give me another
if i let him kiss me twice
but my lover has a brother
who is good and kind to all"

"o no no no
let the roses come and go
for kindness and goodness do
not make a fellow tall"

lily has a rose
no rose i've
and losing's less than winning(but
love is more than love)



E.E.Cummings
Março=> Poesia

Na vigésima nona manhã de Março haikus em homenagem à chuva da vigésima oitava manhã de Março:

Chuva de primavera -
Uma menina ensina
O gato a dançar


Dia de Primavera
Demorando-se
Em tudo o que é água

À sombra da ameixeira em flor
Mesmo um estranho
Deixa de o ser.




Issa Kobayashi, Primeira Neve, (Lisboa, Assírio e Alvim, 2002), pp. 14, 16 e 19
Na vigésima manhã de Março, no ano da graça de 2004, constato - o que já sabia - saltei a vigésima oitava manhã de Março, por estes lados. Saltei mesmo, porque me senti noutro tempo e noutro espaço. Viagem da alma desencadeada por uma descoberta interior de grande simplicidade, génese de tranquilidade e prazer.

26.3.04


Março=> Poesia

Na vigésima sétima manhã de Março, manhã de vendaval cinzento, dois Pensamentos de Teixeira de Pascoaes:

III


Desperto, dentro em mim, como manhã cedo.
Não sei que torva aurora me deslumbra.
Vejo, através da minha carne, essa penumbra,
Palpitações de luz, folhagens de arvoredo.

IV


A árvore que, primeiro, em solitária serra,
Viu, tomada de espanto, o sol nascer,
Quase que a sinto, em mim, dar sombra e florescer,
E lembro-me do tempo em que fui névoa e terra.


Teixeira de Pascoaes, "Vida Etérea," in Para a Luz, Vida Etérea, Elegias, O Doido e a Morte, (Lisboa, Assírio e Alvim, 1998), pp.186-187.

25.3.04

Reminiscência

Lembrei-me do acender dos fósforos no filme de David Lynch Wild at Heart.

Março=> Poesia

Na vigésima sexta manhã de Março, antes de sair para uma reunião, celebro com o poeta a amizade

Para um amigo tenho sempre um relógio
esquecido em qualquer fundo de algibeira.
Mas esse relógio não marca o tempo inútil.
São restos de tabaco e de ternura rápida.
É um arco-íris de sombra, quente e trémulo.
É um copo de vinho com o meu sangue e o sol.



António Ramos Rosa, Viagem através de uma noite.
Crepúsculo

Valeu a pena viver para entontecer com um crepúsculo assim. O vermelho derramado sobre o azul e o oiro do dia, o perfil da colina e das torres do castelo e uma vontade de morrer num espasmo de prazer nas cores de mais um poente.

Tom Waits canta na voz de Holly Cole:



I Want You

I want you, you, you
All I want is you, you, you
All I want is you

Give you the stars above, Sun on the brightest day
Give you all my love, if you would only say
I want you, you, you
All I want is you, you, you
All I want is you


Extraordinário, sem dúvida.

24.3.04

Março=> Poesia

Na vigésima quinta manhã de Março, ainda a relatar e com muito para relatar, interrompo a minha triste sina com um poema de Li Shang-Yin, directamente copiado de uma página da Internet, mais tarde darei o endereço:

Untitled Poems IV

For ever hard to meet, and as hard to part.
Each flower spoiled in the failing East wind.
Spring's silkworms wind till death their heart's threads:
The wick of the candle turns to ash before its tears dry.
Morning mirror's only care, a change at her cloudy temples:
Saying over a poem in the night,
does she sense the chill in the moonbeam?
Not far, from here to Fairy Hill.
Bluebird, be quick now, spy me out the road.
Impressões

Entre relatórios...

Três olaias em flor,
deslumbramento,
quase atropelada.

Um céu de cinza,
a flor de laranjeira,
perfumou o dia.

23.3.04

Quotidiano

As nuvens esconderam o sol da manhã. Devo começar a redigir um relatório sobre uma figura execrável... entre outros textos.
Por ser tão a propósito, só me apetece reproduzir mais um poema de Fernando Pessoa, do livro há pouco citado:

A nuvem veio e o sol parou
Foi vento ou ocasião que a trouxe?
Não sei: a luz se nos velou
Como se a luz a sombra fosse.

Às vezes, quando a vida passa
Por vezes sobre a alma que é ninguém,
A sensação torna-se baça
E pensar é não sentir bem.

Sim, é como isto: pelo céu
Vai uma nuvem destroçada
Que é véu,
mau véu, ou quase véu,
E, como tudo, não é nada.


Fernando Pessoa, op.cit. p. 114.
Março=> Poesia

Na vigésima quarta manhã de Março um poema com sabor filosófico:

Quem me amarrou a ser eu
Fez-me uma grande partida.
Debaixo deste amplo céu,
Não tenho vinda nem ida.
Sou apenas um ser meu.

Nem isso... Anda tudo à volta
A retirar-me de mim.
Parece-me uma fera à solta.
Este mundo que anda assim
A servir-me de má escolta.

Quando encontrar a verdade
Hei-de ver se hei-de fugir,
Pelo menos em metade.
Depois ficarei a rir
Da minha tranquilidade.


Fernando Pessoa, Novas Poesias Inéditas, (Lisboa, Ática, 1979), p.105.

22.3.04

Destaque

Gosto muito da escrita do Modus Vivendi, bem assim como dos poemas e outros textos ali citados.
Março=> Poesia

Na vigésima terceira manhã de Março a lírica vibrátil de Hölderlin:

De Manhã

A relva brilha do orvalho; mais rápida
Já corre a fonte desperta; a bétula inclina
A fronte vacilante, e há na folhagem
Sussuro e brilho, e pelas pardas

Nuvens roçam além chamas avermelhadas,
Anunciadoras, erguem-se borbulhantes, silenciosas,
Como maré na praia ondulam
Sempre mais altas, inconstantes.

Vem pois, oh! vem e não te apresses muito,
Dia dourado, para o alto céu!
Que o meu olhar, ó jubiloso!segue-te
Mais franco e confiado enquanto tu

Olhas juvenil em tua beleza, e não és inda
Por demais magnífico e orgulhoso;
Bem podias correr, pudesse eu,
Divino Vagabundo, ir contigo! Mas tu sorris

Da minha arrogância alegre, que desejaria
Igualar-te; abençoa-me então
Minhas mortais accões e aclara e alegra,
Benigno Sol, hoje o meu calmo caminho!

Hölderlin, Poemas, (Coimbra, Atlântida, 1949), pp.93-95.
Crepúsculo

Um fim de dia em glória. Cores de louvor à nova estação. Um frémito percorre o corpo perante tamanho fulgor.


Por falar em corpo:

Eu gosto do meu corpo quando está com o teu
corpo. É uma coisa tão inteiramente nova.
Melhores músculos e mais nervos.
gosto do teu corpo. gosto do que ele faz,
gosto dos seus modos. gosto de sentir a espinha
do teu corpo e os seus ossos, e o tremor
-sólido-macio o qual beijarei
uma e outra vez,
gosto de beijar-te aqui e ali,
gosto de, acariciar vagarosamente, a penugem
da tua pele eléctrica, e aquilo que acontece
ao romper da carne... E os olhos grandes migalhas de amor,

e talvez eu goste do frémito


por baixo de mim de ti tão inteiramente nova


E.E. Cummings, Sonnets-Actualities, VII, de & [AND]

21.3.04

O Contributo das Mulheres para a História da Psicanálise (6)

Melanie Klein

Melanie Klein (1882-1960) iniciou a sua formação em psicanálise em Budapeste com Sandor Ferenczi depois em Berlim onde foi muito influenciada por Karl Abraham. No entanto, não fez estudos académicos ou seja não teve títulos unversitários. Instalou-se em Londres a partir de 1926 a convite de Ernst Jones.
Melanie Klein foi uma das pioneiras no domínio da psicanálise infantil tendo-se oposto com veemência às teses de Anna Freud. Gradualmente, a sua investigação sobre os mecanismos mentais mais arcaicos conduziram-na à criação de uma concepção extremamente original de inconsciente o que lhe grangeou, em simultâneo, ferozes ataques e adesões entusiásticas. Neste sentido, afirmou Ernest Jones: "A obra de Melanie Klein nos últimos trinta anos foi atacada e defendida quase com a mesma veemência, mas, no fim, o seu valor só pode ser estimado por aqueles que efectuaram eles mesmos pesquisas semelhantes. (...)
Uma boa parte das suas descobertas e das suas conlusões já haviam sido entrevistas há muito tempo por Freud , Rank, e outros, mas o que há de tão particular e de admirável na sua obra á a coragem e a inquebrantável integridade com as quais ela elaborou sem concessões as implicações e as consequências das suas primeiras alusões, fazendo, assim, um caminho de descobertas novas e importantes."

(Continua...)
Os políticos e a História

"Todos os políticos leram a História, mas dir-se-ia que a leram no sentido da arte de reconstituir as catástrofes." Paul Valéry, Mon Faust, p.60

Nota - A expressão "Todos os políticos" é um exagero!
Quotidiano

Ontem, encontrei na caixa de correio um jornal intitulado Folha de Portugal e fartei-me de rir com um dos anúncios da secção "Cantinho do Coração" :

Senhor sincero

Senhora na casa dos 40 anos pretende encontrar senhor sincero entre 40 e 50 anos, magro com a profissão de fotógrafo, jardineiro ou vida hoteleira, zona de Lisboa ou Amadora, para compromisso sério. Tem de ser evangélico.


Segue-se o nome que como é óbvio não vou transcrever.
O pormenor das profissões aceitáveis é de bradar.
Março => Poesia

Na vigésima segunda manhã de Março recebi estes poemas:

Em ti
acompanho:
o movimento do vento
a flexibilidade do canavial
o ritmo das marés
a perfeição do fogo.


***

Rasgou-se o véu prússia da noite
as estrelas e a lua perderam o brilho
abrasadas pela lava incandescente
a terra tremeu
chutando os corpos para o céu

Busco no brilho dos teus olhos
o desejo
o prazer
de que me falam
ao acordar


Bernardo Rodrigues Barata
Fim de tarde

Ao findar da tarde a nostalgia ataca de novo, aumenta a densidade da alma.

20.3.04

Confidências e Desabafos de Savarin (24)

Apesar de me encontrar, ainda, um tanto toldado pelos vapores do Loios e do Dão Cardeal Reserva vou relatar as peripécias de ontem.
Da ementa que tinha planeado para o jantar apenas preparei o "coq", que não foi "au Beaujolais", mas com um tinto de Reguengos. Os outros itens foram substituídos. Aliás alguns dos convivas não puderam comparecer, tendo "surgido" outros que não estavam previstos. Enfim, uma noite recheada de surpresas. Voltando à ementa, em primeiro lugar só encontrei um"salaud" dum "saumon" gigante e já cortado ao meio, logo o "saumon poché" foi ao ar. Todavia, combinamos, de imediato, um jantar para a semana que ora se inicia, com o intuito saborearmos o dito cujo. Assim, confeccionei umas entradas com salmão fumado - adquirido na capital - , queijo de cabra, uma tarte de espinafres para entreter. Também havia "velouté" de agriões para os mais dados às ervas. Seguiu-se o dito cujo "coq" na companhia de batatas salteadas com cebolinho e salada. No que concerne às sobremesas o "sorbet au framboises" passou para "pêche Melba" e o "gâteau Moka"deu lugar a um doce de ovos de luso sabor.
Isto é o resultado de me esquecer que já não vivo em Paris. Neste recanto do Alentejo há que fazer as compras com um longo tempo de antecedência para prever estas falhas no comércio de víveres.
O fundamental é que o Carême não se ficou a rir, pois os comensais manifestaram, com exuberância, a sua satisfação e a noite terminou em grande estilo. Em suma todas estas trocas acabaram por alegrar a noite. O convívio decorreu de forma tão animada que nos esquecemos das horas e não fomos a um serão na livraria do largo.
As receitas ficam para mais logo...
Março=> Poesia

Na vigésima primeira manhã de Março, porque é o primeiro Domingo de Primavera, ondas de luz entram pela janela e a noite de ontem se esmerou, um poema à vida:

A vida, não tentes compreendê-la,
e então ela será uma festa.
E que cada dia te aconteça
como a uma criança que, ao caminhar,
de cada sopro do vento
vai recebendo presentes de flores.

Apanhá-las e guardá-las,
nem nisso pensa a criança.
Tira-as devagar do cabelo
onde se sentiam tão bem,
e estende as mãos aos jovens anos
para receber novas flores.


Rainer Maria Rilke, Poemas, As Elegias de Duíno e Sonetos a Orfeu, (Porto, O Oiro do Dia, 1983), p.41

19.3.04

Beatitude

Fui ao mercado andei pelo sol e ganhei este sorriso de encantamento, a serenidade.
Março=> Poesia

Na vigésima manhã de Março a acuidade e o excesso do olfacto de um poeta:

O teu perfume, ou odor -
Toda a melodia desvanecida eu recordo, o meu corpo
Recorda, o meu corpo depois de morto recordará
Nos seus ossos, e quando depois de incinerados
Os próprios ossos forem pulverizados e dispersos
pelo ar
Como pequenos grãos de cinza, também eles recordarão
(Dançando à luz do sol, empurrados por grandes moléculas)
O teu odor sem nome.


Michael Fried, Odor in Linda Ferrer (ed), Eros, (Köln, Taschen, 1998), p. 72




Impressões

Ao ler o Digitalis vejo como é bem a imagem das minhas compulsões e da inclinação bipolar do meu temperamento.

A despropósito penso na minha relação negativa com os telefones e na causa dessa má ligação: a morte de três das pessoas mais importantes da minha vida foram-me comunicadas por via telefónica. Para além de toda uma série de outras notícias e conversas desagradáveis.

Há pequenos gestos que não têm qualquer significado para quem os faz, mas que se revestem de simbolismo para quem os acolhe, a beatitude de um certo sorriso, uma carícia, um sopro. O mesmo se aplica a certas frases. Assim se geram equívocos cómicos ou trágicos, conforme os casos e as personagens.

O Mito de Don Juan

Já escrevi aqui sobre os mitos de Narciso e de Orfeu. Transcrevo agora um texto de Béatrice Didier sobre a relação entre Don Juan e Sade:


A mulher existe muito ou muito pouco para que o donjuanismo seja possível no universo de Sade. Demasiadamente pouco, quando não passa de uma vítima, uma espécie de mulher-máquina para o prazer do homem, tal como Justine, tal como as inumeráveis presas dos monges. Mas tem demasiada independência quando ela é Julieta ou está em vias de o ser, como no caso das duas Eugénias, a de A Filosofia na Alcova e a de Crimes do Amor. O donjuanismo pressupõe um grau subtil de liberdade e alienação na mulher: é necessário que ela enfrente muitos tabus morais e religiosos (eis porque Don Juan é sobretudo um mito mediterrânico). (...)
"Não há nada que possa refrear a impetuosidade dos meus desejos; sinto em mim um coração capaz de amar a terra inteira." O herói sadiano, assim como Don Juan, são formas da universalidade do desejo. (...) Os grandes libertinos, em particular os de Cento e vinte dias, são universais. Julieta que, na obra de Sade, é afinal o personagem mais próximo de Don Juan - não podemos deixar de sublinhar esta proeminência de uma Don Juan - alia desde a mais tenra juventude, às suas conquistas masculinas, uma actividade de vigorosa tríbade.
O herói sadiano e Don Juan no cessam de desjar. As "mille e tre" de Don Juan, a repetição sem fim do universo sadiano correspondem a esta necessidade de um fluxo desejante. A descontinuidade permite, com efeito, uma continuidade. A infidelidade é uma forma de fidelidade. A sucessão substitui a duração. O desejo truinfa sobre o tempo e a finitude. A vítima sempre renovada, será uma só vítima eterna; e as "mille e tre", uma só mulher fora do tempo. É a esse nível que Sade e Don Juan se encontram - para além das duas t?cticas totalmente opostas. Seduzida por Don Juan ou violentada pelo herói sadiano, a presa terá sido, de qualquer forma, o pretexto e o meio de uma renovação infinita. As duas figuras míticas significam esta universalidade, esta eternidade do desejo.



Béatrice Didier, "Sade e Don Juan," in Álvaro Manuel Machado (ed), O Mito de Don Juan, (Lisboa, Arcádia, 1981), pp. 101-102 e 108-109
Confidências e Desabafos de Savarin (23)

Por agora segue esta receita:

Saumon poché

Ingredientes:

1 salmão inteiro
2 chávenas de vinho branco seco
2 cebolas médias
2 cenouras grandes
2 talos de aipo
1 limão
6/8 galhos de salsa
2 folhas de louro
8/10 grãos de pimenta preta
1 colher de chá de sal
¾ de colher de chá de folhas de tomilho


Preparação:


Colocar o salmão na peixeira acrescentar vinho branco seco e água suficiente para cobrir o peixe. Cortar finamente as cebolas, as cenouras e o aipo e juntar ao líquido, bem assim como rodelas de limão, salsa, folhas de louro, grãos de pimenta preta, sal e tomilho. Tirar o salmão da peixeira sobre a grade e reservar.
Deixar ferver o líquido com os vegetais, reduzir o calor, tapar e deixar apurar durante 30 minutos.
Pôr o salmão na peixeira no líquido a ferver. Baixar o lume, tapar e deixar cozinhar 35-45 minutos até que o peixe fique rosa pálido junto da espinha central.
Retirar o salmão do caldo em cima da grelha da peixeira e dispor numa travessa. Tirar a pele da parte de cima do peixe. Servir quente ou frio. Guarnecer com agriões e limão. Acompanhar com batatas pequenas cozidas, espargos e maionese, molho holandês e molho bearnês.

Repos dans le Malheur

Le Malheur, mon grand laboreur,
Le Malheur, assois-toi,
Repose-toi,
Reposons-nous un peu toi et moi,
Repose,
Tu me trouves, tu m' éprouves, tu me le
prouves.
Je suis ta ruine.


Mon grand théatre, mon havre, mon âtre,
Ma cave d'or,
Mon avenir, ma vraie mère, mon horizon.
Dans ta lumière, dans ton ampleur, dans mon
horreur,
Je m'abandonne.


Henri Michaux, "Poèmes," in Plume, (Paris, Gallimard, 1963), p.83.


Quando o eu se perde ...

Atingir esse ritmo em que o eu se perde,
a respiração - o bater do coração - e a música suave
da sua relação, fazem a nossa dança e impelem-nos
para o momento em que todas as coisas se tornam
mágicas, outra possibilidade.
Esse momento cego, meia-noite, em que toda a visão
tem início e a própria dança é a nossa respiração,
e nós próprios o momento da vida e da morte.
Cegos; mas tendo recebido agora outra salvação,
o eu como visão, a todo o momento compreendendo,
todas as artes todos os sentidos são linguagens,
libertos da vontade, transformados em verdade -
para a salvação da vida submetendo o momento e as imagens,
escrevendo o poema; fazendo o amor; dando à luz.


Muriel Rukeyser, "To enter that rhythm where the self is lost," in Linda Ferrer (ed), Eros, (Köln, Taschen, 1998), p. 178

***

Amores tardios

Nunca pensou voltar a amar assim com paixão e despojamento sem carecer de reciprocidade. Julgara já não ter a idade nem o perfil certos para experimentar determinado tipo de emoções e sentimentos. Surpreendeu-se, excedera as expectativas acerca de si. Talvez, a decadência provoque um retorno psicológico ao final da adolescência, deduziu. Quanto tempo perdurará tal fixação, que afinal reunia as imagens de duas paixões do passado, interrogou-se.
Amar com profundidade alguém distante de todos os seus anteriores ideais estéticos, venerar aquele corpo tornado sagrado e de uma beleza ímpar. Desejar-lhe todo o bem, toda a felicidade e prazer, mesmo que o bem, a felicidade e o prazer do objecto de adoração sejam o afastamento ou o amor e o desejo de outras pessoas. Uma forma muito confortável de gostar de alguém, porque não causava sofrimento, de uma tranquilidade búdica, sem desejo de posse. A sua pura existência bastava-lhe. Bizarrias provocadas pela leitura de muitos romances, a vida tem muito de literatura, concluiu.

18.3.04

Março=> Poesia

No azul da décima nona manhã de Março a figura de Narciso:

Narciso

Ouço dizer que as águas cantam o amor, correndo,
e que nas suas margens há arbustos debruçando
tristezas profundas. Mas nem as águas nem o vento
nos arbustos me falam de mim; eu que solitário
me debruço numa ânsia de tocar-me, e o rosto perco
no abismo da superfície; que o segredo que oculto
em mim persigo, num silêncio me evocando entre
os alheios rumores da vida; e que o tempo esqueço,
absorto na minha própria alma que obscureço.


Nuno Júdice, Obra Poética (1972-1985), (Lisboa, Quetzal, 1991), p.281


Mais Padre Ruivo

Ontem, sempre que podia, ouvia Le Cantate , ( Parte Prima, Rossana Bertini, soprano, Tactus, 1999) do padre dos meus sonhos.
Perdoem a presunção, mas gostaria de poder viajar no tempo e tornar-me uma das virtuosas pupilas da Pietà, quiçá mesmo a célebre Anna Maria dal violin, e executar as composições do meu muito bem amado sacerdote.


***
Sonata

ERA uma noite como outra qualquer. Dois seres dependentes da solidão e do álcool na ressaca de amores impossíveis, tomaram-se, com displicência, por instrumentos de prazer. Esquecidos da angústia improvisaram uma fugaz sonata à eternidade da volúpia.


Confidências e Desabafos de Savarin (22)

Só para dizer que Savarin irá inaugurar a saison com uma nova série de jantares a ter início no dia 20 deste mês.
Preparará saumon poché, coq au Beaujolais , gâteau moka, sorbet au framboises. Bem sei que devido aos nocivos efeitos dos meus excessos, ainda não cumpri o prometido em 21... mas, para não dar alegrias desnecessárias a Carême, logo, logo, mesmo no cume da maior náusea relatarei os procedimentos para elaborar os meus repastos.

17.3.04

Elegia
Para M.C.

Correste para a morte
e a mágoa tomou conta de mim
da memória
chegam imagens
da tua ironia ácida
a disfarçar a doçura
da musicalidade
do teu modo de ser
do aroma a baunilha
daquele pot pourri
dos poemas de Rimbaud
do rigor dos teus desenhos e colagens
do teu desprezo por eles
do teu apoio nas tardes tristes
da cumplicidade na angústia
das nossas festas loucas
da melhor noite de S. Silvestre
da luz fria e azul daquela madrugada
do e-mail antes da morte
da minha ignorância de ti

***

"Gosto muito de ti, bem sabes!" Ela não sabia, pressentia-o, com perplexidade, por vezes. Assim, aquelas palavras soaram-lhe a Vivaldi.

***
"Os meus livros não são sobre sexo, são sobre a auto-libertação." Henry Miller

"No fulgor do sexo encontro o meu instante de ser." Bernardo Rodrigues Barata

O evanescente pode perpetuar-se numa ressonância interior. Como o jazz daquele sopro.

***

Março=>Poesia

Na décima oitava manhã de Março apetecem as framboesas de um poema de Verão:

NATUREZA MORTA COM FRUTOS

1.
O sangue matinal das framboesas
escolhe a brancura do linho para amar.

2.
A manhã cheia de brilhos e doçura
debruça o rosto puro na maçã.

3.

Na laranja o sol e a lua
dormem de mãos dadas.

4.

Cada bago de uva sabe de cor
o nome dos dias todos do Verão.

5.

Nas romãs eu amo
o repouso no coração do lume.



Eugénio de Andrade, "Ostinato Rigore" in Antologia Breve, (Porto, Limiar, 1985), pp.63-64
Meus parcos leitores tomem lá mais Henri Michaux, com a certeza de que a vida é bela:

Guarda a tua fraqueza intacta. Não procures ganhar forças, sobretudo dessas que não são para ti, que te não estão destinadas, de que a natureza te preservava, preparando-te para outra coisa.

Vai até ao fim dos teus erros, pelo menos de alguns deles, de modo a observares muito bem o género deles. De contrário, parando tu a meio caminho, avançarás sempre cegamente, voltando a cometer o mesmo género de erros, do princípio ao fim da tua vida, realizando aquilo a que alguns hão-de chamar o teu "destino". Força o inimigo, que é a tua estrutura, a descobrir-se. Se não pudeste entortar o teu destino, terás sido apenas um apartamento alugado.


op. cit., p. 106
Quotidiano

Todos os dias, depois do almoço, por volta das duas horas, quando vamos trabalhar nos encontramos na mesma esquina, olhamo-nos de esguelha e prosseguimos em direcções opostas. Somos parecidos, as mesmas cores na pele, nos olhos, no cabelos, diferentes no sexo e na altura. Nas tardes em que não dobro a esquina à tua hora sinto uma leve nostalgia daquela troca de olhares oblíqua.

Perfumes e flores

Queria atirar-me para uma cama de seda, coberta de flores e morrer inebriada por uma cascata de perfumes.

16.3.04

Março=> Poesia

Na névoa da décima sétima manhã de Março, a voz de Henri Michaux:

À Espera

Um ser doido,
um ser farol, um ser mil vezes suprimido,
um ser exilado do fundo do horizonte,
um ser gritando do fundo do horizonte,
um ser magro,
um ser íntegro,
um ser altivo,
um ser que quereria ser,
um ser na batida de duas épocas que se entrechocam,
um ser nos gases venenosos das consciências que
[sucumbem,
um ser como no primeiro dia,
um ser...


Observações de Henri Michaux

"Escrevo para me percorrer. Pintar, compor, escrever: percorrer-me. Reside nisto a aventura de estar vivo."

Gosta de alguém, admira-o? Tente de preferência produzir em si aquilo que de tão extraordinário lhe parece no outro."

Henri Michaux, O Retiro pelo Risco, (Lisboa, Fenda, 1999), pp. 62 e 85

Impressões de ontem

Mais uma vez os cachos de glicínias penduram-se no muro do jardim público e perfumam a tarde.

Ao fim do dia comi figos secos e toucinho do céu, bebi chá preto, comprei um livro. Na livraria, dizia-me o Zé em tom de chacota: "Só queria ser professor de filosofia e ter um estagiário sui generis."

Aforismos

O amor deve ser leve para quem ama e, em especial, para quem é amado.

Um não é uma resposta tão boa quanto um sim.

Ontem era manhã, ontem era noite, ontem ouvia uma palestra, ontem ouvia jazz. Hoje é manhã, hoje será tarde e noite, amanhã acordarei morta.

A volatilidade de tudo e a eternidade de tudo.

Corpo lugar de encontro da sede e da fonte, da ânsia e da paz.

15.3.04

Impressões

O calor dilata os corpos, mas a mim dilata sobretudo a alma. Pressinto um dia feliz.

Espanto e sentido

Todos os dias me espanto
porque
acordo
me levanto
tomo um café ou um chá
ou ambos
me lavo
me visto
e saio
para a rua
caminho
trabalho
falo
convivo

a irrealidade do real
os objectos desfilam
como num filme
ou por vezes
de modo mais estático
como num diaporama

interrogo-me
tudo
será uma representação
da mente
intencionalidade da consciência
fenómenos

mas sei que tu existes
e esta simples certeza
ou intuição
nada cartesiana
transforma por instantes
a constante vivência
da ilusão de ser
em ser mesmo
e encontro uma espécie
de sentido
atravesso o véu de maya
diriam os hindus

o sol existe
o azul existe
entro no filme/diaporama
até eu existo.

***


Ode a L.D. M.F.

De ti guardo a lembrança
da ternura imensa
de um abraço
no desespero da juventude

Evoco
o toque contínuo
das carícias no meu pulso
às mesas dos cafés
enquanto viajava
na gravidade da tua voz

Invoco
A brancura esguia
do teu corpo derramado
na areia negra
da praia do Pópulo

E mais do que tudo
lembro
a esfera de nós
paralela a tudo
a fusão na perfeição
as noites brancas
orgasmos sem sexo
mãos com mãos


E mais
mais
muito mais
na impossibilidade
de dizer
o sentir
o silêncio
a transbordar empatia.


Março=> Poesia

Na, também luminosa, décima sexta manhã de Março, haikus:

Abrindo de par em par
as portas do palácio:
A PRIMAVERA

*

Não esqueças nunca
o gosto solitário
do orvalho

*

Cansado de caminhar
alojei-me
entre as glicínias

*

De que árvore
não sei -
Mas que perfume



Matsuo Bashô

14.3.04

Março=> Poesia

Na luminosa décima quinta manhã de Março:

Claridade

Um desapego íntimo de tudo
Me sobrepõe ao mundo e ao dia.
Claridade!
No mistério da luz, o olhar mudo
Lentamente se estende e apascenta
De pura nostalgia.
Fico imóvel, sem nada ver,
Sentindo o nada e o ser,
Até que a flor do tempo
Efémera desperta
E ondula dentro em mim.


João Maia, "Abriu-se a Noite,"1954, in Jorge de Sena, (ed), Líricas Portuguesas, (Lisboa, Edições 70, 1983), vol. II, P.96.

E a segunda transcrição do belo texto de Roland Barthes, Fragmentos de um Discurso Amoroso, do capítulo "Adorável":

"Cruzo-me, ao longo da minha vida, com milhares de corpos; desses milhares posso desejar umas centenas; mas, dessas centenas, não amo senão um. O outro por quem estou apaixonado mostra-me a especialidade do meu desejo.

Tal escolha, tão rigorosa que apenas contempla o Único, estabelece - diz-se - a diferença entre a transferência analítica e a transferência de amor; uma é universal, a outra é específica. Foram precisos muitos acasos, muitas coincidências surpreendentes ( e talvez muitas tentativas), para que eu encontrasse a imagem que, entre mil, convém ao meu desejo. Aí está um grande enigma cuja solução jamais conhecerei: por que razão desejo eu aquele Tal? (...)" (Lisboa, Edições, 70, 1987), p.27
Para encerrar um Domingo melancólico, metaforicamente chuvoso:

E-mail de Eros a Psique num Domingo Chuvoso

Quero um dia morrer entre os teus braços
Fundir-me na tua seiva e na tua luz
Soçobrar entre beijos e abraços
Exausto sobre o corpo aberto em cruz.

Quero a noite que chega e surpreende
A tua pele colada à minha pele
Quando a chama do amor em nós se acende
E de mim sobre ti escorre o mel

Esquecer-me sobre ti inanimado
Já sem nada sentir nem nada ver
Quero no fundo de mim fique gravado

Ainda num espasmo a estremecer
Teu corpo dos sentidos já saciado
Nesse átimo que dos dois faz um só ser.


Bernardo Pinto de Almeida, Sem Título, (Porto, A Sétima Face Edições, 2002), p.19
Primavera no Japão


O dia convida a sair, mas como a minha filha mais nova está com gripe e adormeceu, fico em casa a ler Kyoto a imaginar as cerejeiras em flor:

"Quando se contempla, do pavilhão ocidental, as cerejeiras escarlates, de ramos pendentes, sente-se de súbito a Primavera no coração. É esta a verdadeira Primavera. Tudo, tudo, até os ramos mais baixos, são flores escarlates. Os ramos das árvores florescentes pareciam não ter mais que uma função: suster as flores."

Yasunari Kawabata, Kyoto, (Lisboa, Publicações Dom Quixote, 2000), p.14.

13.3.04

História da Filosofia Moderna

A Gnosiologia de Hobbes (Westport ,1588- Hardwick, 1679)
e as Objecções a Descartes (5)


Descartes refutou a terceira objecção afirmando que eu distingo-me do meu pensamento como uma coisa se distingue do seu modo, ou seja, os meus modos diversos de pensar não possuem existência fora de mim.
Na quarta objecção, Hobbes demarcou a sua posição epistemológica e esboçou a sua gnosiologia. Referiu que Descartes estabeleceu grandes clivagens entre imaginar, ter uma ideia e o acto de conhecer mediante o entendimento, ao concluir, racionalmente, que algo é ou existe, todavia não explicitou as diferenças entre as referidas actividades mentais.
A razão seria coordenadora de imagens simbólicas, através da razão não conheceriamos a verdade no respeitante à natureza das coisas, pois as combinações de signos mentais não corresponderiam ponto por ponto às estruturas da realidade. A razão possibilitaria o encadeamento de noções abstractas às quais a linguagem conferiria um suporte convencional.
Descartes contestou com veemência, em seu entender, a razão , o entendimento, não relacionaria, não referiria apenas designações, mas as próprias coisas por ela significadas. A imaginação seria ainda um meio de conhecimento precário, dependente ainda da sensação, imaginar não seria mais do que contemplar a figura ou imagem de uma coisa corpórea, esta concepção da faculdade da imaginaçãoaproxima-se da formulada por Hobbes.
Em Descartes a coisa pensante conhecer-se-ia pelos seus três modos: sensação, imaginação e entendimento. Seria mediante o entendimento que eu constataria a minha existência, pelo entendimento conheceria clara e distintamente a natureza das coisas, descobriria as suas causas. O pensamento não precisaria do corpo.

(Continua...)
Março=> Poesia

POESIA/CANÇÃO

Na décima quarta manhã de Março uma canção de Jacques Brel. No fim da adolescência era uma das composições de Brel que eu mais gostava. Adorava o modo como ele a cantava. Bem, ainda hoje gosto.

Une île

Une île au large de l'espoir
Où les hommes n'auraient pas peur
Et douce et calme comme ton miroir
Une île

Claire comme un matin de Pâques
Offrant l'océane langueur
D'une sirène à chaque vague
Viens

Viens mon amour
Là-bas ne seraient point ces fous
Ou que vingt ans est le bel âge
Voici venu le temps de vivre
Voici venu le temps d'aimer

Une île Une île au large de l'amour
Posée sur l'autel de la mer
Satin couché sur le velours
Une île

Chaude comme la tendresse
Espérante comme la tendresse
Espérante comme un désert
Qu'un nuage de pluie caresse
Viens

Viens mon amour
Là-bas ne seraient point ces fous
Qui nous cachent les longues plages
Viens mon amour
Fuyons l'orage

Voici venu le temps de vivre
Voici venu le temps d'aimer
Une île qu'il nous reste à bâtir
Mais qui donc pourrait retenir
Les rêves que l'on rêve à deux
Une île

Voici qu'une île est en partance
Et qui sommeillait en nos yeux
Depuis les portes de l'enfance
Viens

Viens mon amour
Car c'est là-bas que tout commence
Je crois à la dernière chance
Et tu es celle que je veux
Voici venu le temps de vivre
Voici venu le temps d'aimer
Une île.


Une île, 1962 (Jacques Brel), Ed. Caravelle/Pouchenel

Já agora o poema de outra das canções francesas da minha preferência, mas de Léo Ferré:


C'est extra

Une robe de cuir comme un fuseau
Qu'aurait du chien sans l'faire exprès
Et dedans comme un matelot
Une fille qui tangue un air anglais
C'est extra
Un moody blues qui chante la nuit
Comme un satin de blanc marié
Et dans le port de cette nuit
Une fille qui tangue et vient mouiller

C'est extra c'est extra
C'est extra c'est extra

11.3.04

REQUIEM

Hoje só um Requiem de revolta e de indignação pela dor imensa de quantos sofreram e sofrem sem saber porquê.

10.3.04

Março=> Poesia

Na décima noite de Março um poema de Yeats:

The Wheel

Through winter-time we call on spring,
And through the spring on summer call,
And when abounding hedges ring
Declare that winter's best of all;
And after that there's nothing good
Because the spring-time has not come_
Nor knowthat what disturbs our blood
Is but its longing for the thumb.
Confidências e Desabafos de Savarin (21)

Savarin anda a chá verde em virtude dos excessos alimentares dos últimos dias, muitos hidratos de carbono, muitos lípidos, muitos glícidos, vapores etílicos, enfim... Por isso, ainda, não será hoje que revelará mais alguns dos seus segredos
Delírio

Corro para a morte.
Deambulo pela cidade olhando os lírios
e as folhas de acanto em delírio.
A caminhar construo o caminho.
Inúteis a revolta e a esperança.
Contente do meu nada,
sigo o fluir harmonioso da vida,
consciente da inconsistência de cada instante,
gozo a angústia de ser livre para nada.

9.3.04

Destaques


Quero destacar os blogs AlephAleph
A-Z Weblog e Púrpura Rosa.
Descobri-os hoje e vou passar a visitá-los diariamente! Gostei muito!
História da Filosofia Moderna

A Gnosiologia de Hobbes (Westport ,1588- Hardwick, 1679)
e as Objecções a Descartes (4)


Penso, consequentemente, sou pensante. Na verdade, se penso sou, aquele que pensa não é um nada, sublinha Hobbes, aprovando o raciocínio cartesiano. Na sequência do discurso de Descartes, e como inferência lógica, Hobbes conclui que Descartes identificou a coisa inteligente com o próprio acto da intelecção. Em tom jocoso adverte, se afirmo sou pensante, logo sou um pensamento, será lícito deduzir sou um passeante, logo sou um passeio. Descartes teria confundido coisa pensante com a faculdade do entendimento.
Ora sempre se distinguiu o sujeito das suas faculdades e actos, das suas propriedades e essências. Uma coisa é a coisa mesma que pensa e outra a sua essência. (Na quarta objecção Hobbes postulará que a essência é uma fantasia do nosso espírito. A essência penas teria razão de ser relativamente à existência).
Num plano, primeiramente hipotético, Hobbes avança com a perspectiva da corporeidade da coisa pensante: a coisa pensante, segundo o inglês, deverá ser corpórea, pois o contrário, a sua imaterialidade, ainda não teria sido provada.
Existo, depende do eu penso, correcto. Mas, de onde provirá o conhecimento do eu penso?
Gradualmente, evidencia-se a interpretação de Hobbes, subjacente à sequência lógica patente na forma como se articula a segunda objcção. Não podemos conceber actos sem sujeito, nem o pensamento sem coisa pensante, o passeio sem uma coisa que passeie ou seja um sujeito dos actos, entendido segundo uma razão corpórea. A partir do discurso cartesiano e servindo-se do exemplo da cera , Hobbes extraiu, com habilidade, premissas conducentes à sua tese: há sempre, afirmou, algo que permanece, que subsiste para além de todas as transformações operadas na cera, algo de material que perdura. Um pensamento nunca é sujeito de outro pensamento, uma coisa que pensa é qualquer coisa corpórea, insistiu. Não podemos separar o pensamento de uma matéria que pensa, assim torna-se forçoso inferir que a coisa pensante é material e não imaterial como pretendia Descartes.
O filósofo francês ao declarar sou uma coisa pensante, um espírito, uma razão, um entendimento pretenderia significar a própria coisa que entende, visaria isolar esta substância espiritual e imaterial separando-a das coisas corpóreas. O eu penso logo existo seria uma intuição patente no espírito que apreenderia de forma imediata a passagem do pensamento à existência.
A posição de Hobbes, seria contrária a toda a boa lógica, ripostou Descartes. Na verdade, não existe pensamento sem coisa pensante, mas seria erróneo afirmar que a coisa pensante é corpórea. E passa a explicitar a sua perspectiva estabelecendo a diferença, em seu entender fundamental e explícita nas Meditações, entre coisas corpóreas e coisas intelectuais.
A terceira objecção prossegue a problemática da segunda. O meu pensamento não está separado de mim, todavia é diferente de mim do mesmo modo que o passeio é distinto daquele que passeia. Descartes raciocionaria escolasticamente, ao afirmar que o entendimento entende, do mesmo modo dizer aquele que entende e o entendimento formam uma mesma coisa é uma afirmação obscura.


8.3.04

Março => Poesia

Na nona manhã de Março a intensidade da voz de Gustavo Bécquer, nascido em Sevilha corria o ano de 1836:

II

Seta que voando passa
arremessada ao azar
e que nunca se sabe onde
a tremer se cravará;

Folha que de um tronco seco
arrebata o vendaval,
sem que alguém acerte o sulco
onde ao pó regressará;

Onda gigante que o vento
frisa e impele no mar,
e rola e passa e e ignora
a praia que buscará;

Luz que em círculos trementes
brilha prestes a expirar
e que não se sabe deles
qual ó último será;

Isso sou eu, que ao acaso
cruzo o mundo sem pensar
de onde venho nem aonde
meus passos me hão-de levar.


Gustave Adolfo Bécquer, Rimas de Gustave Adolfo Bécquer, (Porto, O Oiro do Dia, Colecção O Aprendiz de Feiticeiro, s/d), p. 7
Poesia brasileira

(Enviada por um amigo via e-mail)

INVENÇÃO DE ORFEU XXIX

Não há atividade mais fiel

Que a de pintar em cores a ilha.

Como os efeitos não persistem

Devo chorar muito depressa.

A espátula corre sobre a tela,

Nascem raízes sobre a terra,

Os corpos ficam cor-de-barro,

Vou enterrá-los sem pincel.

Composição desordenada

Fica ao crepúsculo colossal;

E tudo agora se encorpora

Ao horizonte vegetal.

Há todavia luz nas cores

Para que as veja saturadas

Nesse crepúsculo verde-negro.

Musgos nascendo de repente,

Eras passando nesse espaço.

A proporção é desmedida,

Enche as distâncias desoladas

Cobre as estrelas nunca fixas,

Muda a paisagem cada tarde,

A luz informa fósseis vivos,

Vulcões mastigam rochas neutras

Pondo lacunas nas criaturas.

Meu crescimento é sem limites,

Há conseqüências tenebrosas

Mas já não bastam nostalgias

Pois sobem asas assombradas,

Predecessores exilados

Jazem de borco em marés baixas.

Essa maneira é mais contínua,

Mais luxuriante e mais devassa;

Novos rigores instalados,

Climas diversos sublevados,

Outros tetardos massacrados,

Vários "cromagnons" enforcados,

Particularmente danados.

Ó dura legenda incendiada,

Ó palimpsestos humanados!

Esse o imensíssimo poema

Onde os outros se entrelaçaram,

Datas, números, leis dantescas,

Início, início, início, início,

Poema unânime abrange os seres

E quantas pátrias. Quantas vezes.

Poema-Queda jamais finado

Eu seu herói matei um Deus

Genitum non factum Memento.

Não sou a Luz mas fui mandado

Para testemunhar a Luz

Que flui deste poema alheio. Amen.


COUTINHO, Afrânio (org.). Jorge de Lima. Obra Completa. Rio de Janeiro: Editora José Aguilar, 1958, vol. I. p.654-655.
História da Filosofia Moderna

A Gnosiologia de Hobbes (Westport ,1588- Hardwick, 1679)
e as Objecções a Descartes (3)


Relativamente à primeira Meditação Hobbes apresentou apenas uma objecçao. Apesar de reconhecer a verdade intrìnseca à mesma, O inglês censurou a Descartes, "este excelente autor de novas especulações" o entreter-se repensando questões tão velhas como sejam a incerteza quanto aos dados da percepção sensível ou a dificuldade no discernimento entre o sono e o estado de vigília, problemas estes já abordados por Platão e demais filósofos anteriores e posteriores ao mesmo.
Descartes ao respoder-lhe, escalereceu-o definindo o carácter introdutório da primeira meditação que funcionaria como propedêutica. Ao apresentar aquelas razões para duvidar, não pretendia ser original ou obter glória, tencionava apenas preparar o espírito dos leitores de modo a alertá-los para a distinção existente entre as coisas corpóreas e as coisas intelectuais. As verdades enunciadas ao longo das Meditações deveriam ser fundamentadas de forma inequívoca, nem as dúvidas mais gerais as poderiam contradizer, obscurecer ou negar.
Se na primeira meditação, Descartes pretendia preparar o espírito dos leitores, introduzindo-os no contexto das Meditações seguintes e situá-los no cerne da temática. Na primeira parte da 2ª objecção Hobbes insinuou , subrepticiamente, o seu modo de pensar, preparando o terreno para expressar com clareza a sua posição acerca da natureza da coisa pensante e defender de forma inequívoca a materialidade da razão.

(Em construção ...)
Multiplicadores

"Um criminoso mata uma ou várias pessoas. Mas, para executar um bom número delas torna-se necessário um multiplicador - e esse multiplicador é uma ideologia."

André Glucksmann

7.3.04

História da Filosofia Moderna

A Gnosiologia de Hobbes (Westport ,1588- Hardwick, 1679)
e as Objecções a Descartes (2)


"Conhecer" segundo Hobbes aparece como uma constatação necessária coerente, é o culminar de um processo que creditaria a experiência sensível. Poderá dizer-se que para Hobbes é o próprio acto de conhecer que permite o acesso ao sistema mecânico das massas em movimento, que é o mundo. Se a sensação é movimento, o "conhecer" dar-nos-ia o ingresso na realidade. Mediante o "conhecer" integrarmo-nos-iamos no movimento do mundo., pois o "conhecer" seria a condição de toda a possibilidade de experiência. Hobbes não recorreu a Deus para estabelecer a veracidade do mundo e das coisas exteriores à res cogitans. Contrariamente, Descartes afirmou: Eu excedo os limites do meu entendimento se afirmo a existência das coisas fora de mim." Esta frase reenvia-nos para o problema da fundamentação da existência de Deus. A argumentação dos dois filósofos é divergente uma vez que as suas motivações temáticas são opostas.
Enquanto Hobbes declarou Deus inconcebível do ponto de vista racional. Em seu entender, não possuimos em nós a ideia de Deus, até porque a ideia seria uma imagem da representação sensível, concomitantemente não existiram ideias inatas. A razão operaria com imagens simbólicas, coordenando-as. No entanto Hobbes admitiu o valor da prova que remte toda a criatura a uma causa primeira, representada por Deus, criador dos seres. Deus seria arche, primeiro princípio, génese. Perspectiva que se encontra bem demarcada nas 5ª, 10ª e 11ª objecções às Meditações Metafísicas. Seria partindo da existência das coisas exteiores, da sua realidade concreta que se constataria a necessidade de uma causa primeira, de um ser eterno, de um motor original.
A fundamentação da existência de Deus em Descartes processa-se no sentido inverso, pois ela seria interna ao próprio sujeito - prova de cariz ontológico. As provas de acordo com Descartes emergem da coisa pensante, a ideia de Deus seria intrínseca ao sujeito. Afirmou, Descartes, neste sentido:

"A realidade de qualquer das nossas ideias requer uma causa em que esteja contida não apenas objectivamente mas formal e eminentemente: temos a ideia de Deus e a realidade objectiva da sua ideia, não está contida em nós, nem formal, nem eminentemente, nem pode estar contida noutro que o próprio Deus. Por conseguinte, a ideia de Deus, que está em nós, requer Deus como causa, consequentemente Deus existe."

A ideia de Deus estaria infusa no sujeito e a existência deDeus seria a garantia da existência do mundo. Ver 3ª Meditação e 4ª parte do Discurso do Método.
A dúvida, o desejo, a insatisfação, a constatação da minha imperfeição constituiriam a marca de Deus em mim, decorrentes da ideia de infinito e de perfeição à qual aspiro e se identificaria com o próprio Deus.

A ideia de infinto presente neste ser finito que sou eu, provaria a existência que me é exterior, de Deus infinito que me criou e conserva. Descartes não recorreu ao mundo, à existência das coisas exteiores e imperfeitas, para comprovar a existência de Deus, ele estava convicto que provou a existência de Deus antes de examinar a realidade do Mundo criado por Ele.
Em síntese, e antes de passarmos à análise das objecções de Hobbes às Meditações de Descartes, diremos que os dois filósofos se assemelham a duas linhas paralelas, duas vias de acesso ao real , correndo lado a lado,abordando as mesmas problemáticas, mas nunca se encontrando.

(Em construção...)
Março => Poesia


Na oitava manhã de Março Nerval evoca a Grécia dos mitos:

Delfica

Le connais-tu, Dafné, cette ancienne romance,
Au pied du sycomore, ou sous les lauriers blancs,
Sous l'olivier, le myrte, ou les saules tremblants,
Cette chanson d'amour qui toujours recommence ?...

Reconnais-tu le Temple au péristyle immense,
Et les citrons amers où s'imprimaient tes dents,
Et la grotte, fatale aux hôtes imprudents,
Où du dragon vaincu dort l'antique semence ?...

Ils reviendront, ces Dieux que tu pleures toujours !
Le temps va ramener l'ordre des anciens jours;
La terre a tressailli d'un souffle prophétique...

Cependant la sibylle au visage latin
Est endormie encor sous l'arc de Constantin
- Et rien n'a dérangé le sévère portique.
Quotidiano

Hoje de manhã mudei a lâmpada da casa de banho, que por um "estranho azar" se fundira. Já passara uma semana e a casa de banho permanecia iluminada, idilicamente, pela luz de velas. Ora, como hoje tenho visitas...lá me decidi a ir buscar o escadote e meter mãos à obra. Tarefa complexa, pois tive que desaparafusar o globo de vidro que rodeava a dita lâmpada e voltar a aparafusá-lo após a troca da iluminária. No entanto, embora feitos tarde e a más horas, confesso adorar estes pequenos serviços ou ainda substituir torneiras avariadas e bichas rotas, entre outras tarefas ditas másculas como fazer furos na parede e montar estantes. Acresce que depois de executar estes trabalhos dou por mim a desejar beber Gin Tonic, antes das cinco da tarde...
Caro Freud, isto fará de mim uma mulher fálica?
O Padre Ruivo

Escuto as sonatas do Padre Ruivo, fecho os olhos, abro os braços e voo...
Descobri a cura.
As minhas lágrimas tombam sobre as tuas mãos.
Descobri a cura.

6.3.04

Confidências e Desabafos de Savarin (20)

Estou a preparar um jantar para um grupo de amigos. Nada como alegrar as noites de Domingo com um convívio gastronómico.
Confeccionei as sobremesas logo pela matina: Tirami su e sorvete de limão com molho de morangos.
Haverá também ganso de vitela salteado em manteiga, com finas meias luas de cebola, pimenta e vinagre balsâmico.
Logo, logo, revelarei as receitas.
Março => Poesia


Na sétima manhã de Março Daniel Filipe descreve uma ilha, ou não tivesse eu nascido numa:

Paisagem

Ilha: pedaço de osso
à flor da pele do mar.
Esquírola viva, troço
de abóbada lunar.

Mar em azul inesperado.
Ilha, começo e fim do mundo
perpetuamente adiado
entre algas do fundo

Ilha, navio antes do oceano,
terra em pousio de sonho, rosto
de pedra com perfil humano,
ao vento sul exposto.


Daniel Filipe, Pátria, Lugar de Exílio, (Lisboa, Editorial Presença, 1977), p.55.
História da Filosofia Moderna

A Gnosiologia de Hobbes (Westport ,1588- Hardwick, 1679)
e as Objecções a Descartes



A iniciação filosófica de Hobbes deu-se em Magdalen Hall, um reputado colégio de Oxford onde adquiriu conhecimentos de grego e latim e contactou com os dialécticos da Escola.
O regime escolástico vigente em Oxford, posteriormente criticado por Hobbes forneceu-lhe, nestes anos de estudos clássicos, a base da sua formação intelectual, bem assim como as estruturas e orientação metodológica para a constituição da sua lógica, teoria do conhecimento e filosofia política originais.

Bacharel em artes em 1608, o ensino surgiu-lhe como a única alternativa profissional. Exerceu as funções de perceptor em casa da família Cavendish. O seu trabalho como perceptor permitiu-lhe deslocar-se ao continente. Tais digressões possibilitaram-lhe o relacionamento com cientistas e filósofos contemporâneos e, por conseguinte, o conhecimento actualizado das novas descobertas e teorias científicas e filosóficas.
Hobbes foi secretário de Francis Bacon,. E através dele leu os antigos mecanicistas. Todavia, o empirismo baconiano não o convenceu, na altura.
Só aos quarenta anos é que o autor de Leviathan descobriu a geometria euclidiana como uma ciência rigorosa e se entusiasmou com a criação de uma lógica científica e de uma filosofia da natureza. A geometria representaria a própria textura, a estrutura da natureza. A descoberta de Euclides incentivou em Hobbes o interesse pelos ensaios mecanicistas de Bacon. Procurou ajustar mecanicismo e geometria com o objectivo de construir uma perspectiva materialista e mecanicista.
Esta concepção, numa síntese muito geral, significa que tudo deveria ser compreendido em termos de diferença cinética, de diversidade de movimentos, todas as particularidades sensíveis teriam por causa, eficiente e formal, a diversidade dos movimentos, a própria sensação seria produzida por variação cinética. Nada nem sequer o homem, escaparia à homogeneidade deste mecanismo universal e à clareza racional da sua representação geométrica.

No intuito de aprofundar os seus conhecimentos empreendeu várias viagens à Itália, Alemanha e França. Perto de Florença, encontrou-se com Galileu, em seu entender, "aquele que nos apontou a via de acesso à física geral ou seja a natureza do movimento. Adoptando, assim uma posição oposta à de Descartes quanto à física galilaica.
Aquando das estadias em Paris, frequentava as reuniões de Mersenne, amigo comum de Hobbes e Descartes, com quem trocava corresepondência. As objecçes de Hobbes às Meditações de Descartes resultaram de um pedido de Mersenne. Objecções que não agradaram a Descartes. Cada um destes pensadores teve uma vivência filosófica peculiar, adoptaram, concomitantemente um modo sui generis de interpretar a realidade, sugeriram vias diferentes para a decifrar o real remetendo para uma fundamentação, na generalidade divergente.
A experiência original original situava-se em pólos opostos o que conduziu à formulação de posições epistemológicas contrastantes, embora ambos abordassem o mesmo tipo de questões, as respostas revelam um forte antagonismo.
Hobbes apostava na percepção sensível como única fonte de conhecimento. O conhecimento, em seu entender, só seria possível mediante a sensação - a qual consistiria no movimento dos corpúsculos, impulsionados por outros corpúsculos externos. Hobbes realçou a dimensção mecanicista e materialista das qualidades sensíveis. A subjectividade dependeria das substâncias corpóreas, e apenas delas, consistindo a sensação e a imagem remanescente puros acidentes ou qualidades de certos movimentos. Apesar da sua teoria empirista Hobbes reconheceu a fragilidade dos dados dos sentidos, uma vez que admitiu que a imagem que o sujeito tem do objecto, seria uma mera aparência do movimento, da agitação ou da mudança que o objecto produz no nosso cérebro. Todas as qualidades ou acidentes que os nossos sentidos nos mostram como existentes no mundo, não estarariam nele realmente, devendo ser considerados como aparências, não haveria mais nada no mundo fora de nós, do que movimentos através dos quais essas aparências seriam produzidas, residindo aqui a causa dos erros dos sentidos, os quais deverão ser corrigidos por esses mesmos sentidos. Assim sendo, para além da simples receptividade aos dados da sensação, o homem poderia decompor uma série de imagens independentemente, do preciso momento em que percepcionaria. Esta capacidade seria possibilitada pela imaginação, ou seja as imagens que o sujeito reteria em si, permaneceriam sem o contacto directo com os objectos. Esta questãoo remete para a memória, faculdade definida por Hobbes, como a totalidade da experiência sem a qual nenhuma experiência particular seria possível. Para perceber o tempo, por exemplo é preciso recorrer à memória.
O homem extrairia das imagens , elementos que comporia e relacionaria estabelecendo um todo organizado. Perceber seria construir e não permanecer puramente passivo, permeável aos dados da percepção sensível. Seria a razão, realidade subtil, mas corpórea, que funcionando funcionando como organizadora simbólica e actuando como coordenadora das imagens que permitiria a análise e consequentemente a ciência bem assim como a construção lógica e intelectual. Todavia, ela não poderá conceber sem as imagens fornecidas pelos sentidos. Hobbes superou o puro sensualismo, tentou a conciliação paradoxal entre o sensualismo e o racionalismo, ao afirmar que se por um lado a origem do conhecimento residiria nos sentidos, por outro, preconizou o ideal de uma ciência dedutiva cujas verdades necessárias se opõem à probabilidade confusa das repetições empíricas. Os fenómenos seriam a base de todo o conhecimento, contudo a experiência revela-se insuficiente, pois não ofereceria qualquer conclusão universal, sublinhou Hobbes, muito aristotelicamente.
Conhecer é considerada a actividade própria do Espírito. O "Conhecer" é elevado a princípio de toda a realidade, a condição de toda a possibilidade de experiência. Conceber o conhecimento como princípio de toda a realidade remete-nos para Descartes. A frase conhecer é a actividade própria do Espírito reporta-nos para posição cartesiana.
No entanto, impõe-se uma primeira diferenciação, para Hobbes o Espírito é identificado com uma realidade material, corpórea, subtil, mas corpórea. Em Descartes o Espírito é definido copmo sendo a totalidade da alma pensante, uma substância imaterial. Superando esta diferença, profunda, entre os dois filósofos, derivada do materialismo do inglês e do idealismo e angelismo cartesianos, descortina-se um ponto comum: O conhecer realidade central, a importância primordial da subjectividade enquanto geradora da própria realidade. O conhecer e o cogito convergem, apontando para uma perspectiva eivada de antropocentrismo típica do pensamento moderno marcado pela figura trágica de Fausto.
Poderá objectar-se, o cogito é uma intuição, o conhecer é formulado como o corolário lógico, seria uma constatação necessária.

(Continua)



Lua

Valeu mesmo a pena ir ver a "Lua magnífica com um planeta em cima" rodeados por nuvens! Um instante a fixar na torrente.
Destaques:
El Greco, El Greco, El Greco


A propósito da referência à exposição de El Greco, na National Gallery, revisitei um livro fetiche: Paul Guinard, Greco, Étude Biographique et Critique, (Genève, Paris, New York, Editions d'Art Albert Skira, Collection Le Goût de Notre Temps, 1956). Recomendo a sua busca nos alfarrabistas...

Aconselho, também, a leitura de um artigo muito interessante sobre a relação entre o astigmatismo do pintor e a sua forma original de representação pictórica:
Walter, William, Grey, “O Cérebro,” Rassegna Medica, 4, (Outubro-Dezembro, 1963), 173-179.

Já que estou em maré de indicações bibliográficas, os apaixonados pela história da neurologia e da ilustração científica, nesse domínio, devem ler: Charles G. Gross, Brain, Vision, Memory, Tales in the History of Neuroscience, (Cambrige, Massachusetts, MIT Press, 1998).
Ouro

Sonho
a abundância
do véu do teu cabelo
a aflorar o meu peito
a ondular no meu corpo

Bernardo Rodrigues Barata
Presente de um Amigo

Não resisti a transcrever aqui estas citações que um amigo me enviou por e-mail:

"Dê-me, Senhor, agudeza para entender, capacidade para reter, método e
faculdade para aprender, subtileza para interpretar, graça e abundância para
falar. Dê-me, Senhor, acerto ao começar, direcção ao progredir e perfeição ao
concluir" (Santo Tomás de Aquino).

"Qualquer amigo verdadeiro quer para seu amigo: 1) que exista e viva; 2)
todos os bens; 3) fazer-lhe o bem; 4) deleitar-se com sua convivência; e 5)
finalmente compartilhar com ele suas alegrias e tristezas, vivendo com ele
um só coração" (Santo Tomás de Aquino, "Summa Theologiae", II-II, q. 25, a.
7).

5.3.04

História da Neurologia

O Impacto da Fotografia e da Radiologia na Medicina na Segunda Metade do Século XIX e na Primeira Metade do Século XX

No final do século XIX e nas primeiras décadas do século XX, a visão detinha um estatuto privilegiado, entendida como faculdade de observar, verificar e certificar, sendo por isso considerada o sentido com maior poder cognoscitivo. Os programas de investigação clínica da época revelavam um grande fascínio pelas múltiplas potencialidades do visível, tornadas acessíveis através das técnicas recém descobertas da fotografia e da radiologia.
A partir de meados do século XIX, Claude Bernard (1813-1878) à semelhança de Marie-François Bichat (1771-1802), Louis Pasteur (1822-1895) e Rudolf Virchow (1821-1895), procurou construir uma ciência fisiológica que constituísse a base de uma patologia científica e fundamentasse a terapêutica racional. Para Canguilhem, “Claude Bernard formulou, no campo médico consequência da sua convicção (de inspiração comteana) sobre a identidade entre saúde e doença, ... a exigência profunda de uma época que acreditava na omnipotência de uma técnica baseada na ciência.” Deste modo, transformou a ideia de saúde num conceito normativo. Assim, o “estado normal ou fisiológico deixa de ser apenas uma disposição detectável e explicável como um facto, para ser a manifestação da relação com algum valor.” Quando os princípios fisiológicos se impuseram à clínica, tornou-se indispensável ampliar as possibilidades do olhar médico. A tecnologia veio trazer uma contribuição definitiva: além de concorrer para um aprofundamento desse olhar, ela objectivou-o. Os outrora imprecisos sinais semiológicos foram substituídos por registos objetivos, em geral quantitativos. De acordo com Michel Foucault (1926-1984), foi no século XIX que a prática médica quotidiana se integrou no laboratório como lugar de um discurso que obedecia às mesmas normas experimentais da física, da química ou da biologia.
A medicina dos séculos XIX e XX é dominada no dizer de Michel Foucault, “pelo olho absoluto do saber” que reduziu as manifestações fisiológicas do humano a esquemas, à representação geométrica de linhas, superfícies e volumes. O olhar objectivante e examinador decompõe analiticamente, controla e invade tudo, é o olhar do sujeito racional que vê os outros enquanto meros objectos de observação. Deu-se uma sobrevalorização do olhar na constituição dos saberes em medicina. Neste aspecto, o papel do microscópio, foi decisivo no fim do século XIX, pois permitiu o desenvolvimento da anatomia patológica e acelerou a biologização da medicina. A partir daí, abriu-se a linguagem a um novo domínio, o de uma correlação perpétua e objectivamente fundada entre o visível e o enunciável. Por outro lado, a orientação positivista da medicina do século XIX conduziu à convicção de que a compreensão do psiquismo e as pesquisas sobre as relações entre carácter e fisionomia, poderiam ser devidamente comprovadas, mediante o recurso a experiências verificáveis do ponto de vista científico.


A irrupção da fotografia em 1839 foi acolhida com entusiasmo pelos cientistas em geral e objecto de aplicação na biologia e na medicina de que são casos exemplares a microfotografia, os registos fotográficos das experiências de faradização efectuadas por Guillaume Duchenne de Boulogne (1806-1875) e a utilização da cronofotografia pelo fisiologista Étienne Jules Marey (1830-1904).
A microfotografia foi criada, em 1840, por Alfred Donné (1801-1878), especialista em microscopia e atento às novas técnicas. Preocupado com a descrição e a comunicação didáctica das observações ao microscópio (como transmitir a todos aquilo que é observado apenas por um?), conseguiu fixar uma câmara escura à extremidade de uma ocular do microscópio. Assim, obteve daguerreótipos de objectos microscópicos invisíveis a olho nu. Deste modo, tornou-se possível partilhar a observação das preparações microscópicas, pois a transmissão objectiva do fenómeno observado permitiu uma leitura colectiva dos microfenómenos. As imagens assim obtidas eram consideradas uma garantia de objectividade e neutralidade, pois não dependiam da capacidade de observação e habilidade para o desenho do observador.
Alfred Donné aperfeiçou conjuntamente com Jean-Bernard Léon Foucault (1868-1919) os dispositivos de difusão desta técnica. Defendeu que a fotografia constituía a alma absoluta das ciências da observação, promovendo-a contra os adeptos do desenho naturalista. Refutava argumentos do tipo o desenho sublinha o elemento significativo, mostra o que convém ver, ou o desenho abole o acaso com afirmações como: a fotografia regista, oferece ao olhar, ou a fotografia acolhe o acaso.
A microfotografia representou um avanço considerável para o desenvolvimento da histologia. Ramon y Cajal (1852-1934) também foi um histologista entusiasta da fotografia, embora tivesse enaltecido as funções do desenho na investigação científica. Ramon y Cajal, que foi impedido pelo pai de se tornar pintor profissional, perpetuou a tradição da ilustração, preferindo o desenho à fotografia. Desenhava os neurónios observados a partir das preparações das células impregnadas com cromato de prata, segundo o método de Golgi (1843-1923) aperfeiçoado por ele, processo que possibilitou a visualização das células nervosas. Ramon y Cajal passaria noites observando preparações ao microscópio, reproduzindo-as de imediato. O histologista espanhol reunia uma acurada aptidão estética de observação e representação das formas naturais com a capacidade analítica de explicação da sua estrutura e função.


Recomendava aos seus alunos a frequência de aulas de pintura com o objectivo de aperfeiçoarem a técnica de representação das suas observações, argumentando que o acto de ilustrar reforça a atenção e o rigor da observação sistemática. O cientista da natureza deveria ser capaz de apreender as estruturas e reproduzi-las com facilidade. Realçou as vantagens da ilustração visual, defendendo ser essencial ilustrar todos os estudos morfológicos com figuras copiadas minuciosamente, pois defendia que, por muito exacta e pormenorizada que fosse a descrição verbal, esta seria sempre inferior em clareza a uma boa ilustração; a representação gráfica do objecto observado garantiria a exactidão da própria observação. Declarou concordar inteiramente com Georges Cuvier (1769-1832) quando este afirmou que sem a arte do desenho, a história natural e a anatomia teriam sido impossíveis. No prólogo da sua obra Textura del Sistema Nervoso-Hombre y de los Vertebrados, revelou claramente o profundo valor gnosiológico que atribuía às imagens. Segundo Cajal, num livro anatómico as gravuras são mais esclarecedoras do que o texto. Enquanto aquelas representariam o factor objectivo, ou seja a natureza, o texto seria subjectivo, representando o autor, cuja inteligência, por fatalismos da organização cerebral, tenderia constantemente a deformar e simplificar a realidade exterior. O bom desenho como a boa preparação microscópica seriam pedaços da realidade, documentos científicos que conservariam indefinidamente o seu valor e cuja revisão seria sempre proveitosa, independentemente das interpretações que pudessem originar.
A obra iconográfica de Duchenne de Boulogne constituiu um ponto de encontro entre a electricidade, a fisiologia e a fotografia. Foi um pioneiro na utilização da fotografia enquanto novo método de observação, de representação e conhecimento no domínio clínico. Duchenne desempenhou um papel fundamental no desenvolvimento da medicina e da fotografia. Construiu uma iconografia médica ao serviço da investigação científica. A originalidade de Duchenne residiu, a partir de 1852, na utilização da nova técnica da fotografia para fixar as suas experiências científicas, não descurando a sua dimensão artística e pedagógica.

A fotografia permitiu-lhe ilustrar as suas experiências de faradização localizada: usava uma corrente alterna e electrizava os principais músculos da face para redefinir as suas combinações na expressão da fisionomia. Criou uma ortografia das emoções em que cada músculo corresponderia a uma emoção ou paixão e estabeleceu uma taxonomia: a atenção, a reflexão, a agressão. O modelo mais fotografado por Duchenne era um paciente afectado por uma anestesia facial, o que fazia dele o sujeito ideal para as investigações, na medida em que a estimulação dos electródos não lhe causava dor ou desconforto. Estes trabalhos influenciaram a obra de Darwin sobre as emoções.
As pesquisas efectuadas por Duchenne na sua anatomia do vivo revelaram-se frutíferas. São disso exemplos a explicação da origem de certas disfunções musculares, nomeadamente, a descrição da distrofia muscular pseudo-hipertrófica designada por miopatia de Duchenne e, pela primeira vez, a individualização de cada um dos músculos da face e a sua contribuição para a expressão do rosto. A fotografia permitiu-lhe verificar, tornar visível e dar a conhecer as suas buscas através da publicação.
As experiências de faradização foram efectuadas na Salpêtrière, no serviço de Charcot (1825-1893) que reconheceu nele um precursor. A influência de Duchenne de Boulogne estimulou o interesse de Charcot no domínio da clínica fotográfica e levou-o a estabelecer na Salpêtrière, em 1878, o primeiro serviço fotográfico institucional. Nesse sentido, adaptou os trabalhos de Étienne-Jules Marey 1830-1904) foi médico, cirurgião, fisiólogo e inventor. Procurou analisar o movimento, registar por meio de curvas e de gráficos os movimentos do corpo que a visão não consegue captar e fixar. Um dos resultados das suas pesquisas foi a criação, em 1883, de um instrumento de registo o aparelho cronofotográfico.

Com o seu projecto Marey pretendia organizar o visível, geometrizar e fixar as aparências fugazes do vivo. Esta nova técnica permitiria substituir a subjectividade do olhar pela objectividade dos dispositivos técnicos.
A cronofotografia teve uma imediata aplicação na medicina, em 1882, quando Charcot encarregou Albert Londe (1858-1917) de fixar as diferentes fases das crises de epilepsia e de histeria dos doentes da Salpêtrière, com o objectivo de descrevê-las e compará-las e, deste modo, formular as leis da doença. Mas, nem a fotografia nem a cronofotografia o ajudaram a resolver o enigma, até porque basearam as suas pesquisas em pressupostos insuficientes. Os resultados dos dez anos (1880-1890) passados neste hospital a fotografar as crises dos doentes não foram positivos. As imagens acumulavam-se sem fornecer novos dados para a compreensão da origem anatómica e cura das referidas doenças. Devido à situação de impasse das investigações, Albert Londe foi aconselhado pelo próprio Charcot a dedicar-se a actividades artísticas. A fascinação de Charcot pelas imagens no final do século XIX, está ligada ao princípio posivista que defende a subordinação aos factos observáveis.

A fotografia clínica foi adoptada em outras áreas da medicina. É célebre o trabalho de Alfred Hardy (1811-1893) e do seu aluno A. de Montméja, cujos resultados receberam a designação de Clínica Fotográfica do Hospital Saint-Louis e foram publicados em 14 fascículos, entre 1867 e 1868. Tem uma colecção de 50 fotografias das doenças dermatológicas, de excelente qualidade. Mais próximas da realidade que os desenhos e gravuras, e bastante menos dispendiosas, as fotografias impuseram-se como um ideal de comunicação e ensino da dermatologia. Montméja estava particularmente interessado na nova técnica da fotografia pelo prolongamento da visão humana que ela representava.
Todavia, de acordo com a perspectiva de Jean-Charles Sournia, não houve na história da medicina, qualquer outra descoberta que tenha conhecido uma aceitação tão consensual e uma divulgação tão rápida como a dos raios X:
Em poucos meses, a Europa médica é informada. A partir de 1896, Armand Imbert (1851-1922) publica em Montpellier um livro sobre a técnica da radiografia e em 1897 Antoine Béclère (1856-1939) inicia em Paris um curso de radiologia clínica. A “roentologia” impõe-se ao mundo com muito mais facilidade do que a bacterologia. Os hospitais, por exemplo, munem-se de aparelhos de raios muito mais rapidamente do que de laboratórios dotados de microscópios e reagentes químicos.

A física médica mudou dramaticamente desde 1895. Durante os primeiros 70 anos, após a descoberta dos raios X por Roentgen, as mudanças técnicas foram mais lentas. Desde a primeira experiência de Roentgen com a radiação para produzir uma imagem radiográfica, foram efectuadas muitas pesquisas relativas ao design e manufactura de écrans, processadores de filmes e produtos químicos utilizados na radiologia.

Na sua forma original, os raios X forneceram novas perspectivas do interior do corpo humano, que permitiram construir uma imagem da topografia interna do mesmo, mas apenas quanto a alguns aspectos, dependendo da relativa opacidade das componentes dos orgãos internos. Os ossos eram facilmente observáveis, no entanto, as veias e artérias escapavam à visualização. O procedimento consistia em injectar substâncias opacas aos raios X para produzir o necessário contraste e obter as imagens dos orgãos pretendidos. Jean Sicard (1872-1929), obtivera em 1920, por este processo — a prova mielográfica, através da administração de injecções de liopidol — a possibilidade de identificar e localizar tumores da espinal-medula, facilitando a intervenção cirúrgica. Procurava-se alargar as potencialidades deste método de diagnóstico a outros orgãos.
O neuropsiquiatra vienense Arthur Schüller (1874-1958) terá sido o primeiro a estudar sistematicamente através dos raios X as mudanças do crânio provocadas por doenças intracranianas. No entanto, segundo muitos autores, Harvey Cushing (1869-1939) terá sido o primeiro a usar os raios X no diagnóstico neurológico. Ao tempo da publicação de Roentgen, Cushing trabalhava no Hospital Geral de Massachusetts e teria ficado entusiasmado com as possibilidades de diagnóstico dos raios X.

Cushing usou, pela primeira vez em 1896, os raios X para localizar uma bala alojada na sexta vértebra cervical de uma paciente e proceder mais seguramente à neurocirurgia. Contrariamente à atitude de contenção de Cushing relativamente às potencialidades da utilização dos raios X, a operação despertou grande interesse pelo uso dos raios X e, consequentemente, pela especialidade de radiologia. As inovações técnicas depressa conduziram a novas descobertas e a aperfeiçoamentos técnicos relativamente ao contraste, nitidez e tempo de exposição.
Persistiam, contudo, grandes dificuldades na aplicação das técnicas radiológicas à observação do cérebro, pois este devido à sua constituição mantinha-se invisível. Deste modo, o contributo dos raios X para o neurodiagnóstico parecia limitado.
Walter Dandy (1886-1946) neurocirurgião americano estudou com Harvey Cushing na Universidade de Johns Hopkins. Criou a ventriculografia em 1918, método que permitia o diagnóstico e a localização de tumores no cérebro e nos tecidos intracranianos. Dandy também inventou novos instrumentos e procedimentos cirúrgicos para o tratamento da hidrocefalia, neuralgias e outros distúrbios dos nervos cranianos. No entanto, a técnica de Dandy não foi imediatamente adoptada na Europa, e, mesmo nos Estados Unidos. Cushing, apesar do seu entusiasmo inicial pela radiologia, mostrou-se relutante quanto à utilização da ventriculografia e da pneumoencefalografia. Justificava a sua atitude conservadora invocando os riscos que a aplicação das referidas técnicas comportavam para a segurança dos doentes. Alguns observadores atribuíram tal relutância à querela entre Cushing e Dandy.
Em 1924-1925, conhecia-se os trabalhos de Jean Sicard e Jacques Forestier (1890-?) com o lipiodol. Evarts Graham e Warren Cole demonstraram que através da injecção intravenosa de tetraiodofenolftaleína era possível obter a concentração da substância de contraste no interior da vesícula biliar.
Todos estes programas de investigação eram do conhecimento de Egas Moniz e serviram de ponto de partida para a estruturação e desenvolvimento da sua investigação no âmbito da angiografia.


Nota: Adaptado do I capítulo da minha tese de mestrado Positivismo e Visibilidade na Obra de Egas Moniz (1874-1955).

Algumas páginas interessantes a propósito do tema:

http://www.cajal.csis.es/legadoca/foto/.htm
http://www.nobel.se/medicine/articles/cajal/index.htm#1, 15-09-2001.
http://www.r.legat.com7photohistory/index.html, 15-09-2001.
http://www.etudes.photographie.com/noteslect/ndl0607.html, 15-09-2001.
http://www.sfp.photographie.com/portfolio/Port06/portfolio6.html, 15-09-2001.
http://www.chez.com/sfhd/clinique.htm, 15-09-2001.
http://cajal.unizar.epfoto/img/menulat.map, 20-09-2001.

Março => Poesia

Na sexta manhã de Março outro poema de Li Po ou Rihaku, na versão de Ezra Pound. As traduções de Ezra Pound são polémicas para muitos, contudo segundo o sinólogo Wai-lim Yip: "não só filologicamente correctas como esteticamente certas." (1)

Poema junto à ponte em Ten-shin

Março chegou ao contraforte da ponte,
Sobre mil portões pendem ramos de pêssegos e de alperces,
Pela manhã há flores de cortar o coração,
E ao anoitecer leva-as com as águas para leste.
Há pétalas nas águas já passadas e nas que passam,
E no retornar dos redemoinhos,
Mas os homens de hoje não são os homens de outros tempos,
Embora de modo igual se debrucem sobre a ponte.

A cor do mar move-se ao amanhecer
E os princípes ainda estão em filas, junto ao trono,
E a lua cai sobre os portais de Sei-jo-yo,
E pega-se às paredes e ao topo do portão.
Com capacetes cintilantes contra a nuvem e o sol
Os nobres saem da corte, para fronteiras distantes.
Montam cavalos que parecem dragões,
Cavalos com cabeçadas de metal amarelo,
E as ruas abrem alas para que passem.
Altiva a sua passagem,
Altivos os seus passos a caminho dos banquetes,
Dos grandes salões com comida esquisita,
Do ar perfumado e raparigas a dançar,
Das flautas límpidas e do cantar límpido;
Da dança dos setenta pares;
Das perseguições loucas pelos jardins.
A noite e o dia são dados ao prazer
Que eles pensam durará por mil Outonos,
Inesgotáveis Outonos.
Para eles os cães amarelos uivam presságios em vão,
E que são eles comparados com a senhora Ryokushu,
Que foi a causa de ódio!
Quem entre eles é um homem como Han-rei
Que partiu sozinho com a amante,
Ela e cabelo solto, e ele o seu próprio barqueiro!


(1) Ezra Pound, Cathay, Tradução e Introdução de Gualter Cunha, (Lisboa, Relógio D'Água, 1995), p.18.
Poema pp. 38-41
Poesia Chinesa

Li Po (701-762)

Em 1915, Ezra Pound apresentou-o como "geralmente considerado o maior poeta da China."

CONFESSIONAL

There was wine in a cup of gold
and a girl of fifteen from Wu,
her eyebrows painted dark
and with slippers of red brocade.

If her conversation was poor,
how beautifully she could sing!
Together we dined and drank
until she settled in my arms.

Behind her curtains
embroidered with lotuses,
how could I refuse
the temptation of her advances?

Li T'ai-po
tr. Hamill



Nota:

Confesso a minha paixão pela poesia e pela poesia chinesa em particular.
Poesia das cinco

XIII

Vê irmão marinheiro
Não é aqui
Que as nossas lágrimas cintilam
Tememos acaso as vagas
E a corrente azul sem fim
Nas nossas veias
É já o vento vem e dançaremos
Rápidos golfinhos
Nos séculos alagados


Anne Perrier, O Próximo Voo das Aves, (Poetas em Mateus, Quetzal Editores), 2000), p.25

4.3.04

Destaque

A seccção "Poeira" do Abrupto é, neste momento, uma das leituras que mais me encanta na blogosfera. Julgo-a imbuída de um certo espírito próximo de Rilke. Percorre-a ideia nodular da transitoriedade inevitável, da impossibilidade de deter e reter o fluxo dos acontecimentos, das emoções, sentimentos... Todavia, torna-se possível "salvá-los" através da interiozação e da linguagem.
Destaco também a secção intitulada "Formas Antigas da Sensibilidade" por abordar um tema pelo qual tenho o maior interesse.
Música em Março


Para ouvir e levitar:

Domenico Belli, Il Nuovo Stile,
Guillemette Laurens
Le Poème Harmonique- Vincent Dumestre.
Alpha, 1999

Volto a repetir que a voz de Guillemette Laurens me arrebata...

Dietrich Buxtehude, Ciacconna: il mondo che gira,
Maria Cristina Kiehr, soprano
Victor Torres, barítono
Stylus Phantasticus
Alpha, 2002-2003


Março => Poesia


Rilke diz-me na quinta manhã de Março:


Não devemos saber a razão
de isto e aquilo nos dominar;
a vida real não pode falar, e só por nos arrebatar

nos faz nela confiar.


[Muzot, princípios de Maio de 1924]

Rainer Maria Rilka, Poemas, As Elegias de Duíno e Sonetos a Orfeu; (Porto, O Oiro do Dia, 1983), p.412
O Grande Livro das Ervas

Para quem gostar de identificar as ervas medicinais e aromáticas e conhecer as suas diversas utilizações aconselho a obra de Pierre Lieutaghi, O Grande Livro das Ervas, (Lisboa, Temas e Debates, 2002).

3.3.04

Dentro de um quadro de Francis Bacon

Naquele dia submergiu na rotundidade do ser e num quadro de Francis Bacon.
Março =>Poesia

Dois poemas para a quarta manhã de Março, com o sol a invadir o escritório:


Morrer de Amor


Morrer de amor
ao pé da tua boca

Desfalecer
à pele
do sorriso

Sufocar
de prazer
com o teu corpo

Trocar tudo por ti
se for preciso.


***

Culto

Reclusa, retomo sempre
e sempre reinvento
o meu nada absoluto

A partir de mim própria,
o que de mim oculto.


Maria Teresa Horta, Destino, (Lisboa, Quetzal Editores, 1998), pp. 42 e 85.
Destaques

Estou a gostar muito do Blasfémias, não sei se é do toque feminino...
Também queria aproveitar para expressar o meu especial interesse pelo Diário de Bordo e pelo Maritimo, dois portos onde fiz escala há pouco tempo, mas que se tornaram dois dos meus preferidos.
Chá das Cinco

No Chazz, toucinho do céu, bolo de café e chá preto, uma triologia que glorifica o prazer da gula.
Representações da patologia feminina na psiquiatria portuguesa (1950-1960) II

NOTA: Adaptação de parte de uma comunicação, que fiz em Julho do ano passado, em Coimbra.

Género e patologia - 2

O sexo feminino é retratado, na generalidade dos artigos, como sendo mais predisposto do que o masculino, a sofrer perturbações do foro psicológico devido ao carácter mais emotivo da sua vida interior, à especificidade dos seus ciclos biológicos, da sua sexualidade e das suas funções reprodutivas. A menarca, a menstruação, a gravidez e a menopausa constituiriam momentos propícios ao aparecimento de perturbações, nomeadamente da psicose maníaco-depressiva hoje designada por disfunção bipolar. As mulheres estariam assim condicionadas pelas suas características biológicas. Adoptariam comportamentos tendencialmente mais masoquistas do que os homens, seriam mais atreitas às cefaleias de etiologia psíquica, à depressão, ao ciúme, ao ressentimento e aos comportamentos obsessivo compulsivos. Evidenciariam ainda maior susceptibilidade às psicoses sintomáticas, nomeadamente os sintomas confusionais ocorreriam sobretudo no sexo feminino.
Segundo Barahona Fernandes a mulher teria menor motivação para os valores objectivos, principalmente na idade madura. Durante grande parte da sua vida as tendências pessoais, subjectivas ocupariam a primazia sobre todas as outras em oposição ao que sucederia com os indivíduos do sexo masculino.
No que diz respeito à maior tendência para sofrer comportamentos do tipo obsessivo compulsivo Luís Navarro Soeiro afirmou, no artigo “A Psiconevrose Obsessiva,” que observou uma maior incidência de casos na mulher, referindo que estatisticamente se verifica uma predilecção pelo sexo feminino.
No artigo em análise descreveu vários casos clínicos referentes a mulheres e apenas um representativo do sexo masculino. Comentou, a propósito do comportamento sexual das doentes obsessivas:
“As mulheres são geralmente frias e devido a bizarrias nas suas relações simpáticas com o mundo que as cerca, sujeitas a todos os caprichos ou abstenções.” (Exemplificou com o caso de uma doente). Por seu turno os homens procurariam extravagâncias ou fantasias sexuais, feiticistas e sádicas.
Ilustra a componente masoquista do comportamento feminino com a análise do caso de uma paciente.
Fragoso Mendes, em “Reacções Neuróticas,” também referiu que as reacções neuróticas de tipo obsessivo se manifestariam mais frequentemente nas mulheres, por vezes logo na infância, puberdade ou adolescência de uma forma episódica ou constante (constituição psicasténica) em personalidades inseguras, anancásticas, meticulosas e escrupulosas com predisposição hereditária dominante.
No que concerne à articulação entre a feminilidade e a maior ocorrência de comportamentos depressivos, há uma série de estudos que estabelecem uma relação quase de causa e efeito entre as características específicas da mulher e a génese das depressões.
Diogo Furtado, no texto “Sistemática das Depressões e sua Terapêutica,” aludiu à relação entre menopausa e depressão quando trata da depressão transacional. A depressão involutiva seria uma afecção acentuadamente mais frequente sobretudo na mulher após o climatério, segundo este clínico apresentaria relações muito próximas com as psicoses do ciclo esquizofrénico. A prática clínica teria evidenciado a frequência com que se encontram manifestações do tipo paranóide, ideias delirantes, persecutórias, fenómenos alucinatórios e sentimentos de estranheza, entre outros.
Perspectiva similar é apresentada por Luís Navarro Soeiro em “Hereditariedade das Psicoses Endógenas”: “A predominância da psicose maníaco depressiva ou ciclotímica no sexo feminino é possivelmente devida a uma maior penetrância genética na mulher, sendo esta como é mais sujeita a variações periódicas do humor, com outros ritmos biológicos e metabólicos e, por isso também mais sensível às influências psíquicas exógenas.”
Neste sentido Martins Nunes num artigo intitulado “Sobre as Psicoses entre os Nativos de Moçambique” afirmou que se observariam diferenças entre os sexos, sendo as psicoses involucionais e as infecções vasculares cerebrais muito mais frequentes no sexo feminino, assim como as psicoses maníaco-depressivas, sublinhou que se limitou a constatar um facto sem sugerir hipóteses. Victor Fontes escreveu no seu artigo “Alguns Aspectos das Neuroses na Adolescência” que a anorexia mental seria mais frequente nas raparigas bem assim como as neuroses. O seu sistema motor seria mais afectado, sobretudo os membros inferiores mais atingidos com fictícia coordenação motora dificultando ou mesmo impossibilitando a marcha. A homossexualidade na adolescência seria, em seu entender, igualmente mais frequente entre as raparigas do que entre os rapazes. João dos Santos afirmou precisamente o contrário no texto “Neuroses da Infância.” Aí declarou que a adolescente, muito mais acentuadamente do que no rapaz, a sexualidade física, não seria bem aceite; e o desvio do desejo sexual sublimar-se-ia. Seria muito menos frequente a adolescente cair na prática sexual quer no sentido auto, como homossexual. O vício sexual na rapariga resultaria sobretudo do seu eventual abandono moral ou da sede de luxo e do prazer decorrentes da vida mundana. Continuou dizendo que tem a impressão que se a adolescente não recebesse em troca das práticas sexuais viciosas compensações materiais resistiria mais à neurose sexual do que o adolescente.
Francisco Alvim no texto “Psicanálise e Tratamento das Depressões,” defendeu que a rapariga adolescente passaria por uma série de problemas como a fobia das regras, a anorexia mental, que gradualmente redundaria em frigidez, esterilidade, reacções infantis ao meio e na menopausa depressões das mais graves o mesmo é dizer melancolia involutiva.
No “Curso de Psicologia Médica,” Barahona Fernandes explicou que a exaltação de uma mulher com os seus familiares durante a distimia pré-menstrual denunciaria um fundo de labilidade biológica e alteração do tónus vital, situação idêntica se verificaria nos estados de exaltação da menopausa, da involução senil, que dependeria sobretudo do fundo orgânico alterado. Todavia, relevou que a psicogénese é sempre condicionada por outros factores, personalidade/organicidade/sociedade. Neste artigo procedeu à análise de diferentes casos clínicos de mulheres, entre os quais referiu o de uma mulher, filha de pai leviano e mãe severa, que descobriu o amor aos 40 anos. Por não conseguir assumir tal sentimento sofria e sentia por isso profunda angústia.
As cefaleias de etiologia psicológica também seriam mais frequentes nas mulheres do que nos homens.
Diogo Furtado, “Cefaleias Psicogénias” declarou: “Em primeiro lugar a cefaleia psicogénia é particularmente mais frequente nas mulheres, muito mais que nos homens. Aproximadamente 65% dos casos da estatística americana eram mulheres.” Pedro Luzes no artigo “Enxaquecas,” incluído na mesma separata, na mesma linha afirmou: “As relações entre os factores endócrinos e as enxaquecas são demonstradas por várias observações clínicas. Assim as crises atingem sobretudo as mulheres. Começam muitas vezes na puberdade e são frequentemente síncronas com a menstruação, cessam em geral durante a gravidez ou menopausa.”
Quanto às teorias que explicariam estes factos de observação, segundo Pedro Luz seriam várias. Alguns autores apontariam em primeiro lugar para a disfunção dos ovários, considerando a enxaqueca como efeito de uma hipo ou hipersecção ovárica. Outros sustentariam que a função ovárica é secundária na génese da enxaqueca localizando-se a causa primeira na hipófise.
Para concluirmos esta secção destacamos dois artigos, que focam outra dimensão da etiologia das disfunções femininas atribuindo as causas das neuroses a uma reacção defensiva da mulher às ameaças do meio à sua integridade física e psíquica. Um é de Diogo Furtado, “Um Estranho Caso de Histeria” e o outro é da autoria de Amílcar Moura “Terapêutica Psicossomática Convergente.”
A relação estabelecida entre género e patologia torna-se ainda mais evidente nos estudos sobre as funções reprodutivas da mulher.