29.2.04

Montemor-o-Novo, 1 de Março de 2004

A propósito do início de mais um mês, um poema de Ingeborg Bachmann:

Estrelas de Março


Longe vem a sementeira. Surgem
os primeiros campos à chuva e estrelas de Março.
O universo ajusta-se à fórmula
de pensamentos estéreis, a exemplo
da luz que não toca na neve.

Haverá também pó sob a neve
e o que não se desfez servirá depois
de alimento ao pó. Oh vento a erguer-se!
Arados rasgam de novo as trevas.
Os dias querem alongar-se.

Nos dias longos semeiam-nos sem nos perguntar
naqueles sulcos tortos e direitos,
e as estrelas retiram-se. Nos campos
crescemos ou morremos ao Deus dará,
obedientes à chuva e por fim também à luz.


Ingeborg Bachmann, O Tempo Aprazado, (Lisboa, Assírio e Alvim , 1992), p.43.
Poesia Chinesa

Mais um poema de Li Shang-Yin

XXV

Pensamentos no Tempo Frio

Partiste. O rio subiu até ao meu portão.
As cigarras calaram-se nos ramos cobertos de geada.
Agora regresso ao portão, mas o tempo mudou.
Como sempre os meus pensamentos são-te dirigidos.
Estás tão longe como a Estrela Polar e a Primavera,
Notícias tuas nunca se dirigem para sul.
Quantas vezes, nos meus sonhos, vejo terras distantes
- Encontraste outro amigo? Espero que não.

Chuva na Primavera e Outros Poemas
, (Lisboa, Assírio e Alvim, 2001), p.40

28.2.04

Efemérides

O Digitalis começou há um ano e treze dias.
A propósito do nirvana

As nossas percepções são naturalmente o nirvana. As interpretações é que instauram a confusão mental e a experiência de separação eu/mundo. O nirvana consiste em destruir os hábitos culturais e em intuir que o eu não está separado do mundo.
Confidências e Desabafos de Savarin (19)


"Celui qui reçoit ses amis et ne donne aucun soin personnel au repas qui leur est préparé, n'est pas digne d'avoir des amis" Brillat- Savarin, Physiologie du Goût, (Paris, Flammarion, 1982), p.20


Mousse de Chocolate


Ingredientes:

1 tablette de chocolate
5 ovos
125 gr de manteiga
8/6 colheres de sopa de açúcar


Preparação:

Partir o chocolate em pedaços e derretê-lo na companhia da manteiga, em banho Maria.
Separar as gemas das claras. Misturar as gemas com metade do açúcar.
Misturar a gemada ao chocolate. Bater as claras em castelo com a outra metade do açúcar. Juntar, com cuidado, as claras batidas ao preparado anterior.
Colocar numa taça e deixar no frigorífico durante algumas horas antes de servir.


Variações:

Pode perfumar-se a mousse com café e rum antes de acrescentar as claras. Mas, tendo o cuidado de não exagerar na dose para a mousse não deslaçar.
Pode adicionar-se nozes ou avelãs moídas.
Pode fazer-se uma mousse tripla com chocolate branco, de leite e negro e dispô-la em camadas.
Decorar com nata batida ou raspas de chocolate, ou as ditas nozes ou avelãs moídas ou não etc, etc, etc...
Deve optar-se por um bom chocolate para usos culinários! Nada de contenções económicas!

27.2.04

VIVER

Depois de dois meses sem apetite e sem sono foi com redobrado entusiasmo que regressei à fruição dos pequenos prazeres, como ter a compulsão de comer uma torrada impregnada de manteiga e doce de framboesa logo ao acordar, sentir ímpetos de roer chocolate ou carne mal passada... Adormecer mal entro na delícia dos lençóis de linho e bilros cor de marfim. Pode parecer tontice, mas é uma espécie de retorno à vida após uma passagem pelo limbo.
Coimbra tem mais encanto na hora da despedida... no meu caso não é bem assim.

Quinta e Sexta estive em Coimbra para participar num colóquio de Filosofia.
Ora, é sempre com renovado encanto que entro e saio de Coimbra, porque de todas as vezes que lá fui, me têm sido proporcionadas experiências gratificantes do ponto de vista intelectual, estético, social e até gastronómico. (Houve comunicações excelentes. O jantar de Quinta-feira, por exemplo, foi celestial em qualidade, diversidade e abundância. Os alegres comensais eram interlocutores inteligentes e gentis, enfim um paraíso espiritual e sensorial).
Para além do mais gosto de passear por esta cidade e é muito agradável pernoitar no Astória, passe a publicidade.

Nota: Esta estadia também incluiu trabalho de investigação, não foi só lazer.

25.2.04

Quem se lembra do filme A Festa de Babette?


"Os convivas sentiam o corpo e o coração mais leves à medida que o jantar avançava. Já não precisavam de recordar mutuamente a sua promessa. Só quando se esquecia e renunciava firmemente a todo e qualquer pensamento sobre os prazeres da mesa - compreendiam-no agora - se podia enfim comer e beber como a lei manda.
O General Loeweennhielm pousou o talher, ficou imóvel. Mais uma vez se sentiu transportado a esse jantar em Paris de que se lembrara no trenó. Um prato incrivelmente recherché e saboroso fora ali servido; perguntara o nome desse prato a um conviva, o Coronel Glliffet, e o Coronel, sorrindo , respondera-lhe que se chamava cailles en sarcophage. Mais lhe disse ainda que o prato tinha sido inventado pelo chefe de cozinha desse mesmo café onde se encontravam, que tinha a fama , em toda a cidade de Paris, de ser uma mulher! "E realmente", dissera o Coronel Galliffet, "esta mulher faz de um jantar no Café Anglais um verdadeiro romance de amor, dessa nobre e romântica ordem se confundem os apetites e a saciedade tanto do corpo como do espírito!


Karen Blixen, A Festa de Babette e Outras Histórias do Destino, (Lisboa, Edições Asa, 1997), pp.56-57
Impressões do Carnaval


Gosto, gostei, gostarei

Gosto de andar perdida pelas ruas de Lisboa e ser apanhada pela surpresa e o encanto de uma praça, de uma esquina, de uma igreja ou de um casa.


Deslumbra-me, sempre, ver o Tejo do cimo da rua do Alecrim, sobretudo quando está de um agitado verde cinza.

Excelente, Extraordinária... a exposição de Noronha da Costa no Centro Cultural de Belém.

Delicioso, o almoço na Toca do Javali com uma velha amiga.

Um feliz acaso: entrar num restaurante desconhecido e desfrutar uma sábia combinação de aromas e sabores, com destaque para a sobremesa, que deu direito a bilhete para o céu do prazer!

Sublime, a voz de Emma Shapplin em Carmine Meo. Ouvi-la =>êxtase.

E o que dizer de alguém a quem se pode confessar tudo, sem ruborizar, até o inconfessável? De alguém cujas inclinações estéticas, filosóficas... se vão revelando, mesmo na ausência, de uma tão estranha afinidade?

E, é tão reconfortante regressar a casa, pareceu-me mais bonita e maior.

21.2.04

Representações da patologia feminina na psiquiatria portuguesa (1950-1960)

Os presentes apontamentos têm por finalidade analisar trabalhos de psiquiatras portugueses da década de 50, que incidem sobre o comportamento feminino evidenciando as imagens e concepções da psicopatologia da mulher implícitas nos referidos textos. O objecto do nosso estudo é precisamente a análise, de um conjunto seleccionado, de artigos publicados na década de 50 por Luís Navarro Soeiro (1905-1965), Diogo Furtado (1906-1964), (Barahona Fernandes (1907-1998), Pedro Polónio (n.1915), Seabra-Dinis (n.1914) e clínicos com formação psicanalítica como João dos Santos (1913-1987), Francisco Alvim, Eduardo Cortesão (1920-1991), Pedro Luzes (n.1927). A análise dos textos é estruturada em torno das categorias de Género e Patologia e das relações entre Ginecologia, Obstetrícia e Psiquiatria.




Contexto Internacional

A Terceira Revolução Psiquiátrica:

• Em 1950 realizou-se em Paris o Primeiro Congresso Mundial de Psiquiatria, classificado por Jean Delay como o Congresso da Terapêutica. (Luís Navarro Soeiro, Diogo Furtado, Barahona Fernandes, Pedro Polónio, Seabra-Dinis, Fragoso Mendes e João dos Santos, entre outros clínicos portugueses também participaram).
• No ano de 1952, Delay e Deniker apresentaram um relatório sobre os resultados positivos observados no tratamento de um paciente psicótico com a clorpromazina, substância utilizada inicialmente por Laborit para obter uma hibernação artificial durante a anestesia e que apresentava propriedades e características singulares como atenuação/ cessação de delírios e alucinações, lentidão psicomotora e indiferença afectiva sem prejuízo das funções cognitivas. Surgia a classe dos antipsicóticos, os neurolépticos, e a psicofarmacologia moderna. Começava, assim a Terceira Revolução Psiquiátrica, que viria a mudar o ambiente dos hospitais psiquiátricos e criar uma nova especialidade a psicofarmacologia.
• Nos EUA só em 1954 começaram a aparecer trabalhos sobre o emprego da clorpromazina, Largactil, que nos EUA mudou de nome, passando a designar-se por Thorazine. No Brasil recebeu o nome de Amplictil.
• A 30 de abril de 1954 Nathan Kline fez uma comunicação na Academia de Ciências de Nova York sobre as suas primeiras observações dos efeitos da Rawolfia (reserpina) no tratamento das psicoses.
• No ano de 1955 realizou-se em Paris o Colóquio Internacional sobre a clorpromazina e os medicamentos neurolépticos em terapêutica psiquiátrica, também sob a presidência de Delay. (Barahona Fernandes participou).
• Em 1957 realizou-se o Segundo Congresso Mundial de Psiquiatria em Zurich. Carl Gustav Jung presidiu à sessão sobre os psicofármacos. Registou-se a aceitação do Largactil (Clorpromazina) e do haloperidol
No final da década de 50, Kuhn, ao investigar os efeitos antipsicóticos da imipramina, substância estruturalmente semelhante à clorpromazina, descobriu os seus efeitos antidepressivos. (Génese do grupo dos antidepressivos tricíclicos).
• No ano de 1960, com o clordiazepóxido iniciava-se a era dos benzodiazepínicos que substituiam com grandes vantagens os barbitúricos no tratamento farmacológico dos estados de ansiedade.
• A maior parte das descobertas fundamentais da psicofarmacologia resultou da observação clínica ou ocorreu por acaso, precedendo em muitos anos os modelos teóricos destinados a explicar os seus efeitos. Apenas no final da década de 60 surgiu o modelo da neurotransmissão cerebral e o modelo da acção farmacológica, sugerindo que os psicofármacos agiam ou nos neurotransmissores ou nos neuroreceptores ou em ambos.



Movimentos psicanalíticos
Breves notas

• Enquanto Jean Delay assumia a cátedra e a direcção do Hospital Sainte-Anne em equipa com os Professores Pierre Pichot, Pierre Deniker e Jean Thuillier e imprimia uma orientação de trabalho biológica e terapêutica. Jacques Lacan dava os seus Seminários no mesmo Serviço. Além de Lacan, o Prof. Henry Ey também fazia conferências e supervisionava casos no Sainte-Anne. Lacan e Henry Ey eram amigos o que não impedia que tivessem calorosos debates pois divergiam nas concepções sobre a loucura e tratamento.
• O Grupo dos kleinianos estava em plena laboração.
• Winnicott divergindo das orientações de Melanie Klein, desenvolvia as suas concepções sobre a psicanálise da criança e o papel da mãe.
• Publicações de Jung: 1950 Metamorfoses do Inconsciente e 1955 As Raízes do Inconsciente.
• Clara Mabel Thompson, “Towards a Psychology of Woman,”Pastoral Pssychology, 4, (34), (1953), 29-38
Clara Mabel Thompson, An Outline of Psychoanalysis, (Randon House, 1955).


Imagens da mulher nos anos 50

• A década de 50 foi designada pela época da feminilidade.
• No pós-guerra, sobretudo nos EUA, muitas mulheres deixaram os empregos e regressaram ao lar, casavam cedo e tinham filhos.
• A mulher dos anos 50, além de bela e bem cuidada, devia ser boa dona de casa, esposa e mãe. A literatura da época, quer a científica quer a de outro tipo enfatizava a ideia de que o trabalho tornaria a mulher masculina e, consequentemente, insegura quanto à sua identidade, para além de prejudicar o seu papel de esposa e mãe.
• A construção da sua identidade sexual enquanto mulher e as suas funções como mãe constituíam as coordenadas do comportamento feminino e delas dependeria o seu equilíbrio psíquico.
• As relações entre ginecologia, obstetrícia e psiquiatria, problemas como a frigidez, a esterilidade, as perturbações psicológicas decorrentes da gravidez, do puerpério e da lactação estavam na

Contexto Nacional

• Na década de 50 surgiu o movimento psicanalítico em Portugal. De acordo com Pedro Luzes, até à década de 50 não havia psicanálise em Portugal, foi só a partir desta data que o país viu nascer um movimento psicanalítico propriamente dito.
• Também é a partir da década de 50 que as mulheres portuguesas começam a formar-se e a trabalhar em Psiquiatria e em Pedopsiquiatria em número significativo. (Alice de Mello Tavares, Celeste Farinha, Maria de Lourdes Campos, Margarida Roque Gameiro Mendo, Fernanda Valle, Suzana Teiga, Manuela Reis, Maria Manuela de Mendonça, Maria Rosa Assunção Alvim Costa, Maria Lucília Mercês de Melo e Celeste Malpique)
• 1954 Início oficial das actividades da Fundação Calouste Gulbenkian (cujos estatutos são aprovados pelo D.L. nº 40 690, de 18 de Julho). Irá desempenhar um papel importante no apoio à modernização hospitalar e à investigação biomédica.
• 1955 Morre Egas Moniz.
• Sob a influência de Barahona Fernandes e seus colaboradores foi criado o Curso de Psicologia Médica no curriculum dos estudos médicos universitários a partir de Cursos Livres de Psicologia Médica efectuados desde 1949 no Hospital de Júlio de Matos.
• 1956 Aprovação dos estatutos da Ordem dos Médicos.
• 1958 Criado o Instituto de Assistência Psiquiátrica.






Género e patologia

O sexo feminino é retratado, na generalidade dos artigos, como sendo mais predisposto do que o masculino a sofrer perturbações do foro psicológico devido ao carácter mais emotivo da sua vida interior à especificidade dos seus ciclos biológicos, da sua sexualidade e das suas funções reprodutivas. A menarca, a gravidez e a menopausa constituiriam momentos propícios ao aparecimento de perturbações, nomeadamente a psicose maníaco depressiva hoje designada por disfunção bipolar. As mulheres estariam assim condicionadas pelas suas características biológicas. Teriam comportamentos tendencialmente mais masoquistas do que os homens, seriam mais atreitas ao ciúme, ao ressentimento e aos comportamentos obsessivo compulsivos.



















A teoria do caos no quotidiano

Naquela tarde de Sexta-feira um conjunto de actos triviais como sair de casa, entrar na livraria, escolher um livro e comprá-lo, foi o bater de asas da borboleta que iria detonar uma série de pequenos acontecimentos e fazer eclodir uma nova história.

16.2.04

Do Indizível

Wittgenstein discorre sobre o amor

"O amor é A pérola de grande valor que guardamos junto ao coração e que nunca trocaremos por outra coisa e que podemos reconhecer como sendo a mais valiosa das coisas."
In David Edmonds; John Eidinow, O Atiçador de Wittgenstein, (Lisboa, Temas e Debates, 2003), p. 244
Confidências e Desabafos de Savarin (18)

Lebanese Cuisine

Entendidos na matéria informaram-me que a cozinha libanesa é uma das melhores, quiçá a melhor, entre as que se praticam no Mediterrâneo. Por isso, aqui fica a indicação de uma página com receitas de iguarias do Líbano. Juntar os aromas desta gastronomia à fragância dos cedros do mesmo país, tão celebrados, no Antigo Testamento.

Sensatez

Sensatez

Por vezes deixo-me conduzir por uma sensatez dita razoável, mas incompatível com a intensidade de sentimentos e de emoções ainda selvagens, ainda por conhecer. Logo o coração dispara revoltado com a heresia do bom senso.

Hoje

Hoje e agora

Os nossos dias fogem tão rápidos como a água do rio
ou vento do deserto.
Entretanto, dois dias me deixam indiferente:
o que passou ontem e o que virá amanhã.

Omar Khayyam, Odes Rubaiyat, (Lisboa, Moraes Editores, s/d), p.24.
Fez ontem oito dias...

Fez ontem oito dias, lia na sala contemplando, de quando em vez, os objectos visíveis através da varanda aberta. Via algumas das plantas do meu terraço, um outro terraço, uma colina, oliveiras, a torre do castelo, um gato preto e branco cuidando da higiene ao sol. Pensei, a partir da leitura do caso "Ver ou não ver" da obra Um Antropólogo em Marte de Oliver Sacks, nos mecanismos complexos da percepção. A percepção do espaço, da distância, da profundidade, da cor, parece ao nível do senso comum, um dado adquirido. Mas, a percepção resulta de uma construção laboriosa ao longo da vida do indivíduo, como se tem vindo a comprovar a partir do estudo de casos de indivíduos cegos desde a infância e aos quais a visãoo é restituída na idade adulta. Afirma, neste sentido, Oliver Sacks:
"Uma criança limita-se a aprender. Trata-se de uma tarefa descomunal, interminável, mas que não encerra um conflito irresolúvel. Um adulto a quem a visão foi devolvida, pelo contrário, tem de levar a cabo uma mudança radical dum procedimento sequencial para um procedimento visual-espacial, mudança esta que contraria abertamente a experiência de uma vida inteira. (...)
Nos indivíduos que adquirem a visão tardiamente, aprender a ver exige uma mudança radical a nível neurológico, acompanhada por uma mudança radical a nível psicológico, de personalidade, de identidade. A mudança é muitas vezes sentida, literalmente em termos de vida e morte."

Oliver Sacks, um Antropólogo em Marte, (Lisboa, Relógio D'Água, 1996), pp. 179-180

11.2.04

Ao sabor da corrente

Represento no meu espaço,
ocupar um espaço é já uma violência,
e vivo bem ou mal, ao sabor da corrente.


Manhã de hoje

Pela janela da varanda entra o azul,
as flores de acácia iluminam o largo,
uma fragância de violetas impregna o ar.
Faço a cama e derramo o sol no damasco.

6.2.04

Li Shang-Yin

Ontem da varanda do meu quarto , sentada na cama, avistava a lua e lia poemas de Li Shang-Yin. Não há melhor.

"Muitas cortinas na tua casa sem cuidados,
Onde o êxtase dura uma noite inteira.
Não serão as vidas dos anjos apenas sonhos,
Se nos seus quartos não entram os amantes?
Tempestades arrebatam os ouriços,
O orvalho da lua adoça as folhas da canela
- Sei que nada pode resultar deste encontro,
Mas como ele alegra o meu coração!"

Chuva na Primavera e outros poemas, (Lisboa, Assírio e Alvim, 2001), p.41.

Um Antropólogo em Marte

A seguir li três dos casos de pessoas com patologias do foro neurológico, relatados por Oliver Sacks, em Um Antropólogo em Marte. É extraordinário como ele consegue reunir a descrição clínica rigorosa da sintomatologia e etiologia da doença com a dimensão humana dos pacientes.


3.2.04

Dia feliz

Sol, calor, azul e
despontaram os primeiros muscaris num vaso do terraço.

2.2.04

Actualizações

Acrescentei novos links à lista da leitura corrente. No entanto, há ainda tantos e excelentes blogues que desejo incluir.

II Congresso da Associação Portuguesa de Ciência Política."

Desde o dia 20 de Janeiro ando a pensar tecer algumas considerações sobre o referido congresso, que decorreu nos dias 18 e 19 de Janeiro na Gulbenkian. Mas, outros temas foram surgindo e nada escrevi sobre o acontecimento. Como uma breve nota queria registar que uma das comunicações que me despertaram mais entusiasmo foi a de João Pereira Coutinho intitulada "Sorte e Política..
Circunstâncias

Sinto um especial fascínio por portos, cais, embarcações. Gosto das cores e das formas dos barcos, das redes, dos peixes expostos, dos cheiros a iodo, até a óleo e combustível.
Lembro-me, de uma vez, ter ido passear pelo porto de Ponta Delgada com um amigo norueguês para assistir à largada de uma regata. O meu amigo pretendia ser mais do que um amigo. Pela minha parte não sentia nada para além de amizade.
Todavia, ao contemplar o mar, as velas brancas a partir, ao inspirar a maresia, e ao ver os seus olhos tão azuis... De súbito, projectei nele todo o encanto e plenitude daquele momento e apaixonei-me por ele.
Apesar de termos namorado durante alguns meses o sentimento volatilizou-se, tudo não passara de um amok provocado pelo mar.



Ainda é Fevereiro, mas as papoilas estão na mente

Poppies in July

Little poppies, little hell flames,
Do you no harm?

You flicker. I cannot touch you.
I put my hands among the flames. Nothing burns.

A mouth just bloodied.
Flickering like that, wrinkly and clear read, like the skin of a mouth.

A mouth just bloodied.
Little bloody skirts!

There are fumes that I cannot touch.
Where are your opiates, your nauseous capsules?

If I could bleed, or sleep! -
If my mouth could marry a hurt like that!

Or liquors seep to me, in this glass capsule,
Dulling and stiling.

But colourless. Colourless.

Sylvia Plath, Ariel, (Lisboa, Relógio D'Água, 1996), p.165

1.2.04


P=>~Q


"Já lá vão dez anos, passaram dez anos, há dez anos, dez anos e nada se resolveu, dez anos, dez anos, dez anos..." Declarou, escreveu, disse , repetiu, frisou Leopoldo.
Foi então que Matilde piscou os olhos três vezes, e por um qualquer capricho do tempo os dez anos deixaram de existir, logo perderam o sentido, engolidos por um vórtice no mar da memória. Sem referenciais no presente e no futuro, que comprovassem a sua autenticidade, a memória dos dez anos extinguiu-se. E, no pensamento de Matilde o autor da frase batida dissolveu-se na proposição binária p=> ~q, mais a concomitante tabela de verdade.
Um jardineiro à procura do sentido da vida


Ontem à noite preferia ter ido ver o Ballet Gulbenkian, mas as condições atmosféricas, bem assim como condicionantes psíquicas e físicas, levaram-me a optar por permanecer em casa. Assim, entreguei-me à leitura, acabei de ler O jardineiro do rei de Frédéric Richaud, (Lisboa, Temas e Debates, 2002).

Um jardineiro, filósofo e sábio, interroga-se sobre questões éticas e políticas, reflecte sobre as causas e a legitimidade do poder e da autoridade, dedica-se à filosofia naturalista enquanto cultiva com empenho os vegetais que vão à mesa do Rei-Sol. Simultaneamente, procura ajudar os pobres camponeses da região de Versalhes ensinando-lhes técnicas agrícolas, disponibilizando sementes e alimentos, julgando, deste modo, ter encontrado uma justificação para a sua existência. Após assistir à loucura colectiva provocada pela passagem do cometa Halley, a uma série de guerras e conflitos religioso absurdos, ao receber a notícia da morte do seu melhor amigo, ao observar os camponeses esbanjar os alimentos de que tanto careciam em oferendas aos Delfins, num completo estado de alienação devido ao nascimento do neto do rei, o jardineiro põe em causa todas as suas convicções. Todos os factos, atrás mencionados, conduzem-no à conclusão da vacuidade do seu esforço, frutos da mera vaidade e presunção. Afinal, ele nada sabia e nada podia fazer para mudar o decurso dos acontecimentos e alterar a vida e a mentalidade dos outros. Acaba, paradoxalmente, por encontrar o sentido da sua vida na loucura e na morte. A morte como condição de outras vidas, à maneira de Hegel. E mais não digo.

Um extracto alusivo à fase filantrópica do jardineiro:

"VOU FAZER AQUILO PARA QUE NASCI." La Quintinie nascera para alimentar os seus semelhantes, para lhes proporcionar o melhor do que a natureza tão pacientemente lhe oferecia.
Então, freneticamente, retomou o trabalho. De manhã à noite, afadigava-se, com os seus ajudantes, a sachar, a cavar, a transportar frutos e legumes para os celeiros ou as estufas, a arrancar ervas daninhas. Por vezes, desaparecia durante dias inteiros, ia juntar-se aos camponeses com as algibeiras carregadas de sementes ou livros; percorria os corredores atravancados de gente dos hospitais de campanha a fim de dispensar cuidados e palavras de reconforto. Já não queria pensar, porque pensar não servia de nada. Apenas dar, dar cada vez mais, até ao limite das suas forças... Op. cit. p.96.