31.1.04

Poppies in October

Even the sun-clouds this morning cannot manage such skirts.
Nor the woman in the ambulance
Whose red heart blooms through her coat so astoundingly -

A gift, a love gift
Utterly unasked for
By a sky

Palely and flamily
Igniting its carbon monoxides, by eyes
Dulled to a halt under bowlers.

O my God, what am I
That these late mouths should cry open
In a forest of frost, in a dawn of cornflowers.

Sylvia Plath, Ariel, (Lisboa, Relógio D'Água, 1996), p. 49

Confidências e desabafos de Savarin (17)



Confesso, que entre as mil e uma maneiras de cozinhar polvo, a versão praticada no Faial é, talvez, a eleita pelo meu palato. Alia a simplicidade à eficácia.


Polvo à moda do Faial

Ingredientes

1 polvo de 2kg
2 cebolas médias
1 ramo de salsa
1 dente de alho
1 cravinho
1 malagueta
2 dl de vinho tinto
1 cálice de aguardente
4 grãos de pimenta da Jamaica
100 gr de manteiga
cominhos q.b.
sal q.b.
1/2 kg de batatas

Preparação


Lavar e cortar o polvo. Colocar no tacho as cebolas inteiras, uma das quais com o cravinho espetado e a manteiga. Levar a lume brando e estufar com o tacho tapado até o molusco avermelhar. Juntar o ramo de salsa, o alho cortado ao meio, o vinho, a aguardente, a malagueta, a pimenta e os cominhos.
Deixar cozinhar tapado. Quando ficar bem tenro temperar com sal. No caso do molho secar juntar mais vinho. Acompanhar com batatas cozidas.

Só se deve temperar com o sal quando a cozedura estiver completa. Deve usar-se um bom vinho!

30.1.04

Confidências e desabafos de Savarin (16)

Literatura e Gastronomia

Pequenos grandes livros:

Jean-Noël Mouret (ed), Le Vin des Écrivans, I Vins de France, (Paris, Mercure de France, 1999).
Jean-Noël Mouret (ed), Le Vin des Écrivans, II Vins d'ailleurs, (Paris, Mercure de France, 1999).
Alexandre Dumas, Lettres sur la Cuisine à un prétendu gourmand napolitain, (Paris, Mercure de France, 1996).
Antonin Carême, Le Patissier Pittoresque, (Paris, Mercure de France, 2003).
Arnaud Malgorn (ed), Recettes Littéraires, (Paris, Mercure de France, 1998). São 5 volumes.



Cai chuva do céu cinzento
Que não tem razão de ser.
Até o meu pensamento
Tem chuva nele a escorrer.

Tenho uma grande tristeza
Acrescentada à que sinto.
Quero dizer-ma mas pesa
O quanto comigo minto.

Porque verdadeiramente
Não sei se estou triste ou não,
E a chuva cai levemente
(Porque Verlaine consente)
Dentro do meu coração.

Fernando Pessoa, Poesias Inéditas (1930-1935), Lisboa, Edições Ática, 1978, p. 25.

29.1.04

Livros fetiche

Alguns dos meus livros, não literários, fetiche são:

Passionate Discontent de Patricia Mathews, Invention de L'Hysterie de Georges Didi-Huberman, Médicines de l'Âme de Henri F. Ellenberger, A History of Neurosurgery dirigida por Samuel H. Greenblatt e publicada pela AANS, Last Ressort de Jack Pressman, O Homem que Confundiu A Mulher com o Chapéu de Oliver Sacks, a Metafísica de Aristóteles da Gredos.
(continua)
Confidências e desabafos de Savarin (15)

Depois de ler um romance de um escritor russo nada como evocar os clássicos sabores da Rússia

Blinis com smitane e caviar

Ingredientes para seis pessoas:

Smitane caseira

50 gr de ricotta
75 gr de requeijão
220 gr de natas
1 colher de chá de açúcar
Sumo de 2 limões

Bater o ricotta, o requeijão, as natas e o açúcar até a mistura ficar cremosa. Juntar o sumo dos limões, continuar a bater até espessar. Guardar no frigorífico.

Blinis

125 ml de água morna
7 gr de fermento para pão
25 gr de açúcar
300 gr de trigo sarraceno
250 ml de leite morno
3 ovos
3 colheres de manteiga derretida
3 colheres de sopa de smitane
1 pitada de sal
manteiga para untar a frigideira

Dissolver o fermento na água morna , com 5 gr de açúcar. Deixar repousar em lugar morno e seco, durante 10 minutos.
Num recipiente maior, colocar a farinha, fazer um espaço no centro, derramar metade do leite morno e a mistura de fermento.
Trabalhar a massa com uma colher de pau e com as mãos até que se torne homogénea. Cobrir o recipiente com um pano de algodão e deixar a massa levedar durante 3 horas. Misturar o leite morno restante, as gemas, o sal, o açúcar, a manteiga e 3 colheres de smitane. Bater as claras em castelo e juntá-las à massa. Deixar repousar por mais meia hora.
Untar uma frigideira de crepes. levar ao lume e juntar 3 colheres de sopa de massa. Quando começar a dourar de um lado virar e dourar do outro.
Retirar o blini e repetir a operação até esgotar a massa.
Servir com um pouco de smitane e caviar sobre os blinis.

27.1.04

A Humana Vaidade

Afirmou Pascal:

150 (94)

"A vaidade está tão enraízada no coração do Homem, que um soldado, um trolha, um cozinheiro, um carregador se gabam e querem ter os seus admiradores; e até mesmo os filósofos o querem; e os que escrevem contra, querem ter a glória de terem bem escrito; e os que os lêem, querem ter a glória de os terem lido: e eu que escrevo isto, talvez tenha esse desejo; e talvez os que o lerem..."

161 (53)

"Vaidade - Que uma coisa tão visível como é a vaidade do mundo seja tão pouco conhecida que seja uma coisa estranha e surpreendente de dizer que é um disparate procurar as grandezas, isso é admirável!"

Pascal, Pensamentos, (Lisboa, Didáctica Editora, 2000), pp.88 e 89.
Lagos Azuis II

Lagos azuis persistem no horizonte.
Lagos azuis repetem as suas dádivas.
Lagos azuis exalam aromas sedutores.
Lagos azuis insistem em alegrar o meu caminho.
A Loucura da Normalidade


Estou a ler a obra de Arno Gruen, A Loucura da Normalidade - (Lisboa, Ass?rio e Alvim, 1995), pp. 21 e 24 e 25 - e, dela retiro, por agora, as seguintes passagens:

"S? h? um caminho para a verdadeira liberta??o e, com isso, para a experi?ncia arriscada da mudan?a: enfrentar a dor sobre a trai??o cometida contra si pr?prio."
O recalcamento do desespero e do desiquil?brio interior, ou seja, o afastamento do seu interior, caracteriza aquelas pessoas, das quais supomos estarem plenamente inseridas na realidade. Essa impress?o ? causada pelo facto da nossa ideia de "realidade" estar feita ? medida desse tipo de personalidade, o que leva a que tal ideia seja aparentemente confirmada as vezes que for preciso. Por isso o poder de decidir sobre os nossos destinos costuma ser entregue justamente a esse tipo de gente, muito embora n?o esteja ? altura de tal responsabilidade. Mas assim acontece tamb?m por essas pessoas encarnarem as nossas pr?prias fantasias de realismo e for?a."
PROTESTO II

Como é que dois médicos ortopedistas observam uma radiografia e não se apercebem que um osso sofreu uma fractura?
Como é que não reparam que um joelho tem uma hemorragia interna e não extraem o sangue?

26.1.04

O Contributo das Mulheres para a Hist?ria da Psican?lise (5)

Marie-Louise von Franz (1915-1998)

Marie-Louise von Franz psicanalista de origem austr?aca radicou-se com a fam?lia na Su??a. Foi disc?pula e colaboradora de Jung. durante trinta anos. Procedeu a uma abordagem anal?tica da alquimia, dos contos de fadas e dos sonhos. Procurou revelar as diversas faces da alma feminina atrav?s do reservat?rio de s?mbolos da alma colectiva que constituem os contos de fadas e os sonhos. A sua experi?ncia enquanto mulher e terapeuta atenta ao inconsciente permitiu-lhe recolher muitas informa??es plenas de ensinamentos.
Na obra O Caminho dos Sonhos afirmou que em geral o primeiro homem que uma mulher conhece ? o pai. Se a rela??o com o pai se construir de um modo negativo, posteriormente, ela teria dificuldade em relacionar-se com os indiv?duos do sexo oposto e n?o lograria descobrir o seu pr?prio princ?pio masculino, animus. Nos casos extremos sofreria de uma incapacidade de abordar os homens, sentiria receio deles.
Po outro lado, em situa??es menos radicais ela seria o que se designa por uma mulher dif?cil. Tentaria desafi?-los, denegri-los, motivada por uma expectativa negativa acerca deles.

Bibliografia

Marie-Louise von Franz; Fraser, O Caminho dos Sonhos, (S?o Paulo, Cultrix, 1992)
Marie-Louise von Franz, R?ves d'Hier et d'Aujourd'hui, (Paris, Albin Michel, 1992).
Marie-Louise von Franz, La Femme dans les Contes de F?es, (Paris, Albin Michel, 1993).
PROTESTO

A minha sobrinha sofreu uma lesão num jogo de ruggby. Uma jogadora animada de grande ímpeto desportivo deu-lhe um valente pontapé no joelho, depois de outra a ter placado. Levada para o hospital de Évora submeteram-na a uma radiografia e logo declararam, com convicção, não ter o joelho fracturado, deveria usar canadianas e aguardar uma semana, porventura havia a remota possibilidade de uma rotura de ligamentos. Entretanto, o joelho inchou imenso, entre outros problemas.
Hoje no Hospital de Santa Maria, após nova radiografia, diagnosticaram ossos partidos, retiraram 4 seringas de sangue já a coagular, deverá ser submetida a uma intervenção cirúrgica, e poderia ficar com um problema muito grave se continuasse à espera... ou seja correu o risco de ter que amputar a perna.

25.1.04

Requiem


"(...) chovem lâminas dentro de mim e as veias abrem-se a todos os voos. tudo me doi. já não és. morreste entre os cactos na boca dos frutos vermelhos. de sede. na água do meu corpo."


"já não sinto a dor de ser tu. era a dor de não ser eu assumido na nudez mineral do espelho. dor de estar do lado da imagem a sorrir para a miragem."

Emanuel de Sousa, Eurídice, (Lisboa, Quetzal, 1989), pp.19, 20 e 30.

23.1.04

Ainda sobre o tema do post anterior veja-se esta página , que alia a literatura à pintura. De onde copiei as seguintes citações:

« L'idée de la masturbation lui était venue, assurait-elle, spontanément. Un jour, étant seule dans sa chambre, elle éprouva une sensation inattendue par le frôlement fortuit d'une chaise (...) La masturbation avait lieu surtout le matin, quand elle se sentait reposée. Elle s'en passait quelquefois un ou deux jours, jamais plus. Elle a éprouvé des rêves érotiques, avec réveil brusque, et suivis de lassitude. « Je me suis réveillée en pleine jouissance » .

« Le froissement de la soie vous excite, vous vous sentez mouillée ; aucune jouissance sexuelle n'égale pour moi celle-là (...) quand je peux prendre l'étoffe, je la froisse, cela me produit un serrement d'estomac particulier, ensuite, j'éprouve une espèce de jouissance qui m'arrête complètement la respiration ; je suis comme ivre, je ne peux plus tenir, je tremble, non pas de peur, si vous voulez, mais plutôt d'agitation, je ne sais pas (...) La jouissance passée, je suis très abattue, parfois la respiration se précipite, tous mes membres sont courbaturés. »

Gaëtan Gatian de Clérambault - Passion érotique des étoffes chez la femme (1908)


« Je m'arrête, je frémis, il me semble que je fonds que je m'abîme, ah, m'écriai-je,
mon dieu ah ah, et je me relevai subitement épouvantée, j'étais toute mouillée. »

Alfred de Musset et Georges Sand - Gamiani ou la nuit des excès (1848)


Veja-se também a obra de Boyer d'Argens, Thérèse Philosophe.
A propósito dos posts "Onanismo: algumas reflexões" e "A Ficcionalidade Onanista", lembrei-me do primeiro romance, publicado por Roger Nimier (1925-1961), aos 23 anos, intitulado Les Épées. A narrativa principia assim:

"Ça commence par un petit garçon plutôt blond qui laisse aller ses sentiments. Le visage de Marlène Dietrich, plein de sperme, s'étale devant lui. Sur le magazine ouvert, le long des jambes de l'actrice, des filets nacrés s'entrelacent comme la hongroise d'argent sur le calot d'un hussard. (...)
Le visage de Marlène Drietrich, noyé dans une tourpeur coupable, se gondole sur le tapis." (Gallimard, Paris, 1948), p.7

22.1.04

Verão em Baden-Baden

"- e caminhamos apressados para qualquer lado, na expectativa de qualquer coisa invulgar, feliz, que forçosamente irá acontecer hoje - " Leonid Tsípkin, Verão em Baden-Baden, (Lisboa, Gótica, 2003), pp.83-84

Através de uma escrita de uma beleza invulgar, recorrendo a uma forma de narrativa portadora de grande originalidade, ao longo da qual o itinerário do narrador se entrelaça numa profunda harmonia com as deambulações estivais do casal Dostoivski, a par da dependência do jogo e de outros problemas existenciais do casal, o autor revela o drama de dois seres que se amam com intensidade e devoção e sofrem porque suspeitam da autenticidade do amor um do outro. Desconhecem o quanto cada um deles é vital para o outro.

O livro é muito mais do que isto, mas o melhor mesmo é lê-lo e saboreá-lo.

21.1.04

Poesia de Emanuel de Sousa

1.

as uvas colhem-se no arame farpado e no zinco chove o dia de hoje em gotas insistentes. só hoje sei o ontem que fui e amanhã o hoje que serei. tudo demasiado tarde arde num perfume a terra queimada enquanto as imagens se vão sobrepondo desfocadas entre mim e o nada. imagens entretecidas na textura dos dias e sedimentadas no litoral das coisas. oscilo entre o passado e o passado numa procura do tempo e de ti.
tenho os olhos brancos com as pupilas voltadas para o interior.

2.

já não me vejo. os meus olhos estilhaçaram e a água anoiteceu no teu corpo onde tropecei num soluço habitado. nomeava o teu nome em alucinações contidas. já não reconheço os lugares de encantamento. os nomes das cidades. os caminhos. as cores que as coisas assumiam na mansa quietude do entardecer. aquela quietude feita de silêncios no instante antes de anoitecer. quando a natureza é o sol suspenso no fundo da alma. no fundo do horizonte.
já não me vejo. no teu corpo habitado.


Emanuel de Sousa, Eurídice, (Lisboa, Quetzal, 1989), pp.21 e 27

18.1.04

Impressões do fim de semana

Anteontem, Sexta-feira: boas notícias.

Ontem, Sábado, Oceanário de Lisboa: encantadoras as lontras marinhas a almoçar.

Hoje, Domingo: Tarde ao sol lendo Verão em Baden-Baden de Leonid Tsípkin, ao som das vozes de Patrícia Barber, Cassandra Wilson, Holly Cole, Rebecka Törnqvist, entre outras.

17.1.04

Saudades da Caloura

sinto a falta daquelas falésias escarpadas, do pequeno porto de pesca, dos barcos artesanais, das redes, daquele mar de tantos e tão intensos tons de azul e verde...

16.1.04

Matsuo Bashô

Quando era aluna do ensino secundário, fiquei fascinada com um poema/haiku de Bashô incluído numa colectânea de textos para a disciplina de Português:

"Ervas do estio
Eis o que resta
do sonho dos guerreiros"

Hoje encontrei na livraria aqui perto de casa, editado pela Assírio e Alvim, um livro do referido poeta japonês, com as obras, "O Gosto Solitário do Orvalho" e o "Caminho Estreito." Em nota final somos informados que a primeira obra já tinha sido publicada pela mesma editora em 1986, na colecção Gato Maltês e a segunda pela Casa Matilde Urbach em 1987 com um título mais extenso e depois pela Fenda em 1995. O livro é enriquecido com belas ilustrações japonesas.

Para além do mais, enquanto me deliciava a saborear um chá preto com especiarias, apareceu uma simpática amiga e logo ocorreu um agradável diálogo.
Enfim, um momento de serena felicidade num dia azul de Inverno.

A propósito:

"O Inverno é a estação do frio; não só do frio que enregela os animais, mas também o frio de cujo significado profundo e interior nos apercebemos apenas em raros momentos de medo ou solidão.

A lua no Inverno e a chuva do fim do Outono evocam diferentes sensações. Mas é a neve que no seu leque de significados e variedade de tratamento corresponde às flores de cerejeira noa Primavera, ao cuco no Verão e à lua no Outono. Apesar das tarambolas, mochos, águias e aves aquáticas, a poesia do Inverno é sobretudo a poesia da imobilidade e do silêncio." Texto adaptado de R. Blith

Matsuo Bashô, O Gosto Solitário do Orvalho; O caminho Estreito, (Lisboa, Assírio e Alvim, 2003), pp. 37 e 47.
Têm a palavra os escritores

1.

"Escrever é a única profissão em que ninguém é considerado ridículo se não ganhar dinheiro" Jules Renard

2.

"Algumas pessoas escrevem tão bem que tenho ganas de devolver a minha pena ao ganso." Fred Allen

3.

"Não tenho nada. Devo muito. Deixo o resto para os pobres." Epitáfio de Rabelais

15.1.04

Azul, Azul

Lagos azuis procuram reflectir-me por inteiro.
Lagos azuis desenham um horizonte.
Lagos azuis oferecem-me algas vermelhas.
Lagos azuis prometem-me o élan vital.
Lagos azuis devolvem-me o brilho.

13.1.04

Vertigem


"Conheces o esplendor das viagens, a ferida amável que deixam as lembranças esquecidas nos porões da memória. E conheces os dédalos do terreno, os labirintos do sonho, a ciência exacta dos mitos, a cadência dos martelos interessados na construção duma harmonia de que apenas recolhes por inteiro a evidência e uma premência imposta sem restricções, constrangimentos ou limites."

Albano Martins, Rodomel Rododendro, (Lisboa, Quetzal, 1989), p.30

Não mais
a temperança socrática
ou a ataraxia de Epitecto,
quero uma alma desesperada,
atolada na vertigem dos sentidos.

11.1.04

Nostalgia

Na cinza do céu,
a ilusão da humidade e da mornaça,
dos Invernos temperados da ilha.
Um sonho de mar revolto,
no cinzento esbatido da neblina,
no ondular das nuvens.


Volatilidade

Eu sou volátil,
tu és volátil,
tudo se desvanece.

Aprecia a névoa.
O brilho que com o sol desaparece,
as luzes que a noite arrasta.
Dissipam-se os sentimentos,
os juízos transformam-se
as pessoas evaporam-se.

A transmutação da paisagem,
o jovem que o volátil
tempo transtorna.
Resta a morte
que o corpo desfaz.

E agora...
O Azul, um Mar Imenso.

A morte é o retorno ao todo,
aos corais,
ao matinal azul velado,
ao vermelho,
aos brilhos
à névoa.

9.1.04

O Papel das Mulheres na Hist?ria da Psican?lise (4)

H?l?ne Deutsch (continua??o)



No entanto, a carreira de Deutsch parecia entrar em contradi??o com as suas ideias sobre a feminilidade. Aquando da publica??o da obra A Psicologia das Mulheres, muitos cr?ticos consideraram as teses nele veiculadas como uma estrat?gia de racionaliza??o da posi??o social das mulheres no passado.

Apesar de ter sido a autora do primeiro livro sobre a sexualidade feminina no meio psicanal?tico, H?l?ne defendeu uma perspectiva muito radical acerca da verdadeira natureza da mulher, tendo definido a feminilidade como uma mistura de passividade, narcisismo e masoquismo. Em seu entender, o destino anat?mico da mulher consistiria na viragem para o masoquismo, esta viragem seria determinada por factores biol?gicos e constitucionais. Em cada um dos momentos da fun??o reprodutiva feminina manifestar-se-ia um prazer masoquista. Chegou, mesmo, a descrever o parto como uma orgia de prazer masoquista," o que provocou a ironia de Karen Horney.
Neste contexto, respondeu ? pergunta de Freud:"O que ? ser uma mulher?"
com a identifica??o entre maternidade e feminilidade.

Mais n?o digo, embora muito fique por dizer. Leiam, leia muito!

Bibliografia:


Hélène Deutsch, Psychanalyse des Functions Sexuelles de la Femme, (Paris, PUF, 1994).

Hélène Deutsch, La Psychologie des Femmes, (Paris, PUF, 1997), 2 vols.
Mais uma biografia de Kafka

Li mais uma biografia de Kafka. Desta feita, o pequeno estudo de Claude Thiébaut, traduzido recentemente pela Quimera. Estou a falar no assunto, porque o biógrafo desmistifica alguns dos estereótipos sobre Kafka. Ora, o escritor checo apreciou as suas funções na seguradora, foi promovido... teria passado uma juventude muito animada, divertindo-se a conviver com os amigos, a viajar, a praticar desporto, a flirtar, entre outras actividades pouco kafkianas. Afirma, neste sentido, Thiébaut: " Portanto, o que se sabe da vida de Kafka durante cerca de trinta anos nada tem de particularmente "kafkiano". Porque motivo se teria a partir de então instalado numa coerência trágica, ao ponto de nada ver para além dela e de a tornar a principal personagem da sua obra? Uma das respostas, talvez a principal, encontra-se no seu gosto precoce pela escrita e na sua aptidão para conferir realidade ao que sai da sua pena."

Ver As Metamorfoses de Kafka, (Lisboa, Quimera, 2003), p. 37.

8.1.04

Amizade Virtual/Feliz acaso


Pela primeira vez cedi aos encantos da amizade virtual. Casualmente, comecei um diálogo muito enriquecedor com a fascinante autora do blog eugeniainthemeadow.

6.1.04

Confidências e Desabafos de Savarin (15)

Agora que acabaram as festas não resisti a transcrever esta introdução de Arnaud Malgorn, em Recettes Littéraires, Pâtisseries, entremets, confiseries, (Paris, Mercure de France, 1998), pp. 9-10

" Carême, dit-on, ne portait pas Brillat-Savarin dans son cceur. Petitesse des hommes de métier pour les hommes de plume ! "
Robert J. COURTINE

Au cours d'une scène de repas, l'écrivain trouve pleinement matière à explorer ses personnages et leur environnement. Son regard (faut-il s'en étonner?) n'a rien de sucré, il est assez pessimiste.

Principale figure littéraire du repas : l'initiation, comme s'il s'agissait d'assimiler physiquement un rite. Cette initiation prend plusieurs formes. Elle enseigne un savoir cabalistique, chez le romancier israélien Meir Shalev; elle donne accès à un monde nouveau et interdit, grâce aux fondants au haschisch d' Alice
Toklas. Plus profondément, elle permet de communier, pour ces poetes maudits réunis autour de Cyrano... Légere et grave, cette initiation aux secrets de la vie est toujours une évocation de la mort.

Principal protagoniste du repas : la famille. La nourriture y devient prétexte à exposer des sentiments complexes, violents, voire contradictoires, comme les torrejas de Laura Esquivei. La famille, dont Christine Pascal nous a laissé un émouvant portrait, semble avoir pour seul espoir de se recomposer l'espace d'un instant, autour d'une flamme. Le repas conjugal est le lieu de toutes les incompréhensions, qui seraient pathétiques, si elles n'étaient seulement dérisoires, vues par Alphonse Allais.

Le repas en société est une amplification de ce thème de l'échange impossible. S'il est mondain, il s'agit avant tout de briller. Mallarmé aide ainsi les lectrices de sa gazette à se faire valoir par le raffinement et l'originalité de leurs mets et de leurs mots. Ou bien le dialogue y est politique, comme chez l'écrivain Lezama Lima qui, mettant en boite ses invités avec des ananas en conserve, délivre un message sur la société coloniale cubaine, ou du moins ce qu'il en reste, après importation.

Que reste-t-il du caractere festif du repas? Les fêtes ponctuent l'existence pour en marquer à la fois la continuité et le perpétuel renouvellement. Une fête sans repas menacerait l'écoulement du temps. Mere Barberin l'a compris, qui déploie un trésor d'ingéniosité pour que Rémi Sans famiIle fête dignement Mardi gras.

Comme l'a résumé Jean-Paul Aron (Le Mangeur au XIX" siecle), la représentation du repas dans la littérature a évolué à l'instar du statut de l'artiste dans la société : " À table, les écrivains ont trouvé d'abord un divertissement et un drame, puis apres 1850, lorsqu'ils sont proscrits par les notables, un lieu de communion. " Ce qui était vrai encare chez Rostand ne l'est déjà plus au coeur du xx' siecle. Et on ne peut être que frappé par l'abondance des simulacres (Simmel) ou simplement de repas solitaires (Malot, Pascal) dans la littérature contemporaine.



Arnaud Malgorn, Recettes Littéraires, Pâtisseries, entremets, confiseries, (Paris, Mercure de France, 1998), pp. 9-10
Depois da Primavera...

Na cinza da manhã, descobri o encanto deste Pathos de Inverno.

O Papel das Mulheres na História da Psicanálise (4)

O Papel das Mulheres na História da Psicanálise (4)

Hélene Deutsch (1884-1982) foi uma das primeiras discípulas de Freud. Nascida na vila polaca de Przemyls foi para Viena para seguir uma carreira profissional. Escolheu medicina um domínio considerado excepcional, para uma mulher do seu tempo. Na época era pouco comum uma mulher tornar-se psiquiatra, sendo a sua carreira na psiquiatria académica muito limitada.
Na Primavera de 1911 leu A Interpretação dos Sonhos, assistiu às conferências de Freud na Universidade de Viena e participou mesmo nas reuniões da Sociedade Psicanalítica. Por isso na Primavera de 1918 Hélène procurou combinar uma análise com Freud. A análise começou no Outono desse mesmo ano.
A sua aproximação a Freud levou-a a renunciar ao seu lugar na clínica de Wagner-Jauregg devido à hostilidade ostensiva ao modelo psicanalítico, aí reinante.

Era considerada uma das melhores pedadagogas da psicanálise e as suas aulas brilhantes. Formou uma geração inteira de psicanalistas mais novos nos anos 20 do século XX, apesar de recém chegada ao movimento psicanalítico.
As fontes descrevem-na como uma mulher cheia de energia. Capaz de escutar uma comunicação durante horas, tratar dos filhos e depois de um dia consagrado à prática analítica, dirigir um seminário que se prolongava ao longo da noite sem perder a frescura e o vigor.

(Continua)
Gostei muito da Loucura brevíssima do Miniscente.

4.1.04

Os últimos dias de Immanuel Kant

Para encerrar um aprazível fim de semana, acabei de ler o livro de Thomas De Quincey com o título acima referido. No entanto, confesso, que apesar do seu inegável interesse, é bem mais estimulante ler a Crítica da Razão Pura do que conhecer as misérias do fim da vida do filósofo alemão.
Contudo, gostei de conhecer algumas facetas da personalidade de Kant, descritas no referido livro.

3.1.04

Da luz que inundou Lisboa

Hoje uma luminosidade estonteante envolveu Lisboa. Com uma luz assim só quero estar fora da prisão das paredes, sair, deambular pelas ruas, beber o azul, volatilizar-me no brilho dos elementos, fluir. Não há melancolia que resista quando os sentidos são solicitados por tanta beleza.

Agora estou aqui a escrever, entre quatro paredes, porque já anoiteceu.

1.1.04

O Papel das Mulheres na História da Psicanálise (3)

Karen Horney (1885-1952) foi uma célebre psiquiatra e psicanalista americana que se tornou conhecida, sobretudo, por desde muito cedo, ter posto em causa algumas das teorias de Freud, e em particular, a da líbido, uma vez que as suas observações clínicas contradiziam as teses do pai da psicanálise. Karen opôs-se à explicação falocêntrica freudiana das psicologias feminina e masculina. Em seu entender, as causas das disfunções psíquicas não se limitariam às motivações de natureza pulsional uma vez que o papel das determinates sociais e parentais seria fundamental. Por fim, acabou por abandonar a teoria psicanalítica clássica de uma sexualidade infantil e inconsciente.
Questões como a existência ou não de uma sexualidade especificamente feminina; a validade da tese do masoquismo feminino, ou o que se entende pelo conceito de "mãe viril," entre outras, foram abordadas por Karen Horney a propósito da psicologia feminina.
Karen Horney contestou, com dureza, a teoria do masoquismo feminino defendida por Hélène Deutsch, fiel discípula de Freud.

Bibliografia provisória:

Karen Horney, La Psychologie de la Femme, (Paris, Payot, 2002).
Janet Sayers, Les Mères de la Psychanalyse, (Paris, PUF, 1995).
Manhã de Ano Bom

Devido a circunstâncias e motivações várias, passei o ano com a minha filha mais nova, um encanto de menina cujo sorriso e ternura nos alegram a alma e enchem a vida de sentido. Entre outros rituais preparámos as sobremesas em conjunto, ela mostrou grande entusiasmo ao ajudar a fazer e a cortar a massa para os fritos de castanhas com mel, mais até do que mostraria depois a comê-los.
Após o jantar abri a porta da rua, deparei-me com uma bela imagem do largo vazio, a calçada brilhante da chuva, as luzes brancas nas árvores, o chafariz e os edifícios toldados pela névoa. Lembrei-me das praças das grandes cidades quando soam as 12 badaladas... Duas percepções de grande beleza: a cor e a euforia compacta das multidões em Nova York... o silêncio de um largo com uma longa história.

Vivemos uma entrada simples e cheia de harmonia em 2004.

Pela manhã foi bom sentir os passos dela a entrar no meu quarto a pedir mimo.

Quanto a projectos para este ano o meu lema vai ser, plagiado do Azul Cobalto, "Exigir o impossível."
Aproveito para dizer que gosto muito do citado blog, e também, para agradecer as duas simpáticas referências ao Digitalis, faz tempo.