30.11.03

Rubus chamaemorus, cloudberries, ouro de Bogs


Cowberry ou lingonberry,Vaccinium vitis-idaea

Vaccinium vitis-idaea

Confidências e desabafos de Savarin

Sabores da Escandinávia: À descoberta de novidades gastronómicas encontrei estas receitas norueguesas:

Creme de Cloudberry: Bater uma chávena de açúcar com 1/2 l de natas. Misturar cuidadosamente, uma chávena de cloudberries frescas. Decorar com doce de cloudberry.

Troll cream (versão de Line Gisnäs): Preparar como o creme anterior, mas decorar com compota de cowberry ou lingonberry,Vaccinium vitis-idaea.
Outras versões, mais genuínas, aqui




29.11.03

Confidências e Desabafos de Savarin

A Química na Cozinha
Reacções funestas na combinação de ingredientes

Bolo de ananás Quem pretenda fazer uma delicada génoise recheada e coberta com chantilly e ananás fresco, deverá submeter o ananás já cortado em cubos ou em rodelas a uma fervura prévia, numa calda de água e açúcar, e só depois juntar o dito ao chantilly. Caso contrário o doce devirá amargo.
O ananás fresco também pode impedir a gelatina de solidificar, pois contém uma enzima, a bromelaína. Esta enzima destroi qualquer estrutura molecular de proteínas que lhe aparecer pela frente, funcionando como uma espécie de tesoura que corta as ligações entre alguns dos aminoácidos impedindo a formação de uma rede tridimensional. Logo, a preparação de qualquer deliciosa sobremesa com gelatina, ananás fresco e natas requer um estágio do ananás ao lume.
Esta advertência não se aplica ao ananás enlatado.
Apontamentos do dia de ontem

Numa esquina do muro da Gulbenkian uma vinha virgem vermelha contrasta com o calcário do muro e a hera sempre verde.
A caminho da Praça de Espanha aprecio lírios roxos, num canteiro descuidado.
Na Praça de Espanha aguardo o autocarro para a F.C.T., um momento de irrealidade na terra de ninguém. Observo o Teatro Aberto e a feia mesquita mesmo em frente da paragem. Umas quantas árvores raquíticas, muitos autocarros parados e em andamento, estudantes e outros mortais que já tiveram melhores dias, e muito, muito alcatrão esburacado.
No autocarro já sobre a ponte gosto de espreitar para baixo, ver os terraços dos prédios, as manchas de vegetação o rio e tudo o mais que se avista da ponte, com mais nitidez e amplitude, quando se viaja de autocarro e não de carro.
Na Faculdade devolvo livros na biblioteca, requisito outro Approaching Hysteria, Disease and its Interpretations, de Mark S. Micale.
Encontro uma amiga com quem já não estava desde o começo de Julho, efusivas manifestações de afecto e vamos até à secretaria buscar um outro livro, deixado para empréstimo pela minha orientadora, Sexual Chemistry, A History of the Contaceptive Pill, de Lara Marks. Segue-se um almoço agradável com muita conversa. Volto a passar a ponte rumo à Praça de Espanha. Sigo a pé até à Duque de Ávila, paro numa casa que vende cafés, chás e chocolates para fazer uma provisão de néctares, chá verde, chá da China com pétalas de rosa, com aroma de baunilha, com jasmim... e não resisto a comprar uma caneca de chá com uma digitalis purpurea.
Passo ainda por uma livraria e volto à estação rodoviária cheia de gente perfilada nas bilheteiras. Compro o bilhete para as 16.30 com destino a Montemo-o-Novo. Triste ideia, porque o expresso em questão é dos que fazem escala no Centro-sul, ou seja não segue pela Vasco da Gama, logo apanho com filas imensas e lentas de carros para entrar na ponte mais velha e já depois de Setúbal um acidente e mais filas. Uma viagem cuja duração é de uma hora e um quarto acaba por prolongar-se por mais de duas horas.
Mas, durante o trajecto todos os passageiros são brindados com o espectáculo das fitas de um casal de bêbados, ela chora, geme, grita, balbucia, implora pelo ar condicionado, manda calar os outros passageiros. Por seu turno, ele cantarola, para mal dos ouvidos de todos. Entre múltiplos disparates exclama alto: "eu quando dou, só dou uma," "se eu tivesse dez anos." Dirigindo-se à dama questiona: "que botas são essas ?", "belos collants, que pernas, tantos ossos tíbias e perónios, tantas artérias, Tininha, como se podem ver tantas artérias? A tua tensão é de setenta pulsações por minuto, como pode ser, uma pessoa como tu cheia de álcool?" Um grupo de estudantes interpela-os, senhoras riem, cavalheiros abanam a cabeça. Entretanto, o motorista admoesta-os, clamando que não se encontra sózinho e há que respeitar os outros passageiros. O péssimo cantor ameaça-o dizendo que o deixaria num estado que nem o doutor o poderia operar. Entre breves momentos de silêncio o homem profere uma pérola de vã sabedoria popular: "anda um homem a lutar pela vida e num minuto nem o doutor o pode operar."
O perfil do castelo de Montemor surge, salto do autocarro e quase corro para casa.

25.11.03

Aconitum napellus
Ontem evoquei a contemplação de um azevinho mágico, em Covadonga. Agora recordo a primeira vez que vi - no mesmo local perto dos lagos, no meio de uma manada de vacas cobertas de excrementos - acónitos, da variedade aconitum napellus, verdadeiros acónitos, em seiva, corolas, folhas e caules, e não simulacros em ilustrações ou fotografias.
Os momentos de descoberta e fruição de determinadas espécies do reino vegetal despertam-me estranhas emoções, como se houvesse um liame entre uma parte do que eu sou e o ser de tais plantas. E devo salientar que não tenho por hábito manter conversas com as plantas que cultivo em casa.
Lembro-me, ainda, que durante este passeio de Verão fui brindada com muitas e felizes surpresas no campo da observação botânica. (Próximos do azevinho folhas e flores já secas de helleborus niger, a célebre rosa do Natal do conto "A Lenda da Rosa do Natal" de Selma Lagerlöf.

helleborus niger
Junto à esplanada do Hostal solanum dulcamara, doce-amarga em flor ...)
solanum dulcamara
Aqui mesmo, perto de casa, nos campos de Montemor-o-Novo o arum maculatum, jarro dos campos,
e o estramónio, datura stramonium, são muito comuns e, numa herdade em São Cristovão encontrei aristolochia clematitisruta graveolens e ruta graveolens, arruda,
e tantos outros exemplares de remédios/venenos naturais.

23.11.03


Ao passear por um bosque observo a massa verde ondulante, isolo e destaco uma árvore, um azevinho, fruo a beleza da sua configuração, distingo as suas diferentes cores e tonalidades, aprecio a forma de cada uma das suas folhas, dos seus rebentos. Este estado de atenção, este admirar a árvore como um ente totalmente novo e único, esta libertação dos habituais esquemas mentais de que a árvore tem um tronco castanho e folhagem verde, enche-me de serena felicidade.

22.11.03

Perspectivas sobre a essência e finalidade da arte

"Quanto mais forte e intensa é a minha vontade de agarrar as coisas indizíveis da vida, tanto mais profunda e penosamente arde em mim a comoção perante a nossa existência, mais se fecha a minha boca, mais enregela a minha vontade de me atirar a esse horrendo e palpitante monstro de vitalidade e capturá-lo, esmagá-lo, estrangulá-lo em linhas e superfícies cristalinas e agudas. Esperemos que, libertos de uma irreflectida imitação da natureza visível, de uma arte enfraquecida e degenerada em vazia decoração, e de uma mística barroca, falsa e sentimental, se alcance por fim a objectividade transcendente que promana de um profundo amor pela natureza e pelo homem. (...)
Na minha opinião tudo o que é essencial na arte, desde Ur, na Caldeia, desde Tel Halaf e Creta, brotou da mais profunda emoçãoperante o mistério da nossa existência"Max Beckmann
A arte terá, assim, uma dimensão metafísica na medida em que expressará uma profunda relação com a realidade original.

20.11.03

Aporias sobre a cultura (3)

"A cultura consiste em certas actividades biológicas, nem mais nem menos biológicas que a digestão ou a locomoção. A actividade cultural é uma actividade característica da vida humana na medida em que certas actividades imanentes ao organismo o transcendem"
Ortega y Gasset, "Cultura tema de nuestro tiempo", Rev.de Ocidente, Madrid, (1956).

19.11.03


Aporias sobre a Cultura

*Segundo Rickert a natureza define-se como o conjunto do nascido por si, oriundo de si e entregue ao seu próprio crescimento , enquanto que a cultura seria o que é produzido pelo homem agindo de acordo com objectivos valorados.

*Na verdade, é problemático distinguir natureza e cultura. Talvez seja lícito afirmar que todas as transmutações operadas pelo homem são produto de uma sua tendência natural, ao invés de se distinguir entre aquilo que tem um modo de ser que lhe é próprio e se conhece tal como naturalmente é, e aquilo cujo modo de ser foi determinado por um propósito humano.

*Trata-se de saber se a cultura é uma segunda natureza,se tem o mesmo estatuto da natureza ou se expressa uma realidade independente mais profunda reveladora da essência do humano enquanto manifestação da humanidade do homem.
De acordo com Heidegger a cultura não deverá ser concebida como um apêndice da natureza, como uma roupagem que se lhe acrescentaria uma vez que não há uma natureza humana decalcada do modelo metafísico de uma substância permanente sobre a qual se enxertariam os acidentes da cultura. A cultura é uma necessidade da natureza, ela projectaria a experiência exclusiva do homem, da gratuidade dos seres, seria a expressão de uma reacção contra toda a visão niveladora.

*Fidelino Figueiredo, na obra Menoridade da Inteligênciaafirmou que a cultura é o conjunto de ideais condutores, o sistema de juízos e valores, de opções, de preferências que orientam uma época. A todos os momentos de renovação na história corresponderia uma integração ou síntese das ciências dispersas, das lições da experiência e das interpretações da filosofia. A cultura originar-se-ia a partir destas fontes, mas teria também um papel orientador e criador. A cultura é caracterizada, pelo referido autor, como uma forma de ordenamento com função sistematizadora e integradora dos momentos criativos. De acordo com o mesmo autor a ausência de cultura provocaria a dispersão, a vassilação sem bússola, e o anonimato penumbroso e vegetativo.






















18.11.03

Idade e Percepção do Tempo




"Quando se é novo pensa-se que o tempo vai resolver os problemas,
e depois a partir dos quarenta percebe-se que o tempo é que é o problema."
António Lobo Antunes, Entrevista ao Diário de Notícias de ontem, 18/11/2003

À descoberta de Monique Wolbert

16.11.03

SilêncioConselhos de Joseph Antoine Toussain, Abade de Dinouart (1716-1786)

"O primeiro grau de sabedoria é saber calar; o segundo, saber falar pouco e moderar-se no discurso; o terceiro é saber falar muito, sem falar mal e sem falar demasiado. (...)
5. Só no silêncio o homem se contém: fora dele, parece expandir-se, por assim dizer, para fora de si, e dissipar-se pelo discurso, de modo que é menos de si do que dos outros.
7. Quando se tem uma coisa importante a dizer há que prestar uma atenção especial: devemos dizê-la para nós próprios e, após esta precaução, dizê-la outra vez para que não tenhamos que nos arrepender quando já não formos senhores de reter o que declarámos."

Abade Dinouart, A Arte de Calar, (Lisboa, Editorial Teorema, 2000), pp.13 e 16.

14.11.03

Confidências e Desabafos de Savarin

Sachertort

Um dos meus bolos de chocolate preferidos é a Sachertort, uma especialidade austríaca. Há muitas versões, mas elegi a receita que se segue:

Ingredientes:

Massa: 150 gr de manteiga; 165 gr de açúcar, 200 gr de chocolate derretido em banho-Maria, 150 de farinha, 8 ovos, 50gr de amêndoa ralada; 1 pitada de essência de baunilha.

Recheio e cobertura: geleia de damasco, 200gr de chocolate.

Preparação:

Bater a manteiga com metade do açúcar até ficar com consistência cremosa. Acrescentar o chocolate derretido e uma pitada de essência de baunilha. Juntar as gemas uma a uma, misturando bem e reservar. Entretanto, bater as claras em castelo, adicionar-lhes o açúcar, bater novamente. Acrescentar a farinha misturada com a amêndoa ralada e mexer com cuidado. Juntar o creme de chocolate, manteiga e gemas ao preparado das claras com a farinha. Levar ao forno em forma untada com manteiga e polvilhada com farinha. Desenformar sobre uma rede metálica para bolos.
Quando frio cortar ao meio, rechear e barrar com geleia de damasco. Derreter o chocolate em banho-Maria. Cobrir o bolo com o chocolate assim preparado. Decorar a gosto, retirar o bolo da rede e colocar no prato de serviço.
Nota. Deve utilizar-se uma boa marca de chocolate para culinária.

Curiosidade:
A Sachertort é uma das paixões das papilas gustativas do cineasta italiano Nanni Moretti.

13.11.03

António Dacosta, Episódio com Cão


António Dacosta, Episódio com Cão

Associação imediata: "Investigações de um Cão," de Kafka


A Minha Biblioteca Existencial (2)

Kafka, O Processo, Ponta Delgada em 1979 Quando terminei a leitura de rajada do Processo de Kafka, senti-me sufocada e tive um impulso para sair de casa, descongestionar, andar a pé, inspirar ar fresco. Estava mesmo perturbada, até porque fui estabelecendo paralelismos entre o absurdo confrangedor da situação vivida pelo protagonista e as minhas perspectivas, de então, sobre a sociedade e a família. Devo dizer, que antes mais do que agora tudo me parecia absurdo e seguia uma filosofia existencialista.

A Metamorfose, Lembro-me de numa oral de Teoria da História o professor Borges de Macedo me ter questionado sobre as minhas leituras, referi Kafka inclusive a
A Metamorfose e confrontámos interpretações.
A Grande Muralha da China Li em 1979/80. Gostei muito das Investigações de um Cão. Integrei-as numa selecção de textos para o 10º ano em 1991 sobre os valores estéticos, que dei a ler aos alunos da noite.
Eugene Ionesco, O Solitário Ponta Delgada 1980 http://www.kirjasto.sci.fi/ionesco.htm Fedor Dostoievski ou Fjodor Dostojevskij
Noites Brancas http://www.ebooksbrasil.com/eLibris/noitesbrancas.html Ponta Delgada 1980. Uma história comovente de um sonhador, que encontra o amor e o perde para o anterior namorado da sua bem amada, que entretanto regressa.... No entanto, apesar da sua mágoa o sonhador conclui: "(…) e bendita sejas tu própria pelo minuto de felicidade e de alegria que proporcionaste a um coração solitário e grato."
Meu Deus! Um minuto inteiro de felicidade! Afinal não basta isso para encher a vida inteira de um homem?..." Recomendado pelo L.D.M.F. num dia em que estava de camisa preta e calças de ganga, que lhe ficavam particularmente bem. Quando me perguntou o que tinha achado do livro, respondi-lhe que era uma história parva. Ele olhou-me incrédulo, perante tamanha heresia e falta de sensibilidade da minha parte. Eu ri-me e disse parva em latim significa pequena, estava a ironizar …
Boris Vian, O Outono em Pequim Lisboa 1980
Dostoievski, Obras Completas, Clássicos Arcádia, III vol., Feira do Livro de Lisboa, 1980
O Arranca Corações, Lisboa 1981, Lido, em grande parte, nas aulas de Direito na Universidade Católica de Lisboa. Hilariante!
Alberto Morávia, O Autómato, Uma série de short stories fora de série
Albert Camus, O Estrangeiro, Ponta Delgada Verão de 1981
Virgínia Woolf, Um Quarto que Seja Seu, Lisboa, 1981

Anatole France, A Revolta dos Anjos, Coimbra, 1984 Uma divertida comédia que saboreei na serra da Lousã na casa da minha avó materna.
Céline, Viagem ao Fim da Noite, Coimbra 1984
Marguerite Yourcenar, Memórias de Adriano, Coimbra 1984
Como a Água que Corre, Coimbra 1984
A Obra ao Negro Ponta Delgada em 1985, findo o curso de Filosofia, de férias antes de começar a minha jornada como professora do ensino secundário e a minha autonomia financeira.
Selma Lagerlöf , A Lenda de Gösta Berling Uma história fantástica, poética povoada de mitos http://www.kirjasto.sci.fi/lagerlof.htm
Os Sete Pecados Mortais, desta colectânea de contos destaco A Rosa do Natal
Andrè Maurois, Climas e Rosas de Setembro, dois livros simpáticos para ler nas férias
Morris West, O Mundo é Feito de Vidro. Figueira da Foz. Uma perspectiva romanceada sobre as relações de Jung, o célebre discípulo dissidente de Freud, com as suas pacientes e não só.
Jean Cocteau, Desatino, um verdadeiro desatino
Thomasi di Lampedusa, O Leopardo, 1986. Amirável
Stefan Zweig, Amok, 1986. Impressionante descrição do estar fora de si
Carlo Coccioli, O Jogo, 1986. O sentido da vida, o que é isso?
Simone de Beauvoir, A Mulher Destruída, 1988. Infelizmente, o retrato de muitas vidas de mulheres.
José Saramago, Memorial do Convento Figueira da Foz 1986/1987 o primeiro livro que li do Saramago. Foram momentos mágicos. Não gostei dos outros livros dele (O Ano da Morte de Ricardo Reis, Todos os Nomes…), em contraposição nenhum me deu tanto prazer ler. Pareciam repetições da mesma fórmula, com menos brilho e menor intensidade.
Thomas Mann, O Fausto Outono de 1987. A este livro estão associadas imagens dos castanheiros dourados pela luz do Outono. Senti imensos arrepios quando Mefistófeles aparecia. http://www.kirjasto.sci.fi/tmann.htm
As Cabeças Trocadas uma adaptação de uma narrativa mítica indiana
O Cisne Negro
Os Melhores Contos (Morte em Veneza, A Pequena Lizzy, O Sangue dos Walsung, O Diletante) Quando li Morte em Veneza até senti a maresia.
Durante algum tempo interessei-me pela literatura do fantástico. Lia autores como
Hoffmann, O Violino Misterioso
E Edgar Alan Poe, Histórias Completas, Feira do livro de Lisboa 1985
Karen Blixen, Sete Contos Góticos Évora em 1987. Contos para reler
Yukio Mishima, O Templo da Aurora, Figueira da Foz, 1988
1988 - Agosto 1988 - Quando a minha filha mais velha nasceu li todas as aventuras de Scherlock Holmes, pois tive que permanecer uma semana no hospital, porque ela foi prematura e, por essa altura eu andava com a obsessão dos policiais.
Umberto Eco, O Pêndulo de Foucault Mafra em 1988 Uma crítica certeira a certos movimentos ligados ao esoterismo, que rendeu uma crítica negativa na revista esotérica brasileira Planeta
Isabel Allende, A Casa dos Espíritos, Évora, Quinta dos Meninos Órfãos, 1989, um clássico do realismo maravilhoso sul americano…
Michel Déon, Escrevo-lhe de Itália Évora 1989. Lido na Quinta dos Meninos Órfãos onde havia um belo laranjal. Gostava de passear por ali e sentir o aroma das mil flores. Estava tão obsecada com as flores de laranjeira que acabei por fazer geleia de flores de laranjeiraTambém havia uma bela ameixeira. Aí também dei jantares memoráveis. Reli-o há pouco tempo

Lawrence Durrel, Um Sorriso nos Olhos da Alma, Évora, 1990 Um dos meus livros preferidos.

Patrick Süskind, O Perfume, Ericeira Páscoa de 1991. Li-o em paralelo com M.B. N. C., enquanto um o lia de dia o outro lia-o à noite. Um livro que é uma experiência admirável , uma viagem ao mundo dos cheiros e dos seus efeitos.
Herman Hesse, Narciso e Goldmundo. Belíssimo! Os comentários dos leitores franceses que encontrei nesta página são assaz elucidativos: http://www.chez.com/guidelecture/narcisse.html
Hermann Hesse, Demian, Emprestou-me L.F.S.S.N. num tempo em que nos ríamos muito. Évora 1993
Úrsula K. Le Guin, Os Despojados, Um dos poucos livros de ficção científica que li, aconselhado por L.F. S. d. S.N. O tema da utopia tratado de uma forma original e exemplar

Ray Bradbury, A Morte é um Acto Solitário Évora, em Janeiro de 1994. Li-o depois da morte da minha mãe.
O Visconde Cortado ao Meio Reguengos de Monsaraz, em 1994. Muito interessante, prende a atenção, irónico, bem humorado e bem escrito
Paul Auster, Leviathan, Montemor-o-Novo. O primeiro livro que li deste autor e, talvez o melhor, em meu entender.
Paul Auster, O Palácio da Lua Montemor-o-Novo, o 2º na minha tabela de favoritos das obras de Auster
Selma Lagerlöf, O Imperador de Portugal, Montemor-o-Novo. De uma beleza e tristeza infinitas.
Max Gallo, O Olhar das Mulheres, Montemor-o-Novo, 2000. Os homens não conhecem as mulheres. http://www.xoeditions.com/biographiegallo.htm
C.K. Stead, A Morte do Corpo eu e L.F.S.S.N. rimo-nos bastante à conta deste livro.

1999- 2000 Luís Ene, A Justa Medida. Recomendo vivamente as reflexões filosóficas contidas no livro.

Camillo Boito, Senso, O Caderno Secreto da Condessa Lívia, Montemor-o-Novo, 2001. Uma história maliciosa e muito bem escrita.
António Tabucchi, Os Últimos três Dias de Fernando Pessoa . Montemor-o-Novo, Oferecido por L.F.S.S.N. Uma bela surpresa.
James Elroy, A Dália Negra, Um livro muito, muito negro, arrepiante

Abel Botelho, O Barão de Lavos. Um livro integrado no "movimento naturalista português," sobre o que o autor designou por patologia social .
Paul Auster, O Caderno Vermelho 2002. Também um dos meus preferidos deste autor
Doze Histórias de Mulheres, 2002 (Oferecido por G.G. no dia 26-07-2002)
Michael Cunningham, Uma Casa no Fim do Mundo 2003. Há muito tempo que não lia um livro que me agradasse tanto.
Paul Auster, O Livro das Ilusões 2003. Emprestado por L.F.S.S.N. Li-o de rajada mas provocou-me um estado de estranheza, até tive pesadelos durante a noite, não sei explicar porquê.
Voltaire, Memórias 2002 Escritas com o estilo irónico e ligeiro deste filósofo. Descobrem-se os fracos do célebre Frederico rei da Prússia e déspota iluminado.
Arturo Pérez-Reverte, O Mestre Esgrimista, Natal de 2002, oferecido por L.F.S.S.N.























12.11.03



Duas vias para a compreensão do pensamento hermenêutico: Heidegger e Paul Ricoeur

III - A Destruição da Metafísica (5)

A questão surgiu elaborada em "L'Époque des conceptions du Monde". Aí Heidegger, adverte-nos que"Cogito" não seria um enunciado inocente; ele pertenceria à idade da Metafísica para o qual a verdade seria a verdade dos entes, o que enquanto tal constituiria o esquecimento do ser como ser. Em que sentido o Cogito pertenceria à idade da Metafísica? O solo filosófico sobre o qual surgiu o Cogito teria sido o da Ciência, e, mais geralmente, um modo de compreensão, segundo o qual a pesquisa disporia do ente, por meio de uma representação explicativa. O primeiro pressuposto seria o de que nós colocaríamos o problema da ciência em termos de pesquisa, a qual implicaria a objectivação do ente que "dispõe" os entes perante nós. O homem calculador poderia estar seguro, do ente. Seria neste ponto quando coincidiriam o problema da certeza e o da representação, que o momento do código emergeria. Na Metafísica de Descartes, o ente teria sido definido pela primeira vez como objectividade de uma representação e a verdade como certeza da representação. Com a objectividade sobreviria a subjectividade, na medida em que o ser certo do objecto seria a contrapartida da posição de um sujeito. Fundir-se-iam a posição do sujeito e a proposição da representação. O tempo de Descartes teria sido a época em que se conceberia o mundo como um "quadro".
É preciso compreender que não se trataria ainda do sujeito no sentido do "eu", mas no sentido de "substratum"; seria aquilo que congregaria todas as coisas para formar uma base, um "alicerce", o substracto. Este "subjectum" não seria ainda o homem e ainda menos o "eu"; o que aconteceria com Descartes seria que o homem se torna o primeiro e real "subjectum", o primeiro e real fundamento. Forjando-se assim, uma espécie de identificação entre as duas noções de "subjectum" como fundamento e de "subjectum" como "eu".
O sujeito tornar-se-ia o centro para o qual o ente seria remetido; todavia, esta situação não já não seria possível pois o mundo ter-se-ia tornado um "quadro" colocado perante nós. Neste ponto da análise, Ricoeur citou Heidegger: "Lá nesse lugar, nesse tempo, onde o mundo se torna quadro, imagem, a totalidade do ente e compreendida e fixada como aquilo sobre o qual o homem pode orientar-se como aquilo que ele quer consequentemente conduzir e ter perante si aspirando a detê-lo, num sentido definido, numa representação". O carácter de representação que se ligaria ao ente constituiria o correlato da emergência do homem como sujeito.
O ente teria sido então conduzido, e levado à presença do homem como aquilo que seria objectivo e do qual ele poderia dispor. O Cogito, não seria uma verdade intemporal, pertencendo a uma época que fez do mundo um quadro. Os gregos não concebiam um Cogito: para eles o homem não olhava para o mundo, mas sim o homem é que seria olhado, observado pelo mundo, através do Ente. A relação sujeito-objecto interpretada como quadro, como imagem, cortaria e dissimularia a pertença do Da-sein ao Ser-Dissimulando igualmente, o processo da verdade como desvelamento, desocultação desta implicação ontológica. Todavia esta crítica não destroi, segundo Ricoeur, todas as relações possíveis da analítica do Da-sein com a tradição do Cogito. Afinal, concluiu Ricoeur, esta destruição do "Cogito" conjuntamente com a desconstrução da época em ele emergiu, tornar-se-ia a condição de uma justa repetição da questão do "Ego".
O "Da-sein" autêntico, nasceria da resposta ao ser; respondendo-lhe, ele preservaria a sua força de ser por meio da força da "palavra". Tal constituiria a última repetição do "sum", do "eu sou", para além da destruição da História da Metafísica, e para além da desconstrução do Cogito concebido como um simples principio epistemológico.
A destruição do Cogito, como ser que se coloca por si-mesmo, como sujeito absoluto seria o inverso, de uma hermenêutica do "eu sou", enquanto este seria constituído pela sua relação ao ser.
O Da-sein compreender-se-ia sempre ele-mesmo, em termos de existência, ou seja a partir da sua possibilidade de ser ele-mesmo ou não (Questão da autenticidade e da inautenticidade). Heidegger preferiu o termo "existencialidade", todavia esta não seria mais do que o conjunto de estruturas de um ser que apenas existiria segundo o modo da retomada ou o da omissão, do esquecimento das suas possibilidades. A grande diferença relativamente ao Cogito cartesiano seria de que a prioridade ôntica não implicaria nenhuma imediatidade.

11.11.03

Daqui contemplo a lua branca

Carl Axel Magnus Linnemand, Viscum Album

Carl Axel Magnus Linnemand, Viscum Album

Agora que vamos entrar numa fase do ano fundamentalmente ritualista e simbólica, vamos esquecer as críticas à sociedade de consumo, aos esteriótipos do Natal e reflectir sobre as dimensões positivas dos ritos que se repetem, ciclicamente.
Programado e repetitivo o ritual comporta determinações prévias: ao celebrarmos o rito sabemos, antecipadamente, o que irá acontecer, porque já o fizemos e voltaremos a fazê-lo. Assim, o rito opõe-se à pura espontaneidade, ao happening, por definição não programado e não repetitivo. Todavia, requer uma certa criatividade, pois a criatividade é condição da actualização e da adequação do rito ao presente.
Retomando o Nata, as listas de prendas, as ementas festivas, as decorações brilhantes, as canções... dão-nos a ilusão perfeita de um agir social simbólico e programado. Os ritos recapitulam e unificam as fragmentações psicológicas intrínsecas à diversidade das nossas condições existenciais - família, trabalho, amigos, lazer, actividade política e social. Os rituais podem gerar uma reunificação interior. O eu profundo não é redutível às nossas acções ou história individual, o eu profundo revela-se através do ritual e os ritos constituem uma tentativa de expressar o mais essencial que a rotina quotidiana oculta ou ofusca.

9.11.03

Punica granatum L.
Punica granatum L.

Hoje, mais um dia tempestuoso de Outono, comi a beleza ímpar de uns bagos de romã cor de rubi.

Punica granatum L.